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RELAÇÕES AFETIVAS E A VIDA NAS RUAS
maio 16th, 2013 by Magdalves

O homem é um ser em relação: precisa viver em sociedade, estar com o outro. O apareça lá em casa pra tomar um cafezinho é costume cultural que reafirma o caráter acolhedor do nosso povo. Quem não pode receber o outro, parece-nos um ser inferior. O modo dos homens e mulheres receberem as pessoas de certa forma, mostra-nos a sua condição de classe. A classe alta recebe suas visitas na sala: afinal, o lugar bem cuidado mostra a quem chega o quanto temos e como sabemos viver bem. O pessoal mais simples, recebe-nos diretamente na cozinha, lugar acolhedor onde o calor do fogo e o cafezinho nos fazem sentir o quanto somos bem vindos.

Neste viver na rua, passa-se a buscar apenas o abrigo e a proteção. Não se trata mais do espaço de construção do ser. O sonhar e o definir o modo de viver são desejos a serem esquecidos.

O ultimo resquício da maneira de viver ainda é o receber as pessoas. Tão logo você chega, surgem roupas limpas e cobertas ou papelão para que você possa arrumar um lugar limpo para sentar-se… A pinga, o cigarro, refrigerante e, dependendo do horário, comida, são imediatamente oferecidos. Neste receber, garantem o clima de paz durante a  permanência em sua companhia, impedindo que aconteçam brigas ou outras situações que possam ser embaraçosas. Se você ficar para dormir, alguém ficará acordado, garantindo sua segurança e sem dúvida todos terão a gentileza de oferecer seu cobertor para que você não sinta frio.

 

QUEM SÃO ESTES HOMENS DE RUA?

Goffman (1988) nomeia de Identidade Social Virtual ao caráter que é imputado às pessoas, a partir das características que lhe são atribuídas pela sociedade; diferenciando-a da Identidade Social Real que são os atributos que de fato a pessoa prova possuir.

A discrepância entre a Identidade Social Virtual e a Identidade Social Real gera um mal-estar e um  descrédito que compromete, inclusive, a relação destes Homens de Rua  com os demais segmentos da sociedade. Este comprometimento não aparece de uma só vez, mas é um processo que, didaticamente, podemos subdividir em três etapas.

Num primeiro momento, este Homem ou esta Mulher não se vê como Pessoa em situação de rua. A primeira reação é de desprezo quanto aos atributos negativos dos demais Homens de Rua e de apoio às normas da sociedade mais ampla. O pernoitar na rua ou nas praças parece-lhe um ato isolado, fruto da falta de dinheiro para a pensão apenas aquela noite. Não se sente igual àqueles que conheceu nessa situação de dificuldade e até para sentir-se bem, considera sua presença na rua como provisória.

Nesta etapa, fruto da insegurança na sua relação com os outros do bando, tende a uma atitude  desconfiada, deprimida, hostil, ansiosa e confusa. Sente solidão, mesmo quando está cercado de pessoas. Ela é gerada quando não vê a possibilidade de estabelecer contatos reais e pela sensação de hostilidade provocada pelo sentir-se diverso daquele grupo.

Pouco a pouco, vai-se acostumando aos companheiros da roda[1] e ao mesmo tempo em que experimenta a sensação do isolamento, percebe com clareza sua falta de habilitação para este novo modo de vida. Este viver na rua implica uma apropriação de usos e costumes, no geral diversos dos que tinha anteriormente. O alimentar-se sem ter acesso a talheres, leva à construção de ferramenta semelhante ou  ao  uso  das mãos[2] Inúmeros outros exemplos  poderiam   ser  dados.

A verdade é que, no contato com pessoas com  as quais compartilha o ser Homem  de  Rua,  vai sendo instruído quanto aos artifícios necessários ao sobreviver é neste ambiente também que pode colocar sua angústia, achar consolo, refúgio e lamentar-se, compartilhando com eles o sentimento de que é humano e, apesar da dificuldade, essencialmente normal[3] É num segundo momento que começa a se perceber desacreditável. Nesta fase ainda não aceita os companheiros, mas percebe que já não tem muitas condições de deixá-los, já que a necessidade os irmana. A ambivalência do manter-se unido a algo que repele leva a um ódio, não de si mesmo, mas do grupo ao qual se consigna.

