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HOMENS DE RUA, AQUELES QUE NÃO MORAM
agosto 6th, 2012 by Magdalves

O viver na rua é fruto de uma dramática peregrinação: uma noite sem dinheiro para a pensão, os imóveis abandonados, os terrenos baldios, as marquises de loja. A autora convive, sofre  e participa há treze anos desse problema, e denuncia que o ápice das expulsões sucessivas transforma essa população em seres sobrantes de nossa sociedade.

 

Quando se está em cidades do porte de São Paulo, e se anda de olhos abertos, não é possível deixar de perceber a miséria e a enorme quantidade de pessoas que vive pelas calçadas e no meio das praças.

Mais do que o caminho geográfico que fizeram, o que precisamos considerar é a trajetória  de perdas que tem sido a vida dessas milhares de pessoas. A maioria passou pelo ciclo completo: expropriada da terra, explorada na venda da força de trabalho, espoliada em seus direitos e excluída da sociedade. O  ápice do caminho de expulsões sucessivas é o alienar que fragmenta a identidade e transforma tais pessoas em seres sobrantes.

O viver na rua é a única opção desses trabalhadores descartados pelo sistema: é um viver no qual ninguém é cidadão.

O significado de morar. Morar é instintivo. Todos os animais moram; mas para o homem moradia é mais do que abrigo e proteção. Quando moramos, expressamos nossas identidades, construímos um modo de viver.

Agora, venha comigo. Vamos nos aproximar de um mocó – a casa de mentirinha – montado por uma família que está debaixo do viaduto.

O espaço de ficar, o lugar de dormir e de cozinhar são próximos, mas distintos. Pedaços de um velho sofá ajudam a perceber o que seria a sala. Se prestarmos atenção, poderemos ver a imagem de uma santa, às vezes enfeitada de flores. O coador de café, pendurado na parede, mostra-nos o lugar onde a comida é posta no fogo e partilhada. Estas pessoas do nada fazem tudo. No privatizar do espaço público, reconstroem na rua a casa que não conseguem ter.

Diante dessa situação, qual a reação dos moradores das casas de verdade?  Às vezes são compreensivos e até mesmo buscam ajudá-los no dia a dia. Outros,em nome da cidadania, pedem a retirada…

Expulsa, mais uma vez, à maioria desses seres só resta carregar sua casa numa sacola – o galo, como a chama.  Neste viver, o dormir torna-se uma tortura. Momento de tensão e não de descanso.

Com ar cansado, a roupa mal arranjada e arrastando uma sacola desajeitada, esses seres têm dificuldade em conseguir trabalho. Afinal, têm má aparência, não podem fornecer endereço de residência… O olhar desconfiado já deixa perceber que a resposta é não. Mais uma vez, a rejeição.

Parentes, pensão, alojamento, rua. “Como se chegou a isso?”,  você deve estar se perguntando. A história dessas pessoas,em geral, perpassa por muitas opções, a começar pelo hospedar-se em casa de parentes e amigos. A chegada de um parente ou amigo é motivo de festa. Põe-se mais água no feijão, e o espaço é como coração de mãe; sempre cabe mais um. Bem vindo a princípio, o “hóspede” vê a situação alterar-se à medida que conseguir emprego é difícil. Os sorrisos acabam, e a sensação de ser um peso morto leva-o a perceber que é hora de buscar outra opção.

A pensão, apesar da precariedade, dá uma certa privacidade, e o permite levantar a cabeça ao dar o endereço da moradia. Mas os recursos são escassos, o preço cobrado por um dia é alto e é mais uma opção a ser descartada.

Os alojamentos das obras, o pernoitar nos depósitos de papelão conseguem juntar à insalubridade de moradia o fato de ser obrigado a submeter-se, sem nunca dizer um “ai”. “No alojamento é ruim. Mesmo pagando, não se pode nem falar alto” – reclama Aluízio.  “O preço do papelão que ele me paga é muito menor que em outros lugares, e ainda cobra a luz e a água. Mas não tenho para onde levar minha companheira, nem o nenê” – diz Gerson. “Lá eu não podia dormir” – diz outra depoente. “Minha filha é pequenina, tem só dois aninhos. E tem uma ratazana enorme lá”.

Chega-se, assim, ao viver na rua. Homens e mulheres de rua iniciam este peregrinar aos poucos: uma noite sem dinheiro para a pensão, os imóveis abandonados, os terrenos baldios,as marquises de loja…

O homem é um ser em relação: precisa viver em sociedade, estar com o outro. O “apareça lá em casa para tomar um cafezinho” é costume cultural que reafirma o caráter acolhedor do nosso povo. Quem não pode receber o outro, quem não vive este concreto, parece-nos inferior.

O modo de homens e mulheres receberem as pessoas mostra-nos a condição de classe. Alguns recebem as visitas na sala. Afinal, o lugar bem cuidado mostra a quem chega o que temos e como sabemos viver bem. Outros recebem-nos diretamente na cozinha: lugar acolhedor, onde o calor do fogo e o cafezinho fazem-nos sentir o quanto somos benvindos.

E os homens de rua, você já pensou como eles recebem? Pois é, eles também fazem isso. Tão logo você chega, surgem roupas limpas, cobertas e papelão para que você possa arrumar um lugar limpo para se sentar. A pinga, o cigarro, um refrigerante e, dependendo do horário, comida são imediatamente oferecidos. Nesse receber, garantem o clima de paz durante a sua permanência junto a eles, impedindo que aconteçam brigas e outras situações embaraçosas. Se você ficar para dormir, alguém ficará acordando velando seu sono e garantindo sua segurança, e todos oferecerão cobertores para que não sinta frio.

O caminho de volta –Carol, que conseguiu sair do mundo da rua, conta-nos sua trajetória. Reproduzimos, aqui, o relato do que se passou quando conseguiu emprego de faxineira, mas não tinha moradia:

“Dormia na rua ou na rodoviária do Tietê. Quando dormia fora da rodoviária, ia prá lá no primeiro metrô. Tomava banho para sair às 6 horas e retornar ao trabalho. As minhas coisas ficavam guardadas no guarda-volumes que eu pagava a cada 24 horas. Eu chegava no serviço super cansada, mais cansada do que se tivesse trabalhado 24 horas por dia”.

Como todo segmento do qual não se pode extrair mais-valia, esta população é invisível aos olhos do Capital. Precisamos abrir espaços, ouvir o que essas pessoas tem a dizer. A vida que vibra nos levará a um processo que buscará mais do que mudar comportamentos. A convivência, não o moralismo, permitirá o reforçar das singularidades e do sentido de pertença. Para isso, Estado e sociedade civil precisam rever-se. Projetos-piloto com essa população, em São Paulo, têm priorizado a convivência, o reforço dos laços de amizade e de companheirismo e a sugestão do morar coletivo que favoreça a reconstrução da nova identidade.

As respostas serão dadas pelo próprio povo. Buscando sobreviver, eles têm-se organizado em casarões abandonados,em barracos ou até mesmo em buracos nos baixos de viadutos, ou ainda em esqueletos de prédios cuja construção está interrompida…

Um projeto habitacional para esta população passa pelo entendimento desse modo de morar. Quem sabe se a saída poderia ser moradias nas quais o espaço privado (quartos individuais) se complemente com espaços coletivos que reforcem os vínculos. Sujeitos de sua história, esses seres reconstituirão suas vidas, formando novas famílias.

Artigo publicado na Revista Tempo e Presença257, ano 15 (1994).


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