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TERRITÓRIOS VIVIDOS E O COTIDIANO DA POPULAÇÃO DE RUA
novembro 29th, 2016 by Magdalves

 “O território em si, para mim, não é um conceito. Ele só se torna um conceito utilizável para a análise social quando o consideramos a partir do seu uso, a partir do momento em que o pensamos juntamente com aqueles atores que dele se utilizam.”[1].

 

Muito se fala sobre territórios, principalmente, na sua relação com as pessoas. Quando a ótica é a das políticas sociais, o que se busca é identificar a ótica a partir da qual se vislumbra a dinâmica do cotidiano vivido pelas pessoas.

KOGA[2] analisa o território entendendo que ele representa o “chão do exercício da cidadania, ou seja, é no território que a cidadania se constrói enquanto vida ativa. É nos territórios que se concretizam as relações sociais, as relações de vizinhança e solidariedade, as relações de poder”.

Num mesmo território, podemos ter segmentos populacionais vivendo em condições de vida diferentes e, na grande maioria dos casos há disputa pelo controle do território já que cada um destes grupos almeja ter o domínio daquele que ele considera o seu território.

Não existe uma homogeneidade na interpretação dada pelas pessoas que habitam ou se utilizam dos territórios na medida em que nele se alternam segmentos populacionais com interesses diversos e muitas vezes conflitantes.

Cada território é entrecruzado por um número significativo de sinergias que muitas vezes se contrapõem na medida em que, ainda que todas busquem o poder sobre o território, os objetivos que professam geram interpretações diversas sobre o que seria ideal para aquele território.

É no território que os direitos se concretizam, e não podemos esquecer que a Constituição Brasileira (1988) propõe avanços e conquistas no que se refere ao direito de ter direitos, expressando no caput do artigo 5º: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade”.

A cidade de São Paulo, por exemplo, é um quebra-cabeças onde cada “pedaço” trás a memória de paulistanos, paulistas, brasileiros e estrangeiros que vem respondendo pela construção daquela parte da cidade.

Um olhar macro para a cidade de São Paulo pode trazer uma visão equivocada de que há uma uniformidade – o maior centro comercial do país, mas, quando nos aproximamos de sua gente, podemos perceber formas de vida diferenciadas na população que habita as zonas norte, sul, sudeste, leste, oeste e centro.

O anonimato e a aparente indiferença que a cidade parece ter vai se diluindo quando nos aproximamos destes locais de vida e trabalho. Eu, que moro no centro da cidade, posso ser um anônimo nas zonas norte, sul, leste e oeste, mas quando estou no Centro começo a me sentir “em casa”.

Sempre brinco, dizendo que o centro da cidade é um grande “interiorzão”, naquela procura de calor que sempre achamos que somente poderemos encontrar se voltarmos às cidades com menor porte.

No prédio onde vivo não há atividades de convívio entre os moradores. As pessoas entram e saem de seus apartamentos indo para seus trabalhos e atividades e, raramente, visitam outros apartamentos. Com exceção dos moradores mais antigos, nem se sabe os nomes das pessoas, com quem vivem, o número de seus apartamentos ou quantos são seus familiares. Cada um é apenas um vulto com o qual cruzamos quando pegamos o elevador.

Esta situação se altera quando alguém adoece ou está numa situação em que precisa de ajuda. Imediatamente, todos se mobilizam e o foco da ação passa a ser a solidariedade. Outro aspecto que comprova que a gente se re-conhece é quando nos cruzamos na rua. Pouco a pouco, vamos tomando conhecimento de hábitos e costumes: quem leva cachorros a passear, em que horários as pessoas saem para o trabalho, o modo de se vestir e o horário das crianças quando vão para a escola.  Nesse aspecto, não há anonimato.

