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GESTOR: LÍDER E CHEFE, PAPÉIS DIFERENCIADOS
julho 14th, 2017 by Magdalves

 

Liderar é a habilidade de levar pessoas a fazerem alguma coisa sem o uso da força que vem do poder pelo simples fato de que elas agem por sua livre e espontânea vontade ao se convencerem que aquilo deve ser feito.

Do mesmo modo que ocorre em outras situações no mundo animal, para vivermos em sociedade, precisamos de lideranças. As abelhas se organizam ao redor da abelha rainha, os lobos seguem o líder da alcateia, etc..

No nosso mundo, temos pessoas cujo papel é chefiar e outras pessoas que ainda que não tenham papel de mando, influenciam a todos por serem líderes.

Muito se fala das “chefias” e do modo de lidar com os vários tipos de chefe: é voz corrente que manda quem pode e obedece quem tem juízo.

No mundo de hoje, muitos setores buscam outras formas de relação que não a obediência por medo das consequências que sempre está presente quando se faz valer a força da hierarquia.

Buscam-se gestores que mais do que saber mandar, saibam inspirar seus colaboradores (e não subordinados). Bons líderes são mais difíceis de achar do que chefes e gerentes e isso traz um desafio para todas as organizações, sejam elas públicas ou privadas.

Dentre suas funções, o gestor planeja, organiza, reúne recursos, supervisiona e controla as ações sob sua responsabilidade.

O gestor é um chefe e chefes são pessoas às quais foi delegado poder, por uma autoridade superior. Ele deve ser capaz de levar seus subordinados a cumprirem suas ordens para que a ação desejada seja realizada. Ele tem que ter força para comandar e esta força tanto pode vir da delegação que recebeu como pelo  reconhecimento de sua capacidade naquele assunto.

Para buscar compreender o modo de agir de algum gestor precisamos levar em  conta fatores psicológicos ligados a suas experiências anteriores. Aparentemente esta condição pode ser inata, mas se buscarmos conhecer a história desta pessoa iremos nos deparar com ambientes e condições que fizeram dela o que ela é hoje.

Todas as pessoas às quais foi delegada uma tarefa neste sentido, deve ser capaz de dirigir e comandar um grupo e, mais do que isso, comandar a própria vida. Isso significa que ele deve guiar a si mesmo e lidar com sua própria personalidade e com as características que influenciam seu modo de ser no  dia-a-dia.

O gestor, no seu papel de chefia, tem que saber implementar a justiça, independente da sua relação pessoal com aquelas pessoas. Neste papel, ele não é o amigo,  mas alguém que serve de estímulo e motivação e constrói um ambiente positivo para as ações esperadas.

Pensando-se nos papéis desempenhados, precisamos sempre considerar que chefes são aqueles que mandam; gerentes aqueles que regem, gerem e administram e todos podemos ser líderes, dependendo da situação que está ocorrendo.

Anos atrás, numa capacitação com educadores comunitários, teve uma pessoa que se assustou quando eu perguntei o que ele aprendia com as mulheres da favela onde atuava. Eu, aprender com elas? Pois, num primeiro raciocínio, ele achava que não aprendia nada…

Exemplificando, falei de comidas. Se formos fazer alimento para o grupo, quem sabe mais de cozinhar, você ou a dona Maria? O espanto foi geral, pois eles nunca tinham refletido que a liderança é situacional e cada ação pede lideres diferenciados.

Continuamos a refletir e constatamos que: quem melhor conhecia a história da ocupação eram os mais antigos, e não os mais escolarizados… e por aí fomos conversando colocando os pingos nos is.

O ponto de partida, sempre, é o espírito de equipe – ninguém faz nada sozinho. As  conquistas e as fragilidades devem servir de aprendizado para todo o grupo.

Quando pensamos nestas figuras e no papel que desempenham, fica patente que estas lideranças também tem e precisam ter poder de mando, mas ao invés de se apoiar neste poder, constroem junto com seus colaboradores as propostas a serem implementadas.

