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A RELAÇÃO FAMILIAR DAS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
setembro 18th, 2016 by Magdalves

Muitas pessoas consideram que “pessoas em situação de rua” são seres desgarrados de seus núcleos familiares aos quais voltaram as costas.

Nestes anos, que venho acompanhando diversas trajetórias, sempre me atrevi a afirmar que esta é uma leitura equivocada.

A meu ver, os vínculos podem estar  machucados, fragilizados, mas em pouquíssimos casos se pode dizer que são inexistentes.

Na minha Dissertação de Mestrado, analisei quase 200 cartas trocadas por elas com amigos e parentes e pude perceber com clareza que  a maioria destas pessoas vem para São Paulo para vencer na vida; isto é observado a partir das colocações quanto às dificuldades a vencer, conjugadas não obstante promessas quanto ao futuro. No que se refere à qualidade da relação familiar, ela fica mais clara naqueles conjuntos onde examinamos várias cartas emitidas para o mesmo núcleo familiar. Os destinatários das cartas, com poucas exceções, são familiares e algumas vezes amigos, aos quais se solicita a intermediação na relação familiar.

38% das cartas analisadas pedem notícias de casa. Em 15% delas é mencionada a vontade de retornar à cidade de origem, em algumas delas há um certo implorar ajuda para fazer este movimento.

Entre aqueles que mencionam erros cometidos no passado (10%) sempre há uma menção ao arrependimento e à promessa de não voltar a cometê-los novamente. Há algumas cartas em que se detalha o ocorrido ao mesmo tempo em que se assume o compromisso de corrigir o malfeito.

4% das cartas falam da morte de parentes (mãe, pai) e da tristeza por não estarem presentes nesta hora.

Apenas 4% pedem ajuda material e 1,5% pede desculpas por não poder remeter ajuda para pais e filhos.

Mas nossa reflexão quer ir além desta indiscrição na leitura das cartas. Importante detalhar como são algumas das relações para que possamos analisá-las.

Um dos missivistas (Edimilson) escreve para sua mãe pedindo ajuda e dizendo que quer voltar urgentemente. Dois meses após, o mesmo Edimilson volta a escrever, pedindo notícias e diz que não sabe quando voltará… Pode-se supor, que a carta que recebeu (há registro de que isso tenha ocorrido) de certa forma levou-o a desistir de voltar?

Outro correspondente, Edson, dirige-se à mãe, fazendo denúncia de trabalho escravizador e pedindo ajuda financeira para voltar para casa. Na sequência informa à irmã que foi roubado mas pede à mãe que não se preocupe. Dois meses após, informa que deixou a bebida… Nas cartas seguintes volta a falar em documentos e oito meses após a primeira carta retorna o querer voltar à casa… Manda várias cartas e 18 meses depois da primeira, ainda está insistindo na saudade e no querer estar com os seus.

Qual terá sido a reação desta família?

Há situações que nos parecem diversas dessa, como a do José Firmino, que escreveu para a mãe em outubro de 91 pedindo notícias e documento e mencionando o querer voltar. A carta de casa disse que seria bem vindo e logo a seguir ele comunica que está indo…

Contam-se inúmeros casos como o do José Alexandrino, a cujos pais o tinham como morto, face à ausência de notícias. Quando escreve dando notícias e pedindo certidão, já que foi roubado e diz que voltará no final do ano. · carta carinhosa que recebe de sua mãe, responde dizendo que irá em novembro e pede ajuda para a passagem.

Um caso em que fica patente a rejeição da família é o do Carolino. Quando ele escreve, pela primeira vez, é  dando os parabéns ao pai e pedindo foto da família . No Natal, ele vai para casa, dizendo ficar alguns meses, mas retorna em seguida. No início de janeiro, escreve dizendo que vai de novo no Carnaval e que conseguiu ganhar um dinheiro na loteria, pretendendo comprar uma casinha lá. A carta da família diz que não vá, que o dinheiro que ganhou é insuficiente e que é bobagem voltar. Ainda em janeiro, escreve uma carta magoada aos pais … em março volta a escrever para se desculpar por ter sido rude na outra carta, conta que teve seu barraco queimado e pede ajuda. Vinte dias depois, volta a escrever reclamando da resposta, pedindo sua certidão e dizendo-se doente. Neste caso, a rejeição é clara.

