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IDENTIDADE OU ESTIGMA
agosto 6th, 2012 by Magdalves

Já sonhou. Trabalhou, // a sorte protegeu. //Desiludiu-se e, mesmo vivo, morreu.//Perdeu a última esperança,//a confiança perdeu.//Se encostou em um canto//e, mesmo vivo, morreu.

A esperança é a luz do crânio,//luz ingrata, se apagou.//Não é um louco varrido://seu tempo já foi vendido.//Não pede, nem se levanta, é chamado “boca de espera”;//conheço sua história//e sei como dói ela.//Banho de chuva,//toalha de sol,//roupas imundas…//Eu tenho dó. [1]

 

Aviltados pelo trabalho, desempregados, com saúde débil, morando em precárias condições e portanto insalubremente, tendo alimentação insuficiente, e ainda por cima sendo acusados por sua fadiga e resignação que, provavelmente são frutos desse viver desconfortável.

A pecha de ignorância justifica mantê-los como população sobrante e descartável, permitindo ações públicas de repressão e tutela.

A invisibilidade característica de todo segmento do qual o sistema não consegue extrair mais valia oculta os sinais que anunciam os limites da sua condição de vida e aqueles que desvelam sua resistência e capacidade de lutar para sobreviver.

“Todos os dias acordo sem saber que dia é

todos os dias levanto sem saber porque levanto

tenho que comer

fazer xixi

arrumar outro lugar para dormir

acho que é só.

Desisti de tentar não causar medo, nojo…

Diante de Deus não sou nojento.

Diante de tudo, sou corajoso.

Mas, quem liga pra isso?

To nas ruas feito um bicho.

Sou um vira-lata humano.

Quem liga pra isso?[2]

Num viver aparentemente descomprometido com o estabelecido, e numa dialética de negação da ordem instituída, estas “pessoas em situação de rua” assumem formas diferenciadas de sobrevivência.

Como tentar traçar a identidade destes seres de tal forma semelhantes à grande maioria da população se a única coisa que os diferencia é o estigma?

Como ser em relação, as “pessoas em situação de rua” tem sua identidade, seu estigma, definido a partir da sociedade que os rejeita, da solidariedade no grupo de iguais e da distância ou proximidade da família.

A vivência e organização dessa população tem passado por modificações através dos anos, e pode-se creditar algumas dessas modificações aos trabalhos desenvolvidos por grupos vinculados a igrejas.

Até meados da década de 70, podia-se perceber que as “pessoas em situação de rua” viviam isoladas umas das outras, sendo predominante a mendicância como meio de sobrevivência.

Pouco a pouco o trabalho das igrejas vai dando frutos e esta população vai percebendo que tem Direitos. Esta consciência dos Direitos é o primeiro passo para o processo de reivindicação que se segue.

O dia-a-dia de desamparo, onde estão presentes o imediatismo, animismo, alcoolismo e drogadicção gera explosões violentas consigo mesmo e com os outros. Um dos agravantes é a dificuldade de perceber o outro e as fortes projeções de conteúdo interno e a fragmentação.

Mais do que a distribuição de benesses, os trabalhos sociais voltados para estas pessoas deveriam reforçar os laços afetivos e a auto-estima, evitando-se as remoções e recolhimentos que, geralmente, destroçam os grupos de referência.

Refletindo sobre este que-fazer, o professor Luiz Cláudio Mendonça de Figueiredo propôs (num Seminário da Abrapso) que precisaríamos “abrir uma clareira, chamando-os para torna-los visíveis e deixa-los falar”.

Esta proposta caminharia para a re-organização de uma identidade coletiva que valorizasse e preservasse esse modo de vida de modo a chegar-se à conquista de Direitos Sociais.

Refletindo sobre esta identidade/estigma

Ao refletirmos sobre a identidade destas “pessoas em situação de rua”, não podemos deixar de considerar que, em algum tempo e em algum estrato social, estes homens e mulheres foram socializados primariamente.

Ao nascer, cada um destes seres, tornou-se membro da sociedade e, a partir das relações e da filtragem dos outros significativos assumiram, modificaram e recriaram um mundo que passou a ser o seu mundo.

Este processo de exteriorização, objetivação e interiorização gestou uma identidade que, apropriada por cada um deles, inseriu-os não apenas em esquemas motivacionais e interpretativos, mas definiu um linguajar que, sem dúvida, vai acompanha-los por toda a vida.  Este linguajar oral e simbólico foi a base de sustentação a partir do qual estes homens e mulheres adquiriram conhecimentos específicos que, em virtude dos papéis que desempenharam modificaram parcialmente sua compreensão da realidade.

Berger (1978) afirma que as alternâncias nunca chegam a gerar re-socializações totais. Diz também que “só é possível o indivíduo manter sua auto-identidade como pessoa de importância em um meio que confirma essa identidade”.

