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OQUE E ESCUTAR PARA VOCÊ ?
setembro 13th, 2013 by Magdalves

Na primeira infância, família e escola começam a nos ajudar a sistematizar algumas coisas que fazem parte do nosso eu desde antes do nascimento. É na relação com a mãe que a criança começa a perceber o mundo em que vive: sons, luzes, cheiros, sabores e carinhos são transmitidos a cada um de nós desde a infância, mas é na escola infantil e na convivência familiar que vamos começar a sistematizar esta vivência.

Trabalhando com crianças pequeninas que moravam no centro da cidade de São Paulo, fizemos uma experiência de levar até elas água e terra. A reação da maior parte do grupinho em relação à água era de receio:  água molha e a mãe zanga… e eles não conseguiam identificar o que era a terra.  Cheiraram e informaram que não era pó de café, olharam e viram que era escuro e por isso concluíram que não era areia… e terra nunca tinham visto… queridas crianças de apartamento…que riqueza foi observar estas reações, escutar estes pequenos serezinhos…

Ao mesmo tempo, eu observava, e muito, ao meu filho. Até os cinco anos, ele estudou numa escola Montessoriana. Lembro-me da sua alegria, chegando alvoroçado em casa para contar que “as letras chegaram”.  Sua escola, levou as crianças a sentirem as letras através do tato… quadrados com cada uma das letras em relevo permitia que eles acompanhassem o movimento do escrever passando seus dedinhos na lixa que formava cada letra. Escrever na areia era ainda um segundo passo que antecedia o momento de uso do lápis e do papel.

E é dessa forma que vamos tomando consciência dos sentidos fundamentais que nos permitem a integração com o ambiente em que vivemos. Um destes sentidos é a audição: o ouvir vem antes do falar: a fala original (a que é um dizer), será sempre uma resposta. É este  ouvir que nos abre para o mundo e para os outros, e não o falar.  O que ouvimos é um dizer que nos remete a um mundo, e não apenas a um mero falar.

Será que somos bons ouvintes?  A gente ouve ou escuta aquilo que acontece à nossa volta. Você já parou para refletir sobre isso?

Ouvir e escutar

Se tomarmos a definição biológica, vemos que nosso corpo transmite as vibrações do som de modo a que estas vibrações alcancem nosso sistema nervoso e sejam reconhecidas pelo nosso cérebro.

Aquilo que nós ouvimos pode nos ser agradável ou desagradável, estar numa altura que consideramos confortável ou incômoda, mas sempre que falamos em “ouvir” estamos nos remetendo ao processo biológico da captação de vibrações. Eu ouço o ruído, o barulho, a música, a voz do outro. Este ouvir está no campo do significado estrito das palavras: Bola é bola, coca é coca, mulher é mulher.

Carl Rogers, em seu livro “Um jeito de ser” aponta dificuldades para realmente ouvir o que o outro nos diz e ele cita trecho de uma fala sua em uma conferência e que aqui transcrevo:

O primeiro sentimento básico que gostaria de partilhar com vocês é a minha alegria quando consigo realmente ouvir alguém.  Acho que esta característica talvez seja algo que me é inerente a já existia desde os tempos da escola primária.  Por exemplo, lembro-me quando uma criança fazia uma pergunta e a professora dava uma ótima resposta, porém a uma pergunta inteiramente dife­rente.  Nessas circunstâncias eu era dominado por um sentimento intenso de dor e angústia.  Como reação, eu tinha vontade de dizer: “Mas você não a ouviu!”. Sentia uma espécie de desespero infantil diante da falta de comunicação que era (e é) tão comum.” (Rogers 1983, p. 4-5, apud Amatuzzi, 1990 ).

Comentando a angústia do Rogers criança, podemos dizer que aquela professora ouviu mas não escutou. Escutar é diferente de ouvir, na medida em que  está no campo da significação das coisas para cada um, e é diferente para cada um,  sempre.

Ouvir é do campo dos sentidos e Escutar é do campo do Inconsciente. Podemos ouvir e não escutar, na medida em que aquelas vibrações não chegam até o nosso eu. Por outro lado, podemos escutar sem precisar ouvir. A Escuta é muitas vezes silenciosa, escuta–se o não verbal, a entrelinha, o gesto, a atuação.

Rafael Echeverria (2006 II) aponta que “num nível muito geral, a escuta é uma das mais importantes competências do ser humano. Em função da escuta, construímos relações pessoais, interpretamos a vida, projetamos nosso futuro e definimos nossa capacidade de aprendizado e de transformação do mundo”[1].

APRENDER A ESCUTAR

Quando ouvimos queixas como ‘meus pais não me escutam’, podemos perceber o quanto estas relações estão deterioradas. Se ouço que ‘meu chefe não me escuta’ isso pode apontar dificuldades de desempenho no espaço profissional e, provavelmente, gera uma falta de satisfação com o trabalho.

