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TEATRO DO OPRIMIDO E POPRUA
junho 18th, 2017 by Magdalves

 

“O Teatro do Oprimido (TO) é uma metodologia criada por Augusto Boal nos anos de 1960, que pretende usar o teatro como ferramenta de trabalho político, social, ético e estético, contribuindo para a transformação social. Foi desenvolvida (e está ainda sendo, nas mãos de quem usa agora este método) ao longo das diferentes experiências de Boal, quer na América Latina (onde viveu a ditadura brasileira e a derrota das esquerdas latinoamericanas que o levaram ao exílio) quer na Europa.”[1]

Quem se permite atuar a partir das técnicas do Teatro  do Oprimido descobre um modo novo de se relacionar com pessoas.

A riqueza desta proposta é partir de uma metodologia de libertação construindo novas expressões a cada situação vivenciada. Estes contextos tem limites que precisam ser suplantados para possibilitar uma possível transformação.

Uma primeira abordagem é a ativação sensorial e a “desmecanização do corpo” e cada exercício visa funções concretas.

Segundo CRUZ, “A seiva que alimenta a “árvore do TO” é a Estética do Oprimido e no seu topo temos a promoção de ações sociais concretas e continuadas – a transformação da realidade”.

Na base desta proposta, Boal propunha três princípios: a reapropriação dos meios de produção teatral pelos oprimidos, a quebra da quarta parede: distância que separa o público dos atores e a necessidade de se integrar estas ações num trabalho social mais amplo.

Meios de produção teatral

A linguagem teatral é a linguagem do cotidiano das pessoas expandida a partir de outras formas de expressão. Estas formas de expressão, no Teatro do Oprimido, traduzem sentimentos, usos e costumes de pessoas que na maioria dos ambientes vivem reprimidas por exigências externas.

O subtexto a que o Teatro do Oprimido serve com esta recuperação dos meios de produção teatral é tornar explícitas estas possibilidades para pessoas  que vivem em ambientes superexplorados, dando-lhes coragem para enfrentar esta situação. Esta proposta não objetiva resolver cada  um destes problemas para estas pessoas, mas abrir uma reflexão que permita que vislumbrem o leque de opções naquele momento.

É neste sentido que o Teatro do Oprimido se torna mais uma ferramenta na conscientização e na transformação da realidade. O debate dos problemas leva ao empoderamento destes sujeitos/atores sociais na defesa de seus direitos, possibilitando uma participação mais efetiva.

Numa das técnicas do Teatro do Oprimido – teatro fórum, também conhecido como teatro invisível – “o espectador torna-se protagonista da ação, um espect-ator, sem que, entretanto, disso tenha consciência. Ele é o protagonista da realidade que vê, mas ignora a sua origem fictícia: atua sem saber que atua, numa situação que foi, em seus largos traços, ensaiada… e que não teve a sua participação”.[2]

Quando a gente propõe – sem esta intermediação – que as pessoas tragam para a reflexão  a realidade que almejam, há toda uma dificuldade na medida em que em nossa vida são construídos escudos que nos impedem de “sonhar”.

No Teatro do Oprimido os grupos se propõem a construção do “sonho possível” – como diria Paulo Freire.

Segundo CRUZ, “Esse sonho possível, ou realidade desejada, não se refere a uma idealização ingênua, mas emerge justamente da reflexão crítica acerca das condições sociais de opressão. Conhecer essas condições faz com que elas não sejam encaradas de forma determinista, mas com que a realidade seja entendida como mutável através da participação dos sujeitos que a constituem.”

Ao mesmo tempo em que constrói caminhos de saída com estas pessoas, o Teatro do Oprimido mostra situações de opressão e permite identificar outras possibilidades e firmar um compromisso com a concretização destas possibilidades.

Romper a quarta parede

No Teatro do Oprimido, quarta parede é o nome que se dá à barreira invisível existente entre os atores e o público, entre o palco e a plateia.

Nesta proposta, não temos atores falando e expressando suas ideias para um público, mas todos tem o poder de falar e agir, propondo finais mais próximos das realidades vivenciadas pelos participantes.

O PAPEL DA CONVIVÊNCIA NO FORTALECIMENTO DE VÍNCULOS

A PNAS destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros) e, ou, fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras). (PNAS, 2004, p.33).

Ao definir como público alvo a população em vulnerabilidade social, a PNAS entende que a busca de caminhos de superação pode ser potencializada por ações coletivas com essas pessoas.

