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ESTADO DE ÂNIMO E ATUAÇÃO PROFISSIONAL
junho 22nd, 2016 by Magdalves

 “Às vezes me sinto como uma pobre colina

Em outras como uma   montanha com repetidas cimeiras.

Às vezes me sinto como um precipício,

 e às vezes como um céu azul, mas distante.

Às vezes, me sinto  um Manancial entre rochas

e, outras  vezes, como uma árvore com suas últimas folhas.

Mas hoje me sinto como uma lagoa  insone,

como um cais sem barcos.

Uma lagoa verde imóvel e paciente

com suas algas, seus musgos e peixes;

sereno em minha confiança,

na esperança de que uma tarde

você se aproxime e  olhe para mim.”[1]

 

 

A partir de um texto que coloquei no meu blog em 2015, fui convidada a ter uma conversa com profissionais que atuam na Política de Assistência Social, e o desafio era refletir sobre que cuidados devemos ter com nossos estados de ânimo no nosso fazer profissional.

Os seres humanos são dotados de corpo, emoções e linguagens que se interconectam entre si numa relação de coerência em que cada um afeta os outro dois. É a partir da emocionalidade que consideramos possível ou impossível algum caminho e é isto que nos predispõe à ação no tempo e no espaço.

A emocionalidade é o cenário, o pano de fundo, em que nos movemos. Ele influencia nosso modo de ver o mundo, levando-nos a abrir ou fechar caminhos.

Quando pequeninos, antes mesmo de aprendermos a ler a linguagem de sinais, já percebemos a linguagem dos corpos. Quantas crianças se mostram arredias e indicam que a pessoa que com elas convive as amedronta.

Analisar estas reações e as relações interpessoais pode ampliar nosso autoconhecimento e servir de bússola para a resolução de conflitos internos, fortalecendo nossa rede de relacionamentos.

Não podemos dizer como as coisas são no mundo em que vivemos. Somente podemos dizer como as vemos, as percebemos e as interpretamos. Esta nossa  interpretação se constrói a partir de nossas vivencias anteriores.

Que tipo de observador você é? Cada um de nós está posicionado num ponto do mundo e é a partir dele que observamos o que ocorre à nossa volta.

Pessoas que tiveram infâncias felizes, protegidas de todo o mal reagem diferente daquelas pessoas que viveram em ambientes onde a violência impera. Dize-me como observas e te direi quem és?

Isto trás para nós uma constatação de que nenhum de nós “é dono da verdade”, temos dela apenas uma pequeníssima parte.

Os hindus diziam que “a verdade está encoberta por sete véus e cada um de nós consegue desvelar apenas uma pequena parte”.

E é esta parcela de verdade que está por trás de nossos estados de ânimo e precisamos refletir sobre eles quando pensamos na nossa comunicação no dia-a-dia.

A linguagem como instrumento de comunicação

Nos tempos passados, entendia-se a linguagem como descritiva e passiva. Hoje se entende que a linguagem vai além disso pois ela faz com que as coisas aconteçam.

Veja: a palavra não gera tudo o que existe; sem dúvida, existe um mundo exterior que é independente da linguagem. Mas… A linguagem é ação… A linguagem cria realidades. Através dela modelamos o mundo onde vivemos e ela modela nossa própria identidade. Os seres humanos se inventam a si mesmos pela linguagem.

Podemos dizer que os seres humanos são seres linguísticos e que é a linguagem que faz dos seres humanos os seres particulares que são. É a linguagem que dá sentido à existência.

A comunicação humana e seus domínios

Os seres humanos se comunicam a partir de três domínios: corpo, linguagem e emocionalidade, havendo uma relação de coerência entre eles que permite a reconstrução de qualquer um deles a partir de um dos outros.

CORPO

A primeira ideia que nos vem a mente quando falamos em corpo é a estrutura física dos organismos vivos. Se pensarmos em humanos, lembramos das primeiras lições que nos diziam quer éramos formados por cabeça, tronco e membros.

Pare refletir sobre a comunicação, corpo para nós e a questão da corporeidade, ou seja, a maneira como nosso cérebro reconhece e utiliza este corpo para se relacionar consigo mesmo, com outras pessoas, e com o meio em que vive.

Somos aquilo que fazemos e nos comunicamos com o outro pelas palavras, pelos gestos e por outras maneiras de utilizarmos nossos corpos.

LINGUAGEM

Num primeiro momento, podemos tender a pensar que a linguagem é uma capacidade individual, uma propriedade de uma pessoa, na medida em que os indivíduos tem uma capacidade para a linguagem. Nesta leitura, indivíduo é aquele que fala e escuta.