Normalmente, os problemas de escuta são recíprocos. Se alguém não me escuta é porque não sei ‘falar’ adequadamente. Escutar, assim como falar,  requer treino, autoconhecimento e conhecimento do outro.

Para aprender a escutar, primeiro preciso reconhecer que “não sei escutar” e que quero escutar melhor.  Um primeiro passo pode ser observar ao nosso redor o como as pessoas escutam:

 

Quem é mais efetivo no escutar ?

A efetividade na escuta depende da concretização de ações a partir daquilo que foi expressado.  Uma pessoa que sabe escutar, é aquela que concretiza em ações aquilo que foi expressado pelo outro através de palavras, gestos e outros meios.

Existem situações, no entanto, em que nosso ‘espaço de atuação’ não permite que concretizemos aquilo que foi expressado pelo outro. Como posso esclarecer ao meu interlocutor que sua demanda deve ser levada a outro lugar que não aquele em que estamos.

 

Conversas privadas interferem no escutar

Você já parou para pensar na conversa que você tem, o tempo todo, consigo mesmo?  Quando falo em conversa privada, não estou me referindo a conversas ao pé do ouvido, às confidências trocadas, mas ao modo como reagimos em virtude de sensações que nos levam a colocar uma espécie de bloqueio ao redor de nós e que poderíamos chamar de ‘armaduras’.

Pensemos:  quando considero que meu interlocutor não gosta de mim, metade do que ele diz, eu não escuto… pois antes mesmo de ouvir o som de sua fala, me coloco em guarda e a desconsidero sem perceber que, de fato,  ela é motivada pelas dificuldades de relacionamento que temos.

Quando alguém me  diz que não pode fazer algo que solicitei, eu logo me pergunto se não pode ou não quer fazer, e me coloco na defensiva.

A boa escuta pede que eu me coloque no lugar do outro para tentar entender o porque dele se expressar daquela forma.

 

Quais as consequências do não saber escutar?

Se alguém me diz alguma coisa e eu traduzo a partir de minhas conversas privadas em outra coisa, na verdade não estou escutando o que ele fala.

A primeira consequência deste não-escutar é o distanciamento em relação a estas pessoas.

Muitas vezes a gente diz que um casal está com dificuldades porque ‘não falam a mesma língua’… e não estamos dizendo com isso que um deles é alemão e o outro chinês.  No ambiente de trabalho ocorre a mesma coisa.  “Não sei o porquê do chefe sempre preferir a fulano ou beltrano”. Será que esta escolha é sem motivo, ou aquela pessoa tem mais facilidade de escutar o que de fato esta chefia quer dizer?

Amigo bom é aquele que me entende, com quem eu tenho uma sintonia e não preciso me esforçar, podendo ficar à vontade, colocando em palavras o que vai dentro do meu coração. Podemos traduzir isso por amigo bom é aquele que sabe me escutar.

Ainda procurando depurar este nosso modo de escutar, preciso pensar no meu modo de reagir, no meu jeito de escutar.

COMO É O ‘ESCUTADOR’ QUE EXISTE DENTRO DE MIM?

O escutador que eu sou é produto da minha aprendizagem,por isso, eu posso modificá-lo. Convido  vocês a refletirem  sobre três aspectos, de modo a entender melhor seus mecanismos de escuta.

 

Quais os mecanismos de escuta dos quais me utilizo no dia a dia?

A maior parte das pessoas responderá que ouve aquilo que é falado, ou seja, a voz do outro. Mas esta voz pode vir límpida, sem interferências ou chiados, pode ter um agradável pano de fundo musical, ou pode me parecer truculenta, agressiva, etc..

Ainda que inconscientemente, você percebe o outro pelos seus gestos e olhares. Quando você chega no térreo do prédio onde mora, dá bom dia ao trabalhador que cuida do seu bem estar, sem dúvida, você percebe o modo dele reagir à sua chegada. Alguns são atentos às suas necessidades, procuram ajudar a carregar sacolas, demonstram um carinho que faz bem ao seu ego. Outros, ainda que façam tudo o que lhes foi orientado, o fazem mecanicamente, sem se incomodar com o que você está pensando ou sentindo. Você já parou para pensar que o comportamento deles pode estar influenciado pelo seu modo de ser?  Como você se relaciona com eles?

 

O que acontece quando escuto?

Quando escuto estou fazendo mais do que ouvir. Quando eu digo que ouvi o que o outro disse é porque me sinto capaz de repetir o que foi dito pelo outro. Mas, até onde o sentido que o outro colocou no seu falar foi, realmente, entendido por mim ?

