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O CRACK E AS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
agosto 30th, 2013 by Magdalves

O consumo de drogas sempre existiu, mas na antiguidade ela era um elemento de integração e era utilizado com objetivos místicos, religiosos e culturais. Nos dias de hoje, este mesmo uso é elemento desintegrador e interfere nas relações sociais entre os indivíduos.

Para refletirmos sobre os desdobramentos do uso do crack pelas pessoas em situação de rua, precisamos primeiro entender um pouco do como se desenvolveu no Mundo  e no Brasil esta questão da drogadição.

“Desde os anos 60, o consumo de drogas tem crescido e atingido diferentes grupos sociais. Mas, muitas drogas surgiram há muito tempo e, como não eram proibidas, acabavam sendo usadas por muitas pessoas. Algumas delas foram utilizadas durante anos com fins medicinais, como a cocaína. Outras, como a maconha, começam agora a ser utilizadas para esses fins.

Na década de 1880, a folha de coca, matéria-prima da cocaína, já era consumida, em forma de chá, por toda a Europa e América do Norte. O chá era conhecido como “melhorador do humor” e sua comercialização era livre. Naquela época, a cocaína passou a ser processada pela indústria farmacêutica para uso como anestésico, estimulante mental e do apetite, afrodisíaco, tratamento da asma e de problemas digestivos. Também foi descoberta sua potência quando injetada e assim o seu uso se popularizou.

Em 1885 surgiu a Coca-Cola, que usava folhas de coca em sua fórmula. Existia também um vinho (Wine-Coca) que era muito popular na Europa e que era feito a base de folhas da planta. Em 1904, foram proibidas todas as bebidas feitas com cocaína e a Coca-Cola mudou sua fórmula.[1]

As primeiras ações visando coibir o uso de drogas no Brasil ocorreram no início do século XX. Não apenas não havia,no Brasil, nenhum controle estatal sobre esta questão, mas o uso de drogas era tolerado e usado em prostíbulos frequentados por jovens das classes nédia e alta.

Desde 1914, há notícias do uso de cocaína no Brasil, mas foi nos anos 70 que seu uso ganhou força em nosso país. Num primeiro momento, seu uso estava restrito às classes com maior poder aquisitivo, mas com a queda do preço, passou a ser utilizada de forma mais generalizada.

Este problema não é apenas brasileiro, mas internacional e no início do século XX começa a ser discutido, em todo o mundo, o uso do ópio e de seus derivados. Acontece uma primeira reunião em 1909, em Xangai, mas é em 1911 que esta discussão ganha visibilidade. Reunidos em Haia, Holanda, quase todos os países do mundo, incluindo o Brasil, assinaram um tratado no qual se comprometeram a coibir o uso do ópio e da cocaína.  O acordo de proibição do uso da maconha[2] ocorreu alguns anos depois, em 1924, numa Conferência, ocorrida em Genebra, na Suíça. A partir de 1930, o combate às drogas ficou mais enérgico em todo o mundo.

No Brasil, é de 1921 a primeira lei que restringe o uso de drogas como ópio, morfina, heroína e cocaína. Esta lei prevê punição para qualquer utilização destas drogas que não seguissem recomendações médicas.  A proibição da maconha é de 1930. As primeiras prisões por uso de drogas no Brasil ocorreram em 1933, no Rio de Janeiro.

O que é o crack?

Surgido para popularizar o uso da cocaína, o crack é uma mistura de cocaína em pó (ainda não purificada) dissolvida em água e acrescida de bicarbonato de sódio ou amônia. Quando aquecido, separa a parte líquida da sólida que pode ser cortada em “pedras”. Não sendo refinado, o crack possui mais resíduos do que a cocaína.

Usada desta forma, a cocaína atinge o cérebro rapidamente, causando prazer e efeitos estimulantes. Sua ação é rápida mas fugaz e causa um efeito danoso ao organismo.

Assim como a cocaína, o crack dá uma sensação de poder, excitação, hiperatividade, intensa euforia e prazer. Se a cocaína causa falta de apetite, o crack faz isso de modo ainda mais intenso.

Os efeitos da inalação do crack são rápidos (10 a 15 segundos) e intensos, e duram em média cinco minutos.  O usuário passa a se utilizar desta droga muitas vezes, em curto período de tempo.

