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O COTIDIANO DA LUTA POR TRABALHO DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE RUA
Abril 28th, 2018 by Magdalves

“Sozinha ou com homens, seu corpo maltratado, machucado, com um olhar apagado, cabelos enroscados, pele ressecada e marcada… […] que vida? De onde vem e para onde vai? O que ela foi no passado e o que lhe resta de vida neste corpo?”  (TIENE, 2004:59)

 

Pesquisa Nacional sobre a população em situação de rua, realizada em 2008, identificou 18% de mulheres entre as pessoas entrevistadas em 71 municípios[1]. Dados da cidade de São Paulo, apontam que as mulheres eram 14,6% do universo de pessoas em situação de rua em 2015[2]. Importante atentar para o fato das mulheres no universo da sociedade brasileira serem 49,8% segundo o Censo de 2010.

Dados destas pesquisas permitem afirmar que a maioria (53,52%) das pessoas em situação de rua apontam como fato detonador para estarem nesta situação desavenças familiares. Estas desavenças podem ser conflitos familiares (42,10%) ou situações de abandono (11,42%).

Nos relatos, pode-se identificar alguns fatores que agravam estas situações, como a existência de violência doméstica e sexual intrafamiliar, conflitos de geração e disputa com irmãos, madrastas e padrastos.  Muitas vezes, a expulsão ou a fuga são ocasionadas pela repressão à sensualidade e a alguma orientação sexual divergente e a disputa pelo patrimônio. Segundo as pesquisas, a maioria tem família na cidade e 47,3% tem contato com ela.

Um segundo fator é o desemprego (34,21%). A ida para outros municípios que não aquele em que sua família reside, muitas vezes, ocorre em virtude da busca de trabalho que na maior parte das vezes é ocasional e mal pago. 5,26% apontam outros motivos.

Além do olhar para estes fatores detonadores, é importante refletir sobre os agravantes para a manutenção desta situação e para o aumento da precariedade de vida que possivelmente dificulta a construção de saídas para estas pessoas. Um destes fatores está ligado à dependência de álcool e drogas e à existência de pessoas em sofrimento mental, mas o maior empecilhos para a saída das ruas, dizem as mulheres, é a discriminação.

IDENTIDADE DA MULHER EM SITUAÇÃO DE RUA

Entendemos as pessoas em situação de rua como um “grupo populacional heterogêneo que possui em comum a  pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente,   ou como moradia provisória”[3].

A grande maioria da sociedade acusa estas pessoas em situação de rua de “desviantes” e os estigmatiza por considerar que não se situam na moralidade comum. Outra leitura parte do entendimento de que o problema está com cada uma destas pessoas que não são capazes de utilizar o progresso disponibilizado pela sociedade, e portanto são “fracassados sociais”. Os sentimentos vão da repulsa (peso morto pra a sociedade) ao medo (classes perigosas).

O que parece divergir na identidade destas pessoas em relação à ideologia dominante é uma certa autonomia em relação ao que é considerado usual. A partir desta maneira de viver, estes indivíduos acabam por sair do sistema de significação dominante, na medida em que criam uma leitura de mundo diversa. Isso não quer dizer que sua percepção seja caótica; é apenas outro modo de representação do cotidiano. Sua relação com a família de origem e com as instituições em geral, assim como com a polícia é conflituosa.

A BUSCA DE CAMINHOS PARA A SAÍDA DAS RUAS

Mulheres em situação de rua são mulheres de luta. Na sua busca de saídas para a situação de rua velem-se de seus conhecimentos anteriores e buscam transformar esse potencial em trabalho remunerado.

Ser mulher como ser mãe dá às mulheres uma série de atributos que são buscados pela sociedade no seu dia a dia.

Espera-se que mulheres em situação de rua aceitem trabalhos pesados, ainda que se mantenha na sociedade o discurso de que elas deveriam ser dóceis e amáveis.

