SIDEBAR
»
S
I
D
E
B
A
R
«
A ÓTICA DE QUEM ESTÁ EM SITUAÇÃO DE RUA: Apontamentos a partir de relatos
Março 13th, 2019 by Magdalves

Nestes meus anos de acompanhamento de situações de rua, muitas vezes questionei o que poderia ser feito para que “escutássemos” de fato o que estas  pessoas tem a nos dizer.

Ainda que bem intencionados, nosso olhar parte de espaços institucionais e muitas vezes “cobramos” da Poprua que se comporte, se comunique e até pense de um jeito que facilita sua incorporação às propostas políticas que desenhamos.

Vou focar esta reflexão em aspectos institucionais, que muitas vezes impomos a estas pessoas, ainda que tenhamos a certeza de que isto não trará caminhos de resolução para suas vidas.

Nos anos 80, ainda nem podíamos falar em políticas para população de rua, mas já havia ações voltadas para impedir que ficassem nas calçadas e praças das grandes cidades, numa internação quase que compulsória.

Os abrigamentos de então se propunham a “recolher” das ruas aquela miséria e estas pessoas ficava m confinadas em espaços muito parecidos com as prisões, ainda que aquelas pessoas não tivessem cometido nenhum delito, apenas tinha se atrevido a querer viver apesar de sua miséria.

Vou plagiar parte de um texto de um homem que viveu em situação de rua na década de 90 e que descrevia brilhantemente a situação vivida por eles. Seu nome era Elzo Pedra Matos, e ele dizia:

“Há alguns anos atrás estive na CETREM. Eu precisava tirar a maior parte dos documentos que haviam sido roubados e depois procurar trabalho. Cheguei às sete horas da manhã, fui atendido às duas horas da tarde. Deram-me um macacão e uma toalha. Após tomar banho, fui almoçar e depois do almoço fui para o pátio. O espetáculo era deprimente: cento e vinte homens amontoados numa quadra de oitenta metros quadrados.

Havia de tudo ali: desempregados, doentes físicos e mentais, gente que se perdeu da família, aventureiros de todo tipo. Como eu não sabia nada sobre o funcionamento da casa, o jeito era esperar pra ver o que acontecia. Encontrei um canto vazio e sentei-me, o que não era nada fácil, dado o número de pessoas e a exiguidade do espaço. Às cinco e meia da tarde um grande rumor contagiou a todos. Chamavam alguns homens para ajudar a buscar a sopa que era servida às seis horas.

Quando bateu as seis horas, alguém gritou: “todos em fila”. A metade dos homens já estava na fila, disputando os primeiros lugares quase que no tapa. Ali nenhum deles passava fome, nem frio: todos tomavam banho quente e tinham cama e cobertor para dormir. A comida dava pra todos e as camas também; as necessidades básicas de um ser humano estavam todas garantidas. Então, por que aqueles homens se comportavam como animais? O que os levava a agir daquela forma, se ali não entrava bebida alcoólica, apontada como responsável pelas brigas de rua? A resposta é simples: a incerteza do amanhã. Todos aqueles homens sabiam que estavam ali por um curtíssimo período de tempo, e que quando saíssem viveriam na mesma situação de antes. Como boa parte deles não tinha a menor ideia do que lhes aconteceria amanhã, o melhor era tirar proveito de tudo o que pudessem agora. Ainda que este tirar proveito fosse apenas comer um prato de sopa antes dos outros, ou melhor, “antes que acabe e fique sem nada”. Depois da sopa ia-se para o dormitório onde se conversava e fumava até as nove horas da noite, hora em que eram apagadas as luzes e todos “tinham” que dormir.

No dia seguinte um sujeito acordava a todos, batendo com um cano de ferro, nas camas que também eram de ferro, às cinco horas da manhã. O café da manhã era servido às oito horas… Depois de feita a higiene matinal e arrumadas as camas, íamos todos para o pátio onde éramos trancados a chave. Por volta das sete e meia, o mesmo empurra-empurra para ocupar os mesmos lugares.

Depois de servido o café, voltávamos todos para o pátio, onde permanecíamos até a hora do almoço, depois até a hora do jantar, e assim sucessivamente. Tudo isto debaixo de gritos, desaforos e maus tratos. De vez em quando desapareciam os documentos ou o dinheiro de alguém; então subiam os policiais e a humilhação chegava a seu ápice, ficávamos todos de cuecas contra a parede para sermos revistados.”

O que podemos tirar de ensinamentos de um relato como este?

Será que podemos encher o peito de orgulho e dizer que, a partir da criação da Política para População de Rua, a realidade de hoje é muito diferente dessa?

Como é o tratamento dado a estas pessoas nos Acolhimentos feitos em nome de princípios como a Dignidade da Pessoa Humana e a garantia de Direitos par todos.

Mas… vamos continuar a escutar a voz do Elzo, que continua seu texto, dizendo:

A parte da quadra que dava pra rua, possuía um muro de aproximadamente um metro e meio de altura que sustentava um alambrado de mais de três metros de altura, cujas extremidades eram afixadas nas paredes laterais. Alguns homens costumavam grudar a cara no alambrado e jogar gracejos para as pessoas que passavam na rua. O pátio ficava no segundo andar do prédio, o que obrigava aqueles homens a gritar se quisessem se fazer ouvir pelos que passavam lá embaixo.

Numa bela manhã passava pela rua, lá embaixo, um homem maltrapilho que puxava uma carroça cheia de bugigangas. Um dos homens que estava com a cara no alambrado gritou: “olha lá, vem ver o pé inchado”. Outros homens foram para o  alambrado e começaram a jogar insultos para o pobre homem que corria atrás do seu pão, ao contrário deles, que se sujeitavam a serem tratados como bandidos, e como cachorros para ganharem um prato de sopa e um pedaço de pão. Quando  o homem da carroça passava bem em frente do prédio, os gritos recrudesceram: “aí pé inchado”, “vai derrubado”, “oh! Cachaceiro”, “vai pé de cana”. E por aí afora.

O homem parou a carroça enfrente ao prédio, remexeu suas bugigangas e tirou uma gaiola velha. Apontava para o alambrado de onde partiam os insultos e mostrava a gaiola para aqueles homens. Depois apontava para o próprio peito e fazia gestos imitando um pássaro voando. Aos poucos os gritos foram diminuindo até calarem-se todos de vez. Os homens se entreolhavam envergonhados e cabisbaixos, sendo forçados a admitir, na lição de um miserável, que a liberdade é o único bem pelo qual vale a pena brigar e que não se pode trocá-la por nada neste mundo, por mais miserável que seja a nossa condição. No dia seguinte, pedi o desligamento da casa e fui para a rua. De repente despertei deste pesadelo e voltei à realidade!.”

Depois de ler uma reflexão como esta, acho que não temos nada a acrescentar e  a lição que podemos tirar dela é que precisamos respeitar estas pessoas e aprender com elas o que deve ser feito de concreto em nome de uma Política que se diz de direitos.

 


Comments are closed

»  Substance: WordPress   »  Style: Ahren Ahimsa