MAGNANI[3] aponta em seus estudos que o anonimato das metrópoles se esvai quando nos aproximamos do nosso “pedaço”. A primeira ideia de pedaço é um lugar onde as pessoas tem laços de parentesco, de vizinhança, por trabalho comum ou religião, ou seja, estas pessoas se conhecem. Mas também podemos considerar pedaço como sendo um encontro de pessoas vindas de diversas partes mas que se mobilizam a partir de um interesse comum.  Exemplo disse podem ser as “viradas culturais” que ocorrem em São Paulo. As pessoas se dirigem aos locais onde shows vão estar ocorrendo e se reconhecem a partir do estilo de vestir, nos cortes de cabelo, tatuagens, etc..

Em seus estudos, Koga diferencia espaços de vida e espaços vividos. Segundo ela, espaço de vida é o lugar onde se desenvolvem as práticas cotidianas, enquanto o espaço vivido é ilimitado, reconstruído mentalmente pelos sujeitos ou representado pelo seu imaginário.

É a partir do século XIX que surge a necessidade daquilo que hoje nós chamamos de privado. O movimento de interiorização de práticas cotidianas, e com ele o surgimento da noção de vida privada, é decorrente da resistência à tentativa do estado de submeter a vida das pessoas a controle público. A “casa” surge, assim, como refúgio da vida privada, como lugar de momentos importantes da vida cotidiana.

Casa é espaço de proteção, é lugar de segurança e paz. Casa é útero. O contraponto é o público, o cotidiano desfigurado, onde nossa identidade se esvai. O público é o oposto ao doméstico, ao familiar.

Entendendo a casa como refúgio contra as ameaças da vida cotidiana,  as pessoas passam a ficar de pé atrás em relação aos espaços públicos considerando que o espaço privado, a casa, ainda não foi alcançado pelas ameaças da cotidianidade. O espaço público é cenário do medo e dele a gente tende a fugir.

O estranhamento sobre esta vida cotidiana surge quando as ações e relações sociais já não se relacionam com as necessidades, quando o resultado que se consegue não é produto do que se quer ou daquilo que pensamos que havíamos feito. Este vivido tende a se tornar um vivido sem sentido, um vivido alienado.

O tempo todo, as pessoas buscam dar sentido ao que fazem e ao que acontece no seu redor.

Nos tempos mais antigos – me sinto velhinha, apontando isso – havia todo um cuidado com o modo de agir em público que era diferente da liberdade que as pessoas se permitiam no seu espaço privado.

Isso me lembra uma situação em que um primo muito querido estava conversando com seu pai sobre uma atitude que queria tomar em sua vida e, como o pai discordava, ele argumentou: o que quero fazer não é crime!

E o pai, em resposta, apontou a televisão que estava ligada e onde estava passando o Programa do Chacrinha. E este velho homem disse: você vê estas moças dançando, de pernas de fora na televisão? O que elas estão fazendo não é crime, mas você não vê sua mãe fazendo isso!

Nos dias de hoje, muitas coisas são diferentes e a vida privada passou por transformações. As casas, cujos terrenos permitem, tem jardins na frente, quintais nos fundos e espaços laterais que a separam do terreno dos vizinhos. Há um isolamento que garante este privado, que garante a intimidade e o viver livre dentro de casa.

Quando vivemos em apartamentos, na maioria das vezes, esta intimidade fica comprometida. As janelas do apartamento onde vivo, por exemplo, dão para um vão onde, há poucos metros, vejo as janelas dos meus vizinhos.  Teve uma ocasião, olha eu, de novo, contando causos, eu estava sentada, de costas para a janela e fazia alguma coisa com algo que estava no meu colo. Tocou a campainha da porta e era a minha vizinha, uma senhora muito querida que já tinha bastante idade, que estava querendo saber o que eu estava fazendo já que, pela janela não conseguia ter um bom ângulo.

E temos ainda as casas cujas paredes são insuficientes para impedir que o que é dito num ambiente seja ouvido no outro. Você entra na casa e a intimidade sai pela janela. Isso sem falar na situação de várias famílias vivendo sob um mesmo teto.