A dependência do crack ocorre porque o usuário em abstinência fica deprimido e sente muito cansaço. O uso contínuo do crack leva o usuário a se tornar agressivo, chegando a ficar paranóico.  O usuário do crack é chamado de “nóia”, e, geralmente, apresenta problemas mentais, respiratórios, derrames e infartos.

O crack na cidade de São Paulo

Os primeiros casos documentados de uso do crack na cidade de São Paulo (1989) identificaram seus usuários como homem, jovem, de baixa escolaridade e sem vínculos empregatícios. Nova pesquisa realizada entre 2004 e 2005 reafirma este perfil, salientando a inclusão de mulheres como usuárias.

Os usuários de crack acabam sendo forçados a participar de atividades ilícitas (tráfico, roubos e assaltos); muitas mulheres aceitam trocar sexo por crack ficando submetidas ao risco de infecção por HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Segundo Oliveira (2008), em 1991 “houve a primeira apreensão policial da droga, momento a partir do qual o número de apreensões só veio a aumentar, progredindo de 204 registros em 1993 para 1.906 casos em 1995, apontando à rápida popularização de crack em território brasileiro. Os traficantes e suas habilidosas estratégias de mercado contribuíram significativamente a esse processo. A princípio, como ainda era desconhecido, para facilitar a apresentação de crack e a adesão por parte do usuário, os traficantes esgotaram as reservas de outras drogas nos pontos de distribuição, disponibilizando apenas crack. Logo, diante da falta de alternativas, os usuários viram-se obrigados a optar e aderir ao seu uso”.

Oliveira aponta, ainda, a facilidade de acesso ao crack, havendo pontos especiais de distribuição.

Em 2012, foi realizada uma operação policial e política conjunta entre governo do Estado e Prefeitura de São Paulo. O objetivo era o combate ao tráfico e a expulsão de viciados em crack que se localizavam no centro da cidade de São Paulo, numa área conhecida como cracolândia.

No discurso, estas autoridades alegaram ter empregado uma estratégia de “dor e sofrimento” visando obrigar os viciados a buscar internação médica por meio do sofrimento psicológico.

A Polícia Militar foi a principal responsável pela repressão de usuários e traficantes, tendo havido denúncias relativas à violação de Direitos Humanos que foram encaminhadas às Nações Unidas. Ainda que dissessem que um dos objetivos era levar estes viciados a buscar tratamento, somente meses depois é que estes serviços foram colocados à disposição da população.

Balanço feito um ano após o inicio desta Operação apontaram 152.995 abordagens, das quais apenas 1.363 resultaram na internação de dependentes químicos. 165 pessoas foram presas por suspeita de  tráfico de drogas, 47 encontram-se foragidas e 939 foram encaminhadas ao sistema público de saúde.

A avaliação – após um ano – considerou que a Operação não surtiu o resultado esperado: houve uma dispersão das pessoas para regiões periféricas, gerando muitas mini-cracolândias.

O Programa “crack, é possível vencer”

 

Criado em 2012, o Programa “Crack, é possível vencer” é uma estratégia do governo federal voltada para prevenir o uso do crack, dar atenção integral aos usuários e combater o tráfico de drogas.

A perspectiva é de ações combinadas de saúde, assistência social e segurança pública, e de forma complementar de educação e garantia de direitos.

Tendo como diretrizes a articulação entre as três esferas de governo e a sociedade civil; o desenvolvimento de ações diferenciadas, personalizando as respostas às necessidades dos usuários nas áreas de saúde, educação, assistência social, segurança pública e direitos humanos; o monitoramento das ações executadas; valorização da integração das redes de prevenção, cuidado e segurança voltadas ao atendimento do usuário e sua família; respeito e aproveitamento das potencialidades e recursos locais e regionais; oferta de atenção especial a crianças e adolescentes tendo o governo federal como responsável pela estruturação e financiamento. O Programa está organizado em três eixos: prevenção, cuidados e autoridade.

PREVENÇÃO – As ações do eixo Prevenção visam fortalecer fatores de proteção e reduzir fatores de risco para o uso de drogas. Com esta finalidade, propõe-se ofertar programas continuados a partir da comunidade escolar voltados para o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. A capacitação de atores significativos e campanhas publicitárias são propostas como suporte às ações de prevenção[3].

CUIDADOS – estruturação de redes de atenção à saúde e à assistência social para o atendimento aos usuários de drogas e seus familiares. A proposta é garantir o acolhimento de usuários e suas famílias, respeitando-se sua autonomia e singularidade.

