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OS PRAZERES, AS DELÍCIAS E AS DIFICULDADES EM ORIENTAR MONOGRAFIAS
fevereiro 28th, 2013 by Magdalves

O cenário no qual se realiza o exercício profissional do Assistente Social é o contexto das relações sociais, e foi na década de 70 que o corpo profissional passou a refletir coletivamente a necessidade de ampliar a produção de conhecimento que se contrapusesse ao empirismo e ao pragmatismo. A primeira conquista foi um avanço teórico que se seguiu a um potencializar dos processos de investigação social voltados para a construção de novas propostas que dessem resposta às diversas expressões da  questão social.

Nos diversos níveis de formação, a maioria dos cursos propõe a elaboração de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), os quais são uma das exigências curriculares para a obtenção do diploma de bacharel em Serviço Social.

Estes TCCs se configuram como atividades acadêmicas de registro, sistematização e apresentação dos conhecimentos adquiridos durante aquele curso e que devem ser potencializados por processos de pesquisa e investigação social.  Um dos principais objetivos deste processo é levar seus autores a cotejarem teoria e prática num exercício de apropriação da realidade profissional, questionando processos e propondo alternativas na busca de soluções para os impasses analisados.

O TCC tem por finalidade estimular a curiosidade e o espírito questionador do acadêmico, fundamentais para o desenvolvimento da ciência.

Segundo Paulo Freire (1997:24), esta

reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blablablá e a prática, ativismo”.

 

As Diretrizes do Ministério da Educação – MEC apontam que, assim como o Estágio Supervisionado,

o Trabalho de Conclusão de Curso deve ser desenvolvido durante o processo de formação a partir do desdobramento das matérias e seus componentes curriculares, [e deve ser] concomitante ao período letivo escolar”.

 

O entendimento é que este deve ser um momento de “síntese e expressão da totalidade da formação profissional”. Sendo o TCC,

“o trabalho no qual o aluno sistematiza o conhecimento resultante de indagações preferencialmente geradas a partir da experiência de estágio”.(MEC, diretrizes).

 

Em linhas gerais, o TCC se propõe a subsidiar a preparação científica de quadros profissionais para dar resposta às demandas sociais que se colocam para o Serviço Social. Espera-se deste trabalho uma reflexão teórico-prática que permita que o educando identifique obstáculos e proponha repertórios de ações.

Assim, a produção de conhecimento se dará, preferencialmente, a partir de investigação social, constituindo-se o TCC num instrumento complementar aos processos de capacitação continuada em termos de atualização da prática profissional.

Os TCCs podem ser elaborados por um único educando ou por um grupo, sempre sob orientação de um profissional assistente social, a maioria dos quais é submetido a um seminário da avaliação aberto conhecido como Defesa.

Ainda segundo as diretrizes do MEC, o TCC é uma sistematização do conhecimento resultante de um processo investigativo, originário de uma indagação teórica, preferencialmente gerada a partir da prática do estágio no decorrer do curso. Este processo de sistematização, quando resultar de experiência de estágio, deve apresentar os elementos do trabalho profissional em seus aspectos teórico-metodológico-operativos.

 

Este artigo se propõe a refletir sobre a metodologia de orientação, o papel do orientador e a relação orientador/orientando neste processo de ensino-aprendizado.

O PROCESSO DE ORIENTAÇÃO, O PAPEL DO  ORIENTADOR E SUA RELAÇÃO COM O ORIENTANDO

Entendendo o processo de orientação de TCC  como momento de interação visando aprimorar o conhecimento do educando, é fundamental a postura do professor-orientador no que se refere ao cuidado, à responsabilidade em relação e este orientar que deve incluir o estimular o educando, tratando seu potencial e suas dificuldades de modo a apoiá-lo na construção da sua produção acadêmica.