Como ser doce e amável num ambiente agressivo e violento?  Muitas das trajetórias destas mulheres passaram por violência sexual, seja ela doméstica ou no trato com o trabalho. Sabe-se que as situações de assédio moral e sexual permeiam o dia a dia profissional de muitas mulheres. E quando esta mulher se sente oprimida e com medo de perder o emprego acaba por deixar-se violentar.

Entrevistando algumas mulheres em situação de rua que buscam construir saídas para suas vidas, ouvi diversas vezes que “não escolhem o tipo de trabalho” apesar de também comentarem as dificuldades de assumir trabalhos braçais.

Pensemos: um trabalho que me parecia interessante para estas mulheres é a jardinagem, e o ocupar-se de cuidados com as praças e jardins das cidades. Numa leitura mais “chão”  me foi dito que “carregar sacos com areia ou terra” é difícil e causa muito sofrimento físico.

Algumas destas mulheres tem habilidades manuais e poderiam trabalhar com artesanato de diversos tipos, mas isso requer sua inserção em grupos para que estes produtos sejam comercializados. Neste quefazer noto duas outras dificuldades:  espera-se que as pessoas trabalhem um período – geralmente um mês – para depois disso receberem pelo serviço feito. Ora, mulheres em situação de rua não tem “capital”  que permita que sobrevivam enquanto aguardam este recebimento.

Muitas mulheres tem outras habilidades – eletricista, encanadora, pedreira… – mas estas são atividades entendidas como próprias dos homens e quando uma mulher tenta romper a tradição e se coloca nos processos de seleção tem que lidar com a discriminação de gênero que aliada à discriminação por estar em situação de rua cria barreiras dificilmente transponíveis por estas mulheres.

Chegamos de volta às tarefas de limpeza de ambientes. Muitas destas mulheres contam que trabalharam como diaristas em casas de família, em lojas e mesmo junto a profissionais da construção civil na medida em que, com o término da obra ou da reforma, há muito o que fazer para “botar a casa em ordem”.

Mas aonde buscar estes trabalhos?  Um dos caminhos são as agências de emprego.

Na relação com estas agências, a primeira dificuldade é a elaboração de um currículo. Se considerarmos apenas os trabalhos realizados com registro em carteira profissional, este currículo fica pobre e não chega a interessar a este contratante.

À maioria destas mulheres, falta a habilidade em construir um Currículo que busque resgatar o potencial e o vivido na vida destas mulheres, independentemente disso constar em carteiras de trabalho.

Quais as “expertises” ocultas que devem ser desveladas?

Quando eu era faxineira num restaurante”, diz uma das mulheres, “eles me colocavam para montar pratos de salada. Aprendi também, com eles, a fazer alguns doces”.

Ah! – respondi eu – então você poderia trabalhar como ajudante de cozinha, não acha?

“Trabalhei como faxineira, num Hotel – me disse outra mulher. No dia a dia, tinha que fazer as camas, cuidar da higiene dos banheiros e atender aos hóspedes. Mas era um Hotel pequeno.”

A escolha dos produtos de limpeza e o como cuidar do ambiente é outra habilidade que deveria ser valorizada no currículo.

“Eu fazia faxina num escritório” – disse outra. “Aprendi a fazer várias coisas, inclusive a arquivar documentos”.

Com meu olhar de detetive, identifiquei ali mais uma habilidade que remete a auxiliares de escritório.

Bom! Pensado o currículo, é a hora de ir à luta e procurar as agências de emprego.

Uma das mulheres fez questão de contar toda a “via sacra” que viveu numa agência.

O processo de “primeiro contato” levou um dia inteiro. Você chega, dá seu nome e espera… horas. É chamado para preencher uma ficha e depois de preenchida, volta a esperar… mais umas duas horas.  Entrevista com um psicólogo que faz testes com jogos de figuras. Na espera seguinte, um cafezinho. A entrevista final é com um psiquiatra que além de buscar entender os problemas vivenciais, apontou dificuldades na saúde física… sabe-se lá a partir de que informações. Bom, agora sua ficha está completa e você deve aguardar, pois, se tivermos a necessidade de alguém como você a gente entra em contato.

