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EMPODERAR A POPULAÇÃO DE RUA COMO CONDIÇÃO PARA SUA EMANCIPAÇÃO E AUTONOMIA
Março 3rd, 2019 by Magdalves

Ao circular pelas grandes cidades brasileiras, qualquer pessoa que tenha “olhos para olhar” consegue perceber que algo está muito errado no modo como nossa sociedade é conduzida.

A pobreza e a indigência crescem a olhos vistos e, apesar de termos um discurso que aponta a vergonhosa posição do Brasil no ranking de desigualdade social, a  maioria de nós fica com a sensação de que nada pode fazer para alterar esta situação.

Durante décadas, estas pessoas eram invisíveis e apenas uma pequena parcela da população considerava o processo que os tinha levado a isso: demitido do trabalho, despejado da moradia, rejeitado pela família só restava tentar se estabelecer em locais públicos de onde era expulso em nome da ordem.

Na década de 1990, o número de desempregados superava a casa do milhão e o nível dos salários batia recordes negativos, deteriorando as condições de vida da classe trabalhadora.

As grandes cidades, como São Paulo, passavam a ter o seu cotidiano marcado pela pobreza que saltava aos olhos dos paulistanos.

Ver a gravidade dessa situação e nada fazer gera uma sensação de impotência e um  sentimento de culpa que leva a uma negação daquilo que éramos obrigados a ver ao nosso redor.

Quem sabe por um mecanismo de defesa que justifique nossa omissão, nos somamos ao discurso que tenta legitimar este estado de coisas alegando que a culpa está nas pessoas que  não lutam para alterar sua própria situação.

Como parte deste mecanismo, deixa-se de considerar o déficit de vagas de trabalho e vai se construindo o entendimento de que estas pessoas estão nesta situação por vontade própria – indolência, preguiça, etc.. levando a um “não querer fazer nada”.

Mas esta miséria explicita vem num crescendo e chega num ponto em que não dá mais para “fazermos de conta” que não é problema nosso. Pouco a pouco, gestores de políticas sociais começam a se preocupar com o que fazer para equacionar esta situação.

Quem é “essa gente”: Donde surge? Por que está aqui? O que pode ser feito para diminuir este contingente?

Quando sua presença incomoda, pede-se sua retirada das praças e ruas, sem uma preocupação de para onde serão enxotados.. basta que saiam da nossa frente. Aprova-se, ainda que por omissão, que sejam expulsos de bares, restaurantes e lanchonetes onde suplicam por um prato de comida.

Quando analisamos esta questão, nos deparamos com uma certa “invisibilidade social”. Pessoas em situação de rua são “seres socialmente invisíveis”, não porque lhes falta matéria mas porque, em virtude dos processos vividos na sociedade eles não são vistos, escutados e nem tem sua opinião considerada.

Mas estas pessoas tem carne e osso  como cada um de nós, tem sentimentos, pensamentos e opinião sobre diversos assuntos, mas sua voz não é ouvida, e mais do que isso, a grande maioria da nossa sociedade se recusa a olhá-los.

Numa cidade vibrante como é São Paulo, estes quase vinte mil seres que reconhecemos como “em situação de rua” passam a ser parte da paisagem urbana. Eles não tem a relevância de atores sociais, mas são apenas objetos na construção do cenário onde a vida cotidiana acontece.

Numa das múltiplas contradições vividas pela sociedade, há todo um discurso de que são economicamente irrelevantes, afinal, não são produtivos como deveríamos ser todos num sistema capitalista como o que vivemos.

Podemos afirmar que essa irrelevância é relativa, pois é nos seus locais de concentração que os “gatos” procuram trabalhadores que permitam a hiperexploração que amplia os lucros das empresas.

Os “bicos” realizados por estas pessoas como estratégia de sobrevivência são de diversas naturezas: carga e descarga de alimentos que chegam/saem dos entrepostos como CEASA; faxina diária em restaurantes e bares onde são servidas refeições populares; ajudantes em obras de construção civil; etc..

Ao serem “arregimentados” para estes trabalhos, nenhuma importância é dada à sua capacidade produtiva, suas predileções ou conhecimentos anteriores.  São levados como “gado” que se laça no campo e se trás para que seja “usado” naquele trabalho.

Quando este trabalhador corresponde ao que se espera dele – e portanto poderá ser “reutilizado” consegue receber um valor que nem chega a ser suficiente para sua sobrevivência, mas que “é mais do que tinha antes” e ele deve agradecer.

Se este trabalhador não corresponder ao esperado, pode ser que nem receba pelo trabalho feito… e nenhuma voz se levanta para defendê-lo.

