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A MOBILIZAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA E AS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
maio 31st, 2013 by Magdalves

Muitos estudos apontam um caráter desmobilizado da maioria da população brasileira, e este é um dado a ser estudado já que se entende ser necessária a participação na vida civil de cada um daqueles que vive em nossas terras.

As sociedades humanas são semelhantes aos organismos vivos como o corpo humano que é formado por células de diversos tipos, cada uma das quais com uma função e com a capacidade de se dividir, gerando células novas; é a multiplicidade destas células que permite uma vida saudável. A medicina moderna descobriu que algumas destas células, conhecidas como células-tronco, células mães ou estaminais são células com uma maior capacidade de se dividir, dando origem a duas células iguais. Quando estas células-tronco são originárias de embriões, tem ainda a capacidade de se transformar em outros tecidos do corpo como ossos, nervos, músculos e sangue.

Da mesma forma, os membros da sociedade são como células que, além de terem uma multiplicidade, tem a  capacidade de se transformar, e isso ocorre numa velocidade que depende do ambiente em que estão situados.

A preocupação com a leitura deste comportamento passivo e desmobilizado da população vem sendo discutida desde a década de 50. Uma linha de interpretação apontava que uma das causas poderia ser a origem rural dos trabalhadores que, migrando para as cidades tinham uma instabilidade interior que dificultava o envolvimento com mobilizações e os mantinha num comportamento tradicional no meio urbano.

Anos atrás, num curso de formação de que participei e que discutia a origem do capitalismo, o excelente professor Mauro Iasi fez uma dinâmica com os alunos. Tinha havido um naufrágio, estávamos todos numa ilha onde tinha de tudo para um bem viver mas de onde nunca sairíamos. A regra era que todos deveriam atuar para garantir a sobrevivência do grupo. Brincamos de nos organizar, construindo abrigos, garantindo alimentos e água… até que uma pessoa, que num segundo momento foi apoiada por alguns outros, propôs que ele não precisasse trabalhar, mas usasse seu tempo pensando propostas para o grupo.  Num grupo formado por lideranças de movimentos sociais, é claro que a resposta foi um não sonoro. Acontece que aquele grupo estava na parte da ilha onde estava situada a fonte da água.  Ao ameaçar cortar o suprimento, teve sua proposta aceita apesar da raiva de todos. Feita a vivência, vieram as perguntas. Em primeiro lugar:  de quem é a água?  E a resposta foi, é de todos, mas eles se apossaram dela… O professor propôs, então que pensássemos o que ocorreria após algumas gerações… e se para essa fosse feita a mesma pergunta. A resposta, é evidente que foi que a água era propriedade daqueles usurpadores… estava explicado o princípio do capitalismo.

A estrutura capitalista organiza-se a partir de um padrão que supõe que todo viver se baseie na ótica da produção: o diferente espanta, fascina ou dá medo…

Como trabalhadores passivos eram mais interessantes para a classe dominante, foi desenvolvida toda uma prática clientelista junto a esta população, e mesmo quando surgiam ações comunitárias elas vinham atreladas a uma política de favores que aliava benesses e repressão. Um quadro institucional repressivo buscava o enquadramento e a subordinação dos sindicatos, e o país continuava a viver altas taxas de exploração e desigualdade.

Interessante observar que, ainda que seja uma das maiores responsáveis por esta divisão da sociedade entre os que tem trabalho e os que não o tempo, a burguesia despreza e hostiliza parcela significativa da população, criando estereótipos depreciativos e marginalizando-os. Juízos de valor, como o que aponta que estes homens e mulheres são indolentes e nada querem com o trabalho, geram preconceitos e mesmo discriminações e vão sendo introjetados na população que, sem perceber as armas de que dispõe, “aceita” este tratamento…

 

Hoje, podemos dizer que uma das palavras de ordem é “organização” e até mesmo setores que antes era refratários a isso vão mostrando a cara e são questionadas as teorias que partem da visão do brasileiro como povo com raiz passiva.

MAS, O QUE É SER ORGANIZADO?

Sabe-se que, muitas vezes a população vai atrás de seus líderes, mas nem sempre atrás de suas causas… se eles afastam, as causas desaparecem.

Existem muitas mobilizações que são espasmódicas. A promessa de conseguir algo que se necessita ou almeja podem levar as pessoas a algum comportamento que pode ser chamado de populista, quando não os leva a fazer uma análise mais macro e decidir o que é melhor para si e os seus. Esta é uma das estratégias que continua a sustentar a reeleição de opressores e de políticos que só pensam em si mesmos, sem assumir um projeto claro de transformação da sociedade.

