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VIVER SEM MORAR – A realidade cruel das pessoas em situação de rua
agosto 6th, 2012 by Magdalves

Todos os animais moram, e muitos, como o João de Barro, constroem suas casas como abrigo e proteção. Para os homens e as mulheres, morar é mais do que isso. É na moradia que expressamos nossas identidades e construímos nosso modo de viver.

O morar humano é cultural. A forma de morar define o status, a classe a que se pertence. Na privacidade do lar nos banhamos, mantemos relações sexuais, comemos como temos vontade, brigamos e nos alegramos sem interferências de terceiros e ainda organizamos a nossa ordem e a nossa desordem como queremos. Morar é uma extensão do nosso próprio jeito de ser.

 

Muita gente se pergunta como é possível que pessoas vivam sem casa, e as conversas quase sempre partem do pressuposto de que foi uma opção destas pessoas. Na grande maioria dos casos, o pernoitar na rua, a princípio foi uma situação transitória, ocasional… faltava o dinheiro para pagar a pensão…

. “Trabalhei o dia todo, e o que ele me deu nem dava pr’eu almoçar… – disse o Hélio.

“Se como, não durmo. Se durmo, não como… pras duas coisas o dinheiro não dá “ – afirma o Aluízio.

No privatizar o espaço público reconstroem na rua a casa que não conseguem ter. Na medida em que se alternam os dias, o pernoitar em qualquer canto faz com que essas pessoas sejam expulsas do contato com a sociedade que as estigmatiza. Este e outros fatores vão dificultando que consigam mudar a precariedade da sua condição de vida.

Quem está na rua acaba não tendo nem os mais elementares direitos. Não pode  sentar-se numa praça,  andar ou se  locomover. O mínimo do mínimo lhe é negado. São expulsas até quando estão dormindo debaixo das marquises ou no meio das praças. São totalmente destituídos de qualquer espaço. O entendimento de que pobreza é fracasso pessoal leva à banalização da miséria e à insensibilidade quanto à situação vivida por essas pessoas. O máximo que ocorre é a repulsa, ocasião em que se busca distância desses seres. As pessoas em situação de  rua, na verdade, impedem-nos  de fechar os olhos à deterioração da nossa sociedade.

Pessoa em situação de rua não é sinônimo de mendigo. A maioria deles e delas não sobrevive apenas da ajuda de terceiros, mas executa toda  sorte de bicos e trabalhos informais.          Ainda assim, grande parte da sociedade e do Estado têm homogeneizado a população que mora nos espaços públicos ou que deles “arranca sua sobrevivência”.

Quando buscamos conhecer de perto  essa realidade, tomamos conhecimento do dia-a-dia do  mundo do desemprego e do subemprego. A opção por trabalhos ocasionais (bicos), além de ser socialmente determinada, mascara a expulsão do mundo do trabalho e a manutenção dessas pessoas como reserva de mão-de-obra.

Alguns Homens de Rua vieram de fora, outros nasceram aqui mesmo. Seja como for, estes trabalhadores foram arrancados de sua raiz, são como folhas dispersas, e “pau pra toda obra”. O viver na rua,” sem eira nem beira” pode ser visto como fruto do conformismo nascido do sentimento de impotência frente à dura realidade. Pode, também, significar um basta. Um “chega!” depois de muita pancada.

 

 

 

 

A sociedade cobra deles uma submissão no relacionamento com as outras pessoas que é a negação da cidadania.   Todo serviço, ainda que público – como saúde, educação, assistência social, segurança, etc., é considerado um favor. Como não tem direitos, estas pessoas em situação de rua são tratadas de forma agressiva, de um modo que reforça essa ausência de direitos e destrói o pouco de auto-estima que porventura ainda existisse.

O fantasma do desemprego ronda o dia a dia da maior parte dos pobres, na medida em que poucos são os que conseguem trabalhos sistemáticos e registrados. Para sobreviver há que se fazer “bicos”. As pessoas em situação de rua vivem realidade semelhante e se unem buscando sentir-se mais fortes. A igualdade na miséria cria uma atitude que não chega a ser solidariedade, mas que faz com que tudo seja partilhável. Em bandos dificilmente se é atacado  ou roubado: alguém sempre vigia e logo se desenvolve uma malha de relações de pertença.        Na rua esta condição é levada ao extremo, assim a conceituação do que é bom ou mau, útil ou inútil, certo ou errado passa a  ter um peso determinado pela possibilidade expressa na sobrevivência de todo dia. Neste sentido, os interesses dos que vivem em uma situação marginal ao sistema devem harmonizar-se para possibilitar a formação de grupos, mesmo que sem padrões estáveis de relacionamento, havendo por vezes alternância na composição dos mesmos.