Este é uma etapa de muitos conflitos, pois não tem clareza do que os outros pensam dele, sente-se o único de sua espécie e muitas vezes tem a sensação de ter o mundo todo contra si. No contato com os outros, a presença de uma autoexigência se alterna com uma autodepreciação quando esta só. Ao mesmo tempo em que se desespera por sentir-se em exibição, pouco a pouco aprende a incorporar o ponto de vista do grupo e, apesar de vê-los como diferentes de si, começa a perceber que têm alguns atributos semelhantes aos seus. Aceitação e rejeição em relação aos outros e a  si mesmo, são sentimentos que se alternam, numa espécie de incorporação desta nova maneira de viver. Intimamente suscetível, percebe-se  pouco  a pouco passar de desacreditável a desacreditado, quando seu estigma passa a estar visível a olho nu.

Neste terceiro momento, já não tem dúvida de que é Pessoa em situação de rua. Iguala-se aos companheiros de infortúnio eles ganha velocidade uma certa reorganização interna, bastante radical que lhe vai dando clareza de que possui um estigma particular e que deve arcar com as consequências.

Não se trata, no entanto, de um processo que respeite a sua individualidade, onde, como ser, se educaria, cultivaria as qualidades que percebesse carregadas de valor e se distanciaria de outras. Ao contrário  disso, numa vida orientada para a particularidade, como diz  Heller (1987), ou reprime  simplesmente as necessidades particulares ou as canaliza para  zonas não proibidas. Na convivência com seus iguais  aprende a usar as  desvantagens de ser  Pessoa em situação de rua  para, a partir delas, organizar a nova vida. É um processo de resignificação que leva esta Pessoa em situação de rua, a se conformar em viver num mundo incompleto, que se sedimenta cada dia mais.

Durante todos estes momentos e etapas vai escolhendo  elaborando as experiências passadas, numa espécie de aprendizado-tortura que alterna aceitação, correção, hábitos e angústias. Neste processo vai selecionando, em sua memória, os acontecimentos que possam justificar este destino, como meio de explicar a situação em que se encontra. Ora se retrai, ora se aproxima dos outros, geralmente com uma certa agressividade, e neste vai-e-vem  vai-se inserindo neste novo bando. A sociedade mais ampla, por sua vez, ora é fonte  de exigências de algo que não se sente em condições de cumprir, ora age como se ele fosse um fantasma,  uma não pessoa.

A desvalorização da Pessoa em situação de rua estende-se a todo o seu modo de viver e tudo o que toca, numa discriminação vivida e cotidiana.

Esta espécie de racismo que leva a sociedade a excluí-lo, é um

“conjunto de condutas, de reflexos adquiridos, exercidos desde a primeira infância, e valorizado pela educação, … e está tão  espontaneamente  incorporado aos gestos, às palavras, mesmo às mais banais, que parece  constituir uma das mais sólidas  estruturas da  personalidade.” (Memmi: 1967:33)

 

Parafraseando Foucault, podemos dizer que a marca mais forte da impossibilidade da pessoa em situação de rua se considerar sujeito é o silêncio ao qual é submetido. Sua fala é constantemente negada ou desfigurada (Bruni: 1989), nos fala da produção do silêncio dos habitantes sem rosto.

A razão deste preconceito é o estereótipo que, oprimindo todo esse grupamento humano, define-os como seres preguiçosos, débeis, com maus instintos, inaptos para viver dignamente e com uma grande familiaridade com a miséria. A maneira de referir-nos a eles de forma agrupada, despersonaliza e atinge um a um anonimamente. Esta visão, além de evidenciar a diferença entre eles e o restante da sociedade, legitima tanto as ações protetoras como as repressivas.

