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MEDIAÇÃO DE CONFLITOS E POPRUA
maio 15th, 2019 by Magdalves

Para refletirmos sobre Mediação de Conflitos no âmbito da Política para População de rua, precisamos dar alguns passos atrás e retomarmos nosso entendimento sobre Relações Sociais.

Os seres humanos são seres em relação e desde seu nascimento são impactados pela relação de outros significativos. Nascemos machos e fêmeas, e é no processo de aculturação que nos tornamos homens, mulheres ou seres com outras opções sexuais e pessoais.

Anos atrás, um psiquiatra de renome pontuava que para viver de modo saudável, precisávamos de alguns tipos de ambientes. O primeiro deles é termos direito a uma privacidade: tempo de “falar com nossos botões”, introjetarmos aquilo que vivenciamos para poder construir nossa leitura do que está acontecendo. É neste espaço intrapessoal que aprendemos a lidar com nossos sentimentos e emoções e construímos nossa autoafirmação, automotivação, autodomínio e autoconhecimento.

Temos, por outro lado, a necessidade de intimidade, ou seja de privarmos da companhia de outras pessoas, numa privacidade que é quase a extensão de nós mesmos. Para construirmos estas relações que podem ser familiares, afetivas ou de outra natureza, precisamos poder escolher com quem queremos estar, com quem conversar e quem pode ser nosso confidente.

Por fim, precisamos também de um ambiente de socialização da vivência experienciada, ou seja, um espaço onde podemos refletir sobre o ambiente em que vivemos e o que podemos fazer para melhorá-lo.

É neste ambiente de socialização que construímos relações interpessoais, estejam elas nos âmbitos familiares, escolares ou de comunidade.

UM CENÁRIO DE LIMITES IMPOSTOS

Quando as pessoas perdem sua referência de moradia, mais do que apenas “ficar sem teto”, estas pessoas começam a perder o direito de definir suas próprias vidas, já que a vivência coletiva, seja em Centros de Acolhida ou no ambiente da rua impõe regras que bem ou mal precisam ser cumpridas.

A grande maioria das pessoas em situação de rua vivem em bandos já que no grupo de iguais fica mais fácil se defenderem dos predadores, sejam eles policiais encarregados da ordem na cidade, seja a própria sociedade que rejeita e discrimina por não querer próxima de seus espaços aquela imagem de miséria que assusta, deprime e deixa clara uma enorme impotência em lidar com o real.

Em geral, a liderança nestes grupos se define pela lei do mais forte, do mais esperto, daquele que consegue indicar ao grupo melhores caminhos na garantia da sobrevivência.

Pequenos furtos, uso abusivo de álcool e drogas e atitudes agressivas são uma constante nestes espaços. Mas não existe outra saída: é aceitar ou aceitar.

Quando perguntados sobre o por que de não estarem em espaços públicos de acolhimento, na maioria das vezes ouvimos todo um discurso sobre a “liberdade da rua” em comparação com as “regras dos serviços”. Quem acompanha mais de perto estes serviços sabe que esta não é a resposta real. Afinal, nem há vagas para todos, nem todos são benvindos quando tentam se inserir nos Abrigos e nem o funcionamento interno da maioria dos serviços de acolhida pode ser considerado como de boa qualidade.

TRABALHADORES SOCIAIS COMO MEDIADORES

Ainda que se fale muito em trabalho conjunto, no funcionamento como equipe, um olhar mais aproximado vai deixar claro que os trabalhadores responsáveis pelos serviços à População de Rua pode ser visto como se estivesse dividido em “castas”, ou seja, é como se houvesse uma estratificação na qual “manda quem pode, obedece quem tem juízo” e o comando está nas mãos dos técnicos.

A maioria dos técnicos se considera como uma “elite” e se mantém no poder ao não socializar as informações de que dispõe por haver entrevistado cada usuário individualmente. Em nome da confidencialidade, desconsidera que todos aqueles trabalhadores precisariam e deveriam ter acesso a informações que permitissem uma qualificação no trabalho que é executado. Por trás do discurso, há uma leitura de que os APSs não saberiam lidar com estas informações, por serem despreparados.

Os agentes de proteção social ressentem-se desta postura e apontam que é com eles que os usuários estão na maioria do tempo – técnicos tem jornada reduzida e As PSs, fazem 12 x 36 horas. Estes agentes demandam um diálogo continuado com os técnicos e se dispõem a realizar tarefas definidas pelos técnicos que, segundo eles, adiantariam o serviço de todos eles.

Empatia com a Poprua

A Política para População de Rua é uma política de direitos, e isso significa que temos um compromisso com a garantia da dignidade de cada Poprua tanto no tratamento humanizado nos serviços quanto na mediação destas pessoas com a sociedade.

Nesta construção, esta Política tem como pilares a dignidade da pessoa humana, a equidade que é mais que igualdade na medida em que se alterna na relação com as necessidades destes sujeitos, a liberdade de decidir sua vida e seu futuro e a justiça.  Isso significa que nossas tarefas devem incluir sermos um para-choque para as discriminações, fortalecermos a autoestima e buscarmos identificar o potencial no qual este sujeito pode alavancar um novo projeto de vida.

Muitas vezes, o discurso de que os serviços da Política para Poprua são de garantia de direitos não condizem com a realidade, na medida em que falta aos trabalhadores a capacidade para lidar com as particularidades deste segmento.

