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CONSTRUINDO HABILIDADES NO TRATO COM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
setembro 30th, 2017 by Magdalves

A principal matéria prima na atuação dos profissionais sociais com pessoas em situação de rua é a relação que conseguem construir com cada uma delas.

O homem/mulher é provido de um mecanismo de adaptação flexível e criativo que conhecemos como inteligência. A sociabilidade dos grupos humanos foi se construindo desde os primórdios da humanidade na medida em que este homem/mulher se percebia frágil para defender-se e alcançar seus desejos sozinho. A partir daí, passou-se a afirmar que a associação é uma tendência natural do homem, quando na verdade a história está repleta de relatos de guerras, lutas entre irmãos, exploração do homem pelo homem, escravidão, colonialismo, etc.. o que comprova que é uma tarefa hercúlea garantir-se um comportamento societário.

No decorrer dos séculos, em todas as civilizações, em todos os países, há relatos de grupos diversos visando a defesa contra os inimigos e o aperfeiçoamento do indivíduo, à prática das artes, a recreação, a defesa da profissão ou a simples convivência.

Dizer que o homem é um animal social, é lugar comum e questionável se com isso estivermos pensando em cooperação entre iguais. Foi, talvez, nas atividades lúdicas da infância que o homem descobriu as possibilidades trazidas nas condutas coletivas e isso foi incorporado à sua natureza. Isso não significa que nestes grupos aprendemos apenas a atuar como iguais, mas  também que desenvolvemos estratégias de mando e obediência a partir da lei do mais forte, seja a partir da força física, ou do convencimento e admiração.

Cada um de nós, independente de sua vontade, constitui relações de fato que nos dizem quem somos enquanto família, minoria e nacionalidade.  Num segundo momento, muitas vezes ainda na infância, somos inseridos em novas relações a partir de decisões de outros que até que ganhemos autonomia decidem por nós, impondo-nos sua autoridade. Exemplo disso são as escolas, a frequência a Igrejas, etc.. Quando ganhamos autonomia, passamos a decidir a que grupos queremos aderir ou abandonar, e é nestes espaços que precisamos refletir como deve se dar nossa atuação.

Em situação de rua, encontramos crianças, adolescentes, adultos e idosos; negros, pardos e brancos; ricos e pobres; estes sujeitos sociais tem escolaridades que vão  do analfabetismo a formações em nível de pós-graduação, orientações sexuais diversas e colocações no mundo do trabalho que podem receber classificações as mais variadas.

Poucas destas pessoas já nasceram em situação de rua, a grande maioria tem uma vida anterior a esta situação que trás as bases na construção de sua personalidade.

A chegada na rua é sempre um momento de desespero que, geralmente, é provocada pela falta de recursos para garantir um teto.  Longe de sua gente, sem dinheiro para pagar por um espaço e sem conhecer a estrutura de abrigos do município tudo o que resta é um perambular pelas ruas da cidade.

Nestas andanças, encontra-se grupos de pessoas cuja vida nas ruas já é uma rotina e, ainda que não se considere este um grupo de iguais, é no contato com eles que se consegue utilizar as estratégias de sobrevivência que eles nos apontam.

Quando esta reflexão se refere a pessoas em situação de rua esta autonomia é muito relativa:  os processos de decisão perpassam os limites que essa condição permite.

Ação profissional com pessoas em situação de rua

Lidar profissionalmente com as pessoas individualmente ou nestes grupos constituídos a partir de uma finalidade qualquer exige de cada um de nós cuidados e habilidades que podemos ir construindo no dia-a-dia.

Dentre as muitas dificuldades que este agir requer, salientamos o “saber escutar”, o “saber comunicar nossas ideias”  e o domínio de nossas “emoções e emocionalidades”.

Durante muitos séculos, o processo de aprendizado de trabalhadores sociais apontava a necessidade de uma certa “neutralidade”. O profissional deveria ser impessoal, distante destas pessoas com as quais atuava e nunca se envolver com os problemas que lhes eram trazidos.

As primeiras  “atividades do serviço social” não davam importância ao fator “grupo”, mas propunham atividades para atrair os jovens (e afastá-los da delinquência) e mais do que a intenção de socializar estes jovens com seus iguais, o que se avaliava era que isso era mais barato e mais fácil fazer em grupo do que individualmente.

Até 1930, o trabalho com grupos se expressava através de programas de várias naturezas: recreação,cultura física e esportes.  Estes trabalhos favoreciam a organização de grupos e o desenvolvimento dos indivíduos: escoteiros, bandeirantes, ACMs, ACFs.

