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A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA E A CONSTRUÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE SAÍDA ATRAVÉS DA ARTE: Um Pano de Fundo Para O CISARTE Centro De Inclusão Pela Arte, Cultura, Trabalho e Educação
outubro 24th, 2016 by Magdalves

 “O impulso artístico é o machado afiado que
possibilita ao aprendiz entrar em contato com seus próprios veios. Na busca do
elemento artístico específico de cada arte, a pessoa depara-se com o universo dos
fenômenos, conhece suas formas de expressão, e pode criar a partir de elementos
como equilíbrio, movimento, cor, som, forma, ritmo, etc.”[1]

 

A situação de rua, na qual vivem milhares de pessoas no Brasil e no mundo não é uma questão de escolha. Ninguém acorda em  determinado dia e diz: a partir de hoje quero estar em situação de rua, passando frio, dormindo mal, comendo o que lhe derem e passando pelos vexames gerados pela repressão policial ou aquela outra em nome do social e ainda tendo que aceitar maus tratos dos demais munícipes.

Já refletimos, vezes sem conta, sobre as causas que estão por trás desta situação: desemprego, baixos salários, falta de moradia são os primeiros degraus nesta descida para uma espécie de submundo da sociedade.

A desconstrução da autoestima passa pelo desconforto de aprender com aqueles que estão em pior situação do que aquele que acaba de chegar mas que, como já se “estabeleceram” na rua conhecem as estratégias de sobrevivência necessárias para que este novo membro se mantenha vivo.

A localização neste ou naquele ponto da cidade passa pelas possibilidades de se conseguir alimento, por conviver com um pouco menos de repressão e pela construção de relações em grupos que se não são de iguais, ao menos, são de pessoas vivendo os mesmos dramas.

A necessidade de, pelo menos, um pouco de dinheiro para fazer jus às necessidades mais imediatas bota a cabeça para funcionar e cada um vai descobrindo dentro de si um potencial criativo que, muitas vezes, é comercializado a partir de valores abaixo dos de mercado. Afinal, sendo para quem é, qualquer coisa serve.

A hiperexploração cai sobre cada uma destas pessoas em situação de rua em potência ainda maior do que aquela que recai sobre o restante da sociedade.

A criatividade mostrando a sua cara

Nestes anos que venho acompanhando a trajetória de pessoas em situação de rua, tive contato com pessoas que tinham um potencial incrível seja para escrever, seja para tocar, cantar e compor músicas, para construir objetos artísticos com materiais tradicionais ou com sucata.

Quando a gente propõe a um grupo de pessoas que se expressem, muitos tem o domínio da fala, outros o domínio dos movimentos e com isso é interessantíssimo montar com eles pequenos esquetes de teatro para mostrar às demais pessoas aquilo que querem dizer.

O grande diferencial é que estas pessoas partem de uma outra ótica já que “estão do lado de lá” nas situações cotidianas que entendemos como normais.

Os estilos são variados, como variadas são as pessoas e se você abrir-se a observar, eu quase diria, sair do seu pedestal, poderá se encantar com um mundo diferente, com memórias dos tempos de criança, com usos e costumes das suas comunidades de origem e com um sabor de “casa de mãe”.

Nunca me esqueço de uma ocasião em que estávamos comemorando o período do Natal numa celebração na Praça Princesa Isabel, centro de São Paulo.  Em me aproximei de um rapaz com quem sempre dialogávamos e, apontando uma câmara de vídeo, pedi a ele que falasse do Natal.

Ele ergueu uns olhos verdes e sonhadores e disse “Natal!” e logo, caiu em si e perguntou “pera, Nega, você quer que eu fale da minha cidade, que é Natal, ou do período do Natal?”

Quando isso ocorreu, não apenas Natal estava conosco ali naquela Praça, mas todo o estado do Rio Grande do Norte, e eu fiquei sem palavras com a emoção que vinha dele.