Na despedida, uma dúvida que fica na cabeça desta mulher é relativa ao fato de viver em Abrigo. Aparentemente, será barrada por isso e nem deve esperar nenhuma chamada. O jeito é partir pra outra.

Para finalizar, vou me apropriar da frase de uma destas mulheres que disse: ficamos com a sobra da sobra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sendo assistente social, e estando permanentemente envolvida na construção de políticas sociais, esta minha reflexão me coloca algumas questões.

O que é necessário para agir na abordagem destas mulheres? Como construir formas concretas de ação, sempre reconhecendo o papel destes homens/mulheres na construção de alternativas viáveis?.

No decorrer destes anos, aprendi que, no trabalho com essas pessoas,  há que se atuar no resgate da autoestima, que levaria a outro tipo de reação. Tal processo deve prever dois níveis: no nível individual, quando se confronta o posicionamento de cada ser imerso nesta mesma realidade de seu cruzamento com os informados[4] , e num outro nível, mais amplo, em que se levem os grupos a participar dos processos políticos da sua cidade e do seu país.

O participar do que ocorre na cidade tem duas consequências: de um lado, o resgate do perceber-se cidadã, e do outro o mostrar-se às demais trabalhadoras como cidadã. Apesar de sua condição de desemprego, subemprego, ou do viver na rua fazem parte do todo da classe trabalhadora .

Esta situação somente é alterada nos momentos em que, respeitada sua singularidade, esta mulher em situação de rua é consultado sobre a ação que está sendo desencadeada e que, sem dúvida, vai ser decisiva para o seu viver.

Nos casos em que sua singularidade não é respeitada, ainda que a mulher se submeta à subjetividade dominante, cria-se uma relação de alienação e opressão.

Somente nos casos em que ela pode se reapropriar, produzindo a singularização, é que haverá uma relação de expressão e criação,  onde ela se perceberá construtora de seu próprio destino. A tentativa de eliminação do processo de singularização através do enquadramento, as vitima e as transforma em objetos da história.

Ao serem atendidas, essas mulheres em situação de rua mantêm sua identidade camuflada, na medida em que detêm o conhecimento do como devem portar-se  em cada local para obter aquilo de que necessitam para sua sobrevivência, e a gente só chega até ela se ela nos permitir. Pense nisso!

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Maria Magdalena – VIAGEM AO MUNDO DOS HOMENS DE RUA, texto reescrito a partir da defesa de dissertação de Mestrado. Blog: mmaconsultoria.com.

BEAUVOIR, Simone de – O SEGUNDO SEXO, RJ, Nova Fronteira, 1980.

BERGER, Peter – A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA REALIDADE – RJ, Vozes, 1976, 4ª. edição

GOFFMAN, Erving – ESTIGMA : NOTAS SOBRE A MANIPULAÇÃO DA IDENTIDADE DETERIORADA, RJ, Guanabara, 1963, 4ª. edição.

TIENE, Izalene – MULHER MORADORA NA RUA – ENTRE VIVÊNCIAS E POLÍTICAS SOCIAIS, SP, Alínea, 2004.

[1] Na definição do universo a ser pesquisado, optou-se por 71 municípios, excluindo-se São Paulo e Belo Horizonte porque estas cidades já faziam censos periódicos e os dados estavam disponíveis.

[2] O primeiro censo de pessoas em situação de rua realizado em São Paulo encontrou 11,97% de mulheres. Em 2000 este porcentual cresceu para 18,10%, caindo para 14,0% em 2003, chegando a 15,5% em 2009. Em 2015, o porcentual de mulheres é 14,6%. O universo de pessoas em situação de rua pesquisado em 2015 em São Paulo foi de 15.905 pessoas.

 

[3] Artigo 1º, parágrafo único, Decreto 7053/2009.

[4] Segundo Goffman (1988), informados são os que são normais mas cuja situação especial levou a privar intimamente da vida secreta do indivíduo estigmatizado e a simpatizar com ela, e que gozam, ao mesmo tempo, de uma aceitação, uma certa pertinência .

 


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