Nas análises feitas nos livros, os exemplos dados supõem uma opção pela mudança de mundo. Mas, o que ocorre quando a mudança de mundo é uma decisão exterior ao indivíduo, e ainda assim não deixa espaço para que ele se contraponha?

Cotejando a reflexão feita por Berger em Construção Social da Realidade com a observação das “pessoas em situação de rua”, poderíamos traçar uma hipótese sobre o que ocorre com elas.

Ruptura Biográfica: Na socialização secundária o presente é interpretado de modo a manter-se numa relação íntima com o passado, enquanto na ressocialização busca-se reinterpretar o significado dos acontecimentos e pessoas do passado de modo a refabricá-lo a partir da fantasia.

O distanciamento dos outros significativos que povoaram a infância e mesmo a juventude das “pessoas em situação de rua”, muitas vezes, se dá com a intenção da preservação do eu interior.

“meus pais não merecem me ver chegar desse jeito. Vou primeiro vencer na vida, depois eu volto”. (depoimento)

A maioria destas saídas de casa se deu em virtude da necessidade da busca de campos de trabalho. Nestes casos, a dificuldade em reconhecer que não se conseguiu, o não assumir o “fracasso”, inicia um processo de ruptura. O motivo alegado para este afastamento, muitas vezes, é a ausência de um endereço referência…

Mudança de mundo: a mudança de mundo implica na necessidade de uma estrutura afetiva de plausibilidade que permita a internacionalização de outros significativos com força suficiente para modificarem o que estava primariamente introjetado, aliado à segregação em relação à vivência anterior.

No mundo das “pessoas em situação de rua” o processo parece ser inverso. As pessoas são segregadas, isoladas, e ficam sem as mínimas condições de sobrevivência, na medida em que se vêem sem ocupação regular, numa sociedade cujo ethos é o trabalho. Como conseqüência disso ficam sem moradia, longe da família, e conhecem de perto a violência tanto individual quanto institucional.

O agregar-se a bandos cujas carências são semelhantes, visa facilitar esse adequar-se a essa nova realidade, processo esse que levará à modificação de hábitos, costumes e linguagem.

De certa feita, num conflito entre “pessoas em situação de rua”, pude presenciar a reflexão relativa a um recém-chegado que ainda não era tido por todos como um igual. Os membros do bando discutiam a proteção intra-grupal que, em nome de uma ética própria garante cada membro.

A reorganização do linguajar é outro ponto forte neste ressocializar. Os estranhos são identificados pelo desconhecimento dos códigos.

O aparelho legitimador é a miséria, o partilhar da fome, do frio, da violência e o dormir ao relento.

A auto-estima somente consegue se manter na medida em que tem clareza que a assimetria entre a identidade socialmente atribuída e a subjacente real são injustamente vistas pela sociedade maior como desigualdade. Este perceber permite um valorizar da auto-identificação invisível que é a interna ao grupo, e uma fuga no considerar a imagem externa.

Ao buscar analisar a capacidade de orientação na realidade destes indivíduos, corremos o risco de basear-nos em premissas irreais, tal é diversa sua realidade no cotidiano. Exemplo disso é a relação que mantém com o tempo.

O que altera nesse dia-a-dia o saber se são dez ou onze horas?  O que importa se hoje é segunda ou terça-feira?~Seja como for, as pessoas passam apressadas, correndo para seus compromissos, e as “pessoas em situação de rua” permitem-se calmamente ver a vida passar. Seus parâmetros temporais são definidos muito mais pelos acontecimentos do que pelos ponteiros do relógio. Assim, sabem quando há possibilidade de se conseguir trabalho, comida ou lugar para dormir. Sabem a época propícia para conseguir benefício nas repartições públicas… No mais, o ritmo parece ser outro.

Vendo a identidade como relação, feixe de relações e sua representação como construção, não podemos deixar de olhar ao redor para buscar perceber o contexto na qual se gesta.

As “pessoas em situação de rua” situam-se num lugar social não escolhido. Subalternizados e excluídos, vivem no limiar consentido onde a submissão é a lei: numa falsa aparência de gratidão, submetem-se em troca pelas coisas de que necessitam.

Não podemos entender esta submissão com falta de entendimento mas como estratégia de vida, e quando refletem abertamente nos dizem de seus sentimentos ao serem tratados como coisas:

“Conversavam sobre nós como se ali não estivéssemos. Olhavam sobre nossas cabeças como se fossemos coisa”.(depoimento)

 



[1] Esta poesia é de Maria Elisabete Lima Mota, conhecida como poetiza de sargeta pelo tempo em que viveu na rua. Publicada em Declaro que estou em tormento.

[2] O autor se  intitula Anjo Dias. Saiu publicado na Revista Dignitas Salutis n o. 8 (dez/jan 93).

 


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