Na maioria dos casos, o ritmo de apreensão do conhecimento pelo orientando é mais lento do que o ritmo do orientador que deve procurar entrosar-se com seu orientando, respeitando seu ritmo, instigando-o e estimulando a busca de elementos que possam enriquecer a apropriação da realidade na ótica dos desafios que o conhecimento coloca para todos nós. O orientando deve sentir-se acolhido e com segurança para colocar suas dúvidas e sugestões na medida em que o feedback é sempre preciso e encorajador.

Entendendo que este processo deve dotar o profissional (ou futuro profissional) de uma bagagem sólida em termos científico, cultural e contextual, é aconselhável que o orientador tenha trânsito na área escolhida de modo a facilitar a indicação de caminhos competentes ao seu orientando.

Mas… o que é ser orientador?  Podemos comparar esta função com a dos tutores na medida em que o orientador também é aquele que protege, dá amparo e defende.

No nosso caso, o orientando não é uma pessoa sem condições de se cuidar por si mesma, por isso não se trata de tutela, mas de algo mais complexo.

O orientador deve indicar caminhos, facilitar o aprendizado, mas deixar que seu orientando construa conhecimentos próprios que, não obrigatoriamente, precisam estar afinados com suas posições, desde que suficientemente embasados.

O orientador, garantidamente, é alguém que tem uma experiência maior no que se refere ao universo acadêmico e deve colocar-se como filtro quando seu orientando constrói conhecimentos novos que devem estar referenciados a parâmetros científicos.

No meio empresarial, há outras atividades similares à orientação. Uma delas é o “mentoring”  que pode ser traduzido como apadrinhamento. O mentor é um guia, um mestre e conselheiro que, com sua experiência profissional propõe que este participe de atividades, além de discutir com ele as descobertas que vai fazendo. Outra atividade similar é a do coach que reflete com o seu coachado sem obrigatoriamente conhecer os problemas  específicos que ele está estudando.

O orientador deve estabelecer, com seu orientando, uma rotina de orientação sistemática e planejada de modo a garantir eficácia e eficiência ao seu agir.

ROTINA DE ORIENTAÇÃO SISTEMÁTICA

Dentre as finalidades da orientação de TCCs, está o sinalizar dos aspectos que devem ser melhorados, e isto deve ser feito a partir da indicação de bibliografias sobre o tema; as quais precisam ser conhecidas ou ao menos lidas pelo orientador de modo a permitir a discussão equilibrada entre os dois.

Como diria Paulo Freire, o aluno deve ser levado a admirar seu objeto de estudo, entendendo-se este admirar como o processo de

“olhar por dentro, separar para voltar a olhar o todo-admirado, que é um ir para o todo, um voltar para suas partes, o que significa separá-las, são operações que só se dividem pela necessidade que o espírito tem de abstrair para alcançar o concreto. No fundo são operações que se implicam dialeticamente”. (Freire, 1981:44)

 

Este processo de admiração deve contribuir para a mudança interior deste orientando que precisa penetrar no objeto de estudo, desenvolvendo outras óticas já que inclui à visão anterior este novo olhar que foca aquele objeto de dentro para fora, transformando-se num observador privilegiado do seu objeto de estudo.

As conversas de orientação devem ser claras. Nelas, orientando é questionado pelo orientador que problematiza a ótica apontada permitindo o avançar do processo, mas sempre respeitando a criatividade deste orientando. O entendimento entre orientador e orientando deve ser tal que o entendimento dos passos dados sejam plenamente entendidos.

 

Nesta leitura, o orientar deve criar um contexto que ganhe a confiança do orientando,  escutar e articular as inquietações levando ao entendimento de uma interpretação construída pelo orientando, atuar a partir de questões mais do que de afirmações ainda que apresente algumas interpretações que sua experiência embasa.

 

Construção do Objeto de Estudo

O primeiro passo no processo de orientação, necessariamente, deve tratar da construção do Objeto de Estudo. A escolha deve ser do orientando, e é recomendável que o tema escolhido já seja de seu conhecimento, e muitas vezes sugere-se que o público alvo seja seu objeto de estágio.

