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A DOENÇA MENTAL PRECEDE OU RESULTA DA SITUAÇÃO DE RUA
outubro 15th, 2013 by Magdalves

Desde a década de 70, venho acompanhando a situação de rua de homens e mulheres e a cada dia surgem novos enfoques a partir dos quais podemos fazer a leitura desta vivência.

Para nós que vivemos em casas e apartamentos é difícil de entender o que ocorre com estas pessoas, e quem sabe, buscando uma desresponsabilização somos levados a dizer que se trata de uma escolha, que estas pessoas não aceitam regras, que não querem trabalhar e se inserir no mercado e na sociedade ou que são malucos.

Em outros textos, apontei a situação de trabalho/não trabalho, de discriminação e preconceito, do uso abusivo de álcool e drogas, mas aqui quero buscar entender a proximidade deste modo de vida e as questões psiquiátricas.

Considerando que há escasses de estudos sobre a saúde da população de rua, um grupo de pesquisadores da USP, analisou uma amostragem a partir de um estudo da FIPE[1], tendo identificado que é comum o uso substâncias psicoativas entre os moradores de rua do centro da capital: 74% dos entrevistados admitiram consumir álcool, drogas ou ambos. Entre as pessoas entre 18 e 30 anos, este número chega a 80%.O álcool é ingerido por 85%, sendo maior o consumo pelos mais velhos. 37% não usam drogas, mas o vício alcança a maioria dos jovens até 30 anos, metade deles em crack.

Em reportagem do CREMESP, Mauro Aranha[2] explica que “além dos problemas mentais resultantes do uso nocivo de álcool e drogas, os moradores de rua também sofrem de transtornos psicóticos crônicos, com recorrências de surtos e agravamento do quadro pela profilaxia inadequada”. Esses quadros, pondera ele, se tornam mais graves quando não há suporte social adequado.

Focando nestes moradores de rua que sofrem de transtornos psicóticos crônicos, surge uma outra pergunta: estas pessoas chegaram à situação de rua com essa condição de doença mental, ou se ficaram doentes por viver na situação de rua?

Condições de sanidade e pessoas em situação de rua

Dados do Censo 2010 apontam que, dentre os  2,4 milhões de doentes mentais brasileiros com mais de 10 anos, 82,32% são considerados pobres.  Estas mesmas análises apontam três fatores como condições de sanidade: condições básicas de vida, integração social e aceitação pela sociedade.

Estando no topo do ranking em desigualdade social, o Brasil pode ser considerado por muitos como Primeiro Mundo, enquanto mantém em condições semelhantes à da Somália uma grande parte da sua população.

A vida num país de primeiro mundo, mas sem acessar o progresso e os avanços que no dia a dia entram pelos olhos de quem por aqui vive ameaça a integração social, causa frustração e pode levar a ações de reação que se alternam entre a agressão e a apatia.

Como um mecanismo de defesa por se sentir impotente, a sociedade joga toda a culpa desta situação para estes seres que estão excluídos de tudo, considerando-os parasitas sociais e estigmatizando-os ainda mais.

O uso do álcool e das drogas, a principio, é o mecanismo utilizado para amortecer os sentimentos de fome, cansaço e vão sendo usados cada vez com mais frequência, gerando um círculo vicioso difícil de ser quebrado.

Tomando emprestadas algumas categorias analisadas por Rogers[3] podemos refletir sobre Valor Pessoal e Poder Pessoal na ótica destas pessoas em situação de rua.

Valor pessoal, segundo Esmeraldo Filho (2006:26), é “a capacidade de acreditar e gostar de si mesmo, de se sentir vivo, conseguir ‘conviver e realizar trabalho’”. Como fica, na cabeça de pessoas vivendo em situação de rua, a consciência, o entendimento de que são oprimidos, que vivem sob uma ideologia de submissão e que exige resignação, onde pontuam o fatalismo para desestabilizar sua ânsia por individualidade e garantir a passividade?