 

AUTORIDADE – Este eixo propõe a redução da oferta de drogas ilícitas no Brasil, tanto no âmbito nacional como local.

A Operação Cracolândia e as pessoas em situação de rua

 

“A situação de saúde das pessoas em situação de rua pode revelar tanto as causas quanto as consequências da vida nas ruas. O alcoolismo e o consumo de drogas, por exemplo, podem ser elementos de processos de fragilização e ruptura de vínculos familiares e ocupacionais prévios à ida para as ruas. Por outro lado, o consumo abusivo de álcool e, em menor frequência, de outras drogas, parece fazer parte do necessário “processo de anestesia” para a permanência das pessoas em situação de rua.” (Escorel, 2009:112)

Censo da População de Rua realizado na cidade de São Paulo, em 2010/2011, apontam 743 pessoas em situação de rua entrevistadas na região conhecida como cracolândia: 167 na Alameda Dino Bueno e 576 na rua Helvetia. Destas, 78,5% são homens, 19,4% mulheres e 2,2% com sexo não identificado.

A cracolândia está localizada na região da Santa Cecília onde o Censo Poprua aponta 1197 pessoas em situação de rua. A cracolândia reúne 62% das pessoas em situação de rua da região de Santa Cecília.

Em 2012, o governo estadual de São Paulo, em parceria com a Prefeitura desencadeou a Operação Cracolândia objetivando combater o tráfico de drogas e expulsar os viciados em crack encontrados numa região do centro da cidade de São Paulo. Esta ação, também conhecida como operação sufoco foi caracterizada pela repressão policial aos usuários de drogas e culminou pela dispersão destas pessoas gerando diversas mini-cracolândias em outros bairros da cidade e mesmo em outras áreas do centro.

A intenção do governo era obrigar estes usuários a buscarem internação médica por meio de sofrimento psicológico e partia de um pressuposto equivocado de que a droga teria levado estas pessoas a ficarem em situação de rua, quando, na verdade, é a situação de rua que leva as pessoas a se drogarem para anestesiar-se já que o abandono social precede o crack.

Silveira[4] (apud Nassif, 2013) pontua que “o tratamento por internação compulsória de qualquer uma – álcool, cocaína etc. – situa-se na ordem de 2%, ou seja, 98% dos usuários internados compulsoriamente, inclusive os de crack, não conseguem manter abstinência. O tratamento ambulatorial garante a maior taxa de sucesso, de 35% a 40% dos usuários tratados. Isso também vale para os usuários de crack.”

Na sua opinião, não se joga simplesmente fora os outros 60% a 65%que não vão conseguir se manter abstinentes. Do ponto de vista da saúde pública, é um ganho se o usuário se beneficiar de uma política de redução dos riscos. “O usuário não vai parar, mas pode reduzir o uso e até estudar ou trabalhar”, afirma. Isso vale também para o viciado em crack.

Outra contradição constatada é que a Operação foi desencadeada antes de haver uma estrutura de atendimento capaz de acolher os usuários que solicitassem internação.

Censo realizado poucos dias após o desencadeamento da Operação Cracolândia, perguntou às pessoas em situação de rua sobre o ocorrido.83,2% ficaram sabendo ou assistiram a operação, 16,0% não e 0,8% não lembravam.

“Para estes [que responderam afirmativamente] a vida dos indivíduos em situação de rua foi afetada por essa operação de forma positiva (para 10,5%), de forma negativa par 17,2% e os restantes 72,3% acham que não interferiu na sua vida, foi, portanto,indiferente”. (PMSP/SMADS, 2012:81)

Os entrevistados apontaram pontos positivos e negativos da Operação Cracolândia. Dentre os pontos positivos, os motivos mais citados foram que diminuiu a quantidade de drogados que ficaram próximos aos “moradores de rua”; aumentou o policiamento na Região e com isso diminuiu o consumo e a venda de drogas no local.

Dentre os pontos negativos, citaram o desrespeito da polícia que trata todos de rua como “crackeiro”, como “nóia”: batem, humilham e expulsam. Segundo eles, os viciados foram tirados de um lugar e abandonados em outro, o que não acabou com o uso do crack. Além disso, apontam que com os conflitos na cracolândia, aumentaram em toda área os moradores de rua; a demolição das pensões também contribuíram para que mais pessoas ficassem nas ruas.