A percepção  relativa à  postura  profissional  dos  técnicos dos órgãos do Poder Público, como das Entidades, leva estes indivíduos a se comportarem da maneira esperada em  cada  local,  na  medida em  que, nestas Instituições,  a  concessão de benefícios  sociais, apesar de todo um discurso sobre o direito do cidadão, em última instância  é tratado sob a perspectiva compensatória.  A espera e a tensão a que é submetido nas instituições sociais causam um espécie de stress. A sensação de alívio ao ser atendido reforça sua inferioridade frente ao técnico.

O distanciamento do polo de tensão  sobre sua própria vida diminui a autoconfiança gerando um sentimento de impotência, de não ser ninguém. O viver sem comandar sua própria vida, onde todas as decisões são tomadas por outros, onde os desejos não influem no cotidiano é situação extremamente opressora.

A reação compensatória alterna-se entre a revolta e o desalento, quando se abre mão de tudo. Além disso, numa ótica defensiva, passa a valorizar demasiadamente aquele que decide, buscando  acreditar que vão cuidar dele. Quando se  frustra,  ao invés de perceber que é essa estrutura que é assim, culpa os intermediários, os funcionários que o atendem diretamente, atribuindo o mau atendimento à  má vontade.

Sentir-se impotente e ser impedido de se manifestar como se deseja, se é comum e adequado à infância é situação desastrosa na integração de que qualquer adulto. Ora, sente-se rebaixado ao ser tratado  infantilizadamente, ora é forçado a ouvir todo um discurso sobre a cidadania e os direitos. Neste segundo caso, no entanto, a linguagem aparentemente crítica se faz acompanhar de uma ação domesticadora e  castradora.

O desconhecimento de sua realidade e uma percepção equivocada desse vivido leva a decisões inadequadas mas que ele não recusa, na medida em que não vê outra opção.

A consciência de liberdade, para quem vive na rua, pode ser vista como, uma consciência adormecida, na medida em que se tem clareza dos direitos dos outros sem ter instrumentos para reivindicá-los para si.  Acata-se  um  viver  de  segunda classe,  na medida em que , por força da ideologia dominante, acaba-se por aceitar como verdadeira a imagem que a sociedade faz de nós. Pouco a pouco, passamos a construir uma imagem de nós mesmos a partir dessa outra ótica, que inúmeras vezes conflita com nosso eu interior. Nomeamos de  Identidade Projetada a imagem que eles passam de si.

O rompimento da privacidade, evidente  para quem vive na rua, provoca a perda do respeito  próprio, gerando pouco a pouco um desintegrar da individualidade. Anula-se a autonomia, vista esta como a capacidade do homem em se autodeterminar, na busca de um sentido para a sua vida.

A instabilidade e a transitoriedade desse modo de  viver dificulta sobremaneira a manutenção de relações permanentes, seja no campo do trabalho, seja na esfera  afetiva.

 

AS RELAÇÕES PESSOAIS E SOCIAIS DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Em algum tempo e em algum estrato social, estes homens e mulheres foram socializados primariamente. Ao nascer, cada um desses seres tornou-se membro da sociedade e, a partir das relações sociais e da filtragem dos outros significativos, eles assumiram,  modificaram e criaram um mundo que passou a ser o  seu mundo.

Este processo de exteriorização, objetivação e interiorização gestou uma identidade que, apropriada por cada um deles, inseriu-os não apenas  em esquemas motivacionais e interpretativos,  mas definiu  um linguajar que, sem duvida, deveria acompanhá-los por toda a vida. Este linguajar oral e simbólico foi a base de sustentação, a partir da qual estes homens e mulheres adquiriram conhecimentos específicos que, em virtude dos papéis que desempenharam, alteraram parcialmente sua compreensão da realidade.

Berger (1976:208) afirma que

“uma vez que a realidade subjetiva nunca é totalmente socializada, não pode ser totalmente transformada por processos sociais”.

