SIDEBAR
»
S
I
D
E
B
A
R
«
ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS DE ABORDAGEM SOCIAL
outubro 15th, 2015 by Magdalves

A Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais define a  Abordagem Social, referenciada nos CREAS e Centros POP  como serviço volante que propõe uma aproximação gradativa à poprua, visando a construção de relação de confiança e encaminhamentos para acesso a direitos e à rede de proteção. Seu principal objetivo é a resolução de necessidades imediatas e a inserção das pessoas em situação de rua na rede de serviços socioassistenciais e das demais políticas públicas na perspectiva da garantia de direitos.

Podemos considerar, portanto, que a Abordagem Social é uma busca ativa das pessoas em situação de rua. Isso significa que os profissionais não ficam “passivamente” aguardando ser abordados pela Poprua em seus departamentos, mas que existe uma “equipe volante” que, no dizer da poprua, vai à luta.

Tecnicamente, a Busca ativa implica na identificação das situações de vulnerabilidade e risco social (retrato do real), incluindo o deslocamento, o contato com atores, informações dos serviços, campanhas de divulgação (panfleto, cartaz, carro de som) e outros.

A Abordagem Social é realizada nos espaços públicos com maior concentração de pessoas em situação de risco pessoal e social que podem ou não estar associadas ao uso de drogas. As equipes tem participação proativa nesse processo, a partir da vivência nos territórios.

Ainda que possamos considerar esta busca ativa como ponto de partida para a Abordagem Social, ela não é o objetivo central, não é a finalidade que visamos, ela é apenas uma estratégia pensada para a ação de “conquista” das pessoas em situação de rua que queremos aproximar dos serviços que estão sendo ofertados. Ela é construída a partir de planos e métodos já experimentados e que podem potencializar a ação que queremos desenvolver.

A partir destas considerações, podemos tentar entender o que é estratégia. Estratégia é a ação  planejada e necessárias para chegarmos ao nosso objetivo.

Para concretizarmos o proposto por nossa estratégia, lançamos mão de técnicas e instrumentos.

Técnicas ou instrumentos são procedimentos construídos visando instrumentalizar os trabalhadores para que possam agir de maneira uniforme e sistematizar estas ações de modo a que possam ser analisadas, estudadas e concentradas visando a construção de novas estratégias e técnicas.

É a partir destas estratégias e técnicas que podemos alcançar metas definidas para o nosso agir cotidiano.

Assim, as técnicas podem ser vistas como habilidades que podem ser fruto de treinamentos voltados para ampliar nossa destreza em lidar com algumas das situações, no nosso caso, situações com as quais vamos nos deparar no cotidiano da ação junto às pessoas em situação de rua.

Nas ações sociais, não existem “receitas” que possam ser seguidas automaticamente já que os seres humanos são heterogêneos e apresentam reações diferenciadas aos estímulos que lhe são feitos.

Ainda que as técnicas possam ser  apreendidas a partir de relatos verbais ou da repetição e da experimentação, cada situação com a qual nos deparamos é diferente da anterior e a abertura para a flexibilização é fundamental para que possamos ter êxito naquilo que estamos propondo.

Podemos considerar que uma estratégia interessante é nos apropriarmos de algumas técnicas para podermos lançar mão delas não como rotinas a serem impostas mas como ferramentas que podem nos ajudar a chegar ao nosso objetivo.

No diálogo com estas pessoas em situação de rua somos confrontados por problemas novos que eles nos trazem a cada encontro. Nossa atitude não pode ser de simples observadores que “assistem”  àquilo que está sendo trazido para nós, mas devemos nos comportar como “participantes ativos” que vão se colocar no problema trazido buscando saídas para as angústias e dilemas que são colocados.

A REALIDADE DA POPRUA COMO CONTEXTO

O primeiro passo para atuarmos na Abordagem Social é o conhecimento do território: de que realidade falamos? Um olhar via satélite vai permitir que caracterizemos aquela determinada área geográfica como urbana ou rural, mais residencial ou mais industrial, com maior ou menos infraestrutura de serviços. Por outro lado, dados como os dos Censos do IBGE permitem identificar o perfil dos moradores: idade, escolaridade, faixa de renda, condições de moradia e trabalho.

No que se refere às pessoas em situação de rua, é possível ainda identificar as reações da sociedade daquela região no que se refere à rejeição ou acolhimento das situações provocadas pela poprua.

Por fim, mas não menos importante, há quatro questões que devem ser respondidas:  (1)  Onde há a maior concentração de adultos, e onde há a maior concentração de crianças e adolescentes? (2) Por que eles se concentram nestes lugares ? (3) Que serviços eles acessam cotidianamente? (4) Que tipos de suporte para este viver nas ruas são possibilitados pelo entorno (abrigo, alimento, higiene, pequenos trabalhos, achaques ou esmolas e acesso facilitado a drogas)?

Numa aula sobre Estratégias e Técnicas, o professor Helder Sarmento utilizou a seguinte citação para trazer a reflexão para o cotidiano:

“cotidiano é o lugar do espontâneo, do hábito, do desempenho automático de papéis, da rotina, mas é um lugar onde o homem participa por inteiro, onde coloca em funcionamento todos os seus sentimentos, paixões, ideias e ideais. É onde apreende o mundo e nele se objetiva de forma única, dentro das possibilidades oferecidas por este mundo. Portanto, é o lugar onde o homem vive sua particularidade, mas também é onde pode superá-la em direção à humanidade. (Sawaia: 1995; Heller: 1972)”

Ao abordá-los, entramos em contato com esta maneira de “estar no cotidiano”. As pessoas em situação de rua estão imersas na condição que estar na rua lhe permite. Quando os abordamos, estamos entrando na sua intimidade, estamos nos colocando em contato com suas dificuldades, problemas e angústias.