As pessoas em situação de rua e o crack

Pobreza, população em situação de rua e o uso de álcool e drogas sempre andam juntos.  Como nos disse, em determinado momento Dra. Fátima Rigatto[5], “quando lidamos com pessoas de rua, o envolvimento com álcool e drogas é ‘parte do pacote’ e isto não deve ser confundido com ‘dependência química’.

O atendimento a estas pessoas, obrigatoriamente, precisa ser diferenciado, e de certa forma personalizado caso-a-caso, e não apenas em relação ao perfil profissional, mas  vinculado a um comprometimento com a busca de saídas para as diversas situações encontradas.

Por outro lado, não basta termos técnicos (assistentes sociais e psicólogos) com esta postura, isto tem que se estender também a pessoas exercendo outras funções como motoristas e atendentes.

Pessoas em situação de rua buscam criar vínculos com todo aquele que lhe oferta algum tipo de apoio, e podem conseguir se abrir com alguém com escolaridade e vivências semelhantes às suas.

Um aspecto que precisa ser trabalhado com a equipe é a necessidade de adequar as expectativas: não vamos salvar o mundo, mas podemos ter uma atuação significativa com aquela pessoa que atendemos.  Muitas pessoas tem um processo semelhante a uma montanha russa, melhoram e recaem diversas vezes antes de encontrar, de fato, o caminho de saída da sua situação e isso precisa ser respeitado sem ser tachado de fracasso seja do usuário, seja do profissional que o atende.

Crack, é possível vencer na ótica da situação de rua

O Programa Federal Crack, é possível vencer propõe ações em três eixos (prevenção, cuidado e autoridade) e quando fazemos a leitura desta proposta na ótica das pessoas em situação de rua precisamos adequar cada um destes eixos para buscarmos ações que sejam efetivas.

Prevenção

As diretrizes propostas pelo Programa, no eixo Prevenção, referem-se a três tipos de ações.

Num primeiro bloco, temos ações que visam proteger crianças, adolescentes e jovens propondo a eles novos interesses e reavivando sonhos para diminuir o número daqueles que optam pelo caminho das drogas.

Um outro bloco volta-se para a sociedade como um todo e propõe a disseminação contínua de informações e orientações sobre crack e outras drogas.

Por fim, e não menos importante, o programa aponta a necessidade fundamental de capacitar profissionais das redes de saúde, segurança pública, educação, assistência social, justiça, operadores do direito, lideranças religiosas e comunitárias. No que se refere a pessoas em situação de rua, esta capacitação deve envolver pessoas com as diversas funções no atendimento (técnicos, motoristas, atendentes e outros), priorizando as ações de sensibilização voltadas para o compromisso com estas pessoas.

Mas para assumir um compromisso com esta causa preciso conhecer melhor estas pessoas e isso pode ser feito no cotidiano da ação. A Política Nacional de Assistência Social ao tratar a tipificação dos serviços socioassistenciais propõe ações de proteção social de média complexidade voltadas para pessoas em situação de rua, elegendo como lócus preferencial os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua, também conhecidos como Centros Pop .

Os Centros Pop objetivam “contribuir para a proteção social de famílias e indivíduos nas situações de risco pessoal e social, por violação de direitos, visando a superação destas situações”. Concretamente isto significa a oferta de suporte para a construção de novos projetos e trajetórias de vida voltadas para a saída das ruas e o alcance da referência como sujeitos de direitos.

Os Centros Pop voltam-se especificamente para o atendimento especializado às pessoas em situação de rua, devendo ofertar, obrigatoriamente, o Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, assim como o Serviço Especializado em Abordagem Social.

A partir destes dois serviços, devem ser construídos diagnósticos socioterritoriais objetivando a apropriação pelos técnicos das características da realidade multifacetada onde estas pessoas em situação de rua vivem, devendo contribuir para o entendimento dos modos de vida desta população: dificuldades, necessidades e potencialidades.

Tanto o Centro Pop quanto a Abordagem Social devem viabilizar a inclusão destas pessoas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), abrindo caminho para que eles acessem ou sejam acessados por  programas sociais.

A realidade onde se situam estas pessoas em situação de rua demanda intervenções de diversas políticas atuando de forma integrada o que gera uma complexidade nas intervenções. O dia-a-dia exige  maior presença, flexibilidade e articulações com a rede socioassistencial, com as demais políticas públicas e com os órgãos de defesa de direitos[6].

