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A VIDA PRIVADA QUANDO NÃO SE TEM PRIVACIDADE: A POPRUA
junho 29th, 2017 by Magdalves

Cotidiano é tudo aquilo que se torna habitual na vida de cada pessoa. Segundo HELLER[1], a vida cotidiana permeia o homem por inteiro em todos os aspectos de sua individualidade. Ela pontua que o individuo é um ser particular e genérico ao mesmo tempo, pois é capaz de ações individuais, de escolhas particulares, mas é produto também de suas relações sociais;  influenciado por ela, e dela toma consciência de si e dos outros. A integração, a troca, o intercâmbio social ocorrem mediante o contato com a família, a comunidade, a classe, a nação, etc.

De acordo com Agnes Heller, todo homem tem vida cotidiana, seja em qualquer grau que ocupe na sociedade, porém a vida cotidiana também é hierárquica e heterogênea, fatores fundamentais, segundo a autora, para o funcionamento da sociedade. No entanto, a mesma vê mutabilidade nas hierarquias, pois elas não impedem a ação dos indivíduos, já que contém certa liberdade dentro da particularidade contida na vida cotidiana, esta particularidade apresenta-se no indivíduo no modo de manifestar-se. Esta manifestação ocorre mediante o que Heller entende como moral, que seria “o sistema das exigências e costumes que permitem ao homem converter mais ou menos intensamente em necessidade interior – necessidades imediatas (as necessidades de sua particularidade individual)” Ou seja, para autora quanto maior for à busca pelo humano-genérico, maior apropriação da sociabilidade pelo individuo.

Para conhecer o cotidiano da vida de pessoas ou grupos precisa-se fazer uma aproximação qualificada do seu modo de vivência. Para alguns estudiosos, cotidiano é o tempo no qual se dá a vivência das pessoas no dia a dia, em determinado tempo e espaço.

O conceito de cotidiano é central nos estudos sobre sociabilidade e mídia, e também é um fator relevante na discussão de políticas sociais. Mais do que o discurso, estas matérias devem aprofundar o entendimento dos usos e costumes a partir dos quais se constrói esta cotidianeidade.

O envolvimento das pessoas em determinadas práticas parte da identificação de que elas tem vínculos com seu modo de ser e agir, ainda que o cotidiano seja o espaço do acaso e do inesperado.

Este universo – o cotidiano – é complexo e contraditório e se altera dinamicamente na medida em que o modo de ser das pessoas altera a vida cotidiana e é alterado pelo que ocorre nesta cotidianeidade.

É neste cotidiano que se pode identificar usos e costumes – sejam eles originários das famílias e locais de origem das pessoas, seja construídos na convivência escolhida ou forçada com pessoas que originalmente agiam de forma diferenciada.

Numa convivência forçada – os espaços institucionais são um exemplo disso – vigora a lei do mais forte e as pessoas se modificam ao se submeterem a  outrem, ainda que isso ocorra mais por opressão do que por escolha.

Este cotidiano está sempre baseado num sistema de exigências e costumes e se alterna entre a produção e acumulação e a manutenção dos meios de produção, construindo toda uma gama de símbolos e rituais que deem respostas às necessidades de consumo e fisiológicas.

MARX[2] já dizia que, para ter condições de “fazer história”, os homens precisam viver e para isso necessitam comer, beber, ter moradia, vestir-se a algumas coisas mais.

Segundo LEFEBVRE,  o Estado moderno gere o cotidiano seja direto ou indiretamente. Para ele as relações sociais de dominação e a reprodução destas relações conquistaram a prioridade sobre as relações de produção que elas implicam e, à sua maneira, as contém.

É assim que o Estado moderno assume o papel de gestor da sociedade. Esta gestão reposa sobre o cotidiano e tem por base a cotidianidade. Para a produção capitalista o cotidiano é um centro de atenção. Vista sob um certo ângulo, a vida cotidiana é em si o espaço modelado ( pelo Estado e pela produção capitalista) para erigir o homem em robô. É assim que a vida cotidiana é para o Estado e para as forças capitalistas, fonte de exploração e espaço a ser controlado, organizado e programado. A partir dos estudos de Lefebvre é possível inferir que, para apreender a vida cotidiana, três perspectivas convergente devem ser consideradas: a busca do real e da realidade, a totalidade e as possibilidades da vida cotidiana enquanto motora de transformações globais. Um dos focos estratégicos da práxis revolucionária deve ser o cotidiano vivido pelas classes e grupos sociais oprimidos.