Estes usuários devem  ser levados a apropriar-se de sua capacidade de realização pessoal e social, ao mesmo tempo em que devem ser fortalecidas suas relações no âmbito da família, da vizinhança, das associações que representam coletivamente seus interesses para que ele seja “reconhecido” na realidade em que vive.

Não se trata apenas de populações em condições precárias ou privadas de renda e sem acesso a serviços públicos, mas também aqueles cujas características sociais e culturais são desvalorizadas ou discriminadas negativamente, numa dimensão relacional da vulnerabilidade.

Nesta leitura, a Assistência Social tem responsabilidades em relação a (1) compreender os processos sociais e os mecanismos institucionais que produzem riscos sociais que tornam cidadãos e suas famílias desprotegidos e (2) em assegurar serviços que garantam convivência e fortalecimento de vínculos.

Convivência e Poprua

Nas primeiras atividades que podemos considerar como origem da Política Nacional para Pessoas em situação de rua, o apelo da convivência já era bastante significativo.

As primeiras propostas partiam do entendimento de que estas pessoas estavam desgarradas da sociedade e assumiam a tarefa de com elas formar comunidades, e havia quem dissesse que isso era uma utopia impossível de ser alcançada porque parecia impossível levá-los a agir em busca deste convívio.

Dentre os princípios apontados no decreto[3] que determina a Política Nacional para Pessoas em situação de rua, o item II pontua o direito à convivência familiar e comunitária.

Para que esta Política alcance seus objetivos (artigo 7, do mesmo decreto) há a necessidade de um trabalho permanente voltado para sensibilizar a população em geral, visando a superação do preconceito, além de capacitação continuada com os trabalhadores que atuam junto a este segmento.

Na definição do padrão básico da rede de serviços a ser disponibilizada a esta população, estão definidas regras de funcionamento e convivência num esforço para a integração destes usuários.

São três as seguranças que devem ser asseguradas a estas pessoas: acolhida, convívio ou vivência familiar, comunitária e social e segurança de desenvolvimento de autonomia individual, familiar e social.

Podemos pensar em três aspectos que precisam estar garantidos neste abrigar: (1) preservação dos vínculos com a família de origem e apoio à reestruturação familiar; (2) incentivo à convivência com outras famílias e com outros abrigados; (3) estrutura residencial do abrigo.

O trabalho social proposto pela PNPR prevê visitas domiciliares e acompanhamento social às famílias destas pessoas, especialmente se crianças e adolescentes. Reuniões com as famílias visando a discussão sobre o apoio que estas podem dar a estes “abrigados” são propostas que podem ser muito significativas, em especial se as famílias forem nucleadas a partir dos problemas que apresentam.

O incentivo à convivência com seus pares pode ser resultado de atividades realizadas no equipamento e voltadas para a quebra de barreiras no que se refere ao outro e a um potencializar dos vínculos.

Por outro lado, pode-se propor atividades voltadas para a construção de projetos sociais e pessoais de modo a ampliar a autoestima. Estes projetos devem ser viáveis e apontar possibilidades de alcance da autonomia e bem estar.

Informações sobre Direitos voltadas para a facilitação do acesso a serviços do sistema de proteção social, recebimentos de benefícios sociais e/ou de transferência de renda, devem ser concomitantes com necessidades, interesses e possibilidades o que aponta a urgência em refinarmos os canais de escuta dos desejos e necessidades dos usuários.

Evidentemente,estas vivências devem ser pautadas pelo respeito a si próprio e aos outros e fundamentadas em princípios éticos de justiça e cidadania.

Segurança de Convivência Familiar e comunitária

Tanto os serviços voltados para pessoas em situação de rua configurados como proteção básica ou como proteção especial objetivam garantir aos usuários três das seguranças previstas pela Política de Assistência Social: segurança de acolhida, segurança de desenvolvimento de autonomia individual,familiar e social e segurança de convívio ou vivência familiar, comunitária e social.

No detalhamento da segurança de convívio são apontados dois aspectos:

¨      Convívio familiar e/ou comunitário;

¨      Acesso a serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas setoriais, conforme necessidades.

Assegurar o convívio familiar ou comunitário implica em ações voltadas para quatro eixos:  (1) promover e preservar vínculos afetivos, familiares e comunitários; (2) apoiar a reestruturação familiar; (3) apoio ao convívio com seus semelhantes.  Por outro lado, os serviços específicos para atendimento deste segmento devem ser organizados como residências, com atendimento personalizado e recursos voltados para as necessidades demandadas.