Mas, quais são os anseios e os sonhos que estas pessoas em situação de rua tinham antes de chegarem a esta situação? No Centro Pop de Rezende (RJ) há uma estratégia que eles nomearam de Prazeres e que busca identificar novas fontes de prazer voltadas para a reinserção destas pessoas. Diversas dinâmicas podem ser utilizadas nestes resgates, desde a construção de pipas até a realização de gincanas e outras brincadeiras que trazem os bons momentos da infância de volta.

Oficinas de arte, com exercícios de pintura, escultura e outras ações como colagem contribuem para a ampliação do equilíbrio e o fortalecimento das ações motoras, e são um instrumento para expressão das angústias vividas por estas pessoas.

Muitas destas pessoas almejam o retorno ao mundo do trabalho na medida em que nossa sociedade só reconhece a cidadania daqueles que contribuem para o progresso, assim, a realização de oficinas de produção podem ser um passo no sentido de reconduzir estas pessoas ao mundo do trabalho, ainda que seja do trabalho informal. A qualificação profissional também pode ser um meio para permitir o acesso ao Mercado de Trabalho que, no caso destas pessoas, precisa ser subsidiado pela política social.

Sessões de cinema, que podem ser realizados em ambientes fechados ou ao ar livre sugerem a discussão a partir da leitura que estas pessoas fazem destes filmes que podem ser voltados para o social ou aqueles que passam nos cinemas da cidade e que os deixam com vontade de assisti-los. E cinema tem que ter pipoca, alegria e favorecer a convivência.

Dentre os esportes, geralmente o mais atrativo tem sido o futebol. Fazer parte de um time e querer ter um bom desempenho pode contribuir para a redução do uso da droga e a busca de melhores condições de saúde.

Natal, aniversários, páscoa sugerem festas assim como as juninas com direito a quadrilha, casamento caipira e outras brincadeiras que sempre fazem bem a quem participa, e podem estar entremeadas por bingos e outras brincadeiras.

Sem dúvida, o ambiente assim criado vai pedir momentos de passeio e caravanas para visitar pontos turísticos da cidade ou de cidades próximas, e podem dar um plus nas ações desenvolvidas.

Cuidados

As Diretrizes propostas pelo Programa Crack é possível vencer, no eixo de cuidados salienta a necessidade de serviços diferentes para necessidades distintas, a ampliação na oferta de serviços e um esforço na preparação da Rede SUS para garantir estes atendimentos.  O objetivo que está por trás das ações deste eixo são a reinserção social e o apoio integral a usuários e suas famílias.

O Programa propõe que estas ações devam ser pró-ativas, buscando-se os usuários nos locais de concentração de uso de  crack. O atendimento precisa ser especializado e ter uma retaguarda de opções de acolhimento para as diversas necessidades identificadas.

Dentre as ações propostas pelo Programa Crack, é possível vencer, salientamos o nomeado de consultório na rua[7].  Agentes sociais de diversas áreas realizam atividades visando atenção, defesa e proteção a pessoas em situação de risco pessoal ou social. Capacitados para atuar com usuários de álcool, crack e outras drogas, estes profissionais atuam a partir da estratégia de redução de danos[8], realizando atividades educativas, culturais e encaminhamentos para a rede de saúde e intersetorial.

Sabendo-se que a Pesquisa Nacional sobre População de Rua, realizada entre 2007 e 2008 apontou que 35,5% dos recenseados apontou o uso de álcool e drogas como motivo para estarem em situação de rua,  estas equipes volantes procuram realizar atividades nas ruas, priorizando locais onde há concentração de usuários de drogas. Sessões de cinema ao ar livre, jogos de capoeira e oficinas de diversos tipos facilitam a aproximação entre profissionais e usuários. Algumas destas atividades distribuem alimento como mais um atrativo. A proposta é cuidar das pessoas, apresentar a elas os serviços existentes e atendê-los ainda que não queiram se dirigir aos CAPS – Centros de Atenção Psicossocial. Entre todos os dispositivos de atenção à saúde mental criados a partir da Reforma Psiquiátrica, os CAPS passam a ter um papel estratégico na medida em que possibilitam a organização de uma rede substitutiva ao Hospital Psiquiátrico no país. A Função dos CAPS é prestar atendimento clínico em regime de atenção diária, evitando as internações em hospitais psiquiátricos;  acolher e atender as pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, procurando preservar e fortalecer os laços sociais do usuário em seu território; promover a inserção social das pessoas com transtornos mentais por meio de ações intersetoriais; regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental na sua área de atuação; dar suporte a atenção à saúde mental na rede básica; organizar a rede de atenção às pessoas com transtornos mentais nos municípios; articular estrategicamente a rede e a política de saúde mental num determinado território;  promover a reinserção social do indivíduo através do acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

