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FESTAS DE CARNAVAL: DOS TEMPOS DA MINHA INFÂNCIA AOS DIAS DE HOJE
janeiro 29th, 2016 by Magdalves

Neste ano de 2016, completo 74 anos mas ainda me encanto com o período do Carnaval que para alguns é tempo de folia e para outros momento de recolha, de retiro e reflexão.

Nestas sete décadas da minha vida, o Carnaval já foi tudo: tempo de folia, tempo de descanso e tempo de ficar assistindo à alegria dos outros. As lembranças são muitas e é com elas que pretendo conversar neste texto, buscando situar este período de Carnaval na vida de pessoas em situação de rua.

O Carnaval na minha infância e juventude

Fotos da minha infância trazem à lembrança momentos das folias que estavam sempre presentes.

Meus pais gostavam da  folia do Carnaval e tivemos alguns momentos memoráveis em que primos e amiguinhos eram convidados a comemorar o Carnaval lá em casa.

Nas fotos de 1948, eu então tinha cinco anos, estou e minha irmã estamos vestidas de tirolesa… numa foto coletiva, cerca de doze primos – reconheço vários deles na foto.  Aquela festa foi na casa da minha infância que ficava na rua Correia Dias, no Paraíso, bairro de São Paulo.

Interessante que, mesmo hoje, tantos anos passados, quando alguém me fala da “minha casa” o que me vem à mente é aquele espaço onde fomos tão felizes e alegres. Vivi na mesma casa durante os 18 primeiros anos da minha vida.

Naquele tempo, o Carnaval para nós era festa familiar onde brincávamos com irmãos, primos e alguns amiguinhos mais chegados.

Nas fotos de 1949, eu estava fantasiada de cigana e estávamos aboletados no carro de meu pai: meu irmão, com seus quatro aninhos se fantasiada de tirolês e minha irmã, com uns onze anos, que também estava fantasiada.

Acho que foi neste ano que curtimos o “Corso” – uma carreata de carnaval que ia pelas ruas da cidade, andando bem devagarzinho, quase parado e a gente podia entrar e sair do carro, brincar com as pessoas dos outros carros com nossas serpentinas,, confetes e lança-perfumes e depois voltar para o carro: tudo muito tranquilo e familiar.

Para facilitar a folia, meu pai tirava as portas do carro e a gente entrava e saia sem nenhuma preocupação… bons tempos aqueles.

Em 1950, o carnaval lá em casa foi uma festa para adultos… e a gente querendo curtir junto mas com ordem de ficar quietinhos em nossos quartos. Foi neste ano que minha mãe se fantasiou de “nega maluca”. A melodia mais cantada dizia assim:

“Tava jogando sinuca,

Uma nega maluca me apareceu.

Vinha com o filho no colo

e dizia pro povo

Que o filho era meu!

Toma que o filho é seu, meu senhor!

Guarda o que Deus lhe deu.”

Mamãe se fantasiou de nega maluca, saiu silenciosamente pelo quintal e quando bateu na porta não foi reconhecida pelos seus convidados que ficaram na dúvida se deveriam ou não deixá-la entrar.

Na passagem da infância para a adolescência, começamos a curtir o carnaval no Tênis Clube Paulista, que frequentávamos o ano todo e que, no período de Momo realizava bailes de carnaval para os adultos e matines para a criançada.

Como o ambiente era muito familiar, a gente podia ir para lá e curtir a tarde toda sem ser necessário ter pai, nem mãe pra tomar conta.

Na passagem para a idade adulta, as contradições das faixas de idade:  quando ia curtir a matinê, era tirada do salão porque já era “grande demais”, e quando tentava ir ao baile dos adultos, também era barrada, sob a alegação de que era “jovem demais”.

Mas durante um ano ou dois, conseguíamos driblar os fiscais e pular carnaval de tarde e à noite, de sábado até terça-feira, quando caíamos de cansados e tudo o que queríamos era dormir e descansar com as pernas para o alto.

Carnaval de rua em São Paulo

O Carnaval começa a ser festejado no Brasil, no final do século XIX: surgem os primeiros blocos carnavalescos, cordões e corsos. Os corsos se tornam populares no final do século XX.

