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QUEM SÃO ESTAS PESSOAS QUE DIZEMOS ESTAR EM SITUAÇÃO DE RUA
Abril 14th, 2018 by Magdalves

População em situação de rua é o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória.

 

Ainda que estudiosos e especialistas no trato com estas pessoas  com trajetória de rua já venham afirmando que seu perfil é heterogêneo, parte significativa da sociedade e mesmo de trabalhadores sociais continuam partindo de uma ótica que reafirmando um preconceito arraigado na sociedade aponta a desqualificação das pessoas quando chegam a esta situação.

Já se foi o tempo em que a mendicância podia ser confundida com a falta de preparo para enfrentar a vida e que era vista como uma escolha pessoal de pessoas preguiçosas que eram oriundas de uma vida pregressa de crimes e ociosidade.

Ainda que os tempos sejam outros, continua em vigor no Brasil a lei da vadiagem que pune com prisão pessoas que são “desocupadas”.  Não ter documento de trabalho, num país  onde xx% trabalha informalmente, é motivo para ser levado para a delegacia e submetido a situações vexatórias.

Na rua convivem pessoas com escolaridades as mais diversas, desde os analfabetos (que em São Paulo são 10% da poprua), até aqueles que tem nível universitário (9% da poprua de São Paulo).

Olhando-se os passados profissionais, encontramos um grande número de trabalhadores braçais, em especial aqueles que vieram da Construção Civil, mas encontramos também pessoas que trabalharam em funções administrativas (bancários com mais de 10 anos naquela carreira) e operários especializados (torneiros mecânicos, ferramenteiros, construtores de navios, pilotos de avião, advogados e outros).

Muitas destas pessoas ocuparam cargos de Chefia em empresas (no Rio de Janeiro, por exemplo, há um antigo dono de Posto de Gasolina), funcionários de multinacionais e atletas.

O processo que trouxe estas pessoas para a “vida nas ruas” foi desencadeado por um conjunto de perdas que podem ser tipificadas em três grupos: desemprego, dissolução de laços de família, despejos da moradia.

O ciclo de miséria pelo qual estas pessoas passam afeta sua autoestima o que os leva a duvidar de sua capacidade de “dar a volta por cima”.

Nesta espiral de decadência, essas pessoas vão sendo estigmatizadas pela sociedade o que dificulta seu retorno à vida de origem.

Ainda que tenham um passado profissional significativo, estas pessoas foram descartadas pelo Mercado e nas análises econômicas não são consideradas nem exércitos de reserva.

Vivemos tempos de desemprego em massa, onde apenas uma pequena elite tem trabalho estável e direitos trabalhistas respeitados e onde a grande maioria sobrevive de trabalhos informais e mal pagos.

Para as empresas, poder contar com uma imensidão de pessoas aceitando as vagas que tem a oferecer, faz com que coloquem exigências e “escolham”  a seu bel prazer quem pode e quem não pode trabalhar.

Uma grande polêmica tomou nosso mundo político, a pouco tempo, na discussão de uma Reforma Trabalhista que tirou direitos conquistados dos trabalhadores e deu ainda mais direitos aos empresários para que contassem com uma força de trabalho que podem tratar como se fosse uma massa escravizada. Para o Mercado e a Economia, a população de rua é descartável.

Este estado de coisas pede legitimação e aí temos o papel da ideologia dominante que considera estes seres como desprezíveis e se dá o direito de aumentar a cada dia a “canga”  colocada no pescoço destes frágeis trabalhadores. A Política Social  implementada no país não chega até estas pessoas com trajetória de rua numa leitura de que são irrecuperáveis.

Se antigamente, tínhamos um discurso de defesa de todos e de garantia de direitos, hoje caíram as máscaras e temos um governo que se coloca claramente a favor sempre dos mesmos e em nome do Déficit Nacional define diminuir ainda mais os Programas Sociais ao mesmo tempo em que mantém e amplia a cada dia os privilégios da classe dirigente.

Talentos Desperdiçados

É neste cenário que queremos analisar a vivencia das pessoas com maior escolaridade e conhecimento profissional, mas que se encontram em situação de rua.

No diálogo com pessoas com trajetória de rua, pude perceber que existem dois tipos de reação entre elas.

Algumas delas, principalmente homens, que vieram num crescendo de problemas com álcool e drogas, conflitos familiares e perda de qualidade de vida, sentem-se envergonhadas e, para preservar seus orgulhos buscam com todas suas forças se fazerem invisíveis.

O sonho, poucas vezes expressado com palavras, é o retorno ao trabalho para o qual se sentem preparados. A vontade é de um processo de qualificação que esteja vinculada à garantia de uma experiência no trabalho que, segundo pensam seria sua porta de entrada para a volta ao Mercado.

Outros mantém contato com seus familiares – celulares são equipamento comum entre pessoas em situação de rua – e buscam se aproximar de todas as oportunidades das quais ouviram falar. Sua vontade é a mesma do outro grupo, ou seja, qualificar-se para um retorno ao Mercado.

Quem pensa que estas pessoas com trajetória de rua são umas desocupadas se engana. 83,6% daquelas que estão nos Abrigos, trabalha sendo 57,7% as com carteira assinada e 17,9% as sem carteira. Dentre aqueles que vivem nas ruas, e não acessam os Abrigos (não há vagas para todos) 4,8% trabalham.

Uma das discussões que vem sendo feita em diversos países do mundo é que a Moradia é estruturante, que as pessoas deveriam ter acesso ao Morar e ao Morar individual ainda que não haja a necessidade de terem a propriedade deste imóvel. A discussão mais recente aponta a solução como sendo a Locação Social, mas disso falaremos em artigo posterior.

A pessoa em situação de rua, que precisa buscar maneiras de estar descansado e disposto pela manhã para ir trabalhar encontra diversos obstáculos a cada dia.

Os Abrigos não são em número suficiente para todos. Há um esforço enorme para que consigam o que chamam de ‘vaga fixa” que somente é garantida a quem comprova que está trabalhando. No entanto, como se viu pela imprensa dias atrás estas vagas não  são tão garantidas assim se, quando a Prefeitura define priorizar refugiados (desta vez, venezuelanos) despeja as pessoas em situação de rua já que não há espaço para tudo isso.

Não ter abrigo significa não ter uma cama para dormir e nem ter um local para fazer sua higiene e sua aparência descuidada é motivo para discriminações e com isso as poucas oportunidades de trabalho se esvaem no ar.

Mas a discriminação não para aí. Dias atrás, conversando com um trabalhador e tem uma aparência igualzinha a tantos outros deste país, fiquei sabendo que, por morar num Abrigo teve sua inscrição para a Biblioteca do bairro.

Quando a gente dá o endereço do Abrigo como referência – como manda a lei – imediatamente é colocado de lado e vagas e serviços são negados.

A pergunta que fica é:  qual deveria ser nossa postura se queremos que estas pessoas mudem de vida e deixem nossas calçadas?


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