Existem cinco tipos de CAPS: CAPS Saúde Mental, CAPS Infanto-juvenil, CAPS adulto e CAPS AD, ou seja, especializados em Álcool e Drogas. Todos eles são serviços de saúde municipais, abertos, comunitários e oferecem atendimento diário, alguns deles durante 24 horas. Segundo dados do Ministério da Saúde[9],  o CAPS é o núcleo de uma nova clínica, produtora de autonomia, que convida o usuário à responsabilização e ao protagonismo em toda a trajetória do seu tratamento.

Os projetos desses serviços, muitas vezes, ultrapassam a própria estrutura física, em busca da rede de suporte social, potencializadora de suas ações, preocupando-se com o sujeito e a singularidade, sua história, sua cultura e sua vida cotidiana”.

O objetivo do CAPS-AD é oferecer atendimento à população, realizar o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

Alguns CAPS-AD (III) mantém portas abertas nas 24 horas do dia, mas mesmo aqueles que permitem a entrada dos pacientes das 7 às 19 horas, mantém funcionamento em tempo integral.  Nestes serviços, durante a noite (19 hs a 7 hs) só permanecem os pacientes em hospitalidade noturna[10], que chegaram antes das 19 horas e já foram avaliados pela equipe.  A noite e nos finais de semana há menos profissionais e não há médicos presencialmente, mas apenas em plantão a distância para dar suporte à equipe.

O CAPS-AD é considerado um Serviço Porta Aberta porque o paciente não precisa ser encaminhado por Unidades Básicas de Saúde ou outros equipamentos: o usuário se dirige ao serviço informando que quer o acolhimento,e a equipe permanente o acolhe. O acolhimento inicial garante uma escuta qualificada e as informações obtidas dele são registradas para uso da equipe. Este usuário pode dirigir-se ao CAPS e não querer atendimento psicossocial, mas apenas um prato de comida ou acesso a acolhimento em albergue. O profissional que o atende vai buscar atender à sua demanda e tenta criar um vínculo que permita não apenas aquele primeiro acolhimento mas uma continuidade de ação.

Muitos usuários chegam apontando uma demanda por internação e isso é trabalhado com eles. Explica-se o que é o CAPS, e como funciona. Depois dessa primeira entrevista, ele é convidado a participar dos grupos de acolhimento: depois dessa primeira entrevista, ele pode vir todos os dias nestes grupos de acolhimento. A proposta do grupo de acolhimento é tirar o sujeito só da queixa, da reclamação, buscando levantar aquilo que está dando certo para tentar implicar ele em alguma coisa para o tratamento e para a vida dele. Quero trabalhar, quero voltar pra minha família: como você vai fazer isso? Neste processo, vai se tentando aproximar as pessoas do serviço, criar vínculos, garantir a escuta deles, e para isso é fundamental saber escutar… O usuário precisa sair deste lugar só de pedir, sendo conduzido para entender  o que ele pode fazer por ele mesmo. O que o CAPS oferece, o que ele pode oferecer para a vida dele… o que juntos podemos produzir… e aí já vão saindo alguns… Pesquisa feita aponta que no mundo tudo, e não apenas nos CAPS AD, mas também em ambulatórios,  a adesão, a aderência é baixa. Elas chegam quando “a água está batendo na bunda” e quando vêem que eles também tem que ajudar a fazer, muitas vezes, desistem. Querem ir direto pro Psiquiatra, querem remédio direto, querem internação direta… O grupo de acolhimento já vai cuidando destas questões: olha, o tratamento é assim! Tem que vir, tem que falar… Eles falam assim: me fala o que tenho que fazer, me dá uma medicação… e quando se dão conta de que tem que se implicar, vão desistindo.

A gente tem um olhar diferenciado para ver aqueles que estão em maior sofrimento, que realmente precisam de medicação, que estão em abstinência… e aí a gente vai cuidando.