 

Existem entretanto casos de  transformação que  parecem  totais quando comparados com modificações menores. O autor chama de alternações  a  essas transformações e diz que o protótipo histórico da alternação  é a conversão  religiosa.

O que ocorre quando a transformação de mundo é uma decisão exterior ao indivíduo, e ainda assim não lhe deixa espaço para o contrapor-se? Segundo Berger, na  socialização secundária, o presente é interpretado de modo a manter-se numa relação íntima com o passado, enquanto que na Ressocialização/alternação busca-se o reinterpretar o significado dos acontecimentos e pessoas do passado de modo, a refabricá-lo a partir da fantasia.

No caso dos Homens de Rua, o distanciamento dos outros significativos que povoaram a infância e mesmo   a juventude, muitas vezes, se dá com a intenção de preservação do eu interior.

 

“Meus pais não merecem me ver chegar desse jeito. Vou primeiro vencer na vida, depois eu volto” – assim  se expressava Fernando, uma semana antes de morrer assassinado.

 

A maioria destas saídas de casa ocorreu em virtude da necessidade da busca de campos de trabalho. Nestes  casos, a dificuldade em reconhecer  que não se conseguiu vencer, o não assumir o “fracasso”, inicia um processo de ruptura biográfica. A falta de moradia, e portanto a ausência de endereço-referência, é uma das justificativas para esse afastamento. · ausência  de endereço para receber a resposta, une-se a dificuldade motora para escrever, fruto mais do alcoolismo que do analfabetismo.  A imprecisão do endereço de casa, muitas vezes causa  devolução pelo correio. Juntando-se a isso a falta de motivação por nada de bom ter para contar, estende-se  a distância de tempo entre as cartas.

Esta espécie de ruptura biográfica é um processo tenso, pois permanece latente o querer saber de casa. Por outro lado, num mecanismo que vemos como de defesa, há um sublimar da relação familiar. A seletividade da memória permite uma lembrança que maquila as antigas relações, segundo um ideal introjetado. Ao lado disso, num dia-a-dia que exige o adaptar-se a novas condições de vida, ocorre a modificação de  hábitos e costumes .

Nas vezes em que, ao conseguir algum dinheiro, as pessoas resolvem retornar à terra natal,  geralmente  se frustram tal é o fosso gerado por estas duas situações: o modificar-se num novo habitat e o fantasiar do modo de vida anterior.  A mudança de mundo implica também  na  necessidade  de  uma estrutura afetiva de plausibilidade que permita a internalização de outros significativos, com força suficiente para modificarem o que estava primariamente introjetado, aliado à segregação em relação à vivência anterior.

No mundo da rua, parece-nos que o processo é inverso. As pessoas são segregadas, isoladas, e ficam sem as mínimas condições de sobrevivência, na medida em que se veem sem ocupação regular, numa sociedade cujo ethos é o trabalho. Como consequência disso, ficam  sem moradia, longe da família, e conhecem de perto a violência, tanto individual quanto institucional. O agregar-se a grupos cujas carências são semelhantes, visa  facilitar o adequar-se à nova realidade, processo esse que levará à modificação de hábitos, costumes e linguagem.

Meses atrás, num  conflito entre  Homens de Rua, pude presenciar a reflexão relativa a um recém-chegado que ainda não era tido por todos como um “igual”. Os membros do grupo discutiam a proteção intragrupal que, em nome de uma ética própria, garante cada membro.

Exemplificando o tipo de relação que existe nos grupos, cito uma fala do Gerson:

“Ele é meu irmão. Não porque nascemos da mesma mãe, mas porque já ficamos sem comer juntos, já dividimos comida, já puxamos carroça, já dormimos no mesmo lugar.