Claro que ele falou do que quis e seu depoimento foi incrível. Tempos depois, fui conhecer sua terra, sua gente e a casa onde tinha vivido. Natal, para mim, tem muito deste amigo: saudades de você, Hélio.

As Portas de saída da situação de rua

Todos que atuam com esta problemática são concordes em afirmar a necessidade de ações intersetoriais para que possamos propiciar um suporte que permita a estas pessoas a construção de seus caminhos de reinclusão no Mercado e na sociedade[2].

A Moradia é fundamental – e não estou falando em vagas em Abrigos, mas no espaço do Morar que é muito mais que isso. Enfrentar a seleção perversa no Mundo do Trabalho requer empenho na qualificação profissional e a construção de mecanismos de encaminhamento que não apenas significam “conhecer o caminho das pedras” mas ser recebido e atendido em suas especificidades quando disputam uma vaga.

A identidade de “ser em situação de rua” foi construída a partir de muitas perdas, então há a necessidade de um terceiro aspecto a ser trabalhado que é a convivência em grupos e em sociedade para a reconstrução da autoestima.

É claro que, além de tudo isso, estas pessoas precisam ter garantido seu acesso a Políticas Sociais como educação, saúde, trabalho e assistência social.

E precisam se sentir aceitos e respeitados por estes profissionais sociais que deveriam intermediar o acesso às políticas.

O PAPEL DO CISARTE NESTE CONTEXTO

A partir da cessão dos baixos do viaduto Pedroso, no município de São Paulo,  ao Movimento Nacional da População de Rua – MNPR, está em processo de implementação o CISARTE – Centro de Inclusão pela Arte, Cultura, Trabalho e Educação.

Instalado num espaço de 1.590 m² cedido pela Prefeitura Municipal de São Paulo, especificamente para este fim, o CISARTE vem sendo um espaço de discussão e implementação de ações multissetoriais voltadas para a População de Rua da cidade de São Paulo.

Sua estratégia de implementação articula um conjunto de organizações públicas e privadas que partilham com o MNPR a gestão e a responsabilidade pelas ações desenvolvidas.

https://www.facebook.com/cisarteSP/?fref=ts

Princípios e Objetivos

Embasados na PNPR, o Projeto tem como princípios [3] o respeito à dignidade da pessoa humana, o direito à convivência familiar e comunitária, a valorização e o respeito à vida e à cidadania, o atendimento humanizado e universalizado e o respeito às diferenças.

Tendo como finalidade a construção de portas de saída, o CISARTE atua a partir da capacitação em Economia Solidária, fomento empreendimentos inovadores em especial na área da comunicação (fotos, vídeos, grafite), das linguagens culturais (música, teatro, escrita), da qualificação profissional (construção civil, artesanato).

As estratégias utilizadas estão focadas em trabalhos coletivos, fomentando a constituição de grupos cooperativos que extrapolem os muros do próprio CISARTE.

Além destas ações (oficinas) voltadas para as pessoas em situação de rua, o CISARTE estará investindo na formação de trabalhadores que atuam na Política para População de Rua através de Cursos de Capacitação focados na reflexão sobre a postura profissional necessária no trato com este segmento e na realização de Saraus nos quais serão discutidos, nos mesmos eventos, trabalhos acadêmicos focados na População de Rua na cidade de São Paulo e de apresentação de trabalhos escritos, musicais, ou declamados de autoria de pessoas em situação de rua.

A finalidade destas atividades é propiciar ao público em geral – estudantes, profissionais que atuam com a poprua e outros interessados – o acesso a estudos e à produção destas pessoas em situação de rua.

Por outro lado, estas pessoas em situação de rua tem o direito de saber o que vem sendo dito sobre eles nos espaços acadêmicos. A crítica deles, feita a partir de uma outra ótica, sem dúvida, possibilitará o avanço na reflexão da política para população de rua.

Serão realizados, também,  encontros com vivências em que se pretende trabalhar temáticas do cotidiano e realidade do grupo intermediado por jogos, dinâmicas e exercícios corporais, a partir da técnica do Teatro do Oprimido.