Pouco a pouco, começa-se a acostumar … não ter aonde ir… ficar parado e calado… ser olhado por estranhos…   No mocó[1], pedaços de um velho sofá ajudam a perceber o que seria a sala. Se prestarmos  atenção, poderemos ver a imagem de um santo, às vezes enfeitada com flores… o coador de café, pendurado num prego mostra-nos onde a comida é posta no fogo e partilhada.

Este instalar-se ante nossos olhos incomoda… Que significa isso? perguntamos.

Reclamando o espaço de cidadania, os moradores das casas de verdade acionam o Poder Público, exigindo a remoção dessa miséria que envergonha e desmerece o espaço de morar, de transitar. Afinal, paga-se imposto para quê?

Expulsos mais uma vez, à maioria só resta o carregar sua casa numa sacola. Neste viver, o dormir torna-se uma tortura. Momento de tensão e não mais de descanso.

Com ar cansado, a roupa mal arranjada e arrastando uma sacola desajeitada, a dificuldade em conseguir trabalho ainda consegue ser maior. Afinal, a aparência é má, não tem  endereço de residência … e o olhar desconfiado já permite antever que a resposta é não. Mais uma vez a rejeição.

No diálogo com eles, o relato dos trabalhos anteriores, o sentir-se orgulhoso por ter ajudado a construir pontes e edifícios, a trajetória por diversos Estados e o considerar-se, apesar das condições, profissional, contrasta com a aparência sofrida, carente e desamparada. A grande maioria deles, em seu discurso, coloca sua situação como provisória, na medida em que dizem almejar o retorno seja à cidade de origem, seja ao mercado formal de trabalho. Muitas vezes, no entanto, esta provisoriedade já dura muito tempo: há casos em que mais de 15 anos.

Conhecedora desta realidade, a Prefeitura de São Paulo vem implementando uma Política de Atendimento às Pessoas em situação de Rua denominada ACOLHER – Reconstruindo Vidas. Esta Política de acolhida desvela a realidade da exclusão que vinha sendo vivida, mensura as situações encontradas e propõe medidas que alterem estes índices na busca de um outro patamar civilizatório.  Há que se acolher e vigiar… a Vigilância da Exclusão também está presente nas ações desenvolvidas na cidade.

Um dos Projetos que vem desenvolvendo ações para o enfrentamento desta realidade é o OFICINA BORACEA. Sediado num terreno de 17.000 m2,  no centro da cidade de São Paulo, este Projeto objetiva resgatar a condição de sujeitos sociais, entendida como Direito de cada uma destas pessoas que estão em situação de rua.

Alojamento, alimentação, higiene,  trabalho, educação, saúde, cultura, esportes e lazer, são ofertados numa dinâmica que facilita o resgate da auto-estima e valoriza o potencial existente em cada uma destas pessoas.

A maioria das pessoas atendidas pelo  Projeto têm como sonho a questão da moradia. O esforço feito pelos profissionais que com eles atuam é transformar este sonho em desejo e desejo possível de ser realizado ainda que se tenha que passar por várias etapas.

Ao ser alojada no Oficina Boracea,  a pessoa recebe a informação de que poderá se utilizar de uma cama fixa na qual dormirá à noite ou de dia, dependendo das atividades que estiver realizando e da necessidade que tem de repouso.  Os leitos estão subdivididos em quartos, buscando preservar ao menos parte da privacidade de que necessitamos para viver.

O apoio da Assistência Social na construção de um Projeto de Vida, motiva e orienta a busca de trabalho, facilitando o engajamento em processos profissionalizantes quando estes se fazem necessários.

Aqueles que sobrevivem a partir da catação de materiais reaproveitáveis, descarregam sua produção no Núcleo de Catadores, colocam a carroça no estacionamento e o cachorrinho fiel – companheiro de todas as horas – no canil antes de tomarem seu banho e se prepararem para o jantar.

Depois deste dia de corre-corre, uma  praça agradável, com árvores e bancos de jardim é o local de encontrar os amigos e conversar sobre os acontecimentos do dia enquanto se espera pela hora do jantar.

Em alguns  finais de semana o grupo de catadores confraterniza-se enquanto prepara alguma refeição típica elaborada por eles mesmos.

É desta forma que o Oficina Boracea busca dar respostas às fragilidades que estas pessoas estão vivendo. Pouco a pouco vão sendo reconstruídas referências que dêem liberdade para que as pessoas definam seu dia-a-dia, garantindo um padrão de dignidade e cidadania, num processo de conquista da sua autonomia.



[1] Mocó é local onde se situam Homens de Rua, e onde eles dormem, comem e permanecem com suas tralhas.


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