Pessoas não precisam ser líderes natos, esta é uma habilidade que pode e deve ser construída. Um bom líder é percebido a partir do modo como se apresenta sua comunicação pessoal e intrapessoal. Mais do que conseguir que as pessoas acatem suas propostas como se fossem “vaquinhas de presépio” [pessoas sem opinião], o que devem conseguir é estabelecer com eles diálogos nos quais utilizam suas inteligências intrapessoal e emocional.

Mais do que um grupo de pessoas que se encontram juntas aleatoriamente o que se almeja é um funcionamento do grupo como se fosse uma equipe que tem objetivos comuns a perseguir.

Muitas vezes a chefia é identificada com uma centralização que tudo determina e sempre avalia o que está acontecendo a partir da busca de lucros. Trata-se de uma figura a ser temida e respeitada, vista como alguém que não dialoga, não pensa no coletivo, sempre fica com as glórias e acusa os outros pelos erros. Este tipo de chefe pune, humilha e busca erros nas pessoas de seu grupo. Muitas vezes se irrita e nunca está disponível para escutar  a eles, alegando que não tem tempo. Não é esse tipo de gestor que precisamos.

Já a liderança é vista como alguém que vai junto, que quer construir um melhor ambiente, que trabalha com equipes e não com subordinados, que ouve, dialoga, esclarece dúvidas e constrói com sua equipe os caminhos a trilhar. O líder influencia seus colaboradores e é influenciado por eles, na medida em que mantém com eles boas relações interpessoais. É assim que ele conquista a confiança de cada um.

O Papel do Gestor

Muitas das reflexões que podemos fazer sobre o papel do gestor tem como base a necessidade de diálogo. Precisamos estar abertos ao diálogo para podermos analisar o ocorrido a partir das diversas óticas.

As melhores ações são aquelas que são construídas a partir de diversos pontos de vista e isso implica num despir-se da autoridade e permitir que a solução buscada seja enriquecida com esse tipo de participação.

O bom gestor sabe descer da sua autoridade e acatar opiniões que diferem da sua, não tendo receio em confessar que não é o dono da verdade.  Afinal, os indus dizem que a verdade está encoberta por vários véus e cada um de nós  somente consegue abrir uma pequena fresta.

Na resposta política às situações a serem enfrentadas, é necessária uma etapa anterior na qual uma escuta qualificada permita conhecer as respostas que vem sendo dadas pelas pessoas a partir do bom senso para, a partir delas construir estratégias que possam se transformar em ferramentas da política social.

“O primeiro sentimento básico que gostaria de partilhar com vocês é a minha alegria quando consigo realmente ouvir alguém.  Acho que esta característica talvez seja algo que me é inerente a já existia desde os tempos da escola primária.  Por exemplo, lembro-me quando uma criança fazia uma pergunta e a professora dava uma ótima resposta, porém a uma pergunta inteiramente dife­rente.  Nessas circunstâncias eu era dominado por um sentimento intenso de dor e angústia.  Como reação, eu tinha vontade de dizer: “Mas você não a ouviu!”. Sentia uma espécie de desespero infantil diante da falta de comunicação que era (e é) tão comum.” (Rogers 1983, p. 4-5, apud Amatuzzi, 1990 ).

 

Uma escuta qualificada implica em  escutar o outro e isso não é apenas ouvir o som de suas palavras, mas entender seus gestos, seu modo de se expressar, levando em conta o reflexo em mim daquilo que está sendo colocado. Escutar o outro é escutar este outro em mim e perceber as implicações desta comunicação.

Esta escuta implica em sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo daquele grupo social para, a partir desta percepção, compreender suas atitudes, comportamentos, ideias, valores, símbolos e mitos. É um acolher sem julgar moralmente, mas ponderando com as pessoas aquilo que almejam a partir das possibilidades existentes.

O objetivo maior é a construção de um vínculo com aquele grupo social de modo a possibilitar a construção de uma identidade coletiva que seja significante na vida daquelas pessoas.

Dialogar com quem vivencia a vida da comunidade possibilita compreender a realidade daquele grupo social, seu potencial, seus desejos e demandas para que se possa tomar decisões conjuntas e negociar as atividades necessárias à melhoria das suas condições de vida.

