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PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA E A IDENTIDADE (DES)CONSTRUÍDA A PARTIR DA INVISIBILIDADE SOCIAL
maio 1st, 2017 by Magdalves

Quando analisamos a questão da invisibilidade social, estamos falando de “seres socialmente invisíveis”, não porque lhes falta matéria mas porque, em virtude dos processos vividos na sociedade eles não são vistos, escutados e nem tem sua opinião considerada.

Pessoas em situação de rua tem carne e osso  como cada um de nós, tem sentimentos, pensamentos e opinião sobre diversos assuntos, mas sua voz não é ouvida, e mais do que isso, a grande maioria da nossa sociedade se recusa a olhá-los.

Numa cidade vibrante como é São Paulo, estes quase vinte mil seres que reconhecemos como “em situação de rua” passam a ser parte da paisagem urbana. Eles não tem a relevância de atores sociais, mas são apenas objetos na construção do cenário onde a vida cotidiana acontece.

Numa das múltiplas contradições vividas pela sociedade, há todo um discurso de que são economicamente irrelevantes, afinal, não são produtivos como deveríamos ser todos num sistema capitalista como o que vivemos.

Eles são irrelevantes, mas é nos seus locais de concentração que os “gatos” procuram trabalhadores que permitam a hiperexploração que amplia os lucros das empresas.

 

Os “bicos” realizados por estas pessoas como estratégia de sobrevivência são de diversas naturezas: carga e descarga de alimentos que chegam/saem dos entrepostos como CEASA; faxina diária em restaurantes e bares onde são servidas refeições populares; ajudantes em obras de construção civil; etc..

Ao serem “arregimentados” para estes trabalhos, nenhuma importância é dada à sua capacidade produtiva, suas predileções ou conhecimentos anteriores.  São levados como “gado” que se laça no campo e se trás para que seja “usado” naquele trabalho.

Quando este trabalhador corresponde ao que se espera dele – e portanto poderá ser “reutilizado” consegue receber um valor que nem chega a ser suficiente para sua sobrevivência, mas que “é mais do que tinha antes” e ele deve agradecer.

Se este trabalhador não corresponder ao esperado, pode ser que nem receba pelo trabalho feito… e nenhuma voz se levanta para defendê-lo.

Num processo de reificação – em que o homem é aquilo que faz – este trabalhador é comprado e vendido, não mais como um escravo individual mas como parte de uma massa de trabalhadores que é excedente e permanece a disposição do empregador.

Um dos “motores” desta invisibilização baseia-se em dois aspectos: estes trabalhadores são insignificantes e irrelevantes socialmente.

A quem interessa manter esta massa de trabalhadores invisíveis? Não podemos deixar de perceber que esta situação é interesse de classe e que precisamos analisar historicamente como isso se constituiu.

HOLANDA aponta que “Toda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos. É preciso considerar esse fato para se compreenderem exatamente as condições que, por via direta ou indireta, nos governaram até muito depois de proclamada nossa independência política e cujos reflexos não se apagaram ainda hoje. Na civilização agrícola que os portugueses instauraram no Brasil, começa-se a se gestar uma civilização de raízes rurais. É efetivamente nas propriedades rústicas que toda a vida da colônia se concentra durante os séculos iniciais da ocupação europeia: as cidades são virtualmente, se não de fato, simples dependências delas. Com pouco exagero pode dizer que tal situação não se modificou essencialmente até à Abolição. 1888 representa o marco divisório entre duas épocas; em nossa evolução nacional, essa data assume significado singular e incomparável. Na Monarquia era ainda os fazendeiros escravocratas e eram filhos de fazendeiros, educados nas profissões liberais, quem monopolizava a política, elegendo-se ou fazendo eleger seus candidatos, dominando os parlamentares, os ministérios, em geral todas as posições de mando, e fundando a estabilidade das instituições nesse incontestado domínio”.

A DESCONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DA POPULAÇÃO DE RUA

Em um trabalho anterior, apontei que a Identidade das Pessoas em situação de rua são identidades construídas a partir de perdas:

No dia a dia, estes indivíduos se relacionam com os outros, com o mundo real, e nesta vivência constroem o seu pensar e o seu agir, reconstruindo a realidade a partir das relações sociais existentes. O mundo cotidiano é modificado pelo agir desses Homens de Rua que, em contrapartida, são transformados pelas consequências de suas ações e pela ação de outros homens e mulheres.

Sendo o  espaço social ocupado pelo Homem de Rua um espaço subalterno, ele exige que se submeta em quase tudo o que faz. A partir daqueles que se opõem a eles – e poucos não o fazem – vai-se estruturando a representação que fazem de seu espaço social e de seu próprio papel na sociedade. A busca de ajuste ao padrão de comportamento social legitimado esbarra no esgotamento das normas que, criadas para outros sistemas de vida, mostram-se muitas vezes totalmente inadequadas e insuficientes.

O perceber que seu comportamento é divergente e a formulação estigmatizada em relação a isso causa um sentimento de inferioridade e vergonha, já que a sociedade, em função de uma construção ideológica, explica essa formulação a partir da inferioridade e do perigo que este segmento social representa. A condição de não identidade se, em algumas vezes gera revolta, em outras leva ao conformismo, que faz dessa população um objeto passivo de coerção.