Detalho estas situações para apontar que só tem sentido falarmos em cotidiano a partir de um determinado processo histórico.

Dependendo do cotidiano a que as famílias estão submetidas, elas passam a ter que viver num modo de vida sem estilo. Estão submetidas a ele. E isso sem contar com a influência da grande mídia que entra em nossos lares e manipula nossa percepção deste viver.

“Assim como o território do privado é entre nós um território capturado pelo público, também a vida cotidiana é mero conjunto de fragmentos do que seria propriamente a vida cotidiana, fluindo invasivamente entre ‘mundos’ não cotidianos, demarcados por estilos cognitivos próprios e não cotidianos, como o sonho, a fantasia, a religião, a crendice, o jogo, o carnaval.”[4]

Considerar o privado como o espaço de liberdade do indivíduo e o público como espaço de intervenção e sob controle do estado é algo que está na memória de cada cidadão.

Estes espaços de vida são espaços singulares na medida em que ganham contornos a partir do modo de vida de seus moradores e do uso que é feito destes territórios.

Schutz diz que o vivido dos significados é que sustenta as relações sociais e Lefebvre se contrapõe a ele apontando que este vivido é ainda mais e aponta que este viver é fonte de contradições que invadem a cotidianidade de tempos em tempos.

O significado deste vivido, segundo o senso comum, é o conhecimento compartilhado pelos sujeitos da relação social.  Sabendo-se que, num mesmo ambiente urbano, há grupos sociais que tem óticas diversas sobre modos de vida, podemos entrever um entrecruzar de significados que vão  levar estes grupos ou pessoas a demandarem propostas diversas para a construção dos cotidianos que almejam.

Heller aponta ainda um outro aspecto quando diz que só quem tem necessidades radicais pode querer e fazer a transformação da vida, apontando que é preciso dar voz ao silêncio. Eu ainda acrescentaria mais: precisamos dar voz ao silêncio dos silenciados.

 

As cidades estabelecem Planos Diretores para definir áreas com usos diferenciados que vão desde as plantas industriais aos bairros exclusivamente residenciais.

O estudo sobre a ocupação destes espaços aponta o perfil predominante em cada uma destas regiões e um dos papéis do governante municipal é harmonizar as relações e mediar os conflitos existentes.

É nas tensões deste vivido que há o encontro da vida cotidiana com a vida privada.

A CotiDIaneidade da vida na CIDADE DE SÃO PAULO

Desde a década de 1970 já se dizia que São Paulo era “a cidade que mais cresce na América Latina”. Este crescimento sempre veio acompanhado de uma desigualdade que coloca lado a lado desenvolvimento econômico e miséria.

Qualquer tipo de análise sobre esta cidade desvela um vivido de segmentos populacionais que, apontando maneiras diferentes de utilizar os espaços, colocam a nú modos divergentes de viver e de ver o cotidiano desta metrópole.

Pensar o cotidiano na metrópole nos leva a contrapor público e privado.

Até o início do século XX, os bairros da cidade de São Paulo eram diferentes uns dos outros na medida em que eram ocupados por grupos sociais com características diversas. Nos bairros ricos, casas espaçosas; nos bairros pobres, cortiços abrigando dezenas de famílias num mesmo imóvel.

Entre as décadas de 1940 e 1980, começa-se a diferenciar centro e periferia. Os bairros mais centrais, com toda uma infraestrutura que garantia um certo conforme; e os bairros periféricos onde faltava tudo, de luz elétrica a serviços de água e esgoto, passando por falta de coleta de lixo.

Esta situação começa a se alterar na década de 1980. Com a ampliação dos serviços públicos para estes bairros periféricos, parte da classe média desloca-se para estes bairros e a população mais pobre é, mais uma vez, expulsa.

Na década de 1990, diminui a distância física entre ricos e pobres, mas isso não significou uma maior interação e sim um novo modo de segregação.