Independentemente das cartas em vários anos de trabalho com a população de rua, acompanhei inúmeras relações desses homens e mulheres com suas famílias. Na maioria dos casos, a família fica muito contente em saber notícias e até se propõe a manter uma correspondência afetuosa. Quando o retorno é mencionado, é que a conversa muda de tom.

Desculpas são dadas em relação à taxa de desemprego, à precariedade de condições de vida e quando não há mais como esconder, mencionam-se os erros cometidos, muitas vezes em função do vício de beber.

Dos casos que acompanhei, o que mais me impressionou foi o de um homem que me pediu ajuda já que a família não deixava completar ligação interurbana a cobrar e ele queria falar com a mãe, para voltar para casa.

Tratava-se de um rapaz novo, assustado com o desemprego e ainda sem os vícios do viver da rua. Sua família estava bem, sendo o padrasto vereador numa cidade pequena. Forneci fichas para que este rapaz falasse com a mãe e impressionou-me o seu desespero ao ouvir dela que homem que é homem vence na vida e que ele não tinha nada que voltar, já que o padrasto ficaria muito irritado. Poder voltar para casa da mãe e de lá seguir para a fazenda dos avós era o que ele implorava…e esta mãe mostrava-se irredutível. A seu pedido, dias depois, eu liguei para conversar com ela e ouvi a seguinte explicação:

“Este que ele chama padrasto, na verdade não é meu marido, já que não regularizamos nossa união, vivo com ele há sete anos e não quero sair disso sem dinheiro. Ele é bruto, não me sinto em segurança e se meu filho voltar, posso perder essa situação. Tenho que pensar em mim e no futuro de meus filhos…” 

E, continuou a dizer não, apesar de saber a situação real desse filho.

Nem todas as famílias cujos membros chegam a estar em situação de Rua tomam todavia essa atitude de rejeição. Muitas vezes há o pedido de que retornem e até a visita de mães, irmãos e outros parentes, querendo levá-los de volta à casa.

Lembro-me de um homem, Bruno que a partir de um atropelamento ficou com deficiência no andar. Tinha familiares residentes em São Paulo mas não conseguia se imaginar dependente da irmã e do cunhado e com isso vivia na rua e sobrevivia de pequenos bicos.

Elias, mais conhecido como Bitinha, era outro que, apesar da insistência da família, dizia não querer voltar. Visitava sempre a irmã, telefonava e escrevia à mãe mas não queria saber de depender dos parentes, já que portava uma deficiência que o impedia de ter emprego regular.

Há famílias que reagem de outro modo…Houve uma vez em que fui portadora de uma carta que magoou muito um rapaz. Vivendo há anos da construção civil, ele morava em alojamentos, com períodos de desemprego quando ficava na rua. De certa feita pediu-me que escrevesse à sua mãe, solicitando notícias e a certidão de nascimento.

A resposta de casa foi rude, inclusive contando da morte de um irmão e responsabilizando-o por isso…

Dias depois de entregar a ele a carta-resposta, encontrei-o na praça e ele me disse:

“Que carta, dona Madalena que carta!!! Aquilo nem parece carta de mãe. Melhor seria ficar sem documento. Que carta!!!”

Meses depois no entanto, ele me procurou, dizendo querer escrever para casa, pois mãe fica preocupada se fica sem noticias. Era como se aquela carta não tivesse existido…

Numa viagem que fiz ao Nordeste, a pedido de algumass destas pessoas em situação de rua de São Paulo, procurei suas famílias para saber notícias. O outro objetivo era conhecer o contexto familiar de onde tinham vindo. Visitei mães, irmãos e cunhados, ocasião em que conversamos sobre a saída de casa, a distância, o modo de dar notícias e a imagem que se faz.

A primeira família que visitei foi a de Pedro, conhecido como Pedro, o Doido. Fui à sua casa, pois, ao saber que iria a Recife, pediu-me que localizasse sua irmã. Perdera o telefone dela e estava há muito sem notícias. Sabia mais ou menos a direção do seu local de trabalho. Ao encontrá-la, a primeira surpresa: a família pensava que estivesse morto, pois não tinha notícias há tempos e uma de suas irmãs ouvira no rádio a morte de um Pedro, em São Paulo… Maria José, sua irmã disse-me que ele saíra de sua terra há 20 anos porque lá não havia empregos. Quando morava em Recife, sempre ajudou em casa a partir de seu trabalho, e “ficava muito aperreado quando estava desempregado”.