Apoio ao convívio com seus semelhantes

A grande maioria destes homens e mulheres não nasceu em situação de rua. Tornou-se pessoa em situação de rua no decorrer de sua existência, e isto não aparece de uma só vez, mas é um processo que, didaticamente, podemos subdividir em três etapas.

Num primeiro momento, este Homem ou esta Mulher não se vê como Homem de Rua. A primeira reação é de desprezo quanto aos atributos negativos dos demais Homens de Rua e de apoio às normas da sociedade mais ampla. O pernoitar na rua ou nas praças parece-lhe um ato isolado, fruto da falta de dinheiro para a pensão apenas aquela noite. Não se sente igual àqueles que conheceu nessa situação de dificuldade e até para sentir-se bem, considera sua presença na rua como provisória.

Nesta etapa, fruto da insegurança na sua relação com os outros do bando, tende a uma atitude desconfiada, deprimida, hostil, ansiosa e confusa. Sente solidão, mesmo quando está cercado de pessoas. Ela é gerada quando não vê a possibilidade de estabelecer contatos reais e pela sensação de hostilidade provocada pelo sentir-se diverso daquele grupo.

A POPRUA, A CONVIVÊNCIA E O TEATRO DO OPRIMIDO

Nos últimos anos foram realizadas diversas atividades de Teatro do Oprimido nas quais público e atores são pessoas em situação de rua.

Esta tem sido uma maneira de construir propostas na ótica de quem vive em situação de rua, ainda que mediadas por técnicos e outros profissionais nas áreas da saúde, assistência social e outras.

O primeiro aspecto a ser observado é que estas ações sensibilizam usuários e trabalhadores visando a melhoria do diálogo necessário à construção de políticas.

As intervenções são educativas, artísticas e musicais e visam pessoas em situação de vulnerabilidade social. Um dos  enfoques são as diversas situações de discriminação que impedem o uso dos potenciais identificados nestas pessoas.

Na ótica em que se reconhece e respeita direitos, precisa-se  trabalhar muito sobre a discriminação que faz com que aceitem ser tratados como “alguém sem direito algum”.

A escuta qualificada[4] dos diálogos ocorridos nos momentos em que se utiliza a técnica do Teatro do Oprimido permitem perceber a interpretação dada por estes usuários dos serviços sobre as ofertas que lhe são feitas. A consequência é uma releitura dos serviços prestados e dos mecanismos de acesso a eles.

Exemplo de algumas das disparidades propostas é a ação que vem sendo desenvolvida na Cracolândia. Para conseguir uma vaga em abrigo, a pessoa em situação de rua precisa acessar o “156”. Alôôô! Pessoas em situação de rua nem sempre tem telefones a disposição… só falta exigir que tenham algum tipo de “aplicativo” para fazer esta reserva.  Não contentes com isso, a SMADS passou a exigir um procedimento semelhante para que tenham acesso a banho e alimentação… escutá-los, nem pensar.

Um esclarecimento importante é os participantes destes momentos de técnica do Teatro do Oprimido de que não há por trás do exercício nenhuma promessa de resolver as questões.

É claro que, ao perceber o reflexo da ação na população, pode-se adequá-la às suas necessidades, mas a panaceia de que tudo estaria resolvido  sempre e de imediato distorceria o diálogo e separaria os participantes em “pedintes”  e “resolvedores de problemas”, o que não é real.

Por outro lado, experienciar uma outra relação – não mais apenas o obedecer, mas o compartilhar suas vivências – mexe com a autoestima e possibilita dar passos na construção de um projeto de libertação desta situação de rua.

O papel dos técnicos é fundamental nisso, não como donos da verdade, mas como parceiros que atuam no desatamento de nós críticos e na facilitação junto a outros públicos com os quais estas pessoas precisam se relacionar.

 

[1] CRUZ, Joana – O que é o Teatro do Oprimido – capturado  na internet; Óprima 2015!

[2] BOAL, Augusto – JOGOS PARA ATORES E NÃO-ATORES, RJ, Civ.Brasileira, 2000.

[3] A Política para População de Rua foi formalizada a partir do Decreto 7053/2009.

[4] Escutar (qualificadamente) o outro não é apenas ouvir o som de suas palavras, mas entender seus gestos, modos de expressar, levando em conta o reflexo em mim. Inclui uma análise de contexto que me dirá qual a ótica a partir da qual aquele diálogo está ocorrendo.


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