 

A autoestima somente consegue se manter na medida em que se tem clareza de que a assimetria entre a identidade socialmente atribuída e a subjacente real são  injustamente vistas pela sociedade maior como  desigualdade. Este perceber permite um valorizar da autoidentificação invisível que é a interna ao grupo, e uma fuga  no considerar a imagem  externa.  Cada companheiro  que adoece ocasiona todo um discutir  do grupo . A vontade de visita-lo, acompanha-lo e saber o que se passa, deixa à mostra a necessidade da manutenção de laços afetivos.  Na morte, todo o empenho no garantir um ritual adequado e o não deixar enterrar como indigente. Elisabete, poetisa da rua, assim escreve sobre um  companheiro morto:

 

“Hoje morreu Juvenal.

(ainda vão chamar indigente!)

Morreu jogado, foi mal enterrado,

ninguém chorou…

Mas saudades Juvenal deixou

Aos companheiros de bebida,

aos loucos jogados da vida…

E à sua poeta, Juvenal…” (Mota: 1987:134).

 

O nome próprio tem um significado forte, principalmente quando já  se perdeu quase toda ligação com o passado. O nome que os pais escolheram e pelo qual em casa somos conhecidos é algo que ganha significado especial, e, de repente, meu nome sou eu. Na rua não importa o nome próprio. Vive-se sem ser visto por nada e por ninguém. A ninguém interessa quem somos. Mas  do que isso, o documento que não tenho mais  era a última ligação concreta com o passado… Para se defender, vivendo na rua, no entanto, aprende-se a não deixar que saibam seu nome real;  há pessoas que, ao serem detidas, dão o primeiro no me que lhes vem à cabeça.

 

Se souberem meu nome, – dizem os Homens de Rua – poderei ficar “sujo”. É perigoso,  portanto, deixar que saibam o nome…”

 

É um cotidiano permanentemente conflitivo… mas se desvelarmos essa realidade, poderemos percebê-la como absolutamente lógica. Muitos técnicos, as buscarem analisar a capacidade de  orientação desses indivíduos, basearam-se em premissas irreais, tal a diversidade desse cotidiano. Exemplo disso é a relação espaço-temporal. Podemos  fazer uma análise simplista, perguntando-nos: o que altera nesse dia-a-dia saber se são dez  ou  onze horas? O que importa se hoje é segunda ou terça-feira ? Seja como for, as pessoas passam apressadas, correndo para seus compromissos, e os Homens de Rua aparentemente permitem-se,  calmamente, ver  a  vida passar. Seus parâmetros temporais são definidos muito mais pelos acontecimentos do que pelos ponteiros do relógio. Justificando esta visão, podemos nos referir  a outros  grupos sociais e outros povos. Podemos  perceber que os registros temporais diferenciam-se a  partir das relações  sociais. No rural, por exemplo, o dia inicia-se  com o cantar do galo e os dias dividem-se em tempos de plantio e de colheita.

A alteração do registro temporal dos Homens de Rua, porém, pode significar mais que isso.  Para quem está na rua, o relógio parou. Não mais existe ontem nem existirá amanhã. Vive-se num presente imenso e sem sentido, que bloqueia a lembrança do passado e impede que se tenha esperança no futuro.  O processo de perdas sucessivas é de tal modo rápido e desestruturante que não há como processá-las, que dirá  superá-las.

“Quando perde contato com seu próprio passado, o Homem de Rua deixa de ter ponto de apoio para projetar-se… A vida na rua, muitas vezes entremeada de momentos de confinamento em instituições não oferece nenhuma  possibilidade. Os dias parados sem manhã, tarde ou  noite, sem momento de trabalho e de descanso é espaço vazio que impede o Homem de Rua de organizar sua dinâmica psicológica interna.” (Moffat : 1984:31).

 

A data do nascimento, a idade, e o tempo em que se está na rua nada disso é referência. A lógica da rua mantém presente na mente apenas o que é necessário ao sobreviver. E os Homens de Rua se confundem muito quando lhes solicitamos  esses dados que eles já não têm.

