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A ESCUTA QUALIFICADA DAS COMUNIDADES
abril 15th, 2016 by Magdalves

“A República Federativa do Brasil, é formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático e de Direito, e tem como fundamentos:

I – a soberania;

II – a cidadania;

III – a dignidade da pessoa humana;

IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

V – o pluralismo político.” (CF 1988, título I – Dos princípios fundamentais, artigo 1º.)

 

A Democracia Brasileira  é um sistema de governo deliberativo e participativo, na medida em que o exercício da cidadania vai além da participação no processo eleitoral, exigindo o engajamento num processo contínuo de discussão e crítica reflexiva das normas e valores que orientam a coletividade. A participação dos cidadãos está garantida constitucionalmente: em nível do Legislativo, há plebiscitos,  referendos e leis de iniciativa popular; tribunais de juri e ações populares são formas de partipação junto ao Judiciário e o Executivo se organiza para uma gestão compartilhada com a sociedade civil.

Reafirmada a partir da constituição Federal de 1988, a história da Participação Social no Brasil remonta à década de 1950[1], mas a ênfase dada a ela na CF 88 foi fruto da pressão dos Movimentos Sociais.

Ainda que a participação em Movimentos Sociais seja mais antiga do que isso, é a partir da década de 1990 que começa-se a discutir a Participação Popular no contexto das Políticas Locais.

 

O espaço de socialização construído, então, foi o Fórum Nacional de Participação Popular nas Administrações Municipais que tinha no Grande ABC Paulista as experiências mais inovadoras.

As primeiras experiências a “ganharem o mundo” estavam referidas ao Orçamento Participativo, na medida em que elas foram replicadas em diversos outros países.

As primeiras articulações tinham como principal finalidade levar ao cidadão uma reflexão que potencializasse seu direito de participar efetivamente das decisões que dizem respeito à sua vida.

canais de interlocução

Uma das principais condições para se levar a termo a participação social e popular é a constituição de Canais de Interlocução como espaços privilegiados de conversa.

Institucionalmente, quase todas as políticas sociais definiram a criação de Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional que dialogam entre si na definição da Política pela qual são responsáveis.

Periodicamente, estes Conselhos organizam a realização de Conferências – municipais, estaduais e nacional – para deliberação dos caminhos a serem seguidos nos anos sequentes.

Muitas destas políticas, constituíram ainda Ouvidorias como canais de escuta da população que tanto pode encaminhar denúncias e reclamações como sugestões de novas ações que julgarem adequadas.

O conjunto destes canais vai constituindo Sistemas como o SUS – Sistema Único de Saúde; SUAS – Sistema Único de Assistência Social; SISAN – Sistema Integrado de Segurança Alimentar e Nutricional; SNC – Sistema Nacional de Cultura e outros.

O que se espera destes canais é a garantia do Direito Humano à Participação e  estimular a cultura de participação transformando cidadãos em sujeitos de direitos.

Oliveira, num estudo sobre processos educativos em trabalhos desenvolvidos entre comunidades, cita a fala de  dona Creusa, uma pesquisada que diz:

“ Eu acho que é necessário nós estar junto , por que nós sabemos de alguma coisa e eles sabem de muita coisa que pode passar para nós. Então, eles tem competência para nos ajudar a levar a tarefa da vida […] eles também precisam saber alguma coisa de nós. Nós saber deles e eles saber de nós.” [2]

a constituição destes espaços

Ainda que as Políticas Sociais definam a constituição de espaços de diálogo é necessário um cuidado redobrado se queremos que estes espaços sejam legítimos.

Sabe-se que há municípios, e mesmo estados, que criam espaços numa visão tradicional que pressupõe a passividade da população: mais do que espaços de participação, estes acabam sendo espaços de referendo das propostas governamentais.

O grande desafio é constituir espaços onde a participação social e popular seja ativa e onde estes representantes de comunidades sejam tratados como sujeitos e senhores da situação.

