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Banco de Talentos – uma estratégia de acesso a trabalho
janeiro 31st, 2017 by Magdalves

A Política voltada para a População de rua vem sendo discutida desde  a década de 1990 e neste período alguns consensos foram sendo consolidados.

Aquele entendimento de que estas pessoas haviam optado por um modo de vida diferenciado já não encontra tantos adeptos e pouco a pouco a sociedade começa a entender que parte da responsabilidade por essa situação é de cada um de nós.

O sistema capitalista implementado em muitos países, incluindo-se o Brasil, até pode trazer algum progresso em algumas áreas, mas deixa pelo caminho muitas sequelas.

A cada período, pode-se perceber uma perda nas condições de vida e trabalho daqueles que dizem pertencer à Classe Média, mas é sobre as pessoas que nem a ela pertencem que a vida fica a cada dia mais difícil.

Como subsídio para o acompanhamento das discussões que ocorrem todos os anos em DAVOS[1], na Suíça, há poucos dias atrás, foi publicado um Relatório da OXFAM apontando que

Novas estimativas indicam que o patrimônio de apenas oito homens é igual ao da metade mais pobre do mundo. Enquanto o crescimento beneficia os mais ricos, o restante da sociedade – especialmente os mais afetados pela pobreza – sofrem. O desenho e a estrutura das nossas economias e os princípios que dão base a decisões econômicas nos levaram a essa situação extrema, insustentável e injusta. Nossa economia precisa parar de recompensar excessivamente os mais ricos e começar a funcionar em prol de todas as pessoas. Governos responsáveis e visionários, empresas que trabalham no interesse de trabalhadores e produtores, valorizando o meio ambiente e os direitos das mulheres, e um sistema robusto de justiça fiscal são elementos fundamentais para essa economia mais humana.”

Constatações como essa não são mais novidade: há quatro anos, este mesmo Fórum Mundial identificava o aumento da desigualdade  econômica e apontava que ela é uma  ameaça à estabilidade mundial.

A partir de dados como este, o Banco Mundial vinculou seu objetivo de erradicar a pobreza à necessidade de se promover uma prosperidade compartilhada. Ao  lado disso, outra iniciativa mundial, que reuniu 160 países, elaborou uma proposta de Objetivos de Desenvolvimento do Milênio onde esta e outras condições são analisadas e contempladas.

Como diz o dito popular: de boas intenções o inferno está cheio e, enquanto discutimos como melhorar esta situação, o 1% mais rico do mundo detém mais riqueza que todo o resto do planeta. A renda dos 10% mais ricos é 182 vezes a renda dos mais pobres, e enquanto essa renda dos mais pobres está estagnada nos últimos 30 anos, o rendimento dos mais ricos aumentou em 300%. No Vietnã, o homem mais rico ganha em um dia o que a pessoa mais pobre ganha em dez anos.

É neste cenário que precisamos compreender a Política para População de rua.

A situação de rua

Desde a década de 1980, governantes de 160 países das várias partes do mundo vem discutindo a situação crescente dos que sobrevivem sem ao menos um teto para se proteger.

Sem dúvida, há toda uma gama de condições dentre as pessoas em situação de rua, mas nas reflexões feitas concluiu-se que dois são os principais vetores de mudança: moradia e acesso a trabalho.

Colocar a moradia em primeiro lugar não significa apenas deslocar estas pessoas para Albergues enormes onde todos são anônimos, onde a escuta qualificada por um profissional não existe e onde sua situação pessoal não será levada em conta.

A orientação da Política Nacional é de que os Abrigos/Albergues devem ter no máximo 50 pessoas, num atendimento personalizado que potencialize a construção de estratégias de superação da situação de rua. Mas o que fazer em cidades como São Paulo onde há quase 20 mil pessoas em situação de rua.