Na vida de toda gente, há três modos de entender os tempos: um viés imóvel (geográfico), um viés social e um viés individual (fugaz). A história da vida privada não pode ser confundida com a história individual de cada pessoa. Ainda que ambas sejam indissociáveis, a Vida Privada tem como objeto de estudo a noção oposta a de consciência do que é público, e a esfera de ação da História da Vida Privada se daria no âmbito familiar e doméstico. Deste modo, as análises da História Individual se dariam em dimensões da micro-história, por exemplo: as relações sociais intrínsecas com a casa, o quarto, a cama, etc. Ou seja, apenas elementos de uma esfera oposta a que determinada sociedade tem como aquilo que é público.

No plano da cotidianidade o útil é o verdadeiro, porque é este o critério de eficácia. O critério de validez no cotidiano é o da funcionalidade. A objetivação que se passa no cotidiano é aquela em que o homem faz do mundo o seu ambiente imediato. A vida cotidiana é o conjunto de atividades que caracteriza a reprodução dos homens singulares que, por seu turno, criam a possibilidade da reprodução social. Reproduz enquanto instrumento de sobrevivência, na vida cotidiana só se percebe o singular.

Mesmo os sonhos e desejos construídos dia a dia, no silêncio e no devaneio, não representam um ato de consciência. O jogo dos sonhos e atividades rotineiras produz insatisfações, angústia, opressão, mais também segurança. Raras são as pessoas que não se deixam intoxicar por esse cotidiano. Raras são as pessoas que rompem ou o suspendem, concentrando todas as suas forças em atividades que as elevem deste mesmo cotidiano e lhes permitam a sensação e a consciência do ser homem total.

A vida cotidiana é heterogênea e também hierárquica. Isto é, a vida cotidiana é caracterizada por um conjunto de ações e relações heterogêneas que contém em seu bojo uma certa hierarquia. Esta não é rígida nem imutável, como diz Agnes Heller. Ela se altera seja em função dos valores de uma dada época histórica, seja em função das particularidades e interesses de cada indivíduo e nas diferentes etapas de sua vida.

Agnes Heller cita os cinco atributos ( a partir de Marx) que definem essa essência humana: o trabalho, a sociabilidade, a universalidade, a consciência e a liberdade. O valor é tudo aquilo que favorece o desenvolvimento dessa essência humana. O valor é fundamental para entender a história como espaço de emergência. Portanto, a vida cotidiana se insere na história se modifica e modifica as relações sociais.

Nos séculos XIX e início do século XX o espaço público tinha um status de espetáculo e de representação. Quem sabe em virtude dos medos aos perigos da rua, ocorreu uma certa falência da cidade como local de expressão e de interação. Hoje as pessoas preferem conviver em shoppings e barzinhos e toda uma vivência na cidade se perdeu.

No tempo que eu era criança, brincava-se na rua, nas praças, parques, bosques e quintais e era ali que a gente aprendia a conviver não apenas com irmãos e primos mas com vizinhos de diferentes idades e sexos.

Não existindo mais este tipo de convivência, as novas gerações não sabem quem são os “outros” que vivem no mesmo bairro, região ou cidade. A partir dessa “ignorância” do outro, fazem-se inferências identificando pobreza com violência e marginalidade e riqueza com vida fácil e felicidade.

O ambiente de investigação de corrupção generalizada no Brasil nos dão conta que estes universos não estão assim tão bem delimitados.

Segundo a legislação, cada pessoa deveria ter o direito de decidir que aspectos de sua vida devem se tornar públicos e o que dela permanecerá em privado.

O Estado, mesmo falando em nome dos interesses da coletividade não deveria, não poderia, cruzar essa fronteira, mas deveria garantir que as pessoas escolham como querem manifestar suas ideias e como tornar públicos seus afetos, usos e costumes.

A Mídia, muitas vezes, invade estes domínios e traz a público, a vida privada de pessoas com notoriedade, e nem nos apercebemos as invasões do espaço privado que ocorrem na vida de grupos como aqueles que estão em situação de rua.

A SITUAÇÃO DE RUA COMO INSTITUIÇÃO TOTAL

Instituição total é aquela que controla ou busca controlar a vida dos indivíduos a ela submetidos substituindo todas as possibilidades de interação social por “alternativas” internas. O conjunto de efeitos causados pelas instituições totais nos seres humanos é chamado de institucionalização.

Segundo GOFFMAN[3], Instituições totais são aquelas que servem de lugar de residência e de trabalho para um grande número de indivíduos que ao serem colocados nesta condição tem cortados seus contatos com o mundo exterior. Esta situação pode se estender por meses e mesmo por anos, obrigando estas pessoas a se reinventarem num modo de vida diferente do que vivenciavam antes de estar nesta situação.