Ultrapassar a visão teórica daquela população, se aproximando da população real exige uma atuação concreta onde sejam levados em conta afetos, políticas, relações estabelecidas e onde a heterogeneidade seja fermento para a construção das propostas de saída das situações apresentadas.

Muitas vezes, informações coletadas globalmente precisar ser “traduzidas” a partir do cotidiano das pessoas. Por exemplo, sabe-se que a infraestrutura de abastecimento de luz, água, esgotamento sanitário e coleta de lixo alcança um porcentual de casas… mas é no diálogo com as famílias que podemos avaliar o fruto disso no seu cotidiano.

Precisamos nos apropriar do dia-a-dia destas pessoas, conhecer suas dificuldades e as estratégias utilizadas para dar conta delas e isso somente ocorre se adentrarmos seu convívio.

É preciso olhar nos olhos das pessoas para poder conhecer este modo de vida.  Paulo Freire falava sobre a necessidade de “admirarmos” esta realidade, dizendo que isso ocorre quando ultrapassamos o observar e nos colocamos no lugar do outro para ver o que se passa a partir do seu ponto de vista.

Precisamos saber quem são estas pessoas: de onde vem, que desejos trazem, que demandas expressam para que possamos definir instrumentos que os tragam para o diálogo, o convívio e construam um compromisso de mudança da realidade.

Neste processo são importantes encontros presenciais nos quais a discussão de temas permita e estimule trocas de experiências.

O profissional vem de fora, trás uma outra visão e não deve negar isso como se procurasse se “disfarçar” em alguém da comunidade. Ele chega trazendo seus valores e uma ótica diferenciada mas deve cuidar para não deixar seus preconceitos e críticas se constituírem em entraves na compreensão daquele grupo social.

Se, por um lado, o profissional deve chegar conhecendo as possíveis demandas daquele grupo social, por outro deve vir aberto para escutar desejos e demandas e manter aguçada sua sensibilidade para perceber se a proposta que trás é possível e adequada para aquele grupo social.

Geralmente,  a população trás para o profissional seus desejos e suas demandas e ele deve diferenciar um e outro para poder agir de acordo.

Desejos são vontades livres, muitas vezes construídas a partir de uma realidade ainda não experimentada. Somos bombardeados pela Televisão e outros méis de comunicação que constroem no nosso imaginário um modo de vida, que em muitos casos, é  impossível de ser alcançado.

Demandas são pedidos de restituição de um suposto vivido anterior, é a necessidade de reconstrução de uma vida conhecida e se expressa pela reivindicação de uma moradia digna, um trabalho decente, um atendimento de saúde digno, etc..

A ESCUTA DO OUTRO

Escutar o outro não é ouvir apenas o som de suas palavras, mas entender seus gestos, seu modo de se expressar, levando em conta o reflexo em mim daquilo que está sendo colocado. Escutar o outro é escutar este outro em mim e perceber as implicações desta comunicação.

Esta escuta implica em sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo daquele grupo social para, a partir desta percepção, compreender suas atitudes, comportamentos, ideias, valores, símbolos e mitos. É um acolher sem julgar moralmente, mas ponderando com as pessoas aquilo que almejam a partir das possibilidades existentes.

O objetivo maior é a construção de um vínculo com aquele grupo social de modo a possibilitar a construção de uma identidade coletiva que seja significante na vida daquelas pessoas.

Dialogar com quem vivencia a vida da comunidade possibilita compreender a realidade daquele grupo social, seu potencial, seus desejos e demandas para que se possa tomar decisões conjuntas e negociar as atividades necessárias à melhoria das suas condições de vida.

Este processo permite a escuta de diversos segmentos da comunidade levando à valorização da diversidade social existente e possibilitando que os próprios moradores resgatem a história da comunidade, as condições existentes e as possibilidades sobre as quais podem atuar, ampliando o poder de decisão sobre suas próprias vidas.