A experiência do orientador, sem dúvida, potencializará a delimitação do tema pois, se o orientando for iniciante em termos de pesquisa pode tender a propor um universo por demais amplo, o que dificultaria tanto a coleta quanto a análise dos dados.

Além da necessidade de delimitação do universo, é fundamental que o orientando tenha conhecimento anterior relativo àquela temática, e uma afinidade teórico-prática do estudo a que está se propondo.

 

Planejamento

Um instrumento muito usado no planejamento da construção do TCC tem sido a elaboração de um Pré-projeto de Pesquisa, de modo a levar o orientando a refletir sobre as algumas questões como a temática escolhida, o problema inicialmente identificado a partir, possivelmente, de alguma hipótese, chegando à construção de seu objetivo geral, e a seguir de seus objetivos específicos.

Pensada a proposta inicial do que fazer, o pré-projeto solicita do orientando que justifique sua escolha. Qual a relevância do estudo proposto?  Quais os estudos anteriores sobre esta mesma temática?  Que ações já foram feitas com a finalidade de responder a ele e porque há a necessidade de novas ações?

Definidos o quê e o porquê, o orientando precisa explicitar o Referencial Teórico no qual irá se embasar para, na sequência propor uma metodologia de pesquisa, detalhando o tipo da pesquisa, o universo e a amostra, os instrumentos de coleta e o método de análise.

 

Articulação teoria/prática

Na construção do TCC, devem articular-se os diversos saberes adquiridos no curso, numa leitura integrada que não é apenas uma colcha de retalhos onde se junta o que foi aprendido em cada disciplina individualmente mas um ambiente onde se propõe o diálogo entre elas, permitindo uma leitura macro da realidade em que se está atuando.

 

Técnicas de coleta/tabulação e análise

O primeiro momento sempre demanda pesquisas documentais, seja a partir da leitura de documentos, seja consultando-se textos disponibilizados em bibliotecas presenciais ou virtuais. Identificar os textos, lê-los e fichá-los é parte do aprendizado do “como ler”  que é fundamental em qualquer processo de pesquisa. O que diz o texto? O que propõe o autor? O orientando concorda ou discorda disso e por que? Que aspectos do texto são mais relevantes e devem ser salientados para consultas futuras.

Um cuidado ético é fundamental no processo de consulta documental. Um parágrafo ou dois, explicitando uma ideia significativa, pode ser copiada, com o devido crédito, mas deve ser comentada com as palavras do orientando sejam elas de concordância ou discordância. Copiar ideias de outros, sem lhes dar o devido crédito, é cometer o crime de plágio.

Estes aspectos vão servir à construção do Referencial Teórico que deve anteceder a pesquisa de campo na medida em que é ele que vai iluminar a busca de elementos a serem analisados.

Um instrumento interessante a ser sugerido ao orientando é a organização de suas anotações numa espécie de Diário de Pesquisa. Um caderno de anotações livres permite que este pesquisador mantenha uma espécie de rascunhão que será a memória do seu processo de estudo e que pode ser consultado a todo momento facilitando a retomada de aspectos que, em outra ocasião, não pareceram tão significativos. Todos estes elementos contribuem para a ampliação da compreensão do universo em estudo.

Dependendo do universo estudado, pode ser significativa a participação em eventos e atividades que permitam uma leitura das reações daquele público o que enriquece a construção da proposta dos instrumentos de coleta.

Definido o caminho que vai ser tratado, é tempo de se construir o cronograma da pesquisa, com anotações mês a mês, etapa a etapa.

 

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DO TCC

 

Os critérios de avaliação de TCCs devem perpassar as diversas etapas como o processo de aprendizagem, a elaboração do texto, o conteúdo, as análises e considerações feitas a respeito, a consistência das propostas, o cuidado com as Referências Bibliográficas e o uso de normas da ABNT.

