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VIOLÊNCIA E POPRUA
Maio 14th, 2018 by Magdalves

 

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. (Bertold Brecht)

 

A violência não é um fenômeno novo na sociedade. Desde que o mundo é mundo, o viver foi um viver violento.

Nos primeiros tempos da humanidade, o ser humano se utilizava da violência  como ato necessário à sua autopreservação. Os primeiros instrumentos construídos pelo Homem foram instrumentos de ataque e defesa. Era a lei do mais forte, considerando-se apenas a força física.

Todos os animais, e o ser humano entre eles, trazem consigo um impulso agressivo que utiliza no seu posicionamento em situações que considera adversas.

Foi através de processos educativos que o homem foi descobrindo que poderia “se garantir” de outras formas que não apenas com a força bruta.

Desde muito pequenos, vamos sendo condicionados a “nos comportar” em sociedade, ou seja, a lidar com nossos sentimentos, neles incluídas a raiva e a impotência.

Quando não  temos argumentos, no entanto, muitos de nós “partimos pra briga”.

Mesmo antes do sistema capitalista ser implantado em nossa sociedade, os grupos humanos competiam entre si e uma certa agressividade era não apenas aceita mas estimulada.

Nos relatos da Idade Média, por exemplo, além das situações de guerra entre povos, ouvimos contar de competições “recreativas”  onde as pessoas se digladiavam até a morte.

E nem precisamos ir tão longe no tempo. No início dos anos 2000, eu trabalhava numa região onde a partir da observação de crianças numa creche se descobriu que adultos faziam o que eles chamavam de “rinha de criança”.

Pequeninos de 6 e 7 anos, armados de faca, eram levados a lutar com outros miúdos e vencia a peleja aquele que ferisse o outro primeiro. Uma barbaridade!

Violência como cenário da sociedade

Viver em sociedade implica em organizar nossa vida em relação ao outro e à coletividade. Este viver tem regras que foram cunhadas pelos mais fortes, por  aqueles que conseguiram garantir seu ponto de vista, muitas vezes a partir do emprego da força.

Lembro-me de um professor[1] que trabalhando a formação de lideranças e querendo nos mostrar como o nosso mundo tinha sido construído, se utilizada de uma dinâmica, quase uma brincadeira, em que pedia que imaginássemos estar numa ilha onde havia de tudo, nada faltava, mas da qual jamais poderíamos sair.

Seguindo sua orientação, nos organizamos para construir abrigos, garantir alimentos, todos trabalhávamos para todos e estávamos todos muito bem no nosso viver.

Nesse momento, ele fez com que um dos participantes pedisse a palavra e colocasse uma questão:  “eu tenho excelentes ideias e sugiro que eu não precise trabalhar e vocês cuidem de mim para que eu fique pensando”.  O não foi sonoro. Imagine: todos éramos lideranças e sabíamos pensar tão bem como ele e a sua proposta foi rejeitada.

Aquela criatura se organizou com mais algumas pessoas e voltou à carga dizendo: “toda a água potável que temos passa pelo meu pedaço de chão; se vocês não concordarem com o que propus, vou impedir ela de passar e vocês ficarão sem água”. A discussão foi acalorada mas acabamos cedendo. Não dava pra ficar sem água.

A partir deste exercício, ele nos levou a refletir o modo como o mundo está dividido hoje. Alguns com tanto e outros sem nada.

Quem não tem nada é levado a se defender para sobreviver e trás de volta toda aquela agressividade de que falávamos no início.

No mundo de hoje, a violência é um elemento estrutural que nos leva a mudar nosso modo de ser.

E é neste contexto que quero refletir sobre a violência.

O que é violência?

Violência é a agressão física que atinge a todos naquilo que possuímos: corpo, bens, amigos e família.

A violência está nas áreas carentes e também naquelas consideradas nobres. Há uma certa democracia na distribuição da violência.

Espaços são fechados, casas são projetadas pra dentro e seu exterior é abandonado. Mais do que a beleza do lugar onde vivemos, queremos garantir a segurança.

Quando a violência vai além do indivíduo, mas atinge a coletividade, dizemos que é uma violência social.

Os meios de comunicação nos informam o tempo todos que vivemos muito próximo da barbárie. Ter consciência da sua existência não significa lutar para contê-la ou para eliminar suas causas.

Vivemos num mundo de paradoxos: indústrias poluem, mas trazem progresso.  Inovações tecnológicas são bem-vindas mas causam desemprego de milhares.

Consideramos crianças abandonadas, algumas vivendo perambulando pelas ruas e desempregados crônicos que nomeamos vagabundos como situações naturais. O mundo é assim mesmo!

Quem é bom vence na vida! Mas… até quando, eu te pergunto?

