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PRECONCEITOS VISTOS DE DENTRO COMO ENFRENTAMENTO DA DISCRIMINAÇÃO: A POLÍTICA PARA POPRUA
setembro 16th, 2016 by Magdalves

Há quarenta anos, venho atuando junto a Pessoas em Situação de Rua, segmento muito estigmatizado em nossa sociedade.

Expulsas do Mundo do Trabalho, Espoliadas em seus Direitos, Excluídas por familiares e ex-amigos, estas pessoas vão tendo introjetada uma imagem que permite que sejam tratadas desta forma. Alguns, até mesmo, justificam à sociedade que os oprime, reprime e impede que tenham uma vida digna.

Aqueles poucos que atuam com estas pessoas, procuram enfrentar as ações discriminatórias que são fruto de preconceitos enraizados. Quem discrimina justifica num descrédito de que estas pessoas ainda tenham “salvação”, de que consigam sair de sua condição atual e voltar a conviver em sociedade.

Mesmo quando se deparam com aqueles que conseguiram “sair do fundo do poço”, quem os discrimina diz que estas são as “exceções que confirmam a regra” e continuam com sua posição anterior.

Há, ainda, um número significativo de pessoas que considera que pessoas em situação de rua tem problemas mentais e que a única saída para eles seria o confinamento em Instituições psiquiátricas.

Uma aproximação “de peito aberto” permite entrever nestas pessoas em situação de rua toda uma gama de potencialidades que podem ser o ponto de partida para a busca de caminhos de superação, desde que a sociedade se abrisse para isso.

Mas, não são apenas as pessoas em situação de rua que são discriminadas. Nossa sociedade discrimina egressos do sistema penal, negros, mulheres, LGBT e quaisquer outras pessoas que deixem entrever que somos uma sociedade plural onde deveríamos saber conviver com o diferente.

Para aprofundar esta reflexão, precisamos sair do local e procurar olhar a sociedade como um todo e buscar compreender seu comportamento.

O BRASIL DAS DESIGUALDADES SOCIAIS

A desigualdade social e econômica está presente em todos os países do mundo, sendo mais enfatizada naqueles países em desenvolvimento: aqueles que até alguns anos atrás eram conhecidos como subdesenvolvidos.

A desigualdade social gera um problema social que parte da má distribuição de renda e de falta de investimento social. Uma das consequências é a falta de educação de qualidade para todos, menos oportunidades no mercado de trabalho e dificuldades de acesso a bens culturais e históricos para a grande maioria da população.

Ainda que as estatísticas apontem que, nos últimos anos, esta desigualdade diminuiu, o Brasil ainda detém o vergonhoso título de ser o 8º país do mundo em desigualdade social, mesmo estando entre os dez países do mundo com o Produto Interno Bruto mais alto.

Análise do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica aplicada, baseada em dados do PNAD 2011 demonstram a diminuição da pobreza e consequentemente da desigualdade social no Brasil.

16 milhões de pessoas permanecem em extrema pobreza no Brasil, apesar de nos últimos anos 28 milhões terem saído da pobreza absoluta e 36 milhões terem entrado na classe média. Segundo dados do IPEA, as transferência do Programa Bolsa Família são responsáveis por 13% desta redução da desigualdade.

Dentre as consequências da desigualdade, salientamos a favelização, a pobreza, a miséria, o desemprego, a desnutrição, a marginalização e a violência. A saída, segundo estudiosos, seria aliar democracia com eficiência econômica e justiça social.

A fonte primária desta desigualdade social é o Capitalismo, ou seja, a ânsia em acumular capital e a primazia da propriedade privada incita uma maior competição e um entendimento questionável de que “quem é bom, vence na vida” que leva as pessoas a uma briga de foice para ter mais do que os outros.

Relatório da ONU, publicado em 2010, apontam como principais causas da desigualdade social a falta de acesso à educação de qualidade; uma política fiscal injusta; baixos salários; dificuldades no acesso a serviços básicos de saúde, transporte público e saneamento básico.

A Mensuração da Desigualdade

Desde o início do século XX, a desigualdade social de uma sociedade vem sendo mensurada através do Coeficiente de Gini[1] que se baseia em dados de Renda, Riqueza e Educação. Na lógica do sistema Gini, quanto mais próximo de zero, menor é a desigualdade.