Nestes 20 anos, voltou para visitar a família algumas vezes. A última vez faz sete anos. O pai morrera há 1 ano, a mãe estava forte mas ia ser operada da vista e sempre se preocupava com o filho que estava longe. Na última vez em que Pedro esteve lá, a mãe, que ainda enxergava, não o reconheceu. Ele, estão, disse que era um amigo que trazia notícias e foi conversando devagarinho até que a chamou de mãe…“Foi muito difícil não ser reconhecido” – disse ele.

Conversamos sobre a vida de seu irmão em São Paulo e o vai e vem de trabalho em construção civil. Perguntou sobre a bebida e disse preocupar-se porque “é muito decidido e tem medo que se meta em confusão.” Gostou da foto que levei, pediu que ele telefonasse pois sentem saudades e mandou notícias de mãe, irmãos, primos e amigos.

Muitas vezes o afastamento da família se dava justamente pelo carinho em relação a ela. Claudionor, por exemplo, era cearense e não passava três dias sem falar com a mãe, lá na distante Fortaleza. No geral uma vez ou duas por ano ia em visita para matar as saudades.

“Ficar lá não dá, dizia, na medida em que o desemprego é alto e entristece muito a mãe saber que vive da rua e de bicos. Aqui, ao menos, é distante e ela não tem clareza do como vivo.”

Logo que iniciei o trabalho com Homens de Rua, conheci Claudionor. Em dez anos presenciei inúmeras mudanças. O parar de beber, o iniciar pequenos bicos e os planos de reinserção no mercado de trabalho eram entremeados com o desalento quando a única companheira constante era a bebida. Durante todo esse tempo, Claudionor não deixava de contatar a família, e, apesar de sua situação, continuava a ser visto pela mãe como seu “menino de ouro“. Na minha ida ao Nordeste, uma parada obrigatória: a casa de D. Nega, mãe de Claudionor. O carinho de toda a família permitiu-me perceber o quão forte era a ligação entre Claudionor e sua parentela. A mãe lastimava-se por ter saúde frágil, pois sua vontade era conhecer este São Paulo que tanto atrai seu filho e que o mantém longe da família.

Claudionor só veio para São Paulo depois de uma situação na qual quase morreu. Ele, como seu pai, era da Polícia. Num treinamento, foi quase morto, tendo ficado muito tempo em coma. Depois disso, desmaios e convulsões… Para sua mãe, era difícil entender que ficasse longe.

“Aqui o emprego é difícil, dizia, mas o pouco que a gente tem é suficiente. Ele bem que poderia ficar aqui comigo.”

Ele, por sua vez, não aceitava a ideia de depender da família. Em São Paulo, sobrevivia de bicos e achaques. Em Fortaleza, ponderava, se eu agir como faço aqui, minha mãe vai se envergonhar de mim. E foi ficando em São Paulo.

Quando voltei do Nordeste, e trazia presentes de sua casa, ficou feliz. Chegou a dizer que iria logo depois do Carnaval… Dias depois morreu de uma septicemia decorrente de uma hepatite mal curada.

A família solicitou que mandasse uma foto dele no caixão e depois que remeti me disseram que, somente assim, conseguiam acreditar que estava de fato morto.

Altiberto Guaraci, conhecido na rua como Mijão, era considerado morto por sua família, já que não dava notícias há 14 anos. Desde que comecei a trabalhar com Homens de Rua, no bairro da Luz, conheço este cujo apelido é Mijão; a alcunha é fruto de um problema de incontinência urinária. Inicialmente ele parecia uma pessoa fechada, que pouco contava de si e que muitas vezes atrapalhava momentos de grupo por interromper dinâmicas. Tinha uma companheira, Zezé, da qual cuidava todo o tempo. Os filhos, diziam, estavam na casa da mãe dela em Santo André. Quando avisei que iria ao Nordeste, pediu-me que procurasse localizar uma de suas tias: Aurimar. Em Natal, fiquei sabendo que Aurimar havia falecido, mas estive com irmãos, cunhados, primos e sobrinhos.

