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CONSTRUINDO HABILIDADES NO TRATO COM PESSOAS
dezembro 15th, 2012 by Magdalves

A principal matéria prima na atuação dos profissionais sociais são as pessoas. Crianças, adolescentes, adultos e idosos; negros, pardos e brancos; ricos e pobres; estes sujeitos sociais tem escolaridades diversas, orientações sexuais diversas e colocações no mundo do trabalho que podem receber classificações as mais variadas.

Diferentemente do que ocorre com outros animais, o homem e a mulher são seres em relação e é neste relacionar-se que este animal-homem (e mulher) se transforma no ser homem e mulher.

O homem/mulher é provido de um mecanismo de adaptação flexível e criativo que conhecemos como inteligência. A sociabilidade dos grupos humanos foi se construindo desde os primórdios da humanidade na medida em que este homem/mulher se percebia frágil para defender-se e alcançar seus desejos sozinho. A partir daí, passou-se a afirmar que a associação é uma tendência natural do homem, quando na verdade a história está repleta de relatos de guerras, lutas entre irmãos, exploração do homem pelo homem, escravidão, colonialismo, etc.. o que comprova que é uma tarefa hercúlea garantir-se um comportamento societário.

Ainda assim, no decorrer dos séculos, em todas as civilizações, em todos os países, há relatos de grupos diversos visando a defesa contra os inimigos e o aperfeiçoamento do indivíduo, à prática das artes, a recreação, a defesa da profissão ou a simples convivência.

Dizer que o homem é um animal social, é lugar comum e questionável se com isso estivermos pensando em cooperação entre iguais. Foi, talvez, nas atividades lúdicas da infância que o homem descobriu as possibilidades trazidas nas condutas coletivas e isso foi incorporado à sua natureza. Isso não significa que nestes grupos aprendemos apenas a atuar como iguais, mas  também que desenvolvemos estratégias de mando e obediência a partir da lei do mais forte, seja a partir da força física, ou do convencimento e admiração.

Sociedades patriarcais formaram-se a partir de grupos familiares e de parentela. No início da era cristão, surgem os “grupos territoriais” que vão dar origem às cidades. Neste mesmo período, surgem grupos hereditários, com menor número de pessoas, formados por castas sociais ou  pessoas que conviviam nos mesmos espaços domésticos. Nas comunidades rurais, surgem as “grandes famílias”  e os “grupos profissionais” – corporações e confrarias. Atualmente, temos uma variedade de grupos convivendo na sociedade e observa-se que estes se formam com muita rapidez.

Cada um de nós, independente de sua vontade, constitui relações de fato que nos dizem quem somos enquanto família, minoria e nacionalidade.  Num segundo momento, muitas vezes ainda na infância, somos inseridos em novas relações a partir de decisões de outros que até que ganhemos autonomia decidem por nós, impondo-nos sua autoridade. Exemplo disso são as escolas, a frequência a Igrejas, etc..

Quando ganhamos autonomia, passamos a decidir a que grupos queremos aderir ou abandonar, e é nestes espaços que precisamos refletir como deve se dar nossa atuação.

Neste atuar junto, homens e mulheres vão desempenhando papéis e muitas das trocas pessoa-a-pessoa podem ser observadas e constituir-se em experimentações visando a melhoria destas relações.

Um aspecto a ser analisado quanto a estes espaços de participação é quanto à formalização. Ao manifestar nosso interesse em aderir a estes espaços, precisamos identificar se existem regras para ingresso e participação efetiva de cada membro, pois sejam eles formais ou informais, sempre há uma definição do modo mais adequado de se comportar na relação com estas pessoas.

Associar-se a clubes, participar de Associações, matricular-se em cursos pressupõe que conhecemos as “regras do jogo” e com elas concordamos e não é desconsiderando-as que podemos combater aquelas das quais discordamos.  Mesmos grupos ditos informais, como cantinhos de costura, times de várzea e grupos de crianças que brincam juntas tem regras, ainda que subliminares, e estas devem ser respeitadas.

Lidar profissionalmente com as pessoas individualmente ou nestes grupos constituídos a partir de uma finalidade qualquer exige de cada um de nós cuidados e habilidades que podemos ir construindo no dia-a-dia.

Dentre as muitas dificuldades que este agir requer, salientamos o “saber escutar”, o “saber comunicar nossas ideias”  e o domínio de nossas “emoções e emocionalidades”.

Durante muitos séculos, o processo de aprendizado de trabalhadores sociais apontava a necessidade de uma certa “neutralidade”. O profissional deveria ser impessoal, distante destas pessoas com as quais atuava e nunca se envolver com os problemas que lhes eram trazidos.