O grupo de acolhimento é trabalhado por vários profissionais: psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, psiquiatras… porque assim vamos tendo olhares diferentes.

Depois que o paciente passou algumas vezes pelo grupo de acolhimento, e se viu que ele vai ficar – não se trata de número de acolhimentos, isso é tratado caso a caso, pois depende do processo de cada um – daí ele é encaminhado ao grupo de psicoterapia, encaminhar para uma Terapeuta Ocupacional, fazer acompanhamento de enfermagem, e aí se faz um projeto terapêutico.

Todos os pacientes do CAPS tem um Projeto Terapêutico Singular – uma combinação de grupos e atividades dependendo daquilo que ele quer para a vida dele. Ele tem um profissional de referência que vai colher melhor  a história da vida dele, se ele tem família, se quer trabalhar ou não quer, onde está morando, e aí a gente vai planejar junto este projeto terapêutico. Que grupos e atividades que, no CAPS, ele pode participar e que pode contemplar aquilo que ele quer para a vida dele.

O CAPS-AD oferta uma série de atividades grupo de psicoterapia, grupo de terapia ocupacional, oficinas de teatro, artes, música, culinária, bijuteria, atividades físicas com futebol e academia, convivência, jogos… onde o diálogo profissional x usuário é mais livre e leve… um e outro contam causos… Os profissionais buscam motivá-los a participar de atividades que ocorrem nos finais de semana, como por exemplo,

A ambiência toda do CAPS tem que ser terapêutica: os profissionais falam em  corredores terapêuticos… e o foco não é a abstinência total, mas uma perspectiva de redução de danos.

Buscar com eles atividades que existam na cidade para que eles participem nos finais de semana, e depois relatem  nos grupos dos quais fazem parte.

O Programa Crack, é possível vencer aponta ainda outros serviços como as Enfermarias Especializadas (tratamento hospitalar para casos de abstinência e intoxicações graves // internações de curta duração até a estabilidade clínica  (leitos especializados em crack e outras drogas); as Unidades de Acolhimento Adulto/Infantil e as Comunidades/Residências Terapêuticas.  As portas de saída para as Residências Terapêuticas, em São Paulo, são efetivadas a partir de Hotéis sociais, Moradias Provisórias e Repúblicas.

Autoridade

O terceiro eixo, nomeado de autoridade, objetiva fazer o enfrentamento ao tráfico e ao crime organizado, mas deve ir além disso. A busca da eficácia no enfrentamento às situações encontradas implica em articulação entre as áreas da segurança, saúde e assistência social, incluindo a sensibilização social dos agentes de segurança para que estejam disponíveis aos usuários que solicitam orientação de acolhimento e tratamento.

Espaços urbanos seguros demandam policiamento intensivo (bases móveis, vídeo-monitoramento, etc.), revitalização de espaços públicos e convivência comunitária; o que demanda ações em parceria de estados e municípios tanto no que se refere a ações de inteligência e investigação quanto na integração das forças de segurança voltadas ao enfrentamento ao tráfico de drogas e ao crime organizado.

Os governos federal e estadual devem intensificar ações integradas de inteligência para desarticular as principais organizações criminosas do tráfico (policiamento intensivo nas rodovias, ação permanente nas rotas de maior apreensão de drogas).

Para finalizar, não podemos deixar de mencionar que a situação de miséria aliada às necessidades de custear o vício e a compra das pedras de crack leva muitos destas pessoas em situação de rua a se envolverem com o tráfico de drogas, sendo utilizados como “mulas” e “aviõezinhos” o que não pode ser entendido pelos profissionais como se estas pessoas fossem traficantes.

Quando há ações de repressão ao tráfico de drogas, como ocorreu na Operação Cracolândia, é sobre estas pessoas em situação de rua que recai a maior violência física, na medida em que este é um segmento torturável por excelência na medida em que agentes violentos e torturadores sabem perfeitamente em quem podem e não podem bater… e estas pessoas dificilmente  tem sua voz ouvida quando se  aponta a violência empregada contra a população.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Brasil – Governo Federal – CRACK – É POSSÍVEL VENCER, em www.brasil.gov.br/crackepossivelvencer

Escorel, Sarah-  A saúde das pessoas em situação de rua, em RUA, APRENDENDO A CONTAR – PESQUISA NACIONAL SOBRE A POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA, DF, MDS/SAGI, 2009.

