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PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA E SEUS CÃES
setembro 14th, 2018 by Magdalves

Há milhares de anos, mascotes ou animais de estimação são companheiros de muitos seres humanos que costumam se apegar muito a estes seus “bichinhos”.

Na maioria das vezes, isso ocorre com cães e gatos, mas há quem tenha pássaros ou peixes como objeto de sua afeição.

Pessoas solitárias, ainda que vivam com outros seres humanos tendem a selecionar para seu convívio estes companheiros de todas as horas.

Durante 16 anos de minha vida, eu convivi com um gato mestiço de siamês e persa, que nomeamos de “nin” – branco em indu – e que acarinhava e recebia carinho de toda a família, até que faleceu por uma doença nos rins: o veterinário apontou que ele tinha cálculos e, apesar de tratado, veio a falecer.

Quem trouxe o nin para junto de nós foi meu filho, que na época era adolescente. O gato era muito apegado a ele, mas quando ele se mudou de casa, e o gato permaneceu conosco, o gato transferiu seu carinho para minha mãe. Mas, bastava meu filho apontar na porta que ele colava nele e demonstrava que era  ele o seu companheiro maior.

Tenho um irmão que também é muito apegado a seus gatos e cachorros e optou por morar num sítio para manter com ele a bicharada.

Um animal de estimação (ou mascote) é um animal doméstico selecionado para o convívio com os seres humanos por questões de companheirismo ou divertimento, o que não significa que essa seja a única função dessas espécies na nossa sociedade.

A afeição e o companheirismo permanente justificam a famosa frase: “O cão é o melhor amigo do homem“.

Não sei se o inverso é verdadeiro, de que o homem seria o melhor amigo do seu cão, pois a todo dia se vê notícias de maldades extremas e abandonos como se estes “donos” não percebessem que estes animais tem sentimentos e necessidades e que, adotar um deles é uma missão que trás consigo muitas responsabilidades.

“A Organização Mundial da Saúde estima que só no Brasil existem mais de 30 milhões de animais abandonados, entre 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães. Em cidades de grande porte, para cada cinco habitantes há um cachorro. Destes, 10% estão abandonados. No interior, em cidades menores, a situação não é muito diferente. Em muitos casos o número chega a 1/4 da população humana”[1].

 

A contrapartida em afetos

Pesquisas realizadas em várias partes do mundo apontam que a presença de animais de estimação altera os ambientes e leva as pessoas a olharem para fora de seus “umbigos”.

Está cientificamente provado que crianças que tiveram algum tipo de animal de estimação na primeira infância se tornaram mais resistentes a algumas doenças, apresentando menos situações de alergias e infecções respiratórias.

A responsabilidade de se ter um animal requer cuidados e estes cuidados, estimulam a autonomia e a responsabilidade. Cuidar da limpeza do bichinho e do seu habitat, cuidar da sua alimentação, medicá-lo quando necessário, também favorece o desenvolvimento do vínculo afetivo e a lidar com os mais diversos sentimentos, da frustração à alegria e até a morte. E nesta relação entre a vida e a morte que o animal de estimação tem um papel muito importante, as pessoas aprendem a lidar com a perda, com a dor, e a  partir da convivência com animais, aprende a se relacionar com as outras pessoas, desenvolvendo a sensibilidade, a observação, a compreensão e os sentimentos de solidariedade, generosidade, zelo, afeto, carinho e respeito.

Ter um animal de estimação, pode tirar a pessoa de seu comodismo já que, os cães, por exemplo, exigem caminhadas diárias, o que pode levar a passeios e jogos ao ar livre.

 

Os cães e as pessoas em situação de rua

As pessoas em situação de rua são frágeis, em especial se analisarmos suas relações afetivas e familiares. Os motivos que fizeram com que chegasse a essa situação, no geral, causam uma perda de autoestima e levam à desconfiança de tudo e de todos.

Se ficam sozinhos, ficam fáceis de serem atacados e o medo e a busca de segurança os leva a um comportamento de bandos.

Os bandos, geralmente, são formados por pessoas de todos os tipos e, ao mesmo tempo em que há aqueles em quem se pode confiar, há outros que exijam que fiquemos de olhos bem abertos.

Ele é meu irmão, ouvimos algumas vezes, e esta irmandade é explicada: não nascemos do mesmo pai, nem da mesma mãe, mas a gente passou fome e sede juntos, apanhou da polícia junto, passou frio junto e isso constrói uma relação que é para sempre.

Mesmo tendo estes “irmãos”, as pessoas em situação de rua carecem de onde colocar seu afeto e seu carinho. E é aí que começam a cuidar de animais que encontraram perdidos nas ruas da cidade.

Considerados como os melhores amigos, estes cães protegem seus donos, cuidando de seu sono e não deixando que estranhos com má intenção se aproximem.

A ternura entre cães e pessoas em situação de rua são sempre muito intensas.  Pelo amigo animal, as pessoas vão atrás de alimento, de abrigo para o frio e se há alimento apenas para um, quem se alimenta é o cão. A gente sabe ficar com a barriga roncando, dizem a sorrir.

Muitos são os relatos de momentos em que ter um cão significou ter sua vida salva. O animal acorda mais rápido e ataca quando vê um outro humano a se aproximar de faca na mão.

Estes cães recebem muito carinho e devolvem este sentimento numa lealdade na qual se pode confiar plenamente.

NECESSIDADES DESTAS DUPLAS: POPRUA E SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

No dia a dia, as pessoas em situação de rua demandam abrigo, alimento e trabalho, além do acesso à saúde e outras políticas setoriais.

A grande maioria dos abrigos impede a entrada de animais de estimação, o que leva estas pessoas a terem de escolher entre abrigar-se ou ficar junto de seu amigo-animal.

O alimento, quando há, é contado, mas nunca se vê uma pessoa em situação de rua se alimentando e deixando seu amigo-animal sem nada.

Em que tipos de trabalho, estas pessoas em situação de rua podem ir acompanhadas por seus cães…novamente a escolha é separar-se do amigo ou ficar sem aquele trabalho, o que significa ficar sem dinheiro mais uma vez.

Serviços Ofertados

No início dos anos 2000, São Paulo teve um Projeto (Oficina Boracea) que, entre outros serviços, tinha um canil para os cães, em especial, aqueles que eram dos catadores de material reciclável.

O cuidado com o animal era feito pelo próprio dono que se comprometia a alimentá-lo, banhá-lo e leva-lo para andar já que estes animais têm necessidade de exercício.

Em contrapartida, o Projeto garantia um suporte de veterinária, através de uma parceria com a Faculdade de Veterinária; produtos de limpeza e ração fornecidos pelo Departamento de Zoonoses.

O que acontece se você não tem a garantia destes acompanhamentos?

Existe o risco de haver animais abandonados no Canil, alguns inclusive que podem estar doentes e isso geraria uma dificuldade por falta de mecanismos para se dar conta desta situação.

E, aqui, voltamos àquilo que vem sendo discutido na Política para População de Rua: CASA PRIMEIRO.

A principal demanda apresentada pelas pessoas em situação de rua referem-se à moradia. Precisa-se garantir uma casa para morar – e não falamos aqui em abrigos – para num segundo momento podermos discutir trabalho, saúde e retomada das relações familiares.

Você já pensou nisso?

[1] Jusbrasil.com.br


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