As primeiras  “atividades do serviço social” não davam importância ao fator “grupo”, mas propunham atividades para atrair os jovens (e afastá-los da delinquência) e mais do que a intenção de socializar estes jovens com seus iguais, o que se avaliava era que isso era mais barato e mais fácil fazer em grupo do que individualmente.

Até 1930, o trabalho com grupos se expressava através de programas de várias naturezas: recreação,cultura física e esportes.  Estes trabalhos favoreciam a organização de grupos e o desenvolvimento dos indivíduos: escoteiros, bandeirantes, ACMs, ACFs.

Estes trabalhos tinham uma mística e, através das atividades, levavam a um código de atitudes, disseminando valores positivos. Outra ação voltada para grupos que também era desenvolvida neste período, era a “Ação Social” que buscava treinar ou ajudar indivíduos em grupos para melhorar o ambiente, obter uma legislação adequada ou os recursos necessários à comunidade. Estes eram treinados para serem animadores de comunidades, transmitindo as propostas que haviam aprendido em seu “treinamento”.

Entre 1930 e o início da Segunda Guerra Mundial (1939) o serviço social dava ênfase ao “indivíduo normal” e aos seus problemas e necessidades, preocupando-se , também, com o emocional e os desajustados, tendo uma influência da psicologia.

GRUPOS SOCIAIS

Grupos sociais são conjuntos de pessoas que tem entre si relações estáveis e interesses comuns. Pertencer a um grupo social significa estabelecer com ele um sentimento de identidade que  pode se dar ou não através do contato permanente. Dependendo da força desta identidade grupal, posso me sentir parte do grupo ainda que esteja distante fisicamente, como é o caso de famílias que se distanciam geograficamente, mas se mantém unidas por laços que podem se expressar a qualquer momento.

É a partir destes diversos grupos que fazem parte da nossa vida que construímos nossa educação, nossos valores e a visão de mundo que nos permite analisar a realidade e definir a nossa ação política[1].

Qualquer trabalho, com grupos sociais, deve atuar em três frentes: a consolidação de vínculos entre os membros do grupo, as estratégias de comunicação e as representações que estes membros têm a respeito de algumas realidades. Muitas vezes, há a necessidade de desconstrução de representações estereotipadas para se construir novas representações que não estejam contaminadas por preconceitos e discriminações.

É na interação com nossos pares, nos grupos que participamos, que construímos nossas referências, sejam elas positivas ou negativas e é, também a partir de alguns grupos que introjetamos normas e parâmetros para nossas ações.

A PARTICIPAÇÃO EM GRUPOS

Todos os membros de um grupo tem um papel ativo na sua condução, na medida em que a construção do conhecimento e as estratégias a serem implementadas devem ser decididas coletivamente.

Neste entendimento, a constituição de grupos está baseada em três princípios: empoderamento, segurança e participação. Isso significa que a estratégia metodológica a ser implementada deve ter como uma de suas finalidades o empoderamento de cada um dos membros do grupo. Empoderados, os membros devem sentir-se seguros e motivados a participar cada vez mais.

Este empoderamento ocorre quando há transparência, diálogo franco e  quando o acesso às informações ocorre a partir de uma linguagem adequada aos participantes, tenham eles a escolaridade que tiverem, e venham eles de quaisquer meios culturais.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando iniciei esta reflexão pontuando a necessidade de habilitar profissionais sociais no trato com pessoas minha intenção era salientar que este deve ser o ponto de partida para qualquer trabalho.

Cursos universitários formam profissionais mas não dão conta de inseri-los nos trabalhos sociais existentes e com isso há uma ausência de caminhos que conduzam ao envolvimento com a dinâmica das cidades.

Mais do que a aplicação de dinâmicas e o conhecimento de técnicas de intervenção o que é necessário é uma capacitação no processo de diálogo: diálogo com os usuários dos serviços, diálogo com técnicos de outros projetos, diálogo com experiências de outros municípios de modo a construir-se, de fato, gestões integradas e socialização de boas experiências.

Dentre as atividades que venho desenvolvendo profissionalmente, saliento a capacitação de profissionais em diversos níveis numa proposta que pede o diagnostico das situações vivenciadas e a construção de propostas que deem respostas aos problemas trazidos.

 



[1]Nosso entendimento é que todos os seres humanos tem uma atuação política. Ao decidir fazer ou deixar de fazer alguma coisa, estamos nos posicionando politicamente, o que não deve ser confundido com a inserção em processos de política partidária.

 


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