Uma das características de um processo como este é que ele relativiza a noção de verdade e de ciência universal enquanto agente externo, podendo servir como catalisador de um processo criativo.

Ele valoriza a conhecimento popular e o saber de cada morador, permitindo um intercâmbio de saberes dos moradores e dos técnicos no qual ambos aprendem, o que amplia a grau de comunicação entre todos.

Por outro lado, quando este trabalho é feito de forma ética, suscita a autogestão e a descentralização das decisões pela comunidade e fortalece a autoestima de toda a população. Na sua intervenção, os técnicos atuam em favor do coletivo, num compromisso com esta construção que é da comunidade e não do técnico.

Os instrumentos e técnicas em si são simples mas dependem das habilidades, qualidades e atitudes dos técnicos para alcançarem resultados significativos.

Os técnicos devem ter a capacidade de escoltar os moradores, respeitá-los sem serem impositivos nem machistas. A visualização compartilhada desperta a criatividade e a imaginação de todos. Assim compartilhados, os resultados geram conhecimento e aumentam a capacidade de analisar a realidade e de encontrar alternativas para os problemas na perspectiva do desenvolvimento.

Há uma democratização do saber na medida em que a comunidade se autocapacita nesta investigação da sua realidade. Mais do que informações quantitativas, o que prevalece são informações qualitativas e os moradores da comunidade são sujeitos e não objeto dos resultados obtidos que as utilizam para orientar as ações a serem implementadas.

O primeiro momento deve buscar a adesão da comunidade ao mesmo tempo em que inicia um treinamento conjunto para comunidade e técnicos da equipe. O  planejamento operacional deve ser feito em conjunto, propondo-se a aplicação de técnicas participativas que possibilitarão a análise e sistematização dos dados.

A HISTÓRIA DA COMUNIDADE

Este primeiro resgate histórico pressupõe dois movimentos: a busca por informações documentadas e o diálogo com atores sociais que já estavam presentes naquele momento.

As fontes primárias podem ser registros e documentos municipais e reportagens jornalísticas. As perguntas referem-se ao modo como aquela comunidade se formou, quem foram os primeiros moradores e qual a realidade do entorno no momento inicial e nos dias atuais.

Importante observar que não se trata de escutar as lideranças políticas da comunidade e sim aqueles que tem maior acúmulo naquele assunto. Na reconstrução desta memória, matriz histórica, normalmente, eles elegem os mais antigos e “rodas de conversa” permitem fazer a recolha das diversas etapas em que se constituiu esta história, os acontecimentos mais significativos e os sentimentos em relação a cada um deles. Um dos resultados pretendidos é conhecer as intervenções ocorridas, eventos passados, recursos naturais existentes, organização social, conflitos e atores.

Este resgate pode ser enriquecido com fotos antigas – quando existem – e com fotos atuais dos locais onde estes fatos se deram. Pode-se, ainda, verificar se existem moradores com habilidades para o desenho e que aceitem construir esta história como se fossem histórias em quadrinhos.

RELACIONAMENTO COM O ENTORNO

Sendo possível, pode-se construir uma maquete da área geográfica da comunidade e este processo permite que se discuta a relação da comunidade com alguns serviços existentes no entorno.

Pode-se pedir às pessoas que se reúnam em pequenos grupos para desenhar como é sua vida, como é a vida da comunidade. Deste exercício pode-se observar qual sua visão de mundo. Dependendo da relação do grupo, pode-se pedir que façam desenhos compartilhados[3].

Este exercício permite conhecer o antes, o agora e o desejo de futuro, identificando-se valores como felicidade, família, ajuda mútua.  Quando o desenho é apresentado ao grupo todo, pode-se problematizar apontando caminhos possíveis e dificuldades.