Ao lado destas situações, conhece-se muitos movimentos comunitários: canudos, padre Cícero,  abolição. Quando as pessoas se organizam e constroem projetos de mudança conseguem perceber a força da união e as conquistas acontecem.  Lembro-me de Paulo Freire, numa reunião de comunidade ocorrida há mais de quarenta anos, em que ele começava a reflexão mostrando uma gota de água que, sozinha, não tinha forças para mudar nada. Esta gota se juntava a outras gotas e formava um pequenino fio de água. A junção de vários fios de água engrossava e podia-se perceber a força nascendo da água que chegava a um rio e ao mar… Foi uma reflexão tão interessante que nunca mais a esqueci. Tratava-se de uma Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, mas deixou muito claro o conceito de organização molecular que é mais amplo do que a organização tradicional que privilegia o foco da “adesão à luta”.

Os governos procuram controlar e desmobilizar estes focos de organização na medida em que um de seus papéis é o controle democrático sobre o estado.

A organização propõe a conquista da cidadania na medida, afirmando que se manifestar e decidir os rumos de sua própria vida é direito do cidadão, e dever do estado.  Mas a sociedade é heterogênea e na medida em que cada segmento tem interesses a defender, vai havendo a apropriação do discurso da cidadania pelas elites e pelos governos e todo mundo fala em participação e cidadania.

DE QUE PARTICIPAÇÃO FALAMOS?

Participar, num primeiro momento é estar junto. Cada um de nós é homem ou mulher, adolescente, adulto ou idoso, escolarizado ou não e o entendimento de que a gente faz parte é a primeira aproximação com este organizar.

O atrativo para que as pessoas queiram “fazer parte” é a identificação de que o problema que está sendo discutido naquele grupo é um problema que me afeta e me incomoda.  As pessoas, então, passam a fazer parte de movimentos de moradia, de saúde, por orientação sexual, por cor da pele, etc..

Pouco a pouco, as pessoas passam a ficar atentas, “antenadas”  para aquilo que acontece na sua realidade mais próxima e, quanto mais consistente for o problema enfocado, maior é a capacidade de agregação que faz com que a gente ultrapasse a etapa do “fazer parte”. A gente começa a “ter parte” nas discussões e nas lutas que vão sendo empreendidas. Este grupo que se organiza e reage a alguma situação considerada incômoda pode ter qualquer direção política. A população que assim se organiza se alia a algum tipo de projeto, na maior parte das vezes, por acreditar no discurso das elites que coordenam estes processos.

Conforme as pessoas vão amadurecendo neste processo, elas vão passando a “ser parte”  da construção das propostas e vão entendendo que a luta por direitos sociais é apenas uma parte do que se precisa conquistar quando se fala em cidadania. Há que se refletir os direitos sociais, econômicos e políticos num processo de ampliação da consciência coletiva.

Este processo não é simples e nem vai sempre apenas num crescendo. Ele tem altos e baixos, as pessoas se unem e se dispersam mas se a luta for necessária esta organização tende a crescer.

Quando a gente pensa nas “lutas que valem a pena”, é importante relembrar as mudanças que ocorreram nos últimos 40 ou 50 anos. Muita gente dizia que movimentos como o de moradia não tinha como se ampliar porque havia um entendimento de que muitos destes segmentos só conseguiam olhar para seus próprios umbigos: “favelados não se organizavam”.  Quem assim avaliava, “pagou a língua”… os movimentos de moradia são uma realidade de organização, de luta e de conquista de direitos.

Eu trabalho com pessoas em situação de rua, outro segmento que se dizia que nunca se organizaria… e esta afirmação também foi ultrapassada.  O que é necessário é ir aprendendo com as situações vivenciadas e construir novas formas de organização.

CARACTERÍSTICAS DE NÃO ORGANIZAÇÃO DA POPRUA

Uma das lições aprendidas com os grupos de pessoas em situação de rua foi sendo construída na busca da resolução de problemas.

O viver das pessoas em situação de rua não se organiza a partir da lógica da produção. Seu cotidiano é repleto de criatividade e as ações vão sendo definidas a partir do cenário onde se localizam e da resposta dada a eles pela sociedade no entorno do local que escolheram para “ficar”.

Sabendo que o modo capitalista supõe uma disposição do urbano e da produção a partir da ótica da burguesia, ao observar as pessoas em situação de rua vamos encontrar um outro modo de “morar” que, sem dúvida, é diferente do encontrado no restante do bairro.

Ao parâmetros capitalistas de moradia definem uma diferenciação entre o privado e o público: em nome da privacidade, a casa deve estar, preferencialmente, no meio do terreno. Jardins separam a casa da rua, espaço público que é de todos. Muros separam a casa das outras casas, estando as mais ricas distantes dos muros de separação da propriedade. Muitas destas casas tem quintais, terrenos nos fundos da casa, com edificação separada para empregados. Em nome da segurança, pode-se encontrar conjuntos de casas organizadas em condomínios fechados.

