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A APROPRIAÇÃO DA RUA COMO FORMA DE VIDA
agosto 6th, 2012 by Magdalves

O dia amanhece, e ainda que você não tenha dormido, é enxotado de onde estava deitado já que a sua presença, à luz do sol, incomoda àqueles que têm seus Direitos garantidos.

Nos banheiros públicos, você é impedido de entrar já que sua aparência gera desconfiança…

A custo você se cuida e vai para os locais onde são recrutados trabalhadores, aqueles felizardos que neste dia poderão ganhar seu pão.

O gato escolhe um, dois, trinta, cinqüenta… e você é recusado. É mais um dia em que você não é um deles, mais uma vez você sobrou…

O dinheiro no bolso é insuficiente para o almoço e a pinga que ajuda a agüentar esta vida…

A saída é, mais uma vez, achacar, esmolar… Você busca falar com os transeuntes pedindo ora um cigarro, ora um trocado…

Você é forte: porque não quer trabalhar? – é a resposta que ouve.

O ar de nojo, o medo estampado nas faces é outra coisa que você sente cravar-se no peito.

Será que você é mesmo um inútil, um rebotalho?

 

                   Pernoitar na rua, a princípio, é uma situação ocasional: falta dinheiro para pagar a pensão…  Na medida em que se alternam os dias, o pernoitar em qualquer canto, passa a ser um hábito: a saúde vai sendo afetada e a força física torna-se precária, chegando a causar perigos à própria vida.

O crescimento da condição de miséria faz com que estas pessoas sejam expulsas do contato com a sociedade. Estigmatizadas pela precariedade da condição de vida, além de outros fatores, não conseguem mudar esta situação.

A igualdade na miséria traz uma atitude que não chega a ser de solidariedade, mas que faz com que tudo seja partilhável.  Em bandos[1], dificilmente se é atacado ou roubado: alguém sempre vigia e logo se desenvolve uma malha de relações de pertença.

As relações possíveis na rua fazem com que estes bandos sobrevivam mais ou menos próximos às situações de delinqüência.  Deste modo, alguns sobrevivem do roubo, outros de furtos, achaques e do repasse de mercadorias roubadas, bicos… Diferentes modos de vida interagem em função de uma cumplicidade e de sua relação diferenciada com o crime e os condicionantes morais da sociedade.

Na rua, esta condição é levada ao extremo, assim a conceituação do que é bom, útil, certo e errado passa a ter peso determinado pela possibilidade expressa na sobrevivência de todo dia.

Neste sentido, os interesses dos que vivem nesta situação marginal ao sistema devem harmonizar-se para possibilitar a formação de grupos mesmo que sem padrões estáveis de relacionamento ou por vezes de alternância na composição dos mesmos.

A sociedade imbuída dos preceitos morais que regulam o sistema capitalista na relação de utilidade e moralidade estabelece com os indivíduos que habitam a rua uma relação na sua singularidade e não como espelhos das relações sociais que os determinam.

Excluídos do mercado formal de trabalho, muitas destas pessoas buscam espaço no circuito inferior da economia onde desenvolvem atividades de pequena escala as quais servem principalmente à população mais pobre.

Um dos exemplos é a “marretagem” – a venda de produtos que ocorre nas calçadas, sem regulação fiscal nem estrutura definida.  Por suas características, esta atividade pede mão de obra numerosa (trabalho intensivo) havendo pouca organização burocrática, e podendo se desenvolver com pequena quantidade de produtos que, geralmente, são de baixa qualidade, fazendo com que o valor aplicado possa ser de pequena monta (capital não intensivo).

Nesta ocupação, objetivamente, o lucro muitas vezes não existe, na medida em que o valor percebido não é suficiente nem para a reposição da força de trabalho. Por outro lado, quando esta função é exercida por “pessoas em situação de rua” elas a exercem parcialmente, recebendo apenas o suficiente para alimentar-se o que as mantém na situação de rua.