O nome que usa em São Paulo não é o seu mas o de um de seus irmãos que está em Natal. Os parentes, entretanto, logo identificaram este, que saíra de lá há 20 anos, acompanhando Francisquinha, uma contraparente que prometia casa, trabalho, etc.. Seu irmão Cacique disse que o convite inicialmente era para ele, mas que ponderara que “na terra da gente, a gente manda. Na dos outros, tem que andar na linha deles”. Mijão foi com eles, e nunca mais deu notícias.

Chegaram a pensar que estivesse morto, mas no dizer da cunhada, “se morrer, um dia a visagem aparece”. No início tiveram algumas notícias. Souberam que o marido de Francisquinha o pusera para fora de casa e ficaram imaginando o porquê. Cacique disse que, quando Francisquinha voltou a Natal, e disse não ter notícias de Altiberto, ele estava fora de casa.

Caso contrário, exigiria que desse conta do paradeiro de Altiberto, já que o levara menor e tinha que responder por isso. Hoje, acham que não deve ser incentivado a voltar, pois há uma questão de herança mal resolvida, que é melhor que nem saiba.

Quando voltei da viagem com notícias de seus parentes e trazendo uma foto sua aos 10 anos, emocionou-se muito e mudou sua maneira de se relacionar comigo, passando a cooperar nas dinâmicas e não mais a atrapalhar. Outro fato interessante é que dizia não ter notícias da família há muito tempo, mas a tal questão de dinheiro (que eu não citei) foi mencionada como sendo uma safadeza que fizeram com ele, por estar ausente. Não ficou claro, para mim, quem lhe traz notícias…

O contato com a família de Hélio, que eu conhecia há três anos, começou a ser feito por telefone.

“Eu nasci numa família boa”. -dizia o Hélio –“Meu pai sempre

me deu tudo. Não precisei trabalhar. Eu estudava só. Minha

mãe é legal. Meu pai, duplicava, era tri-legal”.

Este rapaz, Hélio que cheguei a acompanhar por certo tempo, vi quando chegou à rua e como foi ficando. Tem um jeito fino e educado, que contrasta com aquele ambiente e é muito querido por todos, na medida em que usa sua educação para socorrer a quantos precisem de ajuda.

Trabalhou na Volkswagem e na Brastemp. Os últimos empregos regulares foram na Construção Civil.

“Fui servente, – diz ele, trabalhei de tudo e cheguei a

armador”. Pois édepois que eu perdi a Fé em mim

mesmo … que eu caí, que eu me joguei nessa lama aí… É

triste, meu, mas eu não tive mais a moral de chegar e

escrever para a minha família… Minha mãe pensava que eu

tinha morrido… Três anos sem ter contato com ninguém”.

No retomar o contato, a festa. Num primeiro momento a família se assusta, já que a carta vai em impresso de um Centro de Direitos Humanos.

Estará preso, doente, internado? O que aconteceu? Por que é outra pessoa e não ele mesmo a escrever… A angústia, e a preocupação com o irmão e filho ficam patentes neste primeiro contato.

“Minha gente me quer bem – diz ele com orgulho. Posso voltar para casa assim que quiser. Lá, tenho de tudo…”

Telefonaram e iniciamos um diálogo que continuou por cartas e telefonemas e culminou com minha visita a Natal.

O cuidado e o carinho estavam presentes nas cartas e telefonemas, mas… quando chegou o momento em que São Paulo estava pesado e a vontade de voltar pra casa falou mais alto, ele ligou pra casa, dizendo que pensava voltar… a família achou melhor que ficasse em São Paulo. Em Natal a vida é difícil, diziam, há desemprego…e listaram uma série de inconvenientes.

E, do fundo do coração, com voz magoada, ele disse:

“Eles se envergonham de mim. Meu cunhado é engenheiro da Prefeitura, minha irmã trabalha na CCAA e lá e diferente daqui. Quando eu fui lá da última vez, fiquei numa roda e isso fez os vizinhos falarem, e eles se envergonharam muito.”

A partir desse momento. Hélio passou a dizer aos amigos que não queria voltar a Natal, enquanto continuava a telefonar, tentando convencer a família a aceitá-lo. Dias antes de minha saída para o Nordeste, no entanto, um de seus irmãos telefonou-me dizendo sentir a necessidade de conversarmos mais demoradamente, pois estavam preocupados em entender melhor como o Hélio estava vivendo. Aí agendamos a minha ida à casa deles, em Natal.