Oliveira, Lúcio Garcia de e outra – “Caracterização da cultura de crack na cidade de São Paulo: padrão de uso controlado, em REVISTA DE SAÚDE PÚBLICA, vol 42, ano 4, SP, Scielo, 2008 – capturado na internet em 15/8/2013.

________________________ – Crack na cidade de São Paulo: acessibilidade, estratégias de mercado e formas de uso, em REVISTA DE PSIQUIATRIA CLÍNICA, vol. 35, n. 6, SP, Scielo, 2008.

PMSP/SMADS – CENSO E CARACTERIZAÇÃO SOCIOECONÔMICA DA

                          POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NA MUNICIPALIDADE DE SÃO PAULO, 2012.

 

Souza, Fátima.  ” Como funciona o tráfico de drogas”., em HOW STUFF WORKS, capturado em 18/8/2013 em  http://pessoas.hsw.uol.com.br/trafico-de-drogas3.htm

 



[1]Howstuffworks.

[2]A maconha teve seu cultivo incentivado durante décadas pela indústria que utilizava seus talos para fazer fibras de cordas e têxteis, por causa de sua incrível força e resistência. Também fez, durante séculos, em vários países, parte do arsenal da medicina popular e no final do século 19 foi usada em vários medicamentos produzidos por laboratórios farmacêuticos dos Estados Unidos, sendo indicada como antiespasmódico, analgésico e dilatador de brônquios. No início do século 20, com o aparecimento da morfina, que oferecia melhores resultados, os médicos perderam o interesse pela maconha. No Brasil, ela foi usada como remédio de 1900 a 1930 e era indicada e receitada pelos médicos para insônia, úlcera gástrica, asma e até ronco. (Mundo)

[3] Vale a pena conhecer o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência – PROERD.

 

[4]Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Silveira há 25 anos orienta pesquisas com usuários de drogas e moradores de rua, normalmente patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, e tem sido consultor do Ministério da Saúde na definição do Plano de Combate ao Crack. Nas horas vagas, ele desmistifica os argumentos usados pela prefeitura, município

e uma parcela de psiquiatras sobre usuários de drogas.

[5] Psiquiatra que atua no CAPS Parque D. Pedro e atende pessoas em situação de rua.

[6] Violência física, psicológica e negligência, abandono, violência sexual, histórico de vida envolvendo tráfico de pessoas, trabalho infantil, afastamento do convívio familiar são algumas das violações encontradas na vivência destas pessoas em situação de rua.

[7] O acesso dos profissionais de saúde à população de rua é complexo. Além das dificuldades para realizar anamnese e exames físicos, tais profissionais lidam com pacientes que apresentam baixa adesão ao tratamento, falta de acesso ao serviço e acompanhamento. A vida nas ruas possui uma psicodinâmica que começa com os fatores que levaram o indivíduo a ir para as ruas e vai até a sua vivência. Diversas ferramentas foram pensadas para atuar de maneira efetiva na promoção da saúde entre a população que vive em situação de rua. Da junção entre o programa Consultório de Rua (equipe itinerante com foco na saúde mental) e do programa Estratégia da Saúde da Família Sem Domicílio (ESF com equipes específicas para atenção integral à saúde da população em situação de rua), foi criado o dispositivo Consultório na Rua, que consiste em uma equipe itinerante para atenção integral à saúde da população em situação de rua.

 

[8] Redução de danos é um conjunto de políticas e práticas cujo objetivo é reduzir os danos associados ao uso de drogas  psicoativas em pessoas que não podem ou não querem parar de usar drogas. Por definição, redução de danos foca na prevenção aos danos, ao invés da prevenção do uso de drogas; bem como foca em pessoas que seguem usando drogas.

Redução de danos ganhou maior dimensão depois do reconhecimento da ameaça da disseminação do HIV entre e a partir de pessoas que usam drogas. Entretanto medidas similares vinham sendo usadas por mais tempo e em outros contextos para uma série de outras drogas. (posição oficial da Associação Internacional da Redução de Danos (www.ihra.net)

[10] A Hospitalidade Noturna é diferente da internação para desintoxicação que exige assistência 24 horas, o que não é a proposta dos CAPS. Nela, os pacientes ficam entre 7 e 15 dias e há critérios para que seja aceito.


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