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O COTIDIANO DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
Março 30th, 2019 by Magdalves

Ao pensar o cotidiano da população de rua não podemos desconsiderar o fato de que os Homens de Rua participam da vida de todo dia com toda a sua individualidade, toda a sua personalidade.

Tais homens e mulheres extraíram valores, normas e conceitos dos seus mundos de origem . Ao analisar esse novo viver, ainda que suponhamos que eles tenham repudiado seu passado, não podemos desconhecer que prevalecem valores parciais oriundos da comunidade de origem.

Diferentemente do ambiente no qual nasceram, neste novo espaço, mais do que aprender a alterar as condições, estes homens e mulheres são levados a alterar o seu modo de ser, para se adaptarem e sobreviver.

Cotejar a voz corrente que sugere que viver na rua é opção, com dados da Fundação Seade que aponta que 21,6 % abandonam casa e   família em busca de independência e liberdade, levou-me, em 1992, a entrevistar Homens de Rua sobre o sentido dessa liberdade.

“Saí de casa com 10 anos em busca da liberdade” – diz Ricardo, “e encontrei o Juizado.”

“Optar pela rua? Que nada!” – afirma Francisco. ” A gente é jogado, forçado… Ninguém escolhe essa vida… Só se for doido.”

Nos depoimentos, percebe-se a fragilidade da condição de vida , a falta de tudo e a imposição da sociedade que, inclusive, em nome da proteção, lhes toma os filhos…

“Ai, minhas filhas, onda estão?

Na Febem, separadas.

Agora, nesta hora, será que choram?

…ainda me recriminam …”

Esta poesia,(Mota: 1984) nos conta um pouco do desespero de ver seus filhos lhes serem tirados, barbaridade essa ainda mais cruel na medida em que introjeta nas pessoas a culpa por tal destino.

Sem moradia, sem ocupação, sem direito a ficar com seus filhos, sem possibilidade de conhecer e menos ainda de defender seus direitos, tais pessoas vão sendo espoliadas e excluídas do participar da sociedade. O ápice deste caminho de expulsão é o roubo de sua consciência. É o alienar, que fragmenta a identidade e os leva a perderem contato com suas raízes e a se sentirem “sobrantes”.

A contraditoriedade deste modo de viver, comparado com outros momentos, permite expressiva riqueza de análise.

Doméstica por muitos anos, Cinira chegou a conhecer vários países da Europa. Seus sonho de liberdade, no entanto, não era um querer voltar atrás, na medida em que assim se expressava:

” A liberdade é ficar livre do jeito que a gente quer ficar.

É ter uma casa sem telhado, sem porta e sem janela porque

não tem parede”.

E, depois de questionar o fato de que nós que não moramos na rua, estamos limitados por paredes, explica melhor, dizendo:

“Liberdade é o direito de gritar sem ninguém lhe apertar a garganta. E desse grito o eco quer encontrar espaço.

Quando eu grito, não quero que o eco encontre parede.”

Outras pessoas, ouvidas na mesma enquete, ligam a liberdade às necessidades primárias, às condições de vida e às possibilidades de trabalho.

“Liberdade ? Trabalhar… poder viver… ter lazer… ir e vir…

comer… morar…”

Assim se manifesta Carol, que viveu por muitos anos na rua, e há alguns meses conseguiu empregar-se, viver em um quarto de cortiço e depois disso comprar um barraco numa favela.

A fala de Carlos leva-nos a pensar:

“Liberdade seria a gente estar bem com a gente mesmo.

Estar feliz. vivendo bem, numa boa.”

O verbo no sentido condicional nos revela a avaliação de que, apesar de livre das amarras no cotidiano, ele não se sente livre…

Nesse mesmo sentido, a fala do Francisco, que condiciona a liberdade ao viver…

“A liberdade para mim, acho que é viver. A liberdade está na

vida da pessoa em si, de ele se sentir bem aonde ele estiver,

onde chegar, e não se sentir olhado.”

Este “sentir-se olhado” provavelmente está ligado à discriminação e ao preconceito, que se voltam contra eles e que são reação de quase toda a sociedade. A polícia também tem um olhar que assusta, na medida em que, a seu bel prazer, para, revista, interroga e até mesmo leva detidas pessoas que nada de mal estão fazendo.

O Trabalho está vinculado à ideia de liberdade em algumas outras falas, tais como a do Francisco, que diz:

“Ter uma vida mesmo, nem que seja controlada pelo trabalho.”