Quem acompanha os grupos de rua percebe , desde cedo, que, apesar da ausência de moradia, os Homens de Rua costumam localizar-se sempre nos mesmos lugares. A apropriação do logradouro público implica reconhecimento da área e dos recursos de que dispõe. Pouco a  pouco a Pessoa em situação de rua sente aquele território como o seu “pedaço”[4] Para sobreviver na rua, há que se ter familiaridade com o linguajar da rua, que possibilita o acesso aos grupos.

Os estranhos são identificados pelo desconhecimento dos códigos e precisam clarear a que vieram, para serem aceitos.

Quando Berger (1976:211) explicita este processo de Ressocialização, dissecando-o em ruptura biográfica, reorganização do linguajar e na necessidade de uma estrutura afetiva de plausibilidade, fala-nos com clareza na necessidade de um aparelho legitimador, dizendo que

“o que tem que ser legitimado não é somente a nova realidade, mas as etapas pelas quais é apropriada e mantida, e o abandono no ou repúdio de todas as outras realidades”.

 

No que se refere à alternação sofrida pela população de rua, qual seria este aparelho legitimador?  Migrantes ou não, estas pessoas se afastam da família  de origem, seja por rejeição, opressão ou busca de  sobrevivência. De outro lado, sofrem penúria econômica ,têm precárias condições de moradia e uma vida baseada na insegurança, fruto do desconhecimento quanto ao futuro e da convivência constante com a violência física, a doença e a morte.  Essa alternação se constrói, portanto, a partir de perdas sucessivas.

O mecanismo de aceitação do processo de Ressocialização parece-me ser semelhante ao da banição.  Segundo Goffman (1988), ainda que se perceba injustiçado, o banido não questiona o direito da sociedade bani-lo e  por isso mesmo entrega-se à essa sentença de exclusão.

A matriz de exclusão presente no que se refere a essa população de rua, de certa forma, é introjetada e o impede de reagir, e de reivindicar mantendo-se essa população, de certa forma, subalternizada e passiva.

 

E A RELAÇÃO COM A FAMÍLIA DE ORIGEM?

Além dos relatos feito em conversa com os técnicos e monitores, a análise de cartas enviadas às famílias permitem que se identifique um universo bastante heterogêneo de relações.

Há famílias que não querem uma reaproximação presencial, e os pedidos de ajuda para retornar à casa da família são descartados…

Outras, ficam felizes em ter notícias e, de imediato se colocam a disposição para ajudar o retorno destes membros da família que apontam dificuldades longe dos seus.

Quando estas pessoas ficam muito tempo sem dar notícias, as famílias chegam a pensar que estão mortos e as cartas são carinhosas e a relação se fortalece. Alguns informam à família que estão em processo de melhoria de vida e falam na volta para casa… mas nem sempre as famílias dizem sim.

Pode-se perceber, no conjunto analisado que receber notícias agrada às famílias, já a proposta de retorno é rejeitada na maioria das situações. Álcool e drogas são os motivos apontados, e em algumas situações o roubo de objetos da casa para vender para sustentar o vício.

Dos casos que acompanhei, na década de 90,  o que mais me impressionou foi o de um homem que  me pediu ajuda já que a família não deixava completar ligação interurbana a cobrar e ele queria falar com a mãe, para voltar para casa. Tratava-se de um rapaz novo, assustado com o desemprego e ainda sem os vícios do viver da rua. Sua família estava bem, sendo o padrasto vereador numa cidade pequena. Forneci fichas para que este rapaz falasse com a mãe e impressionou-me o seu desespero ao ouvir dela que homem que é homem vence na vida e que ele não tinha nada que voltar, já que o padrasto ficaria muito irritado. Poder voltar para  casa da mãe e de lá seguir para a fazenda dos avós era o que ele implorava…e esta mãe mostrava-se irredutível. A seu pedido, dias depois, eu liguei para conversar com ela e ouvi a seguinte explicação:

“Este que ele chama padrasto, na verdade não é meu marido, já que não regularizamos nossa união, vivo com ele há sete anos e não quero sair disso sem dinheiro. Ele é bruto, não me sinto em segurança e se meu filho voltar, posso perder essa situação. Tenho que pensar em mim e no futuro de meus filhos…”

 

E, continuou a dizer não, apesar de saber a situação real desse filho.