Considerando escravidão, servidão e capitalismo como relações diferenciadas no que se refere a Capital e Trabalho, precisaríamos fazer um exercício de mesclagem para buscar apreender a relação destes Homens de Rua com a sociedade.

Não se trata de escravidão na medida em que a sociedade – que seria a proprietária destes trabalhadores – não assume a responsabilidade sobre a sua sobrevivência. Perambulam, passam fome, adoecem e morrem pelas calçadas e isso não é suficiente para responsabilizar nem a sociedade nem o Estado. As Sociedades Protetoras dos Animais só cuidam dos animais irracionais, até nisso eles sobram.

Também não se trata de servidão pois ao servo é destinada uma gleba de terra e são fornecidos instrumentos de trabalho para si e sua família. O servo ou vassalo trabalhava a terra de seu senhor em troca de um pedaço de terra e de proteção. Nossa sociedade nem fornece chão, nem inclui estes Homens de Rua em seus sistemas de proteção social ou policial.

O terceiro vértice da mescla proposta vem da relação capitalista, onde para sobreviver há que se vender a Força de Trabalho. Estes Homens de Rua, na sua trajetória de vida foram expulsos da terra, seja pela reintegração de posse por outrem, seja pelo aceno de melhores condições de trabalho e vida como boia fria rural ou como empregado da construção civil. Sem qualificação profissional, sem condições materiais nem relações sociais que os apoiem na nova vida estes Homens e Mulheres veem-se nas mãos de intermediários que, pisoteando seus Direitos, muitas vezes os fazem sobreviver em alojamentos onde as péssimas condições de dormida e comida se completam pela usura na relação comercial que se impõe.

Quando se rompe com isso, como nos períodos intercalados de desemprego, permanecem nas ruas e praças das grandes cidades. Não ter onde dormir, banhar-se ou o que comer, rapidamente transforma sua aparência e atrai a discriminação, gerada pelo preconceito que o titula de vagabundo. As relações de trabalho possíveis nesta situação são novamente permeadas de hiper-exploração, onde o trabalho pesado durante várias horas dá direito a um prato de comida, e , algumas vezes, a dormir num canto precário, sujo e sem conforto.

Para além das múltiplas diferenças, a identidade dos Homens de Rua se constrói a partir da trajetória de perdas sucessivas que, modificando seu eu, definem um novo modus vivendi. Ora, se o conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um determinado grupo social, conforme diz o professor Ciampa no mesmo texto, a identidade dos Homens de Rua se gesta a partir do não ser, da negação de si mesmo, numa reconstrução pela junção de cacos resultantes das rupturas sucessivas.

Expulso da terra, expropriado em seus direitos, considerado desnecessário economicamente, estas pessoas em situação de rua incomodam a sociedade ao ter a cada dia mais dificuldade em esconder a degradação provocada por sua pobreza. Com o crescimento das pessoas nestas condições, elas passam a ser consideradas politicamente um risco para a sociedade que se alterna entre os sentimentos de pena e medo gerado pela violência criada por esta massa excluída.

ADMIRANDO ESTA SITUAÇÃO, NA ÓTICA DA POPULAÇÃO DE RUA

Numa espécie de sentimento de repulsa, a sociedade recusa-se a olhar para estas pessoas mesmo nas situações em que elas se aproximam demandando ações sociais que permitiriam que sobrevivesse com um sofrimento um pouco menor.

Mesmo quando os técnicos sociais me atendem – queixava-se uma pessoa em situação de rua – ela não me enxerga. Os atendimentos são definidos a partir de estereótipos e não levam em conta que temos na nossa frente um ser humano com uma história anterior, com opiniões, desejos e potenciais que deveriam ser considerados quando da definição do que fazer com este “caso”.

Não ser reconhecido e não poder se colocar frente à situação que está sendo discutida é  ainda mais agressiva na medida em que no trato – que deveria ser profissional – afloram preconceitos e discriminações e a sensação de que “já vi essa história” acaba levando a um modo de agir que leva a tratar como objeto este ser e suas demandas.

Ser sempre tratado como invisível, cuja opinião é irrelevante gera um sentimento de impotência que vai pouco a pouco sendo internalizado e trás consigo uma depressão e o entendimento de que ‘não somos ninguém”.

Reforçando tudo isso, ainda há um entendimento generalizado na sociedade que que estas pessoas não vão dar conta daquilo que está sendo proposto (irresponsividade); que deveriam conhecer e construir por conta própria os caminhos de superação da sua condição – oferta-se qualificação profissional e espera-se destes seres que alcancem o mercado de trabalho sem suporte para isso e sem considerar que vão enfrentar preconceitos e discriminações. Por outro lado, jogando sobre seus ombros a responsabilidade por sua situação, há toda uma atitude depreciativa que vê no seu fracasso um sinal da má índole – afinal, quem é bom, vence na vida.

Para alterar esta situação, há que se trabalhar com estas pessoas em situação de rua, mas também com a sociedade visando a alteração deste imaginário coletivo que, de certa forma, apaga a identidade dos sujeitos e os vê como uma massa amorfa, sem interesses em mudança em virtude de estarem acomodados nesta situação.


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