Em 2011, o índice Gini Brasileiro para a área social foi de 0,527, menor número desde 1960 (0,535).

Preconceito de Classe social

O preconceito de classe social está relacionado ao poder aquisitivo, ao acesso à renda, padrão de vida, ao nível de escolaridade, ao padrão de vida, entre outros.

Quando falamos, aqui, em preconceito de classe, não estamos nos referindo apenas ao sentido visto em Marx (proprietários e proletários) mas estamos indo além e considerando a existência de classes mais abastadas economicamente (milionários, ricos, classe média alta) e outras com menos recursos (classe média, média baixa, pobres, miseráveis), sendo a renda o fator determinante de sua posição social e, dessa forma, do preconceito de classe.

Nas análises feitas no processo de impeachment da Presidenta Dilma em que, aparentemente, o Brasil estava cindido em dois grandes grupos, estava muito presente este preconceito de classe.

Muitas pessoas abastadas não se conformavam com a melhoria de condições de vida dos mais pobres e chegavam a expressar isso quando diziam “este aeroporto, agora, parece uma rodoviária”.

Nas grandes cidades, é sempre muito presente a disputa do território. Quando são propostas novas estações de Metrô em bairros nobres, por exemplo, a população local se manifesta contra a obra,  apontando que ela vai trazer pessoas “estranhas” para o entorno de seus espaços. O que se permitem explicitar é o “medo” –  falam em risco à segurança e à tranquilidade locais.

A mesma polêmica surge quando são previstos empreendimentos populares em bairros de classe média…

É importante percebermos que o pano de fundo destas “demarcações de território” são um preconceito que considera a classe trabalhadora como perigosa e inferior.

A perda da invisibilidade

Durante décadas, estas pessoas eram invisíveis e apenas uma pequena parcela da população considerava o processo que os tinha levado a isso: demitido do trabalho, despejado da moradia, rejeitado pela família só restava tentar se estabelecer em locais públicos de onde era expulso em nome da ordem.

Na década de 1990, o número de desempregados superava a casa do milhão e o nível dos salários batia recordes negativos, deteriorando as condições de vida da classe trabalhadora.

As grandes cidades, como São Paulo, passavam a ter o seu cotidiano marcado pela pobreza que saltava aos olhos dos paulistanos.

Ver a gravidade dessa situação e nada fazer gera uma sensação de impotência e um  sentimento de culpa que leva a uma negação daquilo que éramos obrigados a ver ao nosso redor.

Quem sabe como uma autodefesa, estas pessoas passam a ser culpabilizadas por sua situação. Como parte deste mecanismo, deixa-se de considerar o déficit de vagas de trabalho e vai se construindo o entendimento de que estas pessoas estão nesta situação por vontade própria – indolência, preguiça, etc.. levando a um “não querer fazer nada”.

Quando sua presença incomoda, pede-se sua retirada das praças e ruas, sem uma preocupação de para onde serão enxotados.. basta que saiam da nossa frente.

Aprova-se, ainda que por omissão, que sejam expulsos de bares, restaurantes e lanchonetes onde suplicam por um prato de comida.

Em minha primeira estada em Londres, lembro-me como se fosse hoje de um homem velho que estava sentado no chão próximo de um metrô carregando um cartaz onde dizia: “tenho fome”.

Nas Igrejas, entre uma oração e outra, pode-se esquecer a imagem de Deus por quem passamos na entrada e que lá permanece esmolando…

Se nos aproximamos deles, descobriremos pessoas que tiveram ocupações servis no campo, algumas analfabetas e também aquelas cujo estudo chegou ao ensino médio, muitas vezes conseguido a duras penas num estudar à noite para trabalhar de dia.

Estes homens e mulheres, cujo passado profissional indica uma vida de trabalho, vem sendo pouco a pouco esmagados pelo desprezo e pelo pouco caso da sociedade na qual convivem e pelas regras criadas para impedir que as pessoas vejam no que o país está se transformando.

Mas esta miséria explicita vem num crescendo e chega num ponto em que não dá mais para “fazermos de conta” que não é problema nosso. Pouco a pouco, gestores de políticas sociais começam a se preocupar com o que fazer para equacionar esta situação.

Quem é “essa gente”: Donde surge? Por que está aqui? O que pode ser feito para diminuir este contingente?