Os técnicos devem ter a capacidade de escutar os moradores, respeitá-los sem serem impositivos nem machistas. A visualização compartilhada desperta a criatividade e a imaginação de todos. Assim compartilhados, os resultados geram conhecimento e aumentam a capacidade de analisar a realidade e de encontrar alternativas para os problemas na perspectiva do desenvolvimento.

O mesmo cuidado deve ser tomado quando se analisa aquilo que é expressado, ou seja, a linguagem deve ser adequada àquele público e você sempre deve se certificar de que foi entendido.

Para melhorar nossa escuta, podemos buscar nos utilizar de dois mecanismos bastante simples. Em primeiro lugar, podemos nos preparar para esta escuta; e num segundo momento, devemos checar a qualidade da nossa escuta.

Um modo de me preparar para a escuta é procurar responder a algumas questões como: (1) qual o discurso histórico de onde esta pessoa vem? (2) Qual sua visão de mundo, qual sua bagagem no assunto de que falamos? (3) Qual sua experiência anterior? O que o inquieta? (4) A partir de que emocionalidade ele fala? O que consigo “escutar”  de seu corpo?

Um segundo instrumento que pode ser utilizado é nos acostumarmos a sempre checar aquilo que escutamos. Você fala alguma coisa e depois pergunta se ficou claro o que você disse, pedindo que a pessoa te diga como entendeu o que foi dito. Pode-se, neste modo de agir, ir corrigindo o que estava sendo dito e escutado, porque também pode-se checar aquilo que a gente ouviu. Se quando checo o que eu disse eu pergunto se “ficou claro para o outro o que eu disse?”, quando quem está escutando sou eu, eu posso dizer: deixe-me lhe dizer o que estou entendendo do que você me diz, não deixando margens para mal entendidos.

Todo processo de diálogo, e é para isso que precisamos de escutas claras, pede uma abertura no nosso modo de ser que permita que a gente esteja sempre aberto a mudanças de opinião e a construção de caminhos novos.

Resolvida a questão da comunicação, um outro cuidado é o apropriar-se do perfil das pessoas para as quais as propostas estão sendo construídas.

É preciso olhar nos olhos das pessoas para poder conhecer este modo de vida.  Paulo Freire falava sobre a necessidade de “admirarmos” esta realidade, dizendo que isso ocorre quando ultrapassamos o observar e nos colocamos no lugar do outro para ver o que se passa a partir do seu ponto de vista.

O entendimento destes perfis visa a descoberta das intenções que estão por trás da maioria do que ocorre. Muitas vezes, as pessoas procuram maquiar estas intenções, apresentando-a do modo como pensam que vão nos convencer a atender às suas demandas.

Esta maquiagem não é um comportamento desonesto, mas todos nós – homens e mulheres – nos comportamos de jeitos diferentes, dependendo das circunstâncias. Poucas pessoas tem um comportamento similar quando estão se dirigindo a subordinados, quando estão solicitando favores ou benefícios, ou quando educam seus filhos.

Entender estes perfis implica num olhar personalizado que leve em conta mais do que os dados estatísticos. Cada pessoa tem comportamentos, e se expressa a partir de micro-expressões e de linguagem corporal própria.

Precisamos buscar apreender o  que se esconde entre o pensar e o agir, e isso inclui um entendimento do discurso a partir do qual estas pessoas se apresentam a nós.

Esta comunicação não verbal transcende ao óbvio, e precisa-se estar atentos para o fato de que homens e mulheres colocam suas inteligências cognitivas e emocionais no seu modo de ser. Gestos, olhares, toques, entonações, movimentos faciais e principalmente corporais permitem que adentremos no Universo de cada uma destas pessoas.

Neste apropriar-se do perfil das pessoas que atendemos, temos que ter sempre presente que consciente ou inconscientemente os reflexos da personalidade de cada um deles podem ser vislumbrados a  partir de pensamentos, comportamentos e sentimentos.


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