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UMA NOVA ÓTICA DE ANÁLISE DA REALIDADE DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
janeiro 15th, 2017 by Magdalves

Há cerca de 90 dias, muitas das reflexões que venho fazendo estão focadas na questão da identidade.

Tudo começou com uma preocupação com o “resgate da identidade” das pessoas em situação de rua, mas acabei indo além e venho buscando entender várias coisas no entendimento da construção da identidade de cada um de nós.

A identidade nos diz quem somos, de onde viemos e o que buscamos alcançar neste mundo, mas nem sempre estes caminhos são claros já que vivemos processos que foram encobertos tal e qual as verdades.

Um hindu aponta que a verdade está encoberta por sete véus e que cada um de nós consegue levantar apenas uma pequena parte, ou seja, ninguém detém o conhecimento sobre a verdade.

No que se refere à identidade, acho que temos um processo semelhante.  Nossa identidade se remete a nossas raízes, mas a vida se incumbe de velá-la e com isso não temos acesso nem mesmo àquilo que vivemos.

Lembro-me de uma dinâmica aplicada num processo de formação no qual estava envolvida e na qual buscava-se acessar lembranças de infância.

O instrumento utilizado propunha que visitássemos o espaço que, no nosso eu mais profundo, significava a nossa casa, o nosso lar.

Não tive nenhuma dúvida de que a “minha casa”  era a casa de minha infância onde vivi desde o nascimento até pouco mais de 20 anos. Ainda hoje, e eu já tenho 74 anos, aquela é a “minha casa querida”… e mesmo depois de deixá-la sonhei em retornar, em buscar comprá-la de novo para reconstruir aquele tempo que me parecia especial.

Primeira Camada da minha Identidade

Posso dizer, então, que minha identidade começou a se construir num ambiente amigável onde vivia protegida por meus pais e onde convivia com irmãos, primos, tipos e avós. Parece ideal, não é?

Olhando de fora, como só é possível acontecer depois de todos estes anos, vejo que a vida não era tão tranquila como me parecia.

Eu tinha uma boa casa, nunca me faltou alimento na mesa, frequentei boas escolas e outros ambientes de lazer e tinha um grupo de convívio que parecia ter tudo para que eu fosse feliz.

De onde vinham, então, os problemas que me levaram a ficar com sobrepeso – alguns médicos diziam que eu me escondia naquela gordura para que as pessoas não chegassem no meu verdadeiro eu. E isso deve ser verdade.

Eu tinha uma “disputa velada” com minha irmã: ela era a mais bonita, a mais talentosa, tocava violão e cantava e tinha muitos amigos.

Para não me sentir submissa a ela, não quis aprender violão, mas piano – e meu pai não permitiu, alegando que suas irmãs foram forçadas a aprender piano e nenhuma continuou tocando depois de adulta.

Quando eu era um pouco mais velha, já cursando a Universidade, uma colega me disse algo que calou fundo. Ela comentou meu comportamento, dizendo: “qualquer pessoa que se aproxime de você sempre é recebida muito bem, mas você nunca se aproxima das pessoas por sua vontade. É sempre muito arredia.

Refletindo sobre isso, consegui perceber que isso era real…

Eu era uma “pseudo extrovertida” – fazia muita firula e parecia querer estar sempre na “crista da onda”, mas quando alguém tentava atravessar meus escudos, eu me fechava como uma ostra.

Eu tinha uma “teimosia besta”. Quando tinha uns quinze anos, resolvi que queria fazer o “científico[1]” e meus pais questionaram porque achavam que eu deveria fazer o “secretariado” para poder trabalhar já que não tínhamos dinheiro.

Assumi o compromisso de que não teria dependências e meus pais concordaram com minha escolha. Acontece que aqueles anos foram anos difíceis: meu pai saiu de casa para viver com outra mulher, minha mãe teve que voltar ao trabalho e a vida se desorganizou muito… como consequência, tive dificuldades e isso se refletiu nos estudos.  Meus pais entenderam o que ocorrera e me disseram que eu poderia ter uma segunda chance, mas eu não aceitei: o trato era ir bem nos estudos ou deixar os estudos e ir trabalhar. E, lá fui eu trabalhar num Banco.

Se eu pensar na identidade como um processo em camadas, posso dizer que esta foi a camada inicial, a base sobre a qual minha vida foi sendo construída.

Outras camadas da minha identidade

Lendo um livro de Amartya Sen – Identidade e Violência – me senti questionada quando ele aponta, logo no primeiro texto que a concepção de identidade influencia, de várias maneiras, nossos pensamentos e ações. Mas ele nos leva, também, a refletir que a nossa identidade é uma pluralidade de  filiações.

Citando Oscar Wilde, Sen  aponta que nossos “pensamentos são as opiniões de outras pessoas, suas vidas, uma imitação, suas paixões, uma citação.” Somo influenciados pelas pessoas com as quais nos identificamos e isso vai moldando nossa identidade.

Além de ser uma pessoa com as raízes que explicitei acima, sou mulher, heterossexual, de classe média, assistente social com mestrado e doutorado nesta mesma área, sempre me pautei pela ética e atuo politicamente em minha cidade, estado e país.  Desde a década de 1970 venho acompanhando a realidade das pessoas em situação de rua e este é mais um aspecto que influencia meu modo de ser no mundo, ou seja, a minha identidade.