Além da precariedade das favelas, uma realidade construída a partir da pobreza são os cortiços. Quarto grudado no quarto, paredes finas que deixam passar o som do que se passa no seu interior, banheiros e tanques coletivos e isso aponta que este modo de morar não permite nenhuma privacidade. Estas antimoradias que podem ser vistas como um “modo errado de morar” foi apropriado pelos esquemas de hiperexploração capitalista e geram lucros para aqueles que se mantém morando nas casas espaçosas e com privacidade que citamos acima.

O COTIDIANO DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Para as pessoas que chegam a ficar em situação de rua, as possibilidades são ainda piores. Mora-se nas calçadas, levando-se de um lado para o outro os seus poucos pertences, ou se aproveita o que foi descartado das “casas de verdade”  e se monta pseudo moradias nos baixos de viaduto. Interessante observar que, nestas situações, pode-se identificar uma tentativa de separar os espaços, reconstruindo o modo de morar aprendido em outras condições. Lembro-me de uma estudante de serviço social que, visitando um grupo sob o viaduto pela primeira vez, observou não apenas a organização dos vários espaços, mas o coador de café pendurado na parede próximo de onde se acendia o fogo, e no local onde as pessoas ficavam sentadas durante o dia uma santa e ao lado dela uma vela e flores.

HELLER, cita que  “a vida cotidiana é a vida de todo homem e a vida do homem inteiro”, afirmando ainda que “o homem participa da vida cotidiana com todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade”.

As pessoas em situação de rua que já são “aquelas que não moram”, tem também afetado o seu cotidiano de trabalho. Na maioria das situações, o trabalho é informal, sem direitos sociais, superexplorado e em condições degradantes. Ele aceita trabalhar em péssimas condições e quem lucra com essa situação é, mais uma vez, o capital.

Experiência interessante de organização no mundo do trabalho das pessoas em situação de rua pode ser observada no campo da reciclagem.  Para conseguir sobreviver, muitos homens e mulheres começaram a “catar” aquilo que a sociedade descartava. Hoje, os governos tem todo um empenho em dar suporte a estes grupos na medida em que se sabe que a defesa do planeta depende deste trabalho que até então era considerado aviltante.

Nas suas relações com a sociedade, e mesmo com os responsáveis por programas e projetos sociais, estas pessoas são tratadas com uma hostilidade travestida de indiferença. Vivem situações de expulsão concreta e sobre eles se coloca a “peja” de indesejáveis e perigosos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cotidiano do povo brasileiro se apresenta comprometido com a orientação social burguesa, e a atividade individual condicionada a este lugar social. O sistema estabelece a ordem da sociedade e determina o espaço de liberdade de ação, de sentir e desejar e até mesmo de pensamento de cada um.

As situações de trabalho apontam um universo de desemprego e subemprego, onde desconforto, precariedade, insalubridade da moradia, alimentação insuficiente e debilidade na saúde se juntam à  ignorância, à frustração e à fadiga, provocando uma resignação que oculta a capacidade de resistência e de luta.

Muitas das pessoas que analisamos como pessoas em situação de rua, mas não somente eles, viveram um processo de mobilização continuada, um desenraizar constante, com degradação da autoestima, desagregação familiar e outras consequências. Expulsos da terra, espoliados em seus direitos e excluídos da sociedade estas pessoas são frágeis para continuar lutando.

A ação dos governos e das organizações sociais são pautadas na tutela, exclusão e repressão e vão ampliando uma autoimagem de dependência e desvalorização pessoal que é difícil de ser rompida.

O discurso da burguesia  aponta a  ética do trabalho tendo o futuro como referência de melhoria nas condições de vida. Para as pessoas em situação de rua,há apenas a insegurança quanto ao futuro, condições precárias de moradia, desemprego e subemprego, violência e morte.

A consequência primeira é a busca respostas individuais de sobrevivência adaptando-se, adequando-se ao discurso desejado de modo a ter suas necessidades atendidas. Para obter seus direitos, exige-se dele que seja: cordato, desamparado, vulnerável e necessitado – comportamentos condicionantes que determinam uma forma de organização social que nem sempre é a que ele escolheria e que passa longe da construção de respostas coletivas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Maria Magdalena – HOMENS DE RUA, AQUELES QUE NÃO MORAM, em (blog) mmaconsultoria.com

HELLER, Agnes – O COTIDIANO E A HISTÓRIA, RJ, Paz e Terra, 1970, 3ª. edição.


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