Ao chegar, conheci sua irmã, cunhado e sobrinhos e ainda uma senhora que, trabalhando para a família há 30 anos, havia ajudado a criá-los.

Mais tarde chegaram a mãe e um de seus irmãos. No dia seguinte, conheci mais um de seus irmãos. Durante os três dias que passei em Natal, na verdade, a família toda girou em torno de querer notícias e de pensar o que fazer. Família de classe média, o pai de Hélio tivera uma firma de secos e molhados e ia bem de vida, mas não conseguiu que nenhum de seus filhos assumisse o seu negócio. Acabou vendendo tudo e deixando para a viúva, ao morrer, apenas a casa onde mora e uma pensão suficiente para que sobreviva sem ter que trabalhar.

Mostrei fotos e um vídeo no qual ele dava um pequeno depoimento e elas se magoaram muito ao ver o quanto ele mudou nestes três anos. O diálogo tornou-se mais íntimo a partir da presença do irmão que, parece-me, faz as vezes de chefe da família. Preocupavam-se com o que eu pudesse pensar ao comparar a vida confortável que levam e as reticências no que dizia respeito à volta do Hélio para casa. O início das confidências pareceu difícil, mas conversamos muito tempo, e fora pequenas nuanças, a situação apontada coincide com o relatado pelo próprio Hélio.Garoto traquinas, Hélio bebe desde os 12 anos.

“Eu estudava, só. Era colégio… e sempre era expulso.

Colégio do Estado, né! Ai, meu pai resolveu me por em

Colégio Particular. Particular no Norte, é particular. Mas nem

os colégios particulares me aceitavam mais.”

Apesar disso, dizem todos, era o preferido do pai que o paparicava muito.

A primeira vez que veio a São Paulo, buscando vencer na vida, tinha 16 anos. Ficou aqui pouco tempo, pois o pai veio buscá-lo para se casar com Eunice, que estava grávida. Apesar do apoio da família que lhe deu casa mobiliada e emprego, o casamento durou menos que um ano. Como outra tentativa para estabelecê-lo o pai montou um bar para ele. Seus amigos passaram a frequentá-lo, e bebiam sem pagar… o negócio não teve futuro.

Passou a procurar a sobrevivência em São Paulo, mas enquanto o pai era vivo, nunca ficava mais de seis meses sem ir a Natal. Nestas viagens, arcava com suas despesas e, quando estava em casa pouco falava de suas andanças.

“Apesar de instável, é pessoa muito querida em Natal, por ser muito agradável, e, se quiser, pode estar empregado rapidamente” – disse-me seu irmão. Ao conversarmos sobre a sua intenção de voltar à casa, Wilma (uma das irmãs) disse que Hélio precisaria ter um canto só seu, mas perto da família. Já, Haroldo (outro irmão) não acredita que fique em Natal. “Logo vai querer voltar em busca de aventura, pois gosta da emoção e do perigo.

“Após todas as ponderações, combinamos a volta para casa, que se deu dois meses após.

Hélio, na verdade, ficou quase dois anos em casa e, ao sugerirem que se casasse novamente, voltou a São Paulo e à rua, por outro período de seis meses. Atualmente, está de volta a Natal para onde voltou por conta própria sem pedir a ajuda à família. Este último retorno se deu após o assassinato de um de seus companheiros, crime que praticamente presenciou e que o assustou e revoltou muito.

O tempo em que me hospedei na casa de Claudionor ( em Fortaleza) e na casa de Hélio (Natal) permitiu-me conhecer o outro lado da história destes amigos que há tantos anos acompanhava em São Paulo.

São inúmeros os fatos ocorridos, a relação afetiva tem muitas nuanças e não é possível traçarem-se receitas ou definir serem estas ou aquelas as respostas a serem dadas.

Houve um homem que, desiludido com a companheira, deixou a família e permaneceu nas ruas de São Paulo por longos anos. A cada viagem de alguém para sua terra, ameaçava ir de volta para o lado da filha.

Este, como muitos outros, teve seu dia de retorno e hoje está reinserido na família e no mercado de trabalho.