A falta de higiene e o cansaço pela falta de um sono tranqüilo geram a expulsão até mesmo deste circuito inferior da economia.

Este mesmo sistema gera um número de ocupações que utilizam trabalhadores avulsos, com baixíssima remuneração e sem inserção em trabalho regular.   Assim, através do encartar publicidades em jornais, da lavação de carros, das faxinas em lanchonetes, entregas e outros pequenos serviços, têm-se mais um “paliativo”  para a sobrevivência.

Outra forma de espoliação dos trabalhadores é o que ocorre na construção civil. São inúmeros os arregimentados para as obras e, ao término da mesma, ficam sem a alimentação e o alojamento – salários indiretos – incorporando-se em número significativo à população moradora de rua.

Desta maneira, o cotidiano de trabalho vai legitimando a mendicância, a marginalidade e as formas perversas que o sistema gesta, camuflados às vezes até mesmo em benemerência.

Nesta mesma lógica insere-se a “catação de material reciclável”: as relações entre o catador, a sociedade civil e o depósito que compra o material são contraditórias.  A leitura que fazem do real não inclui a existência das grandes indústrias que utilizam de forma indireta este mecanismo que barateia o custo de seu produto.

Salientamos que os “catadores de material reciclável”  tem um potencial conjuntural que pode diferencia-los de outros agrupamentos de “pessoas em situação de rua”.

 

A CATAÇÃO DE MATERIAL RECICLÁVEL

A recolha de material reciclável parece ser a face mais perversa dentre as relações sociais de produção que surgem dos mecanismos de sobrevivência na rua.

São vários os matizes que colorem esta forma de inserção social:

  • Os catadores, diferentes dos demais grupos de rua, vivem a pressão do mercado de trabalho: não tem patrão, registro ou salário, mas a ausência da sua produção é penalizada com a perda do ponto, do depósito como intermediário de seu trabalho ou mesmo como local de moradia;
  • Esta mesma inserção que se dá na relação exploração-exclusão, tem possibilitado o embrião de sua organização como trabalhador;
  • A sua espoliação acontece também na relação que estabelece com o poder público e a sociedade, já que mesmo que esteja prestando um serviço, a cidade o vê de forma distorcida.

“A gente é trabalhador, mas eles não tiram a gente como trabalhador, tiram a gente como malandro”. (depoimento)

A natureza da vida das “pessoas em situação de rua” faz com que ocupem o espaço urbano de forma peculiarmente organizada.

Mesmo aqueles que são pedintes dizem que “pessoas em situação de rua”  não precisam de dinheiro para se alimentar, na medida em que a cidade oferece diversas opções:  pãozinho de São Francisco, lanches do Mc’Donald, diferentes locais de distribuição de sopas e outras refeições mais.

A dormida em bons tempos os espalha pelas praças, viadutos, ventinhos, embaixo das marquises, casas abandonadas e depósitos de papelão. No frio, como na doença, a precariedade de agasalhos e condições pessoais, restringe os locais e leva à busca de espaços institucionais.

O estigma que recai sobre elas as impede de utilizar-se dos banheiros públicos e são poucos os locais onde podem fazer sua higiene pessoal.

O mundo objetivo desta população é reduzido a uma cotidianeidade de imediatismos e de necessidades básicas primárias: se dissermos que os movimentos sociais menos engajados sofrem um esmaecimento em épocas de grandes contenções, poderíamos dizer que a capacidade de abstração das essências do cotidiano na rua é muito mais precária.  A sua individualidade é rompida por ter este homem uma vida de domínio público.



[1] Os conjuntos de pessoas vivendo juntos, na situação de rua, não chega a configurar “grupos”  o que implicaria um objetivo comum. A relação é mais primitiva, são bandos que se formam e se dissolvem a partir das necessidades do dia-a-dia.

Texto elaborado em 2009.


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