No geral, as regras estabelecidas voltam-se muito mais para a garantia da estrutura institucional do que para as necessidades destas pessoas. O que resta a eles é se adaptar… e muitas vezes isso tem um custo.

Uma das conversas que a gente ouve quando está entre pessoas em situação de rua é relativa à diferença entre a “vaga fixa” e a “vaga de pernoite”. Se é difícil conseguir vaga fixa, para garantir a vaga de pernoite há que se chegar no Abrigo/Albergue às 15 horas, pois a fila é enorme.

Veja bem, se a partir das 15 horas já tenho que estar à disposição do Albergue, me resta ainda menos tempo para fazer a “correria” que permita fazer bicos de trabalho que me permitam conseguir algum dinheiro.

A vaga fixa, por sua vez, é de no máximo 90 dias. Passado esse tempo, e ainda que esta pessoa esteja começando a trabalhar regularmente, precisa “desocupar” a vaga… essa é a regra do jogo. Se o técnico simpatiza com aquela pessoa, muitas vezes, indica um outro Abrigo/Albergue onde o processo começa de novo.

Outra regra que me parece sem sentido é a que define que as pessoas devem se retirar do espaço do Abrigo/Albergue nas primeiras horas da manhã (algo entre 6 e 7 horas).  Sem ter para onde ir, resta a estas pessoas se instalarem nas calçadas próximas do Abrigo/Albergue para aguardar o tempo passar.

O segundo vetor é o acesso a trabalho, e aqui temos outros desafios. Em nome da sobrevivência, a grande maioria das pessoas em situação de rua submete-se a qualquer tipo de trabalho: carga e descarga de caminhões, principalmente em áreas como o Mercadão ou o CEASA; ajudantes na construção civil; plaqueteiro – andar em áreas de bastante movimento, ostentando propagandas que indiquem às pessoas agências de emprego, compra de ouro e prata, restaurantes a preço popular e outros; apoio a ambulantes irregulares – levando e trazendo mercadorias para evitar que sejam apreendidas pela fiscalização; vendedores em faróis, trens e nas ruas; catadores de material reciclável e outros.

A maioria destas pessoas passou por inúmeros cursos de qualificação, na medida em que –  em nome da empregabilidade – os serviços de atendimento social os encaminham para cursos de diversas naturezas.

O lado perverso destas situações é que receber um “certificado” de que se fez um curso é algo insuficiente para que estas pessoas consigam acessar postos de trabalho.  Para que estas medidas fossem consequentes, o trabalhador social deveria ter acesso a informações sobre vagas de trabalho e encaminhá-los para que fossem submetidos à seleção.

Outro aspecto que precisaria ser trabalhado é relativo à autoestima e a mecanismos de defesa das situações de discriminação. Dias atrás, conversando com uma pessoa em situação de rua que tem sido um ajudante preciso em diversos tipos de trabalho, ouvi dele que está estudando para “ver se vira gente”.

É um rapaz inteligente, está estudando e pretende se submeter ao ENEM, e tem até mesmo um acompanhamento psicossocial, mas conforme ele mesmo diz não se sente “gente”. É apenas através do diálogo que se pode desconstruir esta carapaça de defesa que impede que se acesse sua vida passada e com isso fica ainda mais difícil ajudá-lo a superar traumas de uma vida de sofrimento.

Explorando “Talentos”

Viver em situação de rua é uma arte, e muitos deles conseguiram superar muitas dificuldades e estão se recolocando no mundo do trabalho.

Eletricistas, pedreiros, pintores, serralheiros, faxineiros, copeiros, garçons, vigilantes e zeladores, recicladores, artesãos  e outros profissionais vão pouco a pouco se oferecendo para prestar serviços diversos.

As oportunidades de formação em “economia solidária” deram um “up” em suas vidas e muitos deles constituíram suas próprias microempresas. Outros dizem que os trabalhos que fazem chegam até eles através do “boca-a-boca” já que são conhecidos como bons trabalhadores e pessoas de confiança. A confiança é o mais importante, dizem todos eles.