Nos casos em que a lembrança de casa é boa e a situação atual é de dificuldade, surgem questões relativas à volta para casa. Por que não voltar? Qual o contato existente: carta, telefone, visita ?

Anos atrás, ao restabelecer por carta a relação entre um homem de rua e sua família, ocupei-me em prepará-lo para o retorno ao Nordeste. Tudo se iniciou quando o João, este era seu nome, pediu-me que ficasse com endereço de seu irmão para avisá-lo quando soubesse da sua morte.

Conversamos e convenceu-se da conveniência em voltar à casa da família. O recurso financeiro chegou com uma carta carinhosa que garantia uma recepção calorosa e o cuidado em recuperá-lo. A precariedade da saúde, o empenho em deixar a bebida e a necessidade de preparação para a longa viagem fizeram com que todo o grupo se empenhasse nessa missão.

Naqueles dias, os sentimentos no grupo de rua foram contraditórios, entremeando-se a admiração com a inveja pela coragem em colocar-se abertamente, deixando que a família saiba que fracassamos e nos aceite de volta ainda assim.

Ao atuar com estas pessoas em situação de rua, muitas vezes, aplicamos dinâmicas de grupo focadas na situação familiar. Isso deve ser feito com muito cuidado pois, a partir delas podem  aflorar rupturas, decepções e o sentimento de abandono. A autoculpabilidade pelo afastamento, o sentimento de abandono e os ressentimentos pertencem ao foro íntimo e não se quer que os companheiros saibam nem do fracasso, nem que há rejeição pela família.

A família faz falta não apenas como apoio no enfrentamento dificuldades de sobrevivência, mas também como recarga afetiva. Quando o assunto é família, a maioria das pessoas em situação de Rua fala de sua vida passada, das relações vividas como se as comparasse com um ideal de família, como o modo certo de se relacionar.

Nessa família ideal tem que haver um provedor masculino e uma mulher que somente cuida dos filhos. A lembrança de casa, muitas vezes, trás a lembrança da impossibilidade do sustento do grupo familiar a partir apenas do “pai”. A lembrança da mãe vem carregada de definições de certo e errado, mas muitas vezes é a mãe que se desdobra entre os serviços da casa e a roça ou o trabalho em casas de família. Muitas vezes foi essa ausência de meios de sobrevivência que o trouxe para a cidade grande.

Muitos solteiros, e a grande maioria destas pessoas em situação de Rua vivem sós, colocam como meta futura o estabelecimento de uma relação familiar duradoura, com mulher e filhos. No caminho para a realização deste sonho, o conseguir-se trabalho, moradia e melhores condições de vida. Nesse futuro sonhado, a mulher, geralmente, é citada como responsável pela infraestrutura doméstica e o homem como o provedor; se não se conseguir uma situação estável, dizem, é melhor não casar, pois o sonho viraria pesadelo.

Prado (1982:76) nos diz que ” não varia muito de uma camada social para outra o ideal referente à família, aos laços que aí são valorizados (amor entre o casal, compreensão e amizade entre pais e filhos); ao comportamento esperado entre seus membros (responsabilidade econômica do marido, infraestrutura doméstica e afetiva pela mulher, obediência às diretrizes paternas) e à expectativa dos papéis sociais que deverão ser cumpridos por cada um”.

Sem dúvida, entre estas pessoas em situação de Rua, o vínculo familiar se mantém, ainda que se perceba um novo modo de se relacionar. O que pode variar é a qualidade de tais vínculos, os quais podem estar, de certa forma, superdimensionados seja pela fantasia ou pela ideologia na qual estamos mergulhados há séculos.

A reorganização radical pela qual passam, reescreve seus passados, mas ainda assim inúmeros condicionantes da situação anterior se mantêm, influenciam e muitas vezes dificultam o estabelecimento de novas relações.

Analisando-se o modo como eles  se relacionam uns com os outros, percebe-se presente a solidariedade. Apesar de se dizerem irmãos, nos momentos em que, na conversa se busca qualificar estas relações, eles dizem ser ela diferente da familiar: família é outra coisa.

De certa feita, num diálogo, ouvi a seguinte definição: ele é meu irmão, não porque nascemos do mesmo pai e da mesma mãe mas porque passamos fome juntos, puxamos carroça juntos e enfrentamos a violência das ruas juntos.


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