Estes trabalhos tinham uma mística e, através das atividades, levavam a um código de atitudes, disseminando valores positivos. Outra ação voltada para grupos que também era desenvolvida neste período, era a “Ação Social” que buscava treinar ou ajudar indivíduos em grupos para melhorar o ambiente, obter uma legislação adequada ou os recursos necessários à comunidade. Estes eram treinados para serem animadores de comunidades, transmitindo as propostas que haviam aprendido em seu “treinamento”.

Entre 1930 e o início da Segunda Guerra Mundial (1939) o serviço social dava ênfase ao “indivíduo normal” e aos seus problemas e necessidades, preocupando-se , também, com o emocional e os desajustados, tendo uma influência da psicologia.

Atenção às Pessoas em Situação de Rua

Desde meados do século XXI, a discussão sobre esta problemática vem sendo intensificada, tendo alcançado novos contornos.

Até então, os incômodos causados pela presença da miséria nas ruas era tratado a partir de esmolas e doações ou da repressão que muitas vezes obrigava estas pessoas a retornarem a suas cidades de origem sem uma análise do porque haviam saído de lá.

De outro lado, a leitura corrente era de que estas pessoas haviam optado por esta vida em virtude de não quererem trabalhar ou aceitar as regras que conduzem a sociedade.

A culpa sendo deles, o máximo que se podia fazer era obrigá-los a aceitar novos parâmetros, o que sempre vinha com uma carga de legitimidade por Igrejas de diversas confissões.

Ainda que o desemprego fosse um problema grave a afetar as sociedades, não era clara a identificação de que uma das causas do aumento de pessoas em situação de rua era decorrente das dificuldades de sobrevivência.

Não havia emprego para todos e, aqueles que estavam empregados recebiam salários inferiores ao necessário para sua sobrevivência: morar, se alimentar, etc..

Na nova leitura, construída a partir de 2009, procura-se atuar junto a estas pessoas, tratando as dificuldades de autoestima, a qualificação profissional e o acesso a empregabilidade.

NOVOS PARÂMETROS DE ATUAÇÃO

Qualquer trabalho, com grupos sociais, deve atuar em três frentes: a consolidação de vínculos entre os membros do grupo, as estratégias de comunicação e as representações que estes membros têm a respeito de algumas realidades. Muitas vezes, há a necessidade de desconstrução de representações estereotipadas para se construir novas representações que não estejam contaminadas por preconceitos e discriminações.

É na interação com nossos pares, nos grupos que participamos, que construímos nossas referências, sejam elas positivas ou negativas e é, também a partir de alguns grupos que introjetamos normas e parâmetros para nossas ações.

Todos os membros de um grupo tem um papel ativo na sua condução, na medida em que a construção do conhecimento e as estratégias a serem implementadas devem ser decididas coletivamente.

Neste entendimento, a constituição de grupos está baseada em três princípios: empoderamento, segurança e participação. Isso significa que a estratégia metodológica a ser implementada deve ter como uma de suas finalidades o empoderamento de cada um dos membros do grupo. Empoderados, os membros devem sentir-se seguros e motivados a participar cada vez mais.

Este empoderamento ocorre quando há transparência, diálogo franco e  quando o acesso às informações ocorre a partir de uma linguagem adequada aos participantes, tenham eles a escolaridade que tiverem, e venham eles de quaisquer meios culturais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando iniciei esta reflexão pontuando a necessidade de habilitar profissionais sociais no trato com pessoas minha intenção era salientar que este deve ser o ponto de partida para qualquer trabalho.

Cursos universitários formam profissionais mas não dão conta de inseri-los nos trabalhos sociais existentes e com isso há uma ausência de caminhos que conduzam ao envolvimento com a dinâmica das cidades.

Mais do que a aplicação de dinâmicas e o conhecimento de técnicas de intervenção o que é necessário é uma capacitação no processo de diálogo: diálogo com os usuários dos serviços, diálogo com técnicos de outros projetos, diálogo com experiências de outros municípios de modo a construir-se, de fato, gestões integradas e socialização de boas experiências.

Dentre as atividades que venho desenvolvendo profissionalmente, saliento a capacitação de profissionais em diversos níveis numa proposta que pede o diagnostico das situações vivenciadas e a construção de propostas que deem respostas aos problemas trazidos.

 


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