Já, poder pessoal, é algo ainda mais inalcançável, é “a crença na capacidade de manter e cultivar adequadamente relações interpessoais, buscar o crescimento de si e do outro e a possibilidade de agir de forma a transformar a realidade social” (idem).

Segundo Gois (1993:75, apud Esmeraldo Filho, 2006:26)

“O valor e o poder pessoal são escassos nas relações psicossociais e na crença de um futuro melhor. A sensação é de que o oprimido está esperando ou já se desiludiu há muito tempo. (…) De um modo geral, a vida dos moradores revela acentuada desorganização e desagregação individual e social. Por outro lado, no meio dessa situação, também encontramos pessoas que ainda estão vivas e brilhantes, fazendo esforços para a vida coletiva se modificar”.

Vivendo em situação de rua, numa realidade excludente e sem esperança, estas pessoas são levadas a aceitar a realidade, numa postura fatalista, que acabam por afetar valores de solidariedade, de liberdade e de justiça social e onde valor pessoal e poder pessoal não se expressam de forma satisfatória, potencializando ainda mais a desvalorização de si mesmo.

A Saúde Mental através dos tempos

O termo Saúde Mental foi adotado a partir da década de 60 quando a reflexão dos especialistas no assunto começam a se preocupar com internações mais preventivas que curativas.

Neste entendimento, saúde mental é o desenvolvimento de capacidades atuais e potenciais visando a autorrealização como entidade pessoal e social e entendida como direito da pessoa.

Esta postura é muito diferente da abordagem que levou à reação contra todo aquele que perturbava a ordem pública, potencializada quando o processo de urbanização deu uma visibilidade maior aos “portadores de doença mental”. Estas pessoas eram presas, eliminadas ou confinadas e as explicações dadas incluíam de bruxaria a influências do demônio.

Somente no século XVIII é que surgem as primeiras Instituições voltadas para o recolhimento em nome da proteção aos maus tratos, mas não se buscava a recuperação destas pessoas, havendo especialistas que acreditavam que a loucura era fruto de um vírus adquirido na infância. Estas pessoas eram asiladas para lá ficarem até morrer.

No Brasil, foi criado o Juquery como um grande complexo psiquiátrico, que, em sua proposta humanitária objetivava “recolher, dar proteção, abrigo e cuidados de saúde, conter crises, dar oportunidades de conviver com outras pessoas, trabalhar no campo ou em outras formas de ocupação”.

A estrutura que foi montada para abrigar 1500 pessoas, foi sendo inflada, e ao se encerrar, tinha confinadas 16000 pessoas. Segundo reportagens da época, “a sociedade recolhia ali os doentes mentais e perdia o interesse pelo problema”.

A Luta Antimanicomial

Na segunda metade do século XX, na Inglaterra, começa a ser gestada uma nova proposta, propondo trabalhos clínicos com grupos como saída para a superlotação e inoperância dos Hospitais Psiquiátricos.

Na mesma época, na França, inicia-se um processo de análise institucional visando tratar o doente pelas Instituições e tratar as Instituições como doentes.

Surge, nos Estados Unidos, uma proposta de psiquiatria preventiva, baseada na comunidade, que desloca a ênfase do tratamento para a prevenção, colocando em questão o território da loucura.

Logo após a Segunda Guerra, o Movimento de Psiquiatria Democrática Italiana, alem de proibir novas internações, propõe a separação entre doença mental e periculosidade social.  Marco significativo neste processo foi a Declaração de Caracas, de 1990.

A Reforma Psiquiátrica implantada no Brasil (lei 10216/2001) apontava que não era o fechamento dos Hospitais Psiquiátricos que diminuiria a necessidade de internação.

Entre suas diretrizes, a Reforma Intramuros visa a readequação e humanização, a diminuição do número de manicômios, inserção do paciente na sociedade e na família num modelo substituto e territorial incluindo atividades culturais e artísticas com pacientes.