Echeverria (1994:49) propõe uma outra ótica. Segundo ele, devemos pensar nos “indivíduos – não como membros particulares de uma espécie, […] mas como pessoas, que se constituem a si mesmos pela linguagem”. Ou seja, a linguagem vem antes do indivíduo.

Para falar e ouvir, cada indivíduo precisa ter determinadas condições biológicas. Sem seu sistema nervoso e sem desenvolver os sentidos com que estamos equipados, os seres humanos não teriam a capacidade de ouvir e falar da forma como fazem.

A linguagem nasce da interação dos seres humanos e é ela que nos individualiza como pessoas. A linguagem como a conhecemos hoje é constituída por símbolos que permitem que ela seja decodificada pelo nosso interlocutor.Uma mesa somente é uma mesa porque convencionamos chamá-la assim.

Precisamos refletir, no entanto, que a linguagem não é passiva. A palavra é ação e tanto pode descrever o mundo como modificá-lo, como veremos mais adiante.

EMOCIONALIDADE

Emoções são fenômenos ocasionais de alta intensidade e breve duração e estão referidas a experiências subjetivas, associadas ao temperamento, personalidade e motivação. São elas que dão significado a nossas vidas e nos levam a responder desta ou daquela maneira às situações experienciadas.

Todos nós conhecemos a raiva, o medo, a tristeza e a alegria. Dependendo de sua gradação, o medo, por exemplo, pode se configurar como pavor, pânico, apreensão, preocupação ou ansiedade. Precisamos lidar com estas emoções para que não nos paralisem.

As emoções são produzidas toda vez que há uma interrupção no fluir da vida. Na maioria das vezes, elas pedem que mudemos o curso daquilo que estávamos fazendo.

O senso comum costuma tratar emoções como sendo “coisas do coração”: E ainda dizemos que o ser humano é um ser racional e portanto deveria “controlar” suas emoções, ainda que “o coração tenha razões que a própria razão desconhece”…

Segundo Echeverria, Maturana sustenta que “as emoções e os estados de ânimo são predisposições para a ação”. (Echeverria, 1998:276)

Pessoas que passaram por situações de desastre contam que naquele momento toda sua vida passou por seus pensamentos e, depois de salvos, decidiram rever o rumo de suas vidas.  Mas, o mesmo ocorre quando nasce um filho, quando alguém ganha na loteria, ou fecha o “negócio de sua vida”.

O que chamamos de emoção é aquela troca de nosso espaço de possibilidades surgida a partir de um acontecimento novo.

As emoções são provocadas por acontecimentos e são específicas e reativas. Muitos dizem que elas não surgem da cabeça, mas do coração.Esta leitura dá às emoções um status maior do que o status do corpo e da linguagem.

Para entender uma emoção, precisamos voltar ao acontecimento que a desencadeou, e precisamos nos apropriar de nossas emoções para podermos entender nossas reações cotidianas.

Atuamos de acordo com o que somos, mas, mais do que isso, somos de acordo com o modo que atuamos. Nossas ações não apenas revelam quem somos mas permitem que nos transformemos e àqueles que nos cercam.

Somente podemos fazer aquilo que nosso ser biológico permite, mas a comunicação  nasce da interação social entre os seres humanos… Ou seja, a linguagem é um fenômeno social, não biológico.

Estados de ânimo

Estados de ânimo são diferentes de emoções. Eles são estados emocionais gerais que persistem e influem no nosso modo de ver o mundo.

Eles não remetem a um acontecimento específico mas tem relação com o cenário no qual atuamos. No geral, são difusos, de baixa intensidade e longa duração e podem não ter uma causa conhecida. Estes estados emocionais são a base partir dos quais realizamos as ações.

Assim como as emoções, eles estão associados a um horizonte de possibilidades, a um espaço de ações possíveis, e eles condicionam nossas ações.

Sempre estamos em algum estado de ânimo que, em geral, não escolhemos nem controlamos. Podemos dizer que “estamos possuídos” pelos nossos estados de ânimo.

O calor do verão trás aquela lezeira e a vontade de estar em férias, na praia ou na piscina. O frio do inverno trás a vontade do aconchego, pensamos em lareiras e em abraços carinhosos e queremos vinhos quentes.

As reações a estados de ânimo são diferentes quando somos crianças, adolescentes, adultos ou idosos. A soma de vivências leva à construção de reações que entendemos como conhecimento e que, de certa forma, modelam nosso olhar sobre o mundo e aqueles que interagem conosco.