Em alguns momentos da vida cheguei a me sentir “dividida” entre duas filiações: exemplo disso foi quando, no início da década de 1990 eu atuava na Prefeitura, conduzindo políticas sociais, mas meu compromisso maior era com aquelas pessoas que atendíamos e que dependiam das ações que eram de responsabilidade da Prefeitura.

Hoje está muito clara para mim a liberdade que tenho para decidir o que fazer quando duas filiações estão presentes num processo que pede meu posicionamento.

RESGATANDO A IDENTIDADE DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Um dos pressupostos, quando se atua com pessoas em situação de rua, é que vamos encontrar prioritariamente pessoas com baixa autoestima, pessoas que não conseguem analisar o contexto vivido e com isso tem dificuldades em se posicionar politicamente.

Quero dizer a vocês que, nem sempre, isso é verdade. Aparentemente, este estado de coisas se alterou na medida em que se alterou a visibilidade política destas pessoas o que permite que eles analisem sua situação num contexto de exploração que é imposta pelo Capitalismo.

Cada uma destas pessoas teve sua identidade primeira construída a partir de raízes que remetem à vida de infância e, ma grande maioria dos casos, em processos de trabalho – anteriores à situação de rua – que reforçaram este “sentir-se ele mesmo”, independente da situação vivida atualmente. São raras as situações daqueles que apontam uma espécie de “amnésia” correspondente ao período em que estiveram mergulhados em álcool e drogas.

Na minha dissertação de mestrado, eu aponto um etapa desse processo como sendo a “chegada na rua” que é sempre considerada passageira: uma noite sem dinheiro para a pousada e sem familiares a quem recorrer.

A aproximação com os “grupos de rua” tanto pode ocorrer na procura de companhia durante a madrugada quanto em diálogos nos espaços de alimentação. “Conversando com as pessoas na fila da alimentação, foi que fiquei sabendo que havia Albergues” – diz uma pessoa que está em um Albergue. E mesmo sem ter “passado pela dormida nas calçadas”  esta pessoa chega aos serviços e se acomoda sendo atendido junto com os demais.

Sobreviver na situação de rua é tarefa para poucos. Muitos são destruídos pelas dificuldades encontradas e o álcool e as drogas são algumas das saídas.

Mas há aqueles que não desistem. Passam de um trabalho a outro, participam de n tipos de capacitação e vão construindo um novo jeito de viver.

A grande maioria percebe e relata as más condições e a hiperexploração que cai sobre seus ombros, mas é aceitar isso ou aceitar isso.

A identidade cunhada nos piores momentos de vida nas ruas vai sendo construída a partir de perdas. Perde-se o trabalho, e se descobre caminhos para sobreviver a partir de “bicos”. Perde-se a moradia e toma-se conhecimento do jeito de sobreviver em Albergues, ainda que percebam a injustiça de muitas das regras vigentes; quando o Albergue é inviável, aprende-se a viver nas “quebradas” – terrenos baldios, prédios abandonados, etc..

Descobre-se a rota do “rango” onde pode-se garantir uma alimentação que, se não é saudável, pelo menos serve para enganar o estômago.

A identidade assim constituída exige uma atitude de pró-atividade, já que sem iniciativa não dá para se defender no mundo cão que é o da situação de rua. Além de iniciativa, precisa-se ser persistente até a teimosia pois “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

Mas não adianta uma insistência sem sentido: há que se fazer a leitura do contexto para avaliar riscos e saber o que vale e o que não vale a pena encarar.

Conforme diz um simpático poprua que conheço, não basta que  alguém lhe dê uma oportunidade. Oportunidade é pouco, precisa-se garantir que os direitos expressos na Constituição Federal sejam garantidos e essa é uma luta para 24 horas por dia, 365 dias por ano.

Que tarefa este cenário deixa para os técnicos?

Em primeiro lugar, os profissionais que atuam com estas pessoas em situação de rua precisam fazê-lo de olhos abertos, não se deixando cooptar pela falta de recursos ou pela ideia de que, se eles tem tão pouco, qualquer coisa é avanço.

Precisamos “comprar essa briga” e exigir a mudança das “regras do jogo” – afinal, não tem sentido para ninguém que alguém seja obrigado a deixar o Albergue às seis da manhã se não tem para onde ir.  Tem menos sentido, ainda, querer que as pessoas fiquem em filas nas portas dos Albergues a partir das 15 horas para garantir um pernoite.

Há muitas denúncias de violência física, roubos e outras agressões que ocorrem dentro dos serviços… como alterar este estado de coisas?

E quando apontamos que estamos dando conta da necessidade destas pessoas ao encaminhá-las para processos de qualificação profissional, precisa-se ter claro que, além de capacitar, os serviços tem que ter uma ação ativa de suporte para garantir que acessem postos de trabalho.

Somente assim, podemos pensar em um novo contexto e numa proposta mais consistente na vida destas pessoas.

[1] No meu tempo de estudo, o “segundo grau” estava dividido em Clássico (Letras, História, etc), Científico (Matemática, Física e Química), Normal (professores) e cursos técnicos. Algo muito semelhante ao que o governo Temer vem apresentando como uma grande novidade.


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