Concretamente, se buscava o respeito aos direitos do doente mental à liberdade, a substituição de leitos por mecanismos como CAPS – Centros de Atenção Psicossociais, Residências Terapêuticas, Atendimentos Ambulatoriais, Hospitais Gerais e Centros de Convivência.

Esta proposta implica num trabalho junto à sociedade na medida em que considera que excluir o doente mental é impedir seu acesso à sociedade, privá-lo da possibilidade de ser cidadão afastando-o do convívio social.

Análises deste processo apontam que não se investiu o suficiente na prevenção primária, nem se demonstrou que retirar as pessoas dos leitos hospitalares era um modo eficaz de humanizar o atendimento. Outro equívoco apontado foi imaginar que a sociedade acolheria os doentes e que as famílias teriam condições de recebê-los em casa e de seguir as orientações dos profissionais de saúde.

Considerações Finais

Quando se analisa o perfil das pessoas em situação de rua encontradas nas diversas cidades, fica evidente que naquelas cidades em que havia grandes complexos psiquiátricos, como Juquery e Sorocaba, há uma incidência enorme de pessoas em situação de rua com transtornos psicóticos crônicos.

Depois de terem sido privados da convivência familiar e comunitária por terem ficado internados, estas pessoas tem dificuldades em resgatar a lembrança da família.

Durante os anos de internação involuntária, privados de qualquer direito de cidadania, estas pessoas foram tendo sua socialização anterior anulada em nome do controle institucional. Se tomarmos categorias utilizadas por Peter Berger, poderíamos, quem sabe, entender isso como uma alternação.

O que ocorre quando a transformação de mundo é uma decisão exterior ao indivíduo e onde não é deixado espaço para que ele possa se contrapor?[4]

Ora, sabe-se que estas Instituições se utilizavam de medicação pesada e de eletro choques no tratamento. Esta socialização forçada leva a um reinterpretar o significado dos acontecimentos e pessoas do passado e refabricá-lo a partir da fantasia, gerando uma ruptura com a história familiar.

Por outro lado, esta família também se distanciou deste membro, buscando esquecê-lo ou selecionando na sua memória uma lembrança que maquila as antigas relações, segundo um ideal introjetado.

Quais as condições objetivas de acolher e conviver com estas pessoas recém chegadas das ruas ou das internações quando as famílias são o cenário de onde saíram estes problemas todos?

Quando há a tentativa de retorno, o fosso gerado por estas situações levam a uma frustração que exige um suporte mediador que deveria ter sido fornecido pelas políticas sociais.

Quando tal não acontece, estas pessoas são, mais uma vez, expulsas e só lhes resta a vida em situação de rua.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

Almeida, Rita de Cássia de Araújo – Dia Nacional de Luta Antimanicomial: novos muros, velhos alicerces, em NÃO SOU EU QUEM ME NAVEGA, QUEM ME NAVEGA É O MAR (blog: HTTP://ritadecassiadealmeida.blogspot.com.br )

Cruz, Leandra Brasil – POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA E SAÚDE MENTAL  (portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/poprualenadrabrasil.pdf capturado na internet, setembro de 2013)

Esmeraldo Filho, Carlos Eduardo – SAÚDE MENTAL E (EX)-MORADORES DE RUA: UM ESTUDO A PARTIR DO VALOR PESSOAL E DO PODER PESSOAL, Monografia, UFC, 2006.

 



[1] Censo da População em situação de rua da cidade de São Paulo, 2009/2010.

[2][2] Psiquiatra e vice-presidente do Conselho.

[3] Abordagem centrada na pessoa.

[4] Peter Berger analisa estas alternâncias entendendo que um protótipo é a conversão religiosa. Só que a conversão religiosa tem uma estrutura de plausibilidade que lhe dá sustentação.


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