Aquela folia que conto acima levava as pessoas a decorarem seus carros, a saírem fantasiadas e desfilarem pelas ruas da cidade. Em São Paulo, isso acontecia principalmente na avenida Paulista.

Pelo que apontam os especialistas em Carnaval, os corsos foram a origem dos carros alegóricos que encantam a todos nós no período de folia.

Mais do que sambas, o que era mais tocado eram as marchinhas que animavam a festa de Momo.

Até a década de 1950, o carnaval de rua de São Paulo era pequeno, e desde aquele período começa a buscar se equiparar com o carnaval do Rio de Janeiro que era mais consistente.

Mais do que ir ver os ensaios e os desfiles das Escolas de Samba, meus carnavais eram curtir as festas de pré-carnaval e os bailes e matines que ocorriam em Clubes como Pinheiros e Tênis.

A festa de Carnaval se torna oficial, em São Paulo, a partir de 1967 e as escolas começam a competir, cada uma querendo mostrar um carnaval melhor do que as outras.

Na década de 1970, muitos dos blocos se transformam em Escolas de Samba e amplia-se a torcida pelas agremiações, ora por causa da beleza de sua atuação, ora por um regionalismo que levava a torcer pela escola do bairro.

 As escolas de samba e o carnaval pela TV

Quando os canais de televisão começam a ser criados – na minha adolescência, o que curtíamos era a TV Tupi – a gente começou a se dividir entre “ir para a folia” e ficar assistindo aos desfiles pela TV.

Apesar de morar no centro da cidade de São Paulo desde a década de 60, eu nunca fui “ver de perto” um desfile de Carnaval. A maior aproximação era ver os foliões voltando para suas casas no dia seguinte ao desfile: o ar cansado não escondia a felicidade de ter “defendido seu pavilhão”.

Mesmo à distância, eu tinha minhas escolas favoritas: o Vai Vai, em São Paulo, e a Beija Flor, no Rio de Janeiro.

O Carnaval das Pessoas em situação de rua

Desde que me envolvi com a luta por direitos da População de Rua, tudo o que acontece na sociedade vem sendo visto numa nova ótica e com o Carnaval não podia ser diferente.

Engana-se quem pensa que estas pessoas em situação de rua ficam indiferentes ao que acontece nos dias de momo.

Brincar o carnaval, nas ruas e nos espaços abertos da cidade pode ser bem democrático, ainda que se tenha que enfrentar a  discriminação e a rejeição potencializadas pelo medo e pelas dificuldades em aceitar o diferente.

Conforme já dissemos, em diversos textos, as estratégias mais utilizadas no trato com a poprua baseiam-se na convivência que tanto deve ocorrer internamente nos grupos de rua como na relação deles com a família e a sociedade mais ampla.

É muito gratificante, em qualquer época do ano, quando assistimos à alegria deles quando convidados para atividades recreativas e esportivas. O brincar é inato ao ser humano e com estas pessoas não poderia ser diferente.

Nos serviços voltados a estas pessoas, atividades de construção de alegorias e fantasias não apenas criam um clima propício ao carnaval, mas permitem que as pessoas explorem suas habilidades manuais. Se bem orientados, estas habilidades assim potencializadas podem abrir caminhos para espaços de trabalho.

Mas… carnaval pede “rodas de samba” e é quando discutimos esta necessidade que identificamos pendores artísticos daqueles que são bons cantando, batucando ou tocando instrumentos.

Muitas vezes, de momentos como estes, surgem grupos que se estruturam profissionalmente para “tocar em eventos” e este é mais um caminho construído em direção do Mercado de Trabalho.

Para além da aparência

O convite que esta reflexão faz a você é de ampliação da sua visão: até onde você vem enxergando a poprua como uma parte da sociedade

O caminho de volta para o convívio com a sociedade e para o mercado de trabalho exige um esforço de cada uma destas pessoas em situação de rua, mas a quebra de barreiras para que eles consigam “sair do gueto” é tarefa de cada um de nós.


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