Alguns deles apontam a necessidade de suporte para a confecção de orçamentos – eles sabem o que deve ser feito, sabem do material necessário e sabem o custo do serviço, mas a habilidade de colocar tudo isso no papel é que lhes falta. Uma reflexão necessária é relativa àqueles que não tem empresas formalizadas e ainda assim precisam, vez por outra, apresentar notas fiscais: qual poderia ser uma estratégia para dar conta disso?

Muitos tem celulares, mas o que apontam como a grande necessidade é a divulgação de seus trabalhos para que possam aumentar seu volume.

Ainda que não estejam constituídos como uma cooperativa, muitos deles trabalham numa espécie de rede de empresas, ou seja, quando me pedem um serviço que não é a minha especialidade, eu indico alguém que sei que trabalha bem e é de confiança e com isso estes grupos de profissionais atuam juntos.

Quando se assume um contrato de prestação de serviços, há a necessidade de compra de matéria prima e um esquema de crédito poderia ser o caminho, quem sabe via Banco do Povo.

Alguns apontam a necessidade de qualificação em outras áreas que não aquelas que são de seu domínio.

Este foi o ponto de partida para a construção de um Projeto que, inicialmente, estou chamando de Banco de Talentos.

Uma proposta experimental

O primeiro momento seria, sem dúvida, a constituição de um Banco de Dados com informações de cada um destes profissionais. Teve um deles que, ao me falar de seu trabalho mostrou fotos do antes e do depois e fotos do processo de trabalho que conduziu pessoalmente ainda que também tenha tido ajudantes.

De posse de uma informação sistematizada dos dados de cada um destes trabalhadores, o segundo passo é organizá-los em categorias e identificar se estes profissionais estão de fato “prontos” para o mercado ou se há a necessidade de um investimento na qualificação.

A oferta destes trabalhos, que poderia se iniciar por um bairro, mas tendo como finalidade alcançar a cidade, pede dois tipos de investimento:

  • Uma estrutura administrativa para atendimento dos interessados nos serviços ( ao menos um atendente com acesso a telefone, email, etc..);
  • Uma estratégia de divulgação do Banco de Talentos (site, facebook, lambe-lambe e outros);
  • Acesso a mecanismos como o do Banco do Povo para que estes profissionais possam conseguir créditos necessários à compra de matéria prima e equipamentos;
  • Uma campanha massiva de comunicação para construir a credibilidade necessária a este processo.

Tratando-se de um processo piloto, é fundamental que estas ações sejam registradas e sistematizadas e que o monitoramento e avaliação periódicas sejam socializadas em Fóruns e Redes onde novas parcerias possam ser consolidadas.

Considerações Finais

Numa proposta com estas características, este Banco de Talentos não deve ser restrito a pessoas em situação de rua, mas abrir-se às comunidades e abarcar outros profissionais autônomos ou microempresas de pequeno porte.

Cada serviço contratado deve ser formalizado através de um Contrato onde as condições de trabalho e de pagamento sejam explicitadas para que haja seriedade nestas negociações.

O gerenciamento deste processo deve estar a cargo dos próprios profissionais ainda que não considerem necessária a formalização jurídica da estrutura do Banco de Talentos.

Tratando-se de um processo que envolve credibilidade, é conveniente que se construa uma estratégia de mediação de conflitos tanto para garantia da qualidade do serviço prestado como para acompanhamento do cumprimento do que for estabelecido como pagamento.

[1] Fórum Econômico Mundial ou FEM é uma organização sem fins lucrativos baseada em Genebra, é mais conhecido por suas reuniões anuais em Davos, na Suíça,  nas quais reúne os principais líderes empresariais e políticos, assim como intelectuais e jornalistas selecionados para discutir as questões mais urgentes enfrentadas mundialmente, incluindo saúde e meio-ambiente.


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