Lemos, quando fala do ser respeitado, inclui em sua fala a opção pelo trabalho, dizendo:

” O pessoal precisa respeitar o direito que nós temos, inclusive o trabalho na catação de papelão, como observador de carro, engraxate…”

Quando indagamos em que momento da vida foram mais ou menos livres, tivemos confirmada a percepção anterior de que sentem limitada a liberdade na rua, na medida em que nos depoimentos , declararam:

“Houve dois momentos. Um na minha infância… Eu me lembro… Me recordo ainda o meu pai dizendo sim ou não. Mas vivendo a liberdade mesmo? Agora, atualmente é que eu me sinto livre.”

Laerte, ao afirmar sentir-se livre agora, refere-se à sua nova condição. Viveu na rua alguns anos, mas há cerca de três anos está reinserido no mercado de trabalho, e com local de residência. Enfim, encontrou sua liberdade ao sair da rua, do mundo da rua.

“O momento em que me senti mais livre foi no momento em que eu estava numa boa, livre da rua.” – diz Carlos.

“Me senti com mais liberdade quando eu estava junto de meus familiares” – explica Alonso. E conclui: “não estava dormindo na rua.”

Foram apenas duas pessoas que relacionaram a liberdade a questões familiares, sentindo-se mais livres ao estarem sem a responsabilidade das companheiras.

“Foi após minha mulher ter me trocado por outro. Meu negócio é ser solteiro mesmo, viver só de aventura.

Porque eu não sou preso. Posso ir aonde quiser, sem ter responsabilidade a não ser consigo próprio.” Essa é a opinião do Lemos.

Quando eu saí de casa e antes de me casar. Foram 10 anos que eu tive mais liberdade” – assim se expressa Francisco.

E o Francisco, Chico Poeta, como é conhecido na rua, explica:

Era só eu, né! Não tinha patrão pra controlar minha vida, não tinha compromisso, não tinha minha mãe pra me ver toda hora e me gritar. Não tinha meu pai, não tinha meus irmãos pra tá mandando em mim e não tinha também coisas pra me prender na vida. Não tinha tarefas pra me prender.”

Em muitas das falas, nas entrelinhas, percebe-se presente também a necessidade do reconhecimento.

“A liberdade da gente” – diz Ricardo – “vem através da confiança da gente e também da sociedade.”

“Nós não temos liberdade” – diz a Carol. “O pobre, o sofredor de rua, o negro não tem liberdade por causa do preconceito.”

“Você pode estar limpinho” – continua Carol. “Mas a roupa está surrada… você está ressaqueado… então vem aquele outro e te desmonta. Você não está ali tranqüilo, você fica inibido, Você fica todo sem jeito.”

Chico ainda falou da discriminação, dizendo que ela é mais pesada quando não se está só.

Sem dúvida, se referia ao fato de que as pessoas se sentem ainda mais diminuídas quando são discriminadas à frente de seus companheiros, e não podem reagir à altura…

Para essas pessoas, acordar debaixo de pau, e ir preso sem saber o porquê é uma rotina.

Passei a noite cuidando dos carros. Tinha sono e deitei na praça. Acordei apanhando: eram quatro gambés[1] .Vomitei muito sangue e só depois fiquei sabendo que perto dali roubaram um casal…” – disse Severino.

A impunidade é total, na medida em que a supremacia da força e a submissão gerada pela falta de condições de cidadania faz com que sequer queixa seja dada na maioria dos casos.

Certa feita, um sem-teto de rua, que sobrevivia a partir da venda de amendoins, contou-nos que várias vezes tivera seu material tomado e, nestas ocasiões, fora agredido pelos homens da PM.

Face às reflexões do grupo onde se evidenciava a injustiça em tais situações, este homem resolveu reagir. Telefonou e deu queixa do ocorrido.

Minutos depois foi recolhido pelos mesmos policiais dos quais se queixara, levado a um local distante, brutalmente espancado para aprender a ficar quieto…

A subalternização dos Homens de Rua é cada vez mais reforçada por estas ocorrências, na medida em que sentem que não podem reagir, já que o policial está sempre armado.

As ordens dadas pelos policiais objetivam, sem dúvida, o rompimento da identidade e a sujeição pelo medo.

” Levaram a gente pro matão. Obrigaram a dar cabeçadas um no outro , e bater e gritar vivas… e a gente sabia que lá, naquele lugar, podia até morrer” – contaram Dedé e Ceará.

O obrigar a bater num colega, e sem motivo, leva à desagregação do grupo e compromete a autoestima, na medida em que se é forçado a agir pela coação: bater no outro ou morrer. E ações deste tipo se sucedem.

Ridicularizar também é instrumento usado nesse desmontar as pessoas. De certa feita, fizeram homens correrem de uma praça a outra, ameaçando de atropelamento com a viatura, e divertiam-se ao perceber o mancar e a dificuldade de andar dos mais velhos e aleijados.