Goffman coloca estas Instituições totais em cinco grandes blocos: lares para idosos, órfãos e indigentes; sanatórios, hospitais psiquiátricos e leprosários; prisões, penitenciárias e campos de concentração; instituições vocacionais e retiros e conventos.

Esta Instituições totais, na maioria dos casos tem seus espaços físicos fechados por muros que delimitam seu território, e os indivíduos internados têm, como parte de suas obrigações, uma participação visível nos momentos adequados às atividades do estabelecimento. Isso exige deles uma mobilização da atenção e do esforço muscular, além de certa submissão pessoal à atividade em questão. Essa participação obrigatória na atividade do estabelecimento é considerada como um símbolo do compromisso e da adesão do indivíduo, implicando também a aceitação por ele das consequências da participação para uma definição de sua natureza, o estabelecimento institucional possa ser considerado “total”, ele deve ser constituído por uma lógica totalitária, cujos parâmetros encontramos nas análises de Goffman[4]. (1961)..

O trabalho dentro dessas instituições, nas quais os internados têm o atendimento de todas as suas necessidades planejadas, apresenta características peculiares. O trabalho pode ser muito ou pouco, pode estar relacionado a um sistema de recompensas secundárias ou prêmios que estimulam o internado a conquistá-los. Como não há pagamento em dinheiro, mediação usual utilizada no mundo externo, há uma fraca motivação para executar o trabalho, para gastar mais ou menos tempo no seu término. O trabalho é geralmente uma forma de preencher o tempo ou um castigo propriamente dito. Ele contribui para o funcionamento do estabelecimento, mas não é essencial. Existe uma incompatibilidade entre o funcionamento das instituições totais e as relações sociais capitalistas que regem o trabalho assalariado na sociedade atual.

Elas parecem mais próximas do modelo feudal ou escravista. A família também é outro elemento incompatível com a instituição total e seus estabelecimentos. A vida familiar e doméstica é contrastada com a vida grupal dos internados, que dificilmente podem manter uma vida doméstica significativa. A instituição total suprime um círculo completo de lares reais ou potenciais.

Analisando-se a situação de rua na ótica das Instituições Totais pode-se observar algumas semelhanças:

  1. A rua serve de lugar de residência de trabalho
  2. Um grande número de indivíduos, ao ficarem em situação de rua tem seus contatos com o mundo exterior
  3. Se esta situação levar meses, ou anos, estas pessoas reinventam seu modo de vida de maneira a conseguir sobreviver nesta nova realidade
  4. As barreiras (muros) que dificultam a saída da situação de rua são invisíveis mas a cada dia são reforçadas por discriminações e preconceitos
  5. Para sobreviver na situação de rua, as pessoas tem como parte de suas “obrigações” a submissão às regras impostas pelos moradores da “cidade oficial”
  6. Ao mesmo tempo em que se espera uma atitude empreendedora destes indivíduos – que deveriam construir seu caminho de saída – se exige que se curvem à repressão seja da polícia, seja dos técnicos sociais dos governos de plantão
  7. Sua casa – espaço inviolável de cada indivíduo, segundo a Constituição – é devassada em nome da ordem e dos bons  costumes
  8. Quando buscam ajuda institucional – em abrigos e outros equipamentos – são forçados a exercer as piores tarefas ainda que a lei defina que isto é proibido (trabalho semelhante à escravidão)
  9. O atendimento a Homens e Mulheres não pressupõe a acolhida de famílias, contribuindo ainda mais para a quebra e distanciamento de vínculos afetivos.

 

A consequência mais imediata é a perda de visibilidade dos valores essenciais ao desenvolvimento do homem enquanto ser singular e social e, com eles a perda de referências para o retorno à sociedade.

O MUNDO DA PESSOA EM SITUAÇÃO DE RUA

 

Desde o primeiro momento, começa a ser despido desses referenciais identificatórios e a passar por uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do conceito que tinha de si mesmo. Sua “carreira moral” vai passar por mudanças radicais e progressivas, suas crenças a respeito de si mesmo e sobre as pessoas significativas para ele são questionadas,

A pessoa em situação de rua entra em crise e começa a desmoronar. Goffman (1961, p.111) utiliza o termo “Processos institucionais de modelagem do comportamento”.

Mais do que o caminho geográfico que fizeram, o que se precisa considerar é a trajetória de perdas que tem sido a vida dessas milhares de pessoas. A maioria passou pelo ciclo completo: expropriada da terra, espoliada em seus direitos, e excluída do participar da sociedade… O ápice deste caminho de expulsões sucessivas é o fragmentar da identidade que os transforma em seres “sobrantes”.

Trabalhei o dia todo, e o que ele me deu não dava pr’eu almoçar… – disse o Hélio.

