SIDEBAR
»
S
I
D
E
B
A
R
«
SENTIR A DISCRIMINAÇÃO NA PELE: MOMENTOS NA VIDA DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
Março 31st, 2018 by Magdalves

 


Demitido do emprego…

Despejado da Moradia…

Rejeitado pela família… 

Expulso de locais públicos …

 

 

 Ainda que seu número seja expressivo, a partir da leitura feita pela maioria da sociedade, podemos dizer que a população de rua se constitui numa minoria social. Quando se fala no seu retorno ao Mundo do Trabalho, o que se espera é que realize trabalhos braçais pouco apreciados pelos grupos dominantes. Na leitura de muitos, eles são rotulados como mão de obra desqualificada,  desprezando-se seus saberes, tácitos ou não, aprendidos em experiências anteriores. Esta rotulação torna a desqualificação um traço depreciativo, ao mesmo tempo que contribui para aumentar o lucro dos donos do Capital na medida em que garantem um novo contingente de mão de obra barata. O que caracteriza estas pessoas são a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular.[1]

Ao caracterizar uma pessoa em situação de rua aceitando as características  sob esta ótica  define-se um lugar destes homens e mulheres na sociedade. Comparando-se este estereótipo com pessoas reais podemos perceber que nem sempre é assim.

Este processo de rotulação/estigmatização justifica preconceitos e discriminações que dificultam a estas pessoas superarem as condições negativas que fazem delas um membro da população de rua. Exemplifico!  Na semana passada, eu estava num grupo de reflexão sobre a cidade de São Paulo e um dos participantes disse que não havia conseguido uma “carteirinha da Biblioteca do bairro”, que fica num Centro Poliesportivo, pelo fato de morar em Albergue.

Ainda que, nas normativas não haja nada que diga que eles não podem frequentar estes lugares, o preconceito dos trabalhadores encarregados de filtrar quem entra e quem não entra definem que devem ficar de fora.

No meu fazer profissional, muitas vezes me deparo com esta leitura distorcida que os considera como um segmento a quem não precisamos garantir direitos.

Outro exemplo disso é a reação de muitos profissionais sociais, não engajados nesta luta, que se espantam quando colocamos que a discussão mundial aponta que o problema primeiro a ser resolvido é a moradia. Que precisamos garantir moradia individual e decente como primeiro passo para que estas pessoas sejam reconduzidas à sociedade que os expulsou.

Mas como? Perguntava uma pessoa muito querida:  o Brasil tem um imenso déficit habitacional e você vem me dizer que precisamos garantir moradia para a Poprua? Como operacionalizar isso?

Lembro-me de um fato – quase 40 anos atrás – em que fazíamos uma caminhada com ares de passeata no centro de São Paulo e a reação de algumas pessoas a nos verem passar diziam:  é o fim do mundo: mendigos resolveram fazer greve!

Nestes 40 anos, muita coisa mudou. Basta ver na internet [e para isso o facebook serve] e podemos identificar a presença significativa de pessoas em situação de rua, devidamente organizadas em Movimento Social, com voz e vez na discussão do Brasil que queremos.

E o que cresceu não foi apenas o número e nem a visibilidade em massa destas pessoas. Uma grande maioria deles tem se manifestado, apontando suas demandas, e os argumentos são consistentes e o raciocínio perfeito. Trata-se de uma participação política concreta e real.

Muitos destes homens e mulheres, cujo passado profissional indica uma vida de trabalho, vem sendo pouco a pouco esmagados pelo desprezo e pelo pouco caso da sociedade na qual convivem e pelas regras criadas para impedir que as pessoas encontrem seu lugar na vida em sociedade.

Preconceitos, Discriminações e a Poprua

Preconceitos e discriminações afetam as relações de pessoas em situação de rua na sociedade e influem na aplicação da Política para População de Rua.

Uma leitura preconceituosa da sociedade leva a formas veladas de discriminação que cobram de cada um deles e de cada uma delas uma atitude resignada que vai se cristalizando e sendo naturalizada.

A partir da década de 1990, pode-se perceber uma mudança no perfil da poprua. Até aquele momento, as pessoas em situação de rua eram principalmente aquelas que haviam desistido de lutar, pessoas apáticas que viviam do esmolar e dos acharques, sendo reprimidos sem reação e entendendo que a culpa de sua condição era sua incapacidade de luta.

Estas pessoas reforçavam a reação da sociedade na medida em que chegavam a verbalizar que eles tinham razão e que não tinham direito a nada na medida em que eram mão de obra descartada.

Com o aumento do desemprego, na década de 1990, várias profissões mudam para pior as condições de trabalho daqueles que se ocupavam de trabalhos como os vinculados à construção civil.