Uma cultura perversa arraigada em quase toda a sociedade leva pessoas a se sentirem mais do que as outras, e temos diversos exemplos de situações em que se expressa o “você sabe com quem está falando?”

A cidade de São Paulo tem uma das piores distribuições de renda do mundo, e consequentemente, abriga a maior desigualdade social fomentando processos de segregação espacial muito significativos.

É sinal de status morar em bairros ditos “nobres”, e neles a segregação espacial e social são explícitas, ou seja, não tem disfarces nem sutilezas.

Muros, grades, portarias trancadas, seguranças privadas e até mesmo o fechamento de ruas nos obrigam a viver numa cidade fortificada.

CALDEIRA afirma que “enclaves fortificados geram cidades fragmentadas em que é difícil manter os princípios básicos de livre circulação e abertura dos espaços públicos que serviram de fundamento para a estruturação das cidades modernas”.[5]

Modifica-se o espaço público e modifica-se a participação das pessoas na vida pública. No entanto, esta riqueza ostensiva convive com a extrema pobreza na medida em que são os pobres que prestam os serviços básicos de asseio, conservação e mesmo de segurança.

Muitas vezes, esta é uma relação distante em que se tolera estes pobres ou, se camufla uma relação servo x senhor com roupagens de proteção que se rasga quando ocorre algum fato fora da rotina.

Reconhecer os membros de grupos sociais diferentes dos nossos é uma exigência da democracia. Precisamos nos apropriar do entendimento de que cada uma destas pessoas, independente da sua condição de vida, é um cidadão de direitos que deve ser respeitado e ter estes direitos garantidos.

O Plano Diretor da cidade de São Paulo (Lei 16.050/2014) propõe a elaboração de Projetos de Intervenção Urbana em áreas com potencial de transformação no município visando articular estudos técnicos e promover o reordenamento daquelas áreas.

Muitas destas regiões da cidade, para não dizer todas elas, tem um mix de condomínios residenciais para pessoas de renda alta, conjuntos de apartamentos populares, pessoas em situação de rua e focos de espaços onde o uso do crack é explícito.

Como diz Boaventura Souza Santos, “na vida de todos os dias, a sociedade global vive apenas por intermédio das sociedades localmente enraizadas, interagindo com o seu próprio entorno, refazendo todos os dias essa relação e, também, sua dinâmica interna, na qual, de um modo ou de outro, todos agem sobre todos[6].

esta mesma realidade vista por outra ângulo

        A ótica das pessoas em situação de rua       

Passar a estar em situação de rua, na grande maioria das vezes, foi um caminho que teve várias etapas.

Estas pessoas chegaram a isso em virtude de diversas intempéries em suas vidas e contra as quais não tiveram nem forças e nem instrumentos para lutar.

O desemprego e os sucessivos nãos ouvidos quando se buscou outra colocação; a perda do local de moradia por falta de condições de pagar o aluguel; os desentendimentos familiares, muitas vezes, ocasionados pela falta do dinheiro; e o uso do álcool e drogas para ajudar a “encarar” estas tragédias que, ainda por cima, eram apontadas como sua responsabilidade. Aquele velho ditado de que “quem é bom, vence na vida”.

Muitas vezes, o pernoitar nas ruas e praças não significa estar fora dos espaços de trabalho. Lembro-me de uma mulher corajosa, Carol, que vivia nas ruas e conseguiu um trabalho numa empresa terceirizada da Prefeitura de São Paulo. Ela trabalhava durante o dia e dormia na rodoviária do Tiete onde podia, pela manhã, se lavar e se arrumar no banheiro de lá e chegar no trabalho como se tivesse casa. Naquele tempo, o banheiro da rodoviária não cobrava taxa. Depois de receber o primeiro salário, conseguiu um quarto em cortiço e seu sonho de progresso era voltar a viver em favela. E, ela conseguiu. Viva!