Cada pessoa tem um jeito de ser, um modo de ver a vida e de se colocar na sua relação com outras pessoas. Algumas são expansivas, barulhentas, no geral alegres e chamam a atenção sobre si onde quer que esteja. Outras são tímidas, quietas, parece que nem querem ser vistas ou percebidas e tem dificuldades em se colocar em público. Muitas vezes,  os tímidos  estão apenas esperando um espaço para se colocarem brilhantemente. Existem, ainda, os pseudo-expansivos, que são aquelas pessoas que fazem muita marola, agitam tudo em torno do que estão fazendo, mas se prestarmos bem a atenção vamos perceber que tem uma espécie de escudo que as mantém escondidinhas, não permitindo que a maioria das pessoas rompa a barreira que permitira conhecer quem são de fato.

Os estados de ânimo podem nos predispor à desconfiança,  e também ao entusiasmo…

Quando estou num estado de ânimo positivo, sentindo-me animado e satisfeito, minhas reações são de serenidade, esperança, me interesso pelas coisas e aprecio surpresas.

Quando meu estado de ânimo está negativo, e o desânimo e a insatisfação tomam conta de mim, fico irritado a toa, desprezo quem age de forma diferente da minha e posso chegar a ficar com inveja ou até ter uma aversão gratuita  por alguém ou alguma coisa. O desânimo pode trazer, ainda, uma carga de culpa, vergonha, medo ou tristeza.

Mas, não precisamos ficar passivos a isso, podendo intervir na influência que ele exerce sobre nós.

Muitas vezes, estamos chateados com alguma coisa e nem conseguimos muito bem explicar o porquê e nem deixar de estar triste e chateado. É quase como se a gente se boicotasse a si mesmo, mantendo-se num estado de ânimo que não queremos.

Não adianta ficar esperando que outra pessoa venha mudar nosso estado de ânimo, somente nós  podemos fazer isso.

Ficar reclamando não faz ninguém “ganhar na loteria”, ou conquistar de volta um amor que se foi. Precisamos nos desapegar daquilo que não temos e ir em busca de um outro estado de ânimo. Temos que, por nós mesmos, buscar a mudança.

COMUNICAÇÃO E  ESPAÇO PROFISSIONAL

Profissionais que atuam no social lidam com pessoas o tempo todo, e precisam ficar atentas ao seu modo de “escutar”, “falar”, e “tomar decisões”.

“Num nível muito geral, a escuta é uma das mais importantes competências do ser humano. Em função da escuta, construímos relações pessoais, interpretamos a vida, projetamos nosso futuro e definimos nossa capacidade de aprendizado e de transformação do mundo”

Escutar não é ouvir.

Eu ouço barulhos, sons agradáveis e desagradáveis porque meu sentido de audição funciona. Ouço porque não sou surdo.  Ouvir é do campo dos sentidos e Escutar é do campo do Inconsciente.

Podemos ouvir e não escutar, na medida em que aquelas vibrações não chegam até o nosso eu. Por outro lado, podemos escutar sem precisar ouvir.

A Escuta é muitas vezes silenciosa, escuta–se o não verbal, a entrelinha, o gesto, a atuação.

Que qualidade de “escutador” cada um de nós é?

No meu espaço profissional, quem é mais efetivo ao escutar e por quê?

Interferências privadas

Você já parou para pensar na conversa que você tem, o tempo todo, consigo mesmo?  Quando falamos em conversa privada, não estamos nos referindo a conversas ao pé do ouvido, às confidências trocadas, mas ao modo como reagimos em virtude de sensações que nos levam a colocar uma espécie de bloqueio ao redor de nós e que poderíamos chamar de ‘armaduras’.

Pensemos:  quando considero que meu interlocutor não gosta de mim, metade do que ele diz, eu não escuto… pois antes mesmo de ouvir o som de sua fala, me coloco em guarda e a desconsidero sem perceber que, de fato,  ela é motivada pelas dificuldades de relacionamento que temos.

Profissionalmente, posso agir desta mesma maneira quando ouço relatos de situações que considero que já ouvi anteriormente, deixando de considerar que não apenas o momento é outro, mas o interlocutor que me fala é distinto daquele que me vem à lembrança.

Quando alguém me  diz que não pode fazer algo que solicitei, eu logo me pergunto se não pode ou não quer fazer, e me coloco na defensiva.

Como controlo estas “conversas privadas” quando estou escutando o outro?

A boa escuta pede que eu me coloque no lugar do outro para tentar entender o porque dele se expressar daquela forma.

O escutar como lado oculto do falar

Concordamos com Peter Drucker quando diz que “demasiados (executivos) pensam que são maravilhosos com as pessoas porque falam bem. Não se dão conta que ser maravilhoso com as pessoas significa ‘escutar’ bem”.

Além de refletir sobre a nossa maneira de escutar e falar, é importante que analisemos os instrumentos institucionais de escuta existentes no nosso espaço profissional.

Quais os mecanismos institucionais de escuta de que dispomos? Qual sua eficácia e efetividade?