Pessoas em situação de rua trazem para os educadores as problemáticas que estão vivendo pedindo sua mediação na busca de caminhos de superação.

Você já se pensou como “mediador”? Cada profissional que atua na Política para Poprua tem um papel ao mesmo tempo de agente transformador e de mediador. Agente transformador porque queremos instrumentalizar aquelas pessoas para que possam construir caminhos de superação e emancipação e mediadores porque devemos nos colocar ao lado deles facilitando tanto que eles acessem serviços quanto que as políticas e serviços os acessem.

Parece estranho falar em acessar e ser acessado, e eu queria refletir sobre isso com você. Quando em acesso um serviço de que necessito, esta é uma ação que eu faço de ir em busca de alguma coisa. Quando eu sou acessado por uma Política, é ela quem vem a minha procura e busca me atrair para alguma coisa que ela entende que deve ser útil para mim.

Se queremos que as pessoas em situação de rua voltem ao Mercado de Trabalho, é a Política de Geração de Trabalho quem deve buscar trazer estas pessoas para junto de si, capacitá-las e encaminhá-las para que passem a fazer parte daquele universo. Está clara a diferença?

Muitas vezes, somos tentados a “dar respostas” na medida em que quem está fora do problema vê com mais clareza os nós e pode propor caminhos viáveis. Importante refletirmos que a saída somente será concreta se aquela pessoa que vive o problema conseguir convencer-se de que ela é suficiente. E isto não se dá a partir de convencimento por discurso.

A melhor estratégia, no entanto, é a busca destes caminhos a partir de um diálogo que leve a pessoa a construir esta saída. Isto não significa que vamos ficar impassíveis diante de algumas dificuldades. Por exemplo, uma pessoa que precisa documentos pessoais e nos trás esta demanda deve ser encaminhada ou mesmo acompanhada até aquele serviço que vai resolver a questão.

A escolha do tipo de trabalho que cada pessoa em situação de rua deve assumir também é uma questão de escolha pessoal; tudo o que podemos fazer é indicar possibilidades.

A mediação junto a estas pessoas não é uma tarefa neutra:  o profissional tem um objetivo e deve deixar isso claro ao mesmo tempo em que vai construindo pontes como se fossem véus que precisam ser tirados de um objeto encoberto e que vai pouco a pouco sendo desvelado.

ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS PARTICIPATIVAS

Para dar conta de tudo isso é que precisamos de estratégias e técnicas, no nosso entender, estratégias e técnicas participativas. E elas vão “permitir” a participação se as utilizarmos com uma postura que busca incorporá-las nas ações que estão sendo propostas.

No nosso “que fazer” cotidiano, utilizamos diversos instrumentos e técnicas para alcançar nossos objetivos. Eles tanto podem ser diretos como indiretos.

Alguns instrumentos  são diretos como o contato, a observação, a comunicação, a reunião, visitas domiciliares e institucionais, entrevistas individuais e grupais e ações visando mobilizar a sociedade.

Outros instrumentos são indiretos: todas as formas de registro que permitem, num segundo momento, a análise da situação e a busca de respostas institucionais. São eles a ficha de Cadastro, os Sistemas de Informação, as Atas de Reunião, os Livros de Registro, os Diários de Campo, Relatórios e Pareceres Sociais.

Já havíamos dito que a abordagem é um contato intencional de aproximação, através do qual buscamos criar um espaço de diálogo visando a troca de informações e/ou experiências, para a tomada de conhecimento de um conjunto de particularidades necessárias à nossa ação profissional e/ou para o estabelecimento de novas relações.

Quando o profissional entra em contato direto com estas pessoas ela sempre estabelece uma dada relação, que é sempre consequência da leitura que este trabalhador faz destas pessoas.

Este início de  relacionamento, portanto, é uma ação profissional intencional na relação, isto é, processo de sociabilidade, marcado por mediações, no âmbito das relações sociais.

Quando realizamos a abordagem  destas pessoas em situação de rua, um instrumento significativo é a escuta qualificada.

Escutar qualificadamente não é simplesmente ouvir. Ouço o ruído, a Televisão, a conversa da pessoa ao lado quando estou no ônibus.

Escutar é mais do que isso. Escutar implica em ouvir, registrar e interpretar, buscando se envolver no que está sendo comunicado para ajudar na busca de caminhos que possam ser utilizados como resposta.

Toda vez que uma pessoa entra em contato com outra, estabelece com ela uma relação que é fruto das relações sociais e do modo como vê aquela pessoa que está na sua frente. Isso significa que o relacionamento profissional é uma ação intencional, um processo de sociabilidade marcado por mediações.

A observação é outro instrumento importante no entendimento daquele Universo.  Um levantamento de dados qualitativos, feito a partir do diálogo com as pessoas em situação de rua e o entorno de onde ela se localiza permite  a participação conjunta do usuário e do assistente social na construção de ações a serem implementadas.

Isso requer do profissional clareza (acerca dos elementos teóricos com que está operando seu conhecimento) e segurança (quanto aos objetivos que pretende atingir) na direção que dá ao conhecimento compreensivo e explicativo que se vai desenvolvendo no processo de observação.

A  informação pode ser um potencializador valioso nas ações, e precisa ser entendida como um instrumento que organiza e veicula informações de interesse da população e do profissional.

Precisamos ter clareza de que nós não temos todas as informações, e que em alguns aspectos, estas pessoas em situação de rua são muito melhor informadas do que nós.

As informações que precisamos ter para poder orientar a quem nos solicita apoio são relativas aos serviços disponibilizados, os critérios para acessá-los e a presteza com que serão atendidos.

Essa necessidade de “estar informado” para informar exige que tenhamos uma