Nas pesquisas que são feitas com estas pessoas, uma das perguntas que nunca quer calar é o porquê da escolha deste e não daquele lugar. Nas respostas, quase sempre, eles e elas apontam desde a facilidade de uso de banheiros, inclusive para sua higiene pessoal, até a facilidade de conseguirem “bicos” de trabalho que permitem comer e beber.

Dias atrás, eu conversava com uma mulher, que tem duas filhas com ela, e que está em Albergue, mas já vivem em situação de rua. Entre outros problemas, ela me disse que uma grande dificuldade, quando se está na rua, é cuidar da própria aparência para não dar a impressão de sujeira quando se vai em busca de trabalho.

Quando estes grupos de pessoas em situação de rua estão próximos de locais onde há áreas de classe média, a pressão por expulsá-los dali é muito grande. Na defesa do seu espaço de viver, muitas das pessoas querem que a Prefeitura dê fim naqueles pobres que incomodam nem que seja apenas por estarem por ali.

Muitos de nós, profissionais do social e militantes desta causa, também queremos que num futuro próximo não haja mais pessoas vivendo em situação de rua. A diferença entre nós é que entendemos que precisam ser definidas estratégias de retorno à moradia e de fixação em trabalho para que esta seja uma saída digna, enquanto, alguns grupos querem apenas que eles desapareçam, não importa o que for feito com eles.

Para ser justa, preciso registrar que há um grupo intermediário, que não sabe bem como resolver a questão mas que entendem que não é eliminando-os que o problema vai ser resolvido. Querem somar-se a nós na construção de propostas visando a saída das ruas.

O cotidiano das pessoas em situação de rua

Mais do que o caminho geográfico que fizeram, o que precisamos considerar é a trajetória  de perdas que tem sido a vida dessas milhares de pessoas. A maioria passou pelo ciclo completo: expropriada da terra, explorada na venda da força de trabalho, espoliada em seus direitos e excluída da sociedade. O  ápice do caminho de expulsões sucessivas é o alienar que fragmenta a identidade e transforma tais pessoas em seres sobrantes.

O viver na rua é a única opção desses trabalhadores descartados pelo sistema: é um viver no qual ninguém é cidadão.

O significado de morar. Morar é instintivo. Todos os animais moram; mas para o homem moradia é mais do que abrigo e proteção. Quando moramos, expressamos nossas identidades, construímos um modo de viver.

Agora, venha comigo. Vamos nos aproximar de um mocó – a casa de mentirinha – montado por uma família que está debaixo do viaduto.

O espaço de ficar, o lugar de dormir e de cozinhar são próximos, mas distintos. Pedaços de um velho sofá ajudam a perceber o que seria a sala. Se prestarmos atenção, poderemos ver a imagem de uma santa, às vezes enfeitada de flores. O coador de café, pendurado na parede, mostra-nos o lugar onde a comida é posta no fogo e partilhada. Estas pessoas do nada fazem tudo. No privatizar do espaço público, reconstroem na rua a casa que não conseguem ter.

Diante dessa situação, qual a reação dos moradores das casas de verdade?  Às vezes são compreensivos e até mesmo buscam ajudá-los no dia a dia. Outros,em nome da cidadania, pedem a retirada…

Expulsa, mais uma vez, à maioria desses seres só resta carregar sua casa numa sacola – o galo, como a chama.  Neste viver, o dormir torna-se uma tortura. Momento de tensão e não de descanso.

Com ar cansado, a roupa mal arranjada e arrastando uma sacola desajeitada, esses seres têm dificuldade em conseguir trabalho. Afinal, têm má aparência, não podem fornecer endereço de residência… O olhar desconfiado já deixa perceber que a resposta é não. Mais uma vez, a rejeição.