Racionalizar para construir propostas

Quando buscamos identificar de onde vieram estas pessoas[2], não podemos considerar que o fato de terem vindo de outros estados e municípios são fatores determinantes. Há pessoas, sim, que já vieram de outros locais em situação de rua e há aquelas que vieram para a cidade onde estão em situação de rua muitos anos antes, aqui trabalharam e viveram e por motivos diversos chegaram à situação de rua.

Há mais homens do que mulheres em situação de rua e esta questão de gênero merece um estudo cuidadoso. Tanto pode ser que menos mulheres cheguem à situação de rua, como pode ser mais difícil para a mulher sobreviver nesta condição.

No início da década de 1990, a faixa etária predominante era entre 30 e 40 anos. Hoje encontramos muitas pessoas com mais de 60 anos e em situação de rua.  Importante identificar se estas pessoas passaram da fase de adulto para idoso nesta condição ou se as condições de vida de nossos idosos estão provocando sua ida para as ruas. Afinal, sabe-se que as aposentadorias são insuficientes.

Um estudo sobre o passado profissional e sobre o potencial representado por estas pessoas dá base para a construção de caminhos de superação da situação de rua.

O que chama mais a atenção, no entanto, são aquelas pessoas que aliam o “estar em situação de rua” com problemas relacionados com o “uso abusivo de drogas”.

Uma aproximação com as cracolândias permite entrever que, além de pessoas em situação de rua, acorrem a estes locais pessoas que tem suas casas mas que ali estão em busca de drogas para seu uso pessoal.

Identificar estas situações é o primeiro passo na construção de propostas políticas que respondam a elas.

O Papel Profissional neste contexto

A grande maioria das propostas de atendimento voltado para a poprua tem um leque de trabalhadores que podemos resumir como sendo: gerentes, técnicos, educadores, agentes operacionais, motoristas e seguranças.

Ainda que as tarefas sejam diversas, um aspecto que une todos estes trabalhadores é a necessidade de um comprometimento com esta proposta.

O ponto de partida é o entendimento de que estas pessoas em situação de rua são sujeitos de direitos, e enquanto tal devem ser respeitados e escutados.

Algumas destas pessoas estão numa situação de incapacidade para desempenhar funções básicas  do cotidiano e por isso mesmo precisam de ajuda e apoio.

Ajudar é fazer por ela, é carregá-la nas costas tirando  oportunidade que ela avalie seu próprio potencial. Isso só deve ocorrer quando ela, de fato, não conseguir fazer aquilo a que se propõe e pedir esta ajuda.

Apoiar alguém é estar ao seu lado, oferecer orientação,mas deixando que ela tome suas próprias decisões, andando com suas próprias pernas. Só assim, ela pode superar obstáculos e usar seus talentos o que deve fortalecer sua autoestima.

Anos atrás, num discurso, o Lula disse que fora oferecer ajuda a um grupo indígena que respondeu algo mais ou menos assim: se você veio me oferecer ajuda, eu agradeço, mas não preciso. Agora, se você veio porque sua luta é a minha luta, seja bem vindo.

Eu entendo que a nossa postura em relação às pessoas em situação de rua devem ser semelhantes a isso.

Para realizar um trabalho significativo, precisamos de um “time” de primeira linha. Num time, mais do que numa equipe, os participantes lutam por um mesmo objetivo e isso é fundamental para a construção destes caminhos.

Nosso “time profissional” precisa aliar competência técnica e relações interpessoais positivas que gerem respeito pelo trabalho do outro.

Cada trabalhador deve trazer para o time a sua competência técnica: o olhar do psicólogo, do assistente social, do advogado, trazem parâmetros construídos nos anos de faculdade. Os educadores sociais foram capacitados e conseguem construir uma relação mais próxima destes conviventes e usuários. Os agentes operacionais não apenas garantem o espaço físico e o ambiente necessário para que os trabalhos deem certo, mas podem estabelecer relações de apoio e companheirismo com estes conviventes e usuários.

[1] Desenvolvido pelo demógrafo, estatístico e sociólogo italiano, Corrado Gini (1884-1965).

[2] A primeira pesquisa foi feita na cidade de São Paulo (1990), depois disso foram feitas pesquisas com caráter censitário com periodicidade bianual. Em nível nacional, foi feita uma pesquisa em 2007/2008 e vários municípios tem feito levantamentos periódicos.


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