Uma outra proposta é uma pessoa, ou grupo de pessoas representar com círculos e flechas, construindo um diagrama institucional a importância e proximidade de instituições ou pessoas com as quais tem contato. Um dos resultados obtidos é a  análise e a inter-relação entre pessoas e instituições.

Interessante observar nestes exercícios que existe uma diferença entre a proximidade geográfica e a proximidade real. Uma escola, visinha da comunidade, que tenha critérios excludentes para a participação das pessoas é vista como distante, o mesmo podendo ocorrer com Postos de Saúde e outros serviços.

Outra forma de conhecer como se dão as relações é construir-se um Mapa de Confluência indicando fluxos de produtos e de pessoas em termos comerciais, políticos, de encontros e desencontros. Este mapa permite ainda perceber a diferenciação social (status, cargos, classe social, etc..)

O COTIDIANO DAS PESSOAS

Para propor ações adequadas, é fundamental conhecer-se como se dá o dia-a-dia das pessoas.  Uma estratégia é pedir que construam um Mapa Diário de sua vida: eu acordo às tantas horas, tomo banho e me visto, tomo café e saio para o serviço. Levo tantos minutos no trajeto que é feito de ônibus/metrôcarro ou a pé…

Este Mapa pode ser escrito ou expressado através de desenhos ou com recortes de revista, através da apresentação de fantoches, etc… Na discussão dos diversos Mapas individuais, pode-se identificar quem faz o quê, a carga de diferentes grupos: mulheres, crianças e o que cada um faz em seu tempo livre.

Desta discussão podem surgir propostas de atividades comunitárias a serem desenvolvidas.

MAPA SOCIAL E DE INFLUÊNCIAS

Depois de alguns destes exercícios, e criado um clima que permita uma intimidade maior, pode-se propor que se faça um corte transversal, pedindo a  um grupo percorra a área da comunidade registrando em desenhos ou fotos (registro fotográfico) as características, problemas e potenciais.

Outra estratégia é chamada de mapa falante: um grupo de moradores desenha sua localidade, problemas, potenciais e conflitos.

No retorno, a discussão das propostas do grupo para resolução do problema e a identificação de quem pode dar conta disso: a própria comunidade, a prefeitura ou outro ator.

O resultado obtido é a indicação  de problemas de infraestrutura, serviços, pontos referenciais, e propostas para solucionar problemas.

MATRIZ DE HIERARQUIZAÇÃO

Todo este processo permite que se faça  uma lista de itens ( linha horizontal) e dos critérios de prioridade (linha vertical) construindo-se uma Matriz que permita a hierarquização das propostas a serem implementadas.

Este diálogo com a Comunidade é um processo coletivo de construção do conhecimento da realidade. Uma possibilidade de continuidade é a discussão deste produto com outros atores que atuam na mesma área.

Ao entrecruzar os olhares, tem-se uma visão ampliada que leva em conta a opinião dos diversos atores sociais e agentes sociais que vivem ou atuam naquela área.

 

[1] A 1ª Conferência Nacional de Saúde ocorreu em 1941.

[2] OLIVEIRA, Dra. Waldenez de – PROCESSOS EDUCATIVOS EM TRABALHOS DESENVOLVIDOS ENTRE COMUNIDADES: PERSPECTIVAS DE DIÁLOGO ENTRE SABERES E SUJEITOS, relatório de Pós Doc junto à Fiocruz, RJ, 2003 – pg. 107

[3] Existem duas formas de se fazer Desenhos Compartilhados.  (1) num papel grandão (2 mts x 2 mts), estendido no chão as pessoas começam a desenhar coisas que existem na comunidade. O resultado final é um mosaico de tudo o que eles consideram significativo.  Outra forma é (2) propor  desenhos que começam a ser feitos (cada pessoa do grupo começa um) e após três ou quatro minutos, o desenho muda de mãos – entregue à pessoa ao seu lado – que continua o mesmo desenho… interessante observar que algo que começou com um sentido, chega ao final da roda como outra coisa.


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