Se como, não durmo. Se durmo, não como… pras duas coisas o dinheiro não dá “ – afirma o Aluízio.

O viver na rua é na verdade, a única opção desses trabalhadores aparentemente descartados pelo sistema: um viver onde ninguém é cidadão.

O permanecer nas praças e ruas e tornar-se Homem de Rua configura a exclusão de um sistema de vida e a integração a esse outro mundo que é o da rua, tornando-se esta, rapidamente, o espaço do todo. Comer, trabalhar, dormir, sociabilizar-se…e as pessoas se modificam no novo habitat.

A história da maioria destes indivíduos perpassou por inúmeras opções, a começar pelo hospedar-se na casa de parentes e amigos. O brasileiro é muito hospitaleiro, e entre o povo mais simples, a chegada de um parente ou amigo é motivo de festa. Põe-se mais água no feijão, e o espaço é como coração de mãe, sempre cabe mais um.

Bem vindo, a princípio, vê a situação alterar-se, à medida que empregar-se é difícil. Os sorrisos acabam e a sensação de ser um peso morto leva a perceber que é hora e buscar outra opção.

Poucos vão diretamente para rua. Muitos alternam-se entre os alojamentos das obras e as pensões. A pensão, apesar da precariedade, dá uma certa privacidade, e permite o levantar a cabeça ao dar endereço da moradia. Mas os recursos são escassos, o preço cobrado por dia é alto, e chega o momento em que é mais uma opção a ser descartada. Os alojamentos das obras, o pernoitar nos depósitos de papelão conseguem juntar à insalubridade de moradia o fato de ser obrigado a submeter-se, sem nunca poder dizer um ai.

No alojamento é ruim. Mesmo pagando, não se pode nem falar alto” – reclama o Aluízio.

 

Pernoitar na rua, a princípio foi uma situação transitória, ocasional… faltava o dinheiro para pagar a pensão…

Na medida em que se alternam os dias, o pernoitar em qualquer canto faz com que essas pessoas sejam expulsas do contato com a sociedade, estigmatizadas pela precariedade da condição de vida; além de outros fatores, não conseguem mudar esta situação.

A igualdade na miséria cria uma atitude que não chega a ser solidariedade, mas que faz com que tudo seja partilhável. Em bandos dificilmente se é atacado ou roubado: alguém sempre vigia e logo se desenvolve uma malha de relações de pertença.

As relações possíveis na rua fazem com que os grupos sobrevivam com maior ou menor proximidade das situações de delinquência. Deste modo, alguns sobrevivem do roubo, outros de furtos, achaques, repasse de mercadorias roubadas, bicos, interagindo em função de uma pseudocumplicidade e de sua relação diferenciada com o crime e os condicionantes morais da sociedade.

Pouco a pouco, começa-se a acostumar … não ter aonde ir… ficar parado e calado… ser olhado por estranhos…

O morar, neste dia-a-dia, ganha um significado ainda maior, na medida em que se sente na pele a sua falta.

Faça calor ou frio, chova ou faça sol, não há onde se abrigar, não há o aconchego nem a segurança das portas fechadas. A higiene do corpo e das vestes são outros detalhes que crescem de valor…

Nesse mesmo sentido, a fala do Francisco, que condiciona a liberdade ao viver…

“A liberdade para mim, acho que é viver. A liberdade está na vida da pessoa em si, de ele se sentir bem aonde ele estiver, onde chegar, e não se sentir olhado.”

Este “sentir-se olhado” provavelmente está ligado à discriminação e ao preconceito, que se voltam contra eles e que são reação de quase toda a sociedade. A polícia também tem um olhar que assusta, na medida em que, a seu bel prazer, para, revista, interroga e até mesmo leva detidas pessoas que nada de mal estão fazendo.

Ao chegar à situação de rua, esta pessoa possuía um conjunto de experiências que confirmavam uma concepção favorável de seu eu e lhe permitia agir e reagir, utilizando um conjunto de defesas exercidas de modo tal que pudesse enfrentar conflitos, dúvidas e fracassos.

Mas se o “tempo de rua” for muito longo, pode ocorrer uma perda do traquejo cultural que o torna temporariamente incapaz de enfrentar alguns aspectos de sua vida diária na vida civil cotidiana.

[1] HELLER, O COTIDIANO E A HISTÓRIA, RJ, Paz e Terra, 1989 (3ª.)

[2] MARX, K. e outro – A IDEOLOGIA ALEMÃ, SP, Hucitec, 1991 (8ª.)

[3] GOFFMAN, Erving – MANICÔMIOS, ´PRISÕES E CONVENTOS, SP, Perspectiva, 1961.

[4] idem


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