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me  incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar..”.[2]

E nós continuamos em meio à violência que cresce no dia a dia e sempre pensamos que nada vai acontecer conosco.

E A POPULAÇÃO DE RUA NISSO?

Estar em situação de rua é viver num mundo de exclusões sucessivas. Eu sempre repito que a identidade das pessoas em situação de rua se constrói a partir de perdas:

Expulso da terra – onde tinha não apenas seu abrigo mas seu meio de sustento, este homem ou esta mulher saiu pelo mundo em busca de um novo lugar.

Espoliado em seus direitos – chegando em qualquer lugar, foi considerado desqualificada para aquele modo de vida e teve seu direito de morar e trabalhar negado, passando a viver abandonado e amargurado.

Excluído da sociedade – as portas se fecham ainda mais e além de colocar sobre seus ombros o peso deste processo, as pessoas passam a considerar que foi uma escolha dele viver desse jeito: vagabundo que não quer trabalhar, pessoa mal acostumada que não aceita as regras da sociedade, um pária.

O Prefeito Celso Daniel, com quem tive a honra de trabalhar, dizia que a exclusão é multidimensional.  O indivíduo é excluído porque não tem emprego, porque mora mal e vive com os pés sujos de lama, e não tem acesso às decisões que dizem respeito à sua própria vida.

Nosso entendimento é que a violência é parte intrínseca da trajetória de vida da população de rua.  As forças que o oprimem são de diversas ordens. Há um primeiro vetor vertical que se coloca como social mas que é, de fato, repressor e autoritário.  Um segundo vetor é horizontal, intrassubjetivo e leva a um mal estar individual e psicológico.

Na sua vivência nas ruas, pode-se dizer que estes homens e mulheres estão institucionalizados e nesse viver convivem  com dois sentimentos: o medo de se perceber; e a dúvida sobre a avaliação que seus semelhantes fazem de sua pessoa.

Para sobreviver a tudo isso há que criar estratégias de sobrevivência e na grande maioria das vezes se vê envolvido com álcool e drogas.

Para a sociedade, estas pessoas são “ninguéns”, algo que se pode abandonar, pelo qual há um desinteresse ou quando muito medo ao considerar que podem se tornar agressivos.

Os sentimentos das pessoas em situação de rua são conflitantes pois ora aceitam a responsabilização que é jogada sobre eles, ora se sentem traídos ao perceberem acordos entre profissionais que recusam a ele um tratamento digno.

É neste contexto  que quero refletir com você sobre o movimento agressivo das pessoas em situação de rua.

MOVIMENTO AGRESSIVO COMO MECANISMO DE DEFESA

Quando estas pessoas agem agressivamente precisamos buscar identificar as causas dessa atitude.

Agressão entre seus semelhantes – geralmente, quando há uma briga entre duas pessoas em situação de rua conseguimos  identificar que há alguma coisa em disputa, seja um objeto físico, material, seja um espaço, um lugar no território.

Pessoas em situação de rua costumam carregar consigo todos os seus pertences. Suas mochilas, que denominam de “galo”  trazem documentos, roupas e objetos considerados pessoais. Quando há uma desavença entre duas pessoas, um jeito de mostrar força é “tomar-lhe os pertences” que podem até mesmo serem destruídos.

Mas não são apenas outras pessoas em situação de rua que lhe tiram os pertences. Algumas vezes isso é feito por guardas  municipais e PMs que fazem isso por pura maldade. O agravante é que quando o nosso opositor está armado não tem como reagir e isso causa ainda mais estrago em uma autoestima que em virtude dessa vivência nas ruas já não é aquelas coisas.

Agressão a trabalhadores dos serviços – quando acontece de haver um comportamento agressivo contra profissionais que atuam na atenção à poprua, é necessária uma dose enorme de racionalidade para buscar entender o porque do ocorrido.

Um ponto de reflexão para isso é atentarmos para as regras impostas e para a postura dos profissionais. As perguntas que podem ser feitas às regras são de duas ordens:

  • Quem construiu estas regras? Qual o processo de construção e qual a necessidade de que elas sejam como são? Há flexibilidade na sua aplicação para que se adeque a cada realidade?
  • Qual a postura dos profissionais? De certa feita, uma pessoa em situação de rua queixava-se que o técnico de um serviço “não olhava para ele”. Até aonde, esta pessoa pode sentir que o trabalhador é um aliado?

Mas, nem sempre o ponto de conflito são regras, mas parte-se de alguma situação mal explicada. Um modo de tratar a agressão é esclarecer. Mas, se a poprua estiver alcoolizada ou drogada, há que se agendar uma conversa para outro momento e reconstruir a relação.

 

[1] Mauro Iasi, sem dúvida você o conhece. Eu o acho excelente.

[2] Martin Nemöller, 1933, símbolo da resistência aos nazistas


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