 

Processo de aprendizagem

Ainda que o TCC seja submetido a uma Banca de especialistas, quem tem mais condições de avaliar o processo de aprendizagem é o orientador, na medida em que ele conheceu este orientando no momento anterior ao processo de construção do TCC, acompanhou o empenho e as dificuldades que este orientando teve.

Em vários momentos, este orientador pode acompanhar o cumprimento de prazos, o interesse nas leituras e os movimentos feitos pelo orientando visando produzir um conhecimento de fato.

Elaboração

Dizem que escrever é uma arte, e muitos bons profissionais apontam dificuldades para fazê-lo. Sabe-se que quanto mais uma pessoa lê, mais facilidade ela tem de expressar suas ideias e, nos TCCs é necessário que o texto tenha qualidade na sua elaboração no que se refere a clareza, precisão na expressão de ideias e no uso da ortografia e gramática adequadas. Muitos orientandos despreocupam-se em relação a este aspecto na medida em que sabem que podem solicitar a especialistas a revisão do texto.

Um revisor até pode corrigir pequenos erros de grafia ou construção gramatical, mas é do orientando a responsabilidade pela organização lógica do texto, a clareza de expressão de seus objetivos, seu ponto de partida, desenvolvimento e análise conclusiva.

Conteúdo

Um dos primeiros aspectos na análise do conteúdo de um TCC é relativo ao nível de apreensão dos conteúdos do curso ao qual o estudo se refere. A partir do texto elaborado, há que se identificar se as colocações tem pertinência com o curso em si e com a Política de Assistência Social – já que falamos de TCCs de assistentes sociais.

As referências utilizadas estão corretas? Uma coisa é você concordar ou discordar de uma referência lida e citada, outra é distorcê-la ou entendê-la pela metade, a isso chamamos de correção no seu uso.

As referências citadas no corpo do texto, obrigatoriamente, devem estar elencadas nas Referências Bibliográficas.  Na análise de conteúdo, o avaliador leva em conta a qualidade das referências utilizadas.

Na formulação do referencial teórico do texto, as referências bibliográficas foram bem utilizadas para adensar o conhecimento construído? As contraposições do orientando ao que pensam outros autores foram bem embasadas?

A pesquisa de campo trouxe elementos para a análise feita? A análise dos dados coletados é consistente?

 

Análise e Considerações Finais

É nas considerações finais que o orientando se coloca de maneira mais pura, apontando suas ideias, correlacionando o que propõe com o estudo feito e sugere propostas a serem implementadas, e esta proposição tem que ser consistente.

Espera-se que o TCC tenha um bom nível de abstração e apresente de forma original sua critica e propostas de outros caminhos.

Uso das Normas da ABNT

O texto está formatado a partir da aplicação das normas da ABNT no que se refere à apresentação do texto e referências bibliográficas: fonte, transcrições, produções/autorias, rodapé, siglas/tabelas/mapas/gráficos/fotos.

 

 

APRESENTAÇÃO DO TCC À BANCA

Na maioria das situações em que os TCCs são produzidos, há uma etapa de apresentação do trabalho a uma Banca e a um público externo ao seu processo de produção, mas em algumas situações, os sujeitos da pesquisa são convidados para assistir a este momento.

Lembrando-se que a Banca teve acesso ao trabalho escrito, mais do que detalhar o Trabalho na exposição, o orientando deve contar do processo de construção, salientando objetivo, hipótese, metodologia, trajetória da pesquisa, análise dos resultados, recomendações, considerações finais e referências bibliográficas.

 

Este é um processo de crítica-reflexiva da produção discente e a escuta da Banca deve ser cuidadosamente anotada objetivando reformular os pontos sugeridos para preparar o material para uma possível publicação.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Freire, Paulo – EDUCAÇÃO E MUDANÇA, SP, Paz e Terra, 1981.

 

_____________PEDAGOGIA DA AUTONOMIA, SP, Paz e terra, 1997.


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