“Como se chegou a isso?”,  você deve estar se perguntando. A história dessas pessoas,em geral, perpassa por muitas opções, a começar pelo hospedar-se em casa de parentes e amigos. A chegada de um parente ou amigo é motivo de festa. Põe-se mais água no feijão, e o espaço é como coração de mãe; sempre cabe mais um. Bem vindo a princípio, o “hóspede” vê a situação alterar-se à medida que conseguir emprego é difícil. Os sorrisos acabam, e a sensação de ser um peso morto leva-o a perceber que é hora de buscar outra opção.

A pensão, apesar da precariedade, dá uma certa privacidade, e o permite levantar a cabeça ao dar o endereço da moradia. Mas os recursos são escassos, o preço cobrado por um dia é alto e é mais uma opção a ser descartada.

Os alojamentos das obras, o pernoitar nos depósitos de papelão conseguem juntar à insalubridade de moradia o fato de ser obrigado a submeter-se, sem nunca dizer um “ai”. “No alojamento é ruim. Mesmo pagando, não se pode nem falar alto” – reclama Aluízio.  “O preço do papelão que ele me paga é muito menor que em outros lugares, e ainda cobra a luz e a água. Mas não tenho para onde levar minha companheira, nem o nenê” – diz Gerson. “Lá eu não podia dormir” – diz outra depoente. “Minha filha é pequenina, tem só dois aninhos. E tem uma ratazana enorme lá”.

Chega-se, assim, ao viver na rua. Homens e mulheres de rua iniciam este peregrinar aos poucos: uma noite sem dinheiro para a pensão, os imóveis abandonados, os terrenos baldios,as marquises de loja…

O homem é um ser em relação: precisa viver em sociedade, estar com o outro. O “apareça lá em casa para tomar um cafezinho” é costume cultural que reafirma o caráter acolhedor do nosso povo. Quem não pode receber o outro, quem não vive este concreto, parece-nos inferior.

O modo de homens e mulheres receberem as pessoas mostra-nos a condição de classe. Alguns recebem as visitas na sala. Afinal, o lugar bem cuidado mostra a quem chega o que temos e como sabemos viver bem. Outros recebem-nos diretamente na cozinha: lugar acolhedor, onde o calor do fogo e o cafezinho fazem-nos sentir o quanto somos bem vindos.

E os homens de rua, você já pensou como eles recebem? Pois é, eles também fazem isso. Tão logo você chega, surgem roupas limpas, cobertas e papelão para que você possa arrumar um lugar limpo para se sentar. A pinga, o cigarro, um refrigerante e, dependendo do horário, comida são imediatamente oferecidos. Nesse receber, garantem o clima de paz durante a sua permanência junto a eles, impedindo que aconteçam brigas e outras situações embaraçosas. Se você ficar para dormir, alguém ficará acordando velando seu sono e garantindo sua segurança, e todos oferecerão cobertores para que não sinta frio.

Quero convidar cada um de vocês a se aproximar e conhecer um pouco mais esta problemática para que possamos, juntos, buscar novos caminhos.

[1]SANTOS, Milton – Território e sociedade: entrevista com Milton Santos. SP, FPA, 2000. [2000:22).

[2] KOGA, Dirce – Medidas de Cidades: entre territórios de vida e territórios vividos, SP, Cortez, 2003.

[3] MAGNANI, José Guilherme Cantor – a cidade, festa no Pedaço: cultura popular e lazer na cidade, SP, Hucitec/Unesp, 1998, 2ª.

[4] SCHUTZ, Alfred – El Problema de La Realidad Social, trad. Néstor Míguez, Amorrotu Editores, Buenos Aires, 1974, apud MARTINS, José de Souza – A SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES, SP, Hucitec, 2000.

[5] CALDEIRA, Teresa Pires do Rio – Enclaves fortificados: a nova segregação urbana, em Novos Estudos 47, RJ, 1997.

[6] SANTOS, Boaventura de Souza – A CRÍTICA DA RAZÃO INDOLENTE: CONTRA O DESPERDÍCIO DA EXPERIÊNCIA, SP, Cortez, 2000 (pg 122)

 


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