Nem todas as famílias cujos membros chegam a ser Homens de Rua tomam todavia essa atitude de rejeição. Muitas vezes há o pedido de que retornem e até a visita de mães, irmãos e outros parentes, querendo levá-los de volta à casa.

Lembro-me de um homem, Bruno que a partir de um atropelamento ficou com deficiência no andar. Tinha familiares residentes em São Paulo mas não conseguia se  imaginar dependente da irmã e do cunhado e com isso vivia na rua e sobrevivia de pequenos bicos.

Elias, mais conhecido como Bitinha, era outro que, apesar da insistência da família, dizia não querer voltar. Visitava sempre a irmã, telefonava e escrevia à mãe mas não  queria saber de depender dos parentes, já que portava uma deficiência que o impedia de ter emprego regular.

Há famílias que reagem de outro modo…Houve uma vez em que fui portadora de uma carta que magoou muito um rapaz. Vivendo há anos da construção civil, ele morava em alojamentos, com períodos de desemprego quando ficava na rua. De certa feita pediu-me que escrevesse à sua mãe, solicitando notícias e a certidão de nascimento.

A resposta de casa foi rude, inclusive contando da morte de um irmão e responsabilizando-o por isso…

Dias depois de entregar a ele a carta-resposta, encontrei-o na praça e ele me disse:

 

“Que carta, dona Madalena que carta!!! Aquilo nem parece carta de mãe. Melhor  seria ficar sem documento. Que carta!!!”

 

Meses depois no entanto, ele me procurou, dizendo querer escrever para casa, pois mãe fica preocupada se fica sem noticias. Era como se aquela carta não tivesse existido…

 

Pelo que pude perceber, em muitas das situações em que há uma distância da família isso é ocasionado não por falta de afeto, mas porque tem uma dificuldade em aceitar a dependência da família nas situações de desemprego ou subemprego.

“Se eu agir em fortaleza como ajo aqui, fazendo bicos e achaques, minha mãe vai se envergonhar de mim”. – dizia Claudionor.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BERGER, Peter I. e outros – A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE, RJ, Vozes, 1976, 4ª. edição.

 

Bruni, José Carlos – “Foucault: O Silêncio Dos Sujeitos”em TEMPO SOCIAL, revista de Sociologia, SP, USP, 1989

 

 

GOFFMAN, Irving – ESTIGMA, RJ, Guanabara, 1988, 4ª. edição

HELLER, Agnes – SOCIOLOGIA DE LA VIDA COTIDIANA, Barcelona, Península, 1987, 2ª. Edição.

 

MEMMI, Albert – RETRATO DO COLONIZADO PRECEDIDO DO RETRATO DO COLONIZADOR, RJ, Paz e Terra, 1967.

 

MOFFAT, Alfredo – PSICOTERAPIA DO OPRIMIDO, SP, Cortez, 1984, 5ª.edição.

 

MOTA, Maria Elisabete – DECLARO QUE ESTOU EM TORMENTO, RJ, Espaço e Tempo, 1987.



[1] Companheiros de roda são aquelas pessoas com as quais partilha as carências, os medos, os vexames pelos quais passa…

[2] Cada pessoa vive em condições sociais concretas. Antes de tudo, deve aprender a usar as coisas, apropriar-se dos sistemas de uso e dos sistemas de expectativas (Heller: 1987)

[3] Frente a pessoas estigmatizadas, podemos chamar de normais àquela que não se afastam das expectativas particulares da sociedade.(Goffman: 1988)

[4] A Pessoa em situação de rua, como não poderia deixar de ser, vive circunscrito a um bairro, a uma área geográfica. O domínio sobre as reações das outras pessoas que ali transitam, o conhecimento dos códigos de uso dos recursos do local transformam este território num espaço doméstico do qual se pode tirar a sobrevivência.


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