É muito conhecida aquela anedota do pai que ficou furioso ao receber um pedido do filho… “pai, manda dinheiro”. Em sua leitura, o filho foi malcriado, querendo mandar nele ao dar uma ordem a ele… Ao discutir o assunto com a mãe deste filho, ela mostrou a ele que o que o filho tinha feito era um apelo e não um pedido… e somente diferenciou o tom da voz e o entendimento era outro completamente diferente.

O papagaio ouve e repete o que foi ouvido, mas não escuta o que foi dito, já que para escutar precisamos interpretar o que nos foi dito. Ou seja, mais do que o texto, devo levar em conta o modo como foi dito, a postura de corpo, o modo de ser daquele que me envia a mensagem.

 

Como reajo ao escutar? Que emoções afloram com aquela escuta?

Se ouvir é algo que posso fazer passivamente, o escutar é sempre um processo ativo. Escuto com os meus cinco sentidos e ainda por cima vinculando aquilo que estou escutando com minhas lembranças e com toda a minha vivência anterior.

Algumas vezes, tenho a sensação de não  entender a linguagem do que está sendo dito. Chegamos a dizer que o que o outro diz é grego… que é um modo de se expressar diferente daquele que estamos acostumados a ouvir.

Posso considerar que aquela fala é agressiva ou doce, que ela expressa uma verdade ou é mentirosa, que aquele que fala tem ou não poder para afirmar o que diz.

Todas estas reações se cruzam dentro de mim quando estou escutando e isso me faz reagir de um ou de outro modo, e isto também está ligado ao que refletimos mais acima em relação às nossas conversas privadas.

Para poder escutar bem, é importante levar em conta neste interpretar o nosso estado de ânimo (triste, alegre, etc..) e a opinião que temos do nosso interlocutor. Uma fala de alguém com quem temos dificuldades de relacionamento, e que desperta em nós algumas emoções,  pode ser escutada com filtros como se estivéssemos com um escudo e com isso podemos não entender o sentido do que, de fato, está sendo dito.

 

COMO MELHORAR MINHA ESCUTA

Para melhorar nossa escuta, podemos buscar nos utilizar de dois mecanismos bastante simples. Em primeiro lugar, podemos nos preparar para esta escuta; e num segundo momento, devemos checar a qualidade da nossa escuta.

 

Como preparar-me para escutar?

Um modo de me preparar para a escuta é procurar responder a algumas questões como: (1) qual o discurso histórico de onde esta pessoa vem? (2) Qual sua visão de mundo, qual sua bagagem no assunto de que falamos? (3) Qual sua experiência anterior? O que o inquieta? (4) A partir de que emocionalidade ele fala? O que consigo “escutar”  de seu corpo?

Muitos de nós, em criança ou mesmo na idade adulta, já brincaram de “telefone sem fio”.  A gente lê um pequeno texto que deve ser repetido por quatro a cinco pessoas, e no final do processo a gente compara o que foi dito inicialmente com aquilo que restou depois de ser reinterpretado quatro a cinco vezes. Sem dúvida, cada uma destas pessoas desconsideraram aspectos que consideraram irrelevantes, modificaram outros aspectos a partir de sua ótica e com isso a mensagem foi sendo modificada, virando outra coisa no final do processo. Brincadeiras como esta podem nos ajudar a melhorar a nossa escuta.

 

Como checar escutas?

Um segundo instrumento que pode ser utilizado é nos acostumarmos a sempre checar aquilo que escutamos. Você fala alguma coisa e depois pergunta se ficou claro o que você disse, pedindo que a pessoa te diga como entendeu o que foi dito. Pode-se, neste modo de agir, ir corrigindo o que estava sendo dito e escutado, porque também pode-se checar aquilo que a gente ouviu. Se quando checo o que eu disse eu pergunto se “ficou claro para o outro o que eu disse?”, quando quem está escutando sou eu, eu posso dizer: deixe-me lhe dizer o que estou entendendo do que você me diz, não deixando margens para mal entendidos.

 

Todo processo de diálogo, e é para isso que precisamos de escutas claras, pede uma abertura no nosso modo de ser que permita que a gente esteja sempre aberto a mudanças de opinião e a construção de caminhos novos.

Termino este texto, citando Willian Blake (apud Echeverria):

quem nunca muda de opinião,

vive em águas paradas

nas quais crescem repteis.”

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

Amatuzzi, Mauro Martins – O que é ouvir, em ESTUDOS DE PSICOLOGIA, número 2, agosto/dezembro – 1990, PUCCAMP.

 

Echeverria, Rafael – RAÍCES DE SENTIDO, J.C.SAEZ, Chile, 2006.

_____________ – ACTOS DE LENGUAGE – VOLUMEN I: LA ESCUCHA, J.C.Saez, Chile, 2006 II.

_____________ – ONTOLOGIA DEL LENGUAGE, Dolmen Ediciones, Chile, 1998 – 5ª. Edição.

 



[1] Tradução livre, pg. 73 .


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