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A SINERGIA ENTRE AS AÇÕES SOCIAIS
maio 31st, 2017 by Magdalves

A raiz da discussão de ações intersetoriais nas políticas sociais está baseada na teoria da complexidade.  Edgar Morin aponta que este paradigma influi na educação, abrangendo todas as áreas do conhecimento.

Na educação o pensamento de Morin consiste na complexidade do ser e do saber. Sua teoria surgiu da constatação de que o planeta vive hoje uma crise sob todos os aspectos – agonia planetária – ela é composta pelos caracteres de perigo e oportunidades; perigo pela destruição que vem ocorrendo entre a natureza e os seres humanos e oportunidade, como caminho para a transformação.

Morin afirma a necessidade urgente de um modo novo de pensar que seja complexo frente ao pensamento simplista e fragmentado dos dias atuais. Um pensamento que permita às pessoas  compreenderem que os limites e as insuficiências de um pensamento simplificador não exprimem as ideias de unidade e diversidade presentes no todo, já que o todo é complexo como as partes. A partir desta ótica, Morin defende a interligação de todos os saberes.

A diversidade somente poderá ser enfrentada quando se conseguir superar a fragmentação do conhecimento a ela inerente.

Quando lidamos com a realidade social podemos perceber que a pobreza se apresenta aprisionada a partir de limites da insuficiência de renda monetária mas que seu alcance é muito maior.

É a partir de Keynes que se propõe o pleno emprego, a poupança, a  industrialização, os gastos governamentais e a ampliação do mercado consumidor como caminhos de superação das maiores expressões da pobreza e da exclusão social.

A vida é um conjunto de dimensões e cada uma delas somente pode ser enfrentada no conjunto e isto nos leva a buscar a proximidade dos saberes.

Inúmeros  são os estudos acadêmicos sobre conhecimentos articulados. Se as ações interprofissionais trazem a proximidade do saber, são as ações transdisciplinares que geram novos conhecimentos.

Ainda que se tenha que preservar as cláusulas setoriais, trabalhar a partir de equipes multiprofissionais nos parece pouco. Há que se avançar na construção da sinergia que permita atuar sobre os problemas mais complexos.

Atuar em Redes

Usualmente, as Políticas Sociais atuam de modo estanque, fechadas em si mesmas.  Cada “política setorial” constrói saberes isolados, buscando esgotar questões e utilizando linguagens e corporações próprias.

É no dia a dia da ação que a demanda por uma ação conjunta apresenta um quadro de necessidades cujas respostas, muitas vezes, estão aquém das respostas dadas por uma única política.

A  hierarquia verticalizada e piramidal não possibilita avançar na busca do atendimento das necessidades e expectativas do público para o qual ela se volta.

Quem está mais próximo da realidade não é quem toma as decisões que permanecem nas mãos de uns poucos que continuam fechados em seus gabinetes.  Isso, sem contar com o loteamento de cargos de direção e a ausência de avaliações sistemáticas.

Sem monitoramento, as ações não tem como expressar as necessidades reais e as respostas passam longe daquelas que responderiam à realidade das pessoas.

Políticas e programas que se estruturam a partir de outra lógica permitem a aplicação conjunta e simultânea de ações que se originam nas diversas políticas setoriais.

Uma estratégia que vem se mostrando eficaz é a subdivisão em microterritórios onde é possível a elaboração de diagnósticos mais precisos e da aproximação com o perfil do público a ser atendido.

O foco em áreas geográficas permite apreender melhor as especificidades locais e possibilitam um diagnóstico mais preciso. Somente assim pode-se definir dosagens e combinações a serem apresentadas aos moradores e, decidir com eles os melhores caminhos a serem seguidos.

Construir ações integradas pressupõe diálogos entre ações do poder público, da sociedade civil que vão além dos contratos e convênios.

Pressupostos da Ação Social articulada

“A integração das ações é pressuposto básico dada a multidimensionalidade da exclusão social; mas, além disso, a sinergia entre as diferentes ações permite potencializar os resultados individuais de cada um dos programas ao perceber o cidadão como um todo e não como alguém com apenas esta ou aquela parcela de necessidade”[1].

Na constituição da exclusão social que atinge a grande maioria da população em nosso país, não podemos deixar de focar naquelas dimensões que se articulam e se retroalimentam como a econômica, a cultura, a urbana e a social.

Sem emprego mora-se mal, e não se tem acesso a condições de saúde, educação nem a bens culturais.

Perguntas que não querem calar

Ao discutir, no cotidiano da ação, os caminhos desta articulação, muitas dúvidas são colocadas, dentre as quais salientamos:

Quem deve coordenar este processo de articulação?

A escolha do órgão responsável por este diálogo passa pelo conhecimento da proposta política do município como um todo.  Esta coordenação tem que atuar de fato e ter poderes e postura que permitam a construção de um coletivo de ação, mais do que subordinar as demais Secretarias.

Este agir deve ter um formato “matricial”, e a definição dos caminhos precisa respeitar as decisões setoriais ao decidir o que fazer. Pouco a pouco, vamos percebendo que ganhamos todos ao agir conjuntamente.

Exemplo disso foi uma situação vivida em Santo André, anos atrás. A equipe de saúde de um determinado bairro identificou uma espécie de epidemia de diarreia entre a população. Ao levar esta discussão para o coletivo, a equipe do saneamento (a área estava passando por urbanização) apontou que esta epidemia se devia a falta de ações de saneamento já que, pela programação, esta área seria tratada meses depois.

Como os responsáveis pelas diversas políticas setoriais se faziam presentes na discussão, foi possível, com facilidade, alterar o cronograma de obras e sanear o problema.

Qual das ações setoriais deve ser o “carro chefe” na construção de parâmetros da ação?

Todas e nenhuma!  Os parâmetros de ação devem ser construídos coletivamente, preferencialmente em processos de Planejamento Estratégico.

Numa realidade com poucos recursos financeiros, como dar conta das especificidades?

Geralmente, nossos olhos somente conseguem vislumbrar os recursos financeiros, mas garantidamente a realidade trás mais do que isso.

O primeiro passo para identificar onde eles estão é um diagnóstico do território. Qual o potencial econômico mais significativo? Como conhecer e dialogar com empresários e organizações visando a formação de alianças.

Precisamos construir uma sinergia permanente que retroalimente com novas ações o tempo todo. Por outro lado, há que se sensibilizar os empresários para que introduzam em suas empresas mecanismos de não-discriminação que permitam que pessoas com dificuldades na vivência possam participar de seleções e mostrar como podem contribuir.

Como lidar com a multiplicidade de interesses e as situações de conflito?

Este é um aspecto que requer maior sensibilidade e cuidado. O primeiro ponto é reconhecer que os interesses são múltiplos, muitas vezes excludentes, e buscar se aproximar para entender cada um deles.

Uma análise cuidadosa permite identificar interfaces de onde podem surgir ideias novas já que há necessidades que não são priorizadas pelos grandes empresários e podem ser cenário na construção de novos nichos de mercado.

Os sujeitos políticos somente se unem quando conseguem vislumbrar um interesse comum ou mesmo uma vantagem a ser obtida com essa nova postura.

Em qualquer destas circunstâncias, o que se precisa é dialogar, mas dialogar de “peito aberto”, buscando entender a ótica do outro, pois somente assim podemos agir de forma integrada.

 

[1][1][1] Extraido de uma revista da Prefeitura de Santo André que apresenta o Programa Santo André Mais Igual, 2002.


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