A médio prazo, o CISARTE terá uma Biblioteca voltada tanto para pessoas em situação de rua como para interessados nesta causa, e portanto o acervo que está sendo previsto é bastante diversificado.

Um Telecentro possibilitará a manutenção de cursos de informática básica e a prestação de serviços (elaboração de currículos, contatos com familiares, etc..)

No Projeto Arquitetônico, em processo de aprovação na PMSP, há, ainda,  a previsão de uma Cozinha e de uma Lavanderia semi-industriais.

O que se espera

Contribuir para a formação de adultos conscientes de seus direitos, preparando-os para o exercício pleno da cidadania, a partir do incremento da mobilização voltada para a vivência de ações coletivas.

Assegurando o direito à comunicação para adultos em situação de alta vulnerabilidade social, o CISARTE pretende potencializar o reconhecimento das pessoas em situação de rua como sujeitos de direitos e produtores de cultura, desenvolvendo sua capacidade de criar e comunicar ideias e sentimentos através de diferentes linguagens e tecnologias de comunicação.

Contribuir para a formação de uma Rede visando a socialização desta experiência que poderá ser replicada em outros locais.

Considerações Finais

Neste mês de outubro (dias 21 e 22) celebramos a inauguração deste  espaço e 238 pessoas se fizeram presentes, conhecendo a proposta, vivenciando uma amostra das atividades que estão sendo realizadas.

Várias autoridades empenharam suas palavras no apoio a estas ações em nível federal, estadual e municipal. Entendemos que uma primeira parceria será com os serviços ofertados a estas pessoas   pelo Serviço Público, seja diretamente ou através de conveniamento, pois ainda que o CISARTE não seja um equipamento da Política para População de Rua, sem dúvida, vai potencializar a busca de saídas para muitas destas pessoas.

O empresariado e os sindicatos – patronais e de trabalhadores – são convidados a refletir conosco a construção de caminhos de acesso ao Mercado de Trabalho através da qualificação ou da ocupação de nichos alternativos de mercado. Acreditamos que, depois da Moradia, a conquista da autonomia é o sonho de cada um deles.

Uma das saídas que vem sendo construída é a saída através da Economia solidária. Grupos de pessoas em situação de rua se juntam, adquirem qualificação e iniciam a construção de um pequeno empreendimento. Este agir, obrigatoriamente, passa pela necessidade do acesso a microcréditos e este é outro caminho a ser construído. Quem sabe, podemos criar um Fundo de Apoio a Projetos da própria População de Rua.

Organizações com compromisso com esta causa também serão parceiros preferenciais e, sem dúvida, a troca de experiências tende a qualificar as ações desenvolvidas.

E você? Já pensou qual sua parcela de responsabilidade nesta luta? Como pode nos ajudar? Doando livros pra biblioteca ou ainda na busca de apoio financeiro para concretizar e ampliar esta proposta?

Vamos estar juntos em mais esta batalha?

[1][1] Tradução livre de Rudolf Steiner

[2] A Política Nacional para População de Rua, instituída pelo Decreto 7053/2009, define em seus artigos 2º e 3º que a mesma deverá ser implementada de forma articulada entre União e os demais entes federativos e que a adesão a esta proposta implica em ações multissetoriais para a qual deverão ser constituídos comitês gestores intersetoriais integrados por representantes das áreas relacionadas ao atendimento desta população. Este mesmo Decreto pontua que a política deverá ter a participação de movimentos e entidades representativas desta População que deverão estar organizados em Fóruns.

 

[3] Art. 5o São princípios da Política Nacional para a População em Situação de Rua, além da igualdade e equidade:

I – respeito à dignidade da pessoa humana;

II – direito à convivência familiar e comunitária;

III – valorização e respeito à vida e à cidadania;

IV – atendimento humanizado e universalizado; e

V – respeito às condições sociais e diferenças de origem, raça, idade, nacionalidade, gênero, orientação sexual e religiosa, com atenção especial às pessoas com deficiência.


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