Num processo de reificação – em que o homem é aquilo que faz – este trabalhador é comprado e vendido, não mais como um escravo individual mas como parte de uma massa de trabalhadores que é excedente e permanece a disposição do empregador.

O PROCESSO DE SAÍDA DAS RUAS

 

A grande maioria das propostas de atendimento voltado para a poprua tem um leque de trabalhadores que podemos resumir como sendo: gerentes, técnicos, educadores, agentes operacionais, motoristas e seguranças.

Ainda que as tarefas sejam diversas, um aspecto que une todos estes trabalhadores é a necessidade de um comprometimento com esta proposta.

O ponto de partida é o entendimento de que estas pessoas em situação de rua são sujeitos de direitos, e enquanto tal devem ser respeitados e escutados.

Algumas destas pessoas estão numa situação de incapacidade para desempenhar funções básicas  do cotidiano e por isso mesmo precisam de ajuda e apoio.

Ajudar é fazer por ela, é carregá-la nas costas tirando oportunidade que ela avalie seu próprio potencial. Isso só deve ocorrer quando ela, de fato, não conseguir fazer aquilo a que se propõe e pedir esta ajuda.

Apoiar alguém é estar ao seu lado, oferecer orientação, mas deixando que ela tome suas próprias decisões, andando com suas próprias pernas. Só assim, ela pode superar obstáculos e usar seus talentos o que deve fortalecer sua autoestima.

Uma das grandes dificuldades neste processo é que a grande maioria das pessoas em situação de rua perderam a confiança em si mesmos e foram tragados pela estigmatização que 24 horas por dia afirma que eles não tem valor, que são dispensáveis e que é sua a culpa por não conseguirem voltar seja ao Mercado de Trabalho, seja às duas relações com a sociedade.

ATUANDO NO RESGATE DA CIDADANIA

 

O perceber que seu comportamento é divergente e a formulação estigmatizada em relação a isso causa um sentimento de inferioridade e vergonha, já que a sociedade, em função de uma construção ideológica, explica essa formulação a partir da inferioridade e do perigo que este segmento social representa. A condição de não identidade se, em algumas vezes gera revolta, em outras leva ao conformismo, que faz dessa população um objeto passivo de coerção.

O resgate da cidadania das pessoas em situação de rua exige um investimento na devolução do poder e da dignidade perdidos em virtude dos processos sociais de estigmatização e rejeição.  Segundo os dicionários Aurélio e Houaiss, empoderamento é “o ato ou efeito de promover conscientização e tomada de poder de influência de uma pessoa ou grupo social, geralmente para realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhe afeta. A ideia é dar a alguém ou a um grupo o poder de decisão em vez de tutelá-lo”.

As pessoas em situação de rua precisam readquirir uma emancipação individual ao mesmo tempo em que participam dos processos de construção de uma consciência coletiva que leve à superação da dependência social e da dominação política.

O processo de empoderamento social da População de Rua implica em uma escuta qualificada e num construir a partir de suas necessidades, opiniões e desejos.

Neste processo, é necessário que haja um diálogo que retome potenciais e fragilidades para atuar sobre elas. A pessoa em situação de rua deve ficar ciente das suas qualidades e da força que tem para alterar a realidade vivida.

Mas o empoderamento não termina nessa etapa do “sentimento”. O indivíduo empoderado possui a capacidade e a força necessária para viver sua vida de maneira digna e correta, empoderando as pessoas ao seu redor.

Na visão de uma sociedade humanista, empoderamento incita a expansão da liberdade do indivíduo, princípio defendido por Amartya Sen, famoso economista indiano. Ele diz: “Nessa perspectiva, o indivíduo é agente central de todo o processo de transformação. Assim, devem-se remover os vários tipos de barreira para ampliar as escolhas e oportunidades das pessoas para que elas vivam de forma mais plena e com mais liberdade. Quando as pessoas têm a liberdade de escolher e a oportunidade de decidir, elas melhoram a sua vida”.

Pensando-se em etapas que se entrecruzam neste processo, é importante construir com a Poprua um ambiente de disciplina já que esta é o combustível para a mudança. Muitas vezes, o uso abusivo de drogas atrapalha esse desenvolvimento e precisa-se garantir a eles um suporte na linha da redução de danos.

O enfrentamento à dependência pede uma ação proativa que os leve a se antecipar aos fatos e ficar atentos às oportunidades.

Uma análise em conjunto com eles deve viabilizar o atendimento a suas necessidades básicas (moradia, saúde, assistência e convívio) de modo a se refletir numa mudança interior que pode ser lenta mas deve ser progressiva.

 


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