Muitos trabalhadores têm dificuldades em “colocar-se no lugar do outro”, na medida em que deixam-se contaminar pelas experiências passadas:

Já vi esse filme;

Esse aqui, eu conheço, ele sempre promete e não cumpre.

A consequência é a construção de regras rígidas, desconectadas da realidade da Poprua que impedem a construção de uma justiça de fato. Estes trabalhadores precisariam ser formados e sensibilizados para se colocarem no lugar do outro e saber vivem com as diferenças que um público heterogêneo como este sempre representa.

O EXERCÍCIO DA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS

O primeiro passo para sermos estes mediadores é uma reflexão aprofundada do que estamos chamando de conflito.

No dicionário Aurélio, encontramos: (1) embate dos que lutam; (2) Discussão acompanhada de injurias e ameaças; desavenças; (3) Guerra; (4) Luta, combate; (5) Colisão, choque.

Sun Tzu aponta que o conflito é luz e sombra, perigo e oportunidade, estabilidade e mudança, fortaleza e debilidade. É o  impulso para avançar e o obstáculo que se opõe a todos os conflitos contém a semente da criação e da reconstrução.

E no dicionário de Política de Norberto Bobbio encontramos que conflito é uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que implica em choques para o acesso e distribuição para bens escassos.

Podemos resumir dizendo que conflitos são desacordos entre pessoas com opiniões, desejos,  valores e necessidades diferentes umas das outras. Existem situações em que concordamos e em que discordamos da opinião do outro.

Não podemos esquecer que os conflitos tem um lado positivo e outro negativo, e não pode ser confundido com intolerância, desentendimento ou briga. A briga já é uma resposta ao conflito.

Construído nosso cenário, precisamos nos aproximar daquilo que entendemos como Mediação.

Mediação é uma conversa, uma negociação, visando interferir na busca do entendimento de determinada situação que pede um posicionamento profissional.

Frente a um conflito, as pessoas geralmente tomam uma dentre três atitudes: (1) Ignorar os conflitos da vida; (2) Responder de forma violenta aos conflitos; (3) Lidar com os conflitos de forma não-violenta, por meio do diálogo.

 

A mediação que propomos enquanto atuação profissional, ainda que nunca seja neutra – sempre queremos construir algo, parte de parâmetros existentes, mas no papel de mediador há a necessidade de garantia de imparcialidade.

A quem serve este mediação? Quem demanda a mediação é sempre alguém que está em conflito, seja ele interpessoal ou intrapessoal.

Na ótica dos direitos humanos, a mediação de conflitos exige de nós um distanciamento para que possamos tecer observações na ótica das duas partes e identificar quem é o violador e quem é o violado.

A maioria dos conflitos surge quando privilégios rompem a relação de equidade.

A mediação de conflitos se propõe a ser uma metodologia de intervenção nas relações pessoais e coletivas, visando a justiça[1].

Quando nos propomos intermediar uma determinada situação, precisamos buscar elementos que nos permitam entender a construção interna que aquela pessoa em situação de rua apresenta.

Expulso da terra, espoliado de direitos, excluído da sociedade, este ser geralmente apresenta uma autoestima fragilizada, ainda que encoberta por um escudo de valentia e agressão.

Para podermos construir qualquer tipo de acordo, precisamos partir daquilo que realmente importa para cada uma das partes, e só podemos fazê-lo se conseguirmos escutá-lo qualificadamente.

O exercício da escuta

Um dos primeiros cuidados, ao escutar aquilo que esta pessoa trás é conseguirmos separar aquilo que é fato do que é opinião.

Quando alguém me diz “fui mandado embora do Abrigo” – isto é um fato. Quando ele diz: “eu não tinha feito nada, e eles me mandaram embora do Abrigo” – isto é uma opinião e para entendermos como isso se deu, precisamos ouvir as duas partes.

Mas há algo mais que interfere no nosso entendimento do que está sendo trazido até nós. Echeverria[2] fala em conversas públicas e privadas e alerta para aquelas conversas privadas – aquelas que falamos conosco mesmos – e nas interferências que elas podem significar para nossa escuta.

Aquela reação de que, mesmo antes de ouvir, já sei o que vai ser dito, é algo que precisamos trabalhar internamente se queremos melhorar nossa escuta.

Esta conversa privada vem permeada de Juízos de Valor. Por exemplo, quando digo que esta cidade tem um Abrigo – isto é um fato. Quando digo que ele presta um bom serviço, estou utilizando um juízo de valor: outra pessoa poderia considerar excelente ou muito ruim, dependendo dos parâmetros de julgamento.

Antes de falar, antes de tomar uma posição, é importante que ouçamos as partes envolvidas, que tentemos compreender os sentimentos e emoções que elas trazem para podermos construir um passo para a justiça.

Nesta escuta das partes, é fundamental ouvirmos outros trabalhadores do serviço que teriam se posicionado antes. Dialogar com eles é o melhor caminho na construção de saídas para as situações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mediar é apontar caminhos que considerem as posições de todos os envolvidos e precisamos estar abertos para as vezes em que devemos abrir mão da nossa posição inicial e acatar a sugestão dos outros.

Não é demérito voltar atrás. Demérito é “turrar” numa mesma posição com receio de se sentir diminuído por acatar a posição do outro.

 

[1] Estas metodologias surgem no âmbito do jurídico e buscam facilitar a construção de conciliações e negociações respeitando as particularidades de cada parte.

[2] ECHEVERRIA, Rafael – ONTOLOGIA DEL LENGUAGE, Dolmen Ediciones, 1998 – 5ª edição


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