E os relatos se sucedem…

” A polícia chega, quebra a garrafa, bate na gente e leva… Se tem comida, chuta… não dá pra reagir.” – diz Ricardo.

Apesar da clareza da injustiça, os Homens de Rua, face à constatação de sua impotência, tudo aceitam… Mas o que se passa no interior dessas pessoas ao serem assim espezinhadas?

A polícia chegou e mandou sair fora. Quando chegam e mandam cair fora, a gente tem que sair.” – fala Hélio.

E explica isso, dizendo que ele vai meter a mão na cara deles e não vai querer saber de nada. “Eu não tenho dinheiro para sair de lá, logo, quando a polícia chega eu vou logo saindo de fininho. Nem olho pro lado dele.”

Nas situações em que, de alguma maneira, estes seres se sentem respaldados, conseguem mudar essa atitude, gerando situações bastante gratificantes para os agentes que trabalham junto deles.

De certa feita, face ao recrudescimento da violência, acompanhamos três Homens de Rua à presença de um advogado, onde prestaram depoimento e onde discutiu-se a necessidade de chegar ao batalhão da PM para exigir contas desse agir. Dias depois, antes mesmo que conseguíssemos contato com o comando, os Homens de Rua fizeram a queixa diretamente e como consequência foram procurados pelos policiais acusados. Da conversa dos dois grupos, conseguiu-se uma trégua e durante alguns meses a violência contra eles diminuiu.

Como revelam todos eles, a sobrevivência na rua não é fácil.

“Todo homem e toda mulher tem que se garantir se quiser sobreviver ” – diz Sandra.

Há momentos em que se percebe o grupo todo abatido, deprimido… e quando se consegue que o motivo seja discutido, fica-se sabendo das atrocidades e maldades da PM.

Chegaram ao mocó, tiraram os revólveres e encostaram a gente no paredão. Forçaram a gente a repetir: sou um vagabundo…eu não valho nada… Tentamos resistir, mas falar o que eles queriam foi o único jeito de nos livrarmos” –conta Pedro .

O ser levado para o distrito é outro fato corriqueiro, mas assustador, já que tanto pode acontecer de se entrar e sair da delegacia, como ficar retido por muito tempo, dependendo da vontade dos policiais.

” Ainda bem que eu tinha um troco” – disse o Mineirinho.

“Quando a gente vai em cana, tem que deixar algum…”

Na verdade, frente aos policiais sempre se está em desvantagem. Eles se arvoram uma autoridade acima daquela que possuem, mas fazem isso a partir do porte de armas e enfrentá-las é muito complicado.

Mas não é só na violência, porém, que se dá a relação entre os Homens de Rua e os policiais. A polícia é o único auxilio nos casos de acidente, doença e morte. A dependência a eles, nestes casos, assim como a introjeção do preconceito e do desprezo percebido na relação com outras pessoas leva alguns homens de rua a justificarem até mesmo a repressão sofrida.

“A polícia tem razão. Vagabundo não se comporta. E as senhoras e as crianças têm Direito de vir à praça…” diz Hélio.

A relação com a polícia, no entanto, não é a única dualista e contraditória. A discriminação no comércio local e a proibição de entrar nos estabelecimentos, no final do dia, sucedem-se convites para exercerem bicos em trabalhos de faxina, ou carregando pesos e descarregando mercadorias.

Com familiares, parentes e amigos de outros tempos, a mesma dubiedade. De um lado, a saudade, a vontade de ter notícias, e de outro a vergonha de apresentar-se fracassado…

Como ser, no processo de relação, o Homem de Rua tem sua identidade, seu estigma, definidos a partir da sociedade que o rejeita, da solidariedade do grupo de iguais e da distância ou proximidade da família.

Ainda que, inicialmente, este Homem de Rua tenha tido clareza da injustiça por parte de uma sociedade que o rejeita, como todo banido, acaba por reconhecer à comunidade o direito de expulsá-lo. O coro da sociedade a afirmar sua condição de “não pessoa” leva-o a aceitar a expulsão sem reagir.

Como defesa, a bebida e a droga.

 

“Depende do momento, é melhor estar de cabeça feita,cheia, quente… Daí, você encara. Aí, você tem a coragem.”

“Se xingar, xingou… se sorrir, sorriu…Agora! se você está careta… é mais difícil” – dizia Carol.

As estratégias necessárias ao sobreviver na rua levam a um discurso fantasioso, na medida em que essa população é portadora de uma cidadania

invertida[2], ou seja, somente é considerada ao comprovar sua ausência de acesso a qualquer direito.

Nessa medida, o achacar é uma arte onde quem conta a melhor história consegue se virar melhor. Enganam-se, no entanto, aqueles que consideram essa situação caótica. Há uma lógica própria deste viver na rua, onde cada coisa permanece em seu lugar e onde as regras são respeitadas.