Ouvi de um trabalhador que tinha toda a lógica que a construção civil não garantisse mais alojamentos já que havia trabalhadores com casa que se ofereciam para executar aquelas funções.

A população de rua se vê ampliada por toda uma gama de profissionais vindas de setores que haviam diminuído seus quadros. Eram novos sobrantes que chegavam trazendo consigo um passado profissional respeitável mas que se mostrava inútil já que as vagas de trabalho não mais existiam.

Estas pessoas em situação de rua tem seu saber anterior desconsiderado e enfatizadas a sua carência principalmente no que se refere à educação formal.

Quando estabelecemos um diálogo com estas pessoas e o foco é a construção do futuro, não é raro ouvirmos que querem “mudar de vida para passar a ser gente”. Falando de filhos, novamente, o desejo é garantir-lhes o estudo para que consigam coisa melhor na vida.

A preocupação com a aparência – a higiene e as roupas bem arranjadas – e o modo de se comportarem aponta o tempo todo o desejo de serem aceitos.

Quando algum deles declara que “nunca me pedem que saia quando entro em um bar”, você percebe a tristeza no olhar daqueles que não se atrevem a dizer a mesma coisa.

Estas pessoas em situação de rua percebem o tratamento discriminatório e humilhante a que são submetidos, mas submetem-se por não ver outra alternativa.

Discriminação e encaminhamento a trabalho

O grande desafio presente no discurso das autoridades aponta a emancipação pelo trabalho como estratégia de saída da situação de rua.

As vagas disponibilizadas, no entanto, nem sempre correspondem ao perfil das pessoas em situação de rua e isso acontece porque não nos damos ao trabalho de pensar quem são estas pessoas.

O pressuposto é que precisam ser criados postos de trabalho desqualificado já que há uma leitura de desvalorização social em relação a estas pessoas.

 

Assisti, a pouco, um vídeo americano que questiona o papel da escola apontando que ela parou no tempo. A gravação começa com uma fala do Einstein dizendo que somos todos gênios.

O texto pontua que é inútil tentar fazer peixes subirem pelas paredes… a natureza deles é outra. A imagem do aquário mostra bem este tratamento que é feito com muitas pessoas, dentre elas a poprua.

Este desconsiderar a experiência anterior destas pessoas gera uma sensação de nulidade. Eu, peixe, nunca vou subir em muros… mas porque eu faria isso? Quando se pensa em trabalho para a Poprua o que surgem são propostas de trabalhos arriscados, pesados, desvalorizados e sem futuro. Afinal das contas, trabalhar é pegar no pesado e depois correr atrás para melhorar.

Além desta atitude fazer mal a quem é tratado dessa forma, perde-se um potencial enorme que foi sendo construído durante a vida destas pessoas.

O que se propõe – na maior parte das vezes –  são trabalhos temporários, sem garantias previdenciárias e onde o que se busca é a força manual.

Admitir a Poprua numa destas cadeias produtivas é um processo que, mais do que garantir a pessoa do trabalhador, vai garantir o barateamento da mão de obra para o empresário.

Exemplo disso é o setor da Reciclagem: quando cai, no mercado, a cotação do papel, diminui-se o quantum está sendo pago ao catador. Mas, quando o mercado entra em alta, nem se cogita aumentar o rendimento do trabalhador na catação.

Considerações finais

O grande desafio da Política para População de Rua não é a abertura de postos de trabalho específicos, mas a mediação para que pessoas em situação de rua possam concorrer em condições de igualdade com os demais desempregados que buscam as mesmas vagas.

Isso implica em trabalhar o preconceito enraizado na sociedade que leva a considerar estas pessoas perigosas – o medo impede que sejam vistas por baixo da carapaça da “situação de rua”; despreparadas – e nem nos damos ao trabalho de averiguar seu passado profissional, sua qualificação efetiva e seu preparo para a função vaga.

As políticas de proteção, quando voltadas para este segmento, partem da ideia da “benesse”, ou seja, o governo ao “olhar” para este segmento o faz com olhos de quem faz um favor, e não como quem garante o direito expresso na Constituição.

O resultado disso são propostas de trabalho por tempo determinado, sem proteção previdenciária, sem direitos sociais e com remuneração inferior ao necessário para a garantia da sobrevivência.

 

[1] Decreto 7053/2009 – artigo 1º – Parágrafo único. Para fins deste Decreto, considera-se população em situação de rua o grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória.

 


Leave a Reply

http://mmaconsultoria.com/?page_id=3011You must be logged in to post a comment.

»  Substance: WordPress   »  Style: Ahren Ahimsa