Ao analisar estes instrumentos, é importante perceber se a escuta que fazem trás consequências, ou seja, não basta eu garantir um canal de escuta de reclamações se estas reclamações não forem analisadas para gerar mudanças no serviço.

Por exemplo: nos retornos de pessoas reclamando de encaminhamentos que não geraram a resposta esperada, é importante refletir: (1) será verdade que ele foi, de fato,  mal atendido no local para onde o encaminhei? (2) O problema está no atendimento do outro profissional ou eu deveria rever as situações a serem encaminhadas. Um caminho pode ser fazer contato com o outro profissional para buscar entender o que ocorreu.

Que estado de ânimo a fala destas pessoas provoca em mim??? Quando tenho a tendência de desconsiderar um relato baseado no fato de ter ouvido queixa semelhante, é preciso um certo patrulhamento que me leve a lembrar que o momento é outro e a pessoa com quem estou interagindo não é a mesma da situação anterior. Três perguntas podem me ajudar neste processo: Qual a preocupação em saber quem é este interlocutor? De onde ele vem, qual sua visão de mundo? Que emocionalidade ele trás com ele ?

O significado da fala

A Palavra é ação: quando falamos, não apenas descrevemos o mundo, mas atuamos sobre ele.Ao falar, estabelecemos um vínculo entre a palavra e o mundo onde estamos.

Há situações – que chamamos de afirmações, em que quem conduz a ação é o mundo. Em outras situações – que chamamos declarações, quem conduz a ação é a palavra.

afirmações

Por vezes a palavra tem a ver com o mundo dos fatos. Quando a palavra deve adequar-se ao mundo, chamamos isso de afirmação. É quando nossa ação é descritiva: isto é uma cadeira, ou uma mesa… esta mesa é verde (se eu não for daltônico) vou estar vendo também uma mesa verde…

As afirmações podem ser verdadeiras ou falsas. Por exemplo: vai chover amanhã… E se dizemos que choveu ontem nesta cidade, minha afirmação pode ser verificada imediatamente.

declarações

Outras vezes, a palavra modifica o mundo. Quando ela gera uma realidade diferente, chamamos a isso de declaração: se um juiz diz que uma pessoa é inocente, ele está gerando uma nova realidade.

Para fazer uma Declaração, precisa-se estar investido num poder que a legitima. “Eu os declaro marido e mulher”.

Declarações podem ser válidas ou inválidas. Se alguém declarar  feriados todas as segundas-feiras, precisamos identificar quem está dizendo isso antes de começarmos a comemorar. A declaração implica num compromisso com aquela nova realidade que estamos  declarando.

No espaço de atuação, dizer “Você passou no concurso/seleção!” – é uma afirmação. “Volte aqui, amanhã, que eu te encaminho para aquele Projeto – é uma declaração.

Tomadas de decisão

O profissional social toma decisões o tempo todo: inserir ou não inserir alguém num serviço; encaminhar ou não encaminhar alguém para determinada oportunidade. Ainda que as “regras” sejam definidas, há sempre um espaço de “interpretação”.

Em termos éticos, a pessoa que requer aquele serviço/benefício precisa entender claramente porque sim ou porque não. Ela precisa ser respeitada como sujeito de direitos.

A interferência de juízos

Ainda que ajamos de forma automática, as decisões que tomamos são baseadas em “juízos” e estes estão no campo das declarações.

Os juízos requerem um compromisso social adicional e estão fundamentados numa certa tradição. Quando eu digo que alguém é um bom orador, preciso ter visto suas explanações mais de uma vez… Sabendo como alguém agiu no passado, posso declarar o que espero dele no futuro.

Cada um de nós, faz juízos o tempo todo. Nietzsche dizia que uma das diferenças dos seres humanos é que eles julgam. Ainda que se baseiem num conjunto de comportamentos conhecidos (portanto, no passado) estes juízos sempre se voltam para o futuro (supomos que aquela pessoa agirá assim ou assado).

Estes juízos são definidos em  domínios particulares de observação. Por exemplo: a aparência me diz quem é quem. E, eles sempre apontam para quem os emite.

Numa atuação politicamente correta, devemos sempre garantir que temos argumentos racionais, consistentes e éticos para garantir nossa opinião…

Os juízos podem ser fundados ou infundados e quem os emite precisa ter a competência para emiti-los.

Mais do que aprofundar o conhecimento destes conceitos, o que objetivamos neste artigo foi refletir sobre os resultados desta emocionalidade na nossa postura profissional e convidamos você a fazer uma autoanálise no seu modo de agir nas ações sociais pelas quais é responsável.

 

[1] Tradução livre de poesia de Mário Benedetti, poeta uruguaio.


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