Observando-se que a maioria dos Homens de Rua permanece em bandos, mas sabendo da existência de alguns que preferem viver sós, busquei conversar a respeito e disseram que:

Para te falar a verdade, ninguém quer ficar sozinho. Este que fica sozinho, você pode crer, alguma coisa aconteceu.

Ele foi maltratado. Ele criou um medo dentro dele de, às vezes… Num grupo, sempre tem um que é mais ruim que outro. E procuram se aproveitar do mais fraco. Às vezes, ele quer chegar num grupo, quer conversar, Mas ele tem receio. Então, ele se isola. Se isola. ·s vezes, quando ele tem alguma coisa, nego vai lá e toma ele. E o medo cresce” – explica Benê.

Nos bandos há regras estabelecidas em comum, as quais não devem ser transgredidas em hipótese alguma.

A primeira delas regras diz respeito a denunciar aquilo que se presencia. Na rua, tudo se vê, tudo se sabe . Aquele que estupra ou mata, assim como aquele que viola criancinhas são apontados à boca pequena. Mas fora do âmbito do próprio bando, nada se viu, nada se ouviu, nada se sabe.

Essa regra, muitas vezes, cria situações bastante graves. O silêncio imposto em nome de uma certa ética de proteção não significa aprovação. E, muitas vezes, quem cometeu o erro é cobrado … e, isso gera ataques, feridos e muitas vezes a morte.

Em certa ocasião, ao chegar, nos deparamos com um dos homens de rua ferido gravemente; soubemos que ele se manifestara sobre algo que ocorrera e com o qual não concordava. Tempos depois é que soubemos dos detalhes. Um casal do grupo havia sido submetido por um companheiro, o rapaz imobilizado e a moça estuprada por dois homens. Ao chegar, o homem que, mais tarde foi esfaqueado, dissera que, independente da condição de vida, uma mulher ser submetida só pode levar o nome de estupro. E, acrescentou ainda que por mais que vivam em péssimas condições, a dignidade precisaria prevalecer. Como resultado, na outra noite, enquanto dormia, quase foi morto por aquele que acusara de estuprador…

Outro fato:

” Acordamos ouvindo o estertor dele. O assassino, de pé, com o porrete na mão, ainda disse que ele lhe devia algo…

O companheiro ali de lado, agonizando, e ele nos chamou para beber com ele…

“Nós não fomos, mas também não atacamos ele e nem denunciamos ele pra polícia pois ficamos com muito medo de morrer também.”

Ouvi este depoimento momentos após o ocorrido. O desespero, fruto do medo e da revolta por se sentir covarde, não defendendo o amigo morto, eram de estarrecer.

Outra regra vigente parte do pressuposto de que sobrevivência é fundamental. Eles dizem que comida, bebida e coberta não se regula. Com isso querem dizer que, se alguém tem um prato de comida, todos comem. Se alguém tem um copo de bebida, todos bebem. Se alguém tem cigarro, todos fumam… “Não regular”- esta é uma das regras mais rígidas do viver em bandos de rua, é uma regra que exige o sempre partilhar.

De certa feita, num final de ano tínhamos recolhido dinheiro do grupo para uma refeição de Natal. Sugerimos, então, como era uma data especial, que fizéssemos um pernil, ou outra comida gostosa…

 

“Melhor, não !” – disse o Elias. “Se fizer comida especial, vai dar para menos pessoas. E, Natal é dia que ninguém deveria ficar com fome. Vamos fazer ainda mais sopa. Assim é melhor!.”

É uma outra leitura da vida. Mais do que solidariedade, o que nos parece é que a imagem do outro é o espelho de si mesmo.

Reforçando essa ideia, sabe-se quando algum companheiro morre; e tendo-se a certeza de que foi de frio, a sensação de fraqueza e de impotência crescem e aumenta o medo…

” …medo do frio, e medo da covardia da rua.” – diz magoado o Ceará.

Outro aspecto a observar é o que se refere aos registros de tempo e de espaço, que são diferenciados daqueles existentes no restante da sociedade.

A dimensão espacial, face à necessidade, desconsidera o divisor público-privado. Os Homens de Rua prescindem da privacidade delimitada por paredes, criando uma certa couraça que permite o representar uma liberdade que, quem sabe, estejam longe de sentir.

 

[1] Gambé é o nome pelo qual os Homens de Rua tratam os policiais.

 

 

 

[2] Sônia Fleury (1989:44) fala em cidadania invertida na medida em que esse “indivíduo passa a ser o beneficiário do sistema pelo motivo mesmo do reconhecimento de sua incapacidade de exercer plenamente a condição de cidadão”.

 


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