SIDEBAR
»
S
I
D
E
B
A
R
«
APROPRIAR CONHECIMENTO A PARTIR DA LEITURA
agosto 15th, 2013 by Magdalves

“A leitura de textos potencializa a formulação de nossas idéias, permite que nos expressemos com mais clareza e nos levam a reter conhecimentos de forma mais rápida e prática.”

Toda vez que buscamos nos apropriar de um novo conhecimento, o primeiro conselho que ouvimos é que é preciso ler o que já existe produzido a respeito. E lá vamos nós, em busca de indicativos das leituras que precisam ser feitas.

A escolha do que deve ser lido, no entanto, não é tarefa tão simples.  Sobre quase todo assunto que queremos nos debruçar, podem ser encontrados textos elaborados a partir de diversas óticas e construídos a partir de diversas visões de mundo.

Até que tenhamos nossa posição bastante consolidada sobre um assunto, é importante conhecer outras posições, analisando os argumentos que utilizam antes de descartá-los por discordarem do que temos como verdade. Minha finada avó sempre dizia que “razão chega para todos”, com isso ela queria dizer que, somente quando olhamos um objeto do ponto de vista do outro é que podemos analisar se aquela pessoa sabe o que está dizendo.

Para que consigamos extrair alguma forma de conhecimento de textos precisamos nos utilizar de alguma técnica que melhore o nosso aproveitamento ao executar essa tarefa. Vejam um exemplo disso, abaixo.

Vou reproduzir abaixo parte de um texto produzido por Elzo Pedra Matos[1], um homem que, naquela ocasião vivia em situação de rua e produziu diversos textos riquíssimos e cuja ótica é muito diferente das encontradas nas leituras acadêmicas. Vejam o que ele diz sobre a antiga CETREN.

A parte da quadra que dava para a rua, possuía um muro de aproximadamente um metro e meio de altura que sustentava um alambrado de mais de três metros de altura, cujas extremidades eram fixadas nas paredes laterais. Alguns homens costumavam grudar a cada no alambrado e jogar gracejos para as pessoas que passavam na rua. […]

Lá embaixo um homem maltrapilho que puxava uma carroça cheia de bugigangas. Um dos homens que estava com a cara no alambrado gritou: “olha lá, vem ver o pé inchado”. Outros homens foram para o alambrado e começaram a jogar insultos para o pobre homem que corria atrás do seu pão, ao contrário deles, que se sujeitavam a ser tratados como bandidos, e como cachorros para ganharem um prato de sopa e um pedaço de pão. Quando o homem da carroça passava bem em frente do prédio, os gritos recrudesceram: “aí, pé inchado”, “vai derrubado”,”oh, cachaceiro”, “vai pé-de-cana”…

O homem parou a carroça em frente ao prédio, remexeu suas bugigangas e tirou uma gaiola velha. Apontava para o alambrado de onde partiam os insultos e mostrava a gaiola àqueles homens. Depois apontava para o próprio peito e fazia gestos imitando um pássaro voando.

Aos poucos os gritos foram diminuindo até calarem-se todos de vez. Os homens se entreolhavam envergonhados e cabisbaixos, sendo forçados a admitir, na lição de um miserável, que a liberdade é o único bem pelo qual vale a pena brigar e que não se pode trocá-la por nada deste mundo.

Como fazer a leitura de um texto como este?  Como definimos nosso objetivo ao colocá-lo em comum?

Antes de iniciar a leitura, é preciso ter em mente a razão que nos levou a ele: isso permite selecionar com mais rapidez as informações que interessam.

O que nos diz o texto como um todo?  Ou mesmo o conjunto de textos?

O ideal é que façamos uma primeira leitura e que essa seja feita sem interrupções, pois o objetivo é estabelecer um primeiro contato entre o leitor e o texto.  Neste primeiro momento, não faça anotações ou sublinhe e busque apenas entender a idéia mais geral.

Nesta primeira aproximação com o texto, precisamos anotar as palavras desconhecidas, buscando informações sobre seu significado.

“Pé inchado”, “derrubado”, “cachaceiro”, “pé-de-cana” “correr atrás do pão”, “ser tratado como bandido ou como cachorro” – são expressões utilizadas por pessoas em situação de rua e para dialogar com eles e seus textos, precisamos conhecer este linguajar.

Seguindo na nossa análise, o passo seguinte é identificar as idéias básicas de cada parágrafo. Veja bem:

  • Não adianta assinalar tudo ou assinalar termos isolados;
  • Uma estratégia pode ser identificar os verbos, os sujeitos e complementos a ele referidos para um bom entendimento da frase; [isso deve ser utilizado, principalmente, em textos cuja linguagem nos parece difícil de compreender];
  • Um texto bem sublinhado pode funcionar como um “esqueleto”, uma visão espacial dos seus aspectos mais importantes, facilitando a assimilação da sua mensagem.

Por fim, a partir dos textos sublinhados, construa com suas próprias palavras uma frase sintética e objetiva que dê conta da idéia sublinhada.  O conjunto das suas frases deve permitir visualizar o raciocínio desenvolvido pelo autor e permitir a construção de um resumo.

REFERÊNCIAS

Matos, Elzo Pedra – HOTEL MARQUISE, SP, 1994, manuscrito.



[1] Elzo Pedra Matos escreveu alguns textos em 1994, reunidos num conjunto que ganhou o nome de Hotel Marquise. Durante um Curso de Formação para Educadores Populares, realizado no Instituto Cajamar, ele cativou a todos. Marco Arroyo, um dos educadores assim o descreveu: “Elzo não nasceu na rua, chegou até lá como milhares de brasileiros excluídos pelo sistema que aqui é denunciado”. Falando do Hotel Marquise, Marco diz que não é um conto,uma ficção, mas uma história de vida. Nele encontramos um retrato vivo da paisagem  de pobreza de onde nascem vozes penetrantes, cortantes, de fogo, para denunciar, como os antigos profetas, as desigualdades, as injustiças, e os crimes perpetrados pela irracionalidade e desumanização da modernidade.


Leave a Reply

http://mmaconsultoria.com/?page_id=874You must be logged in to post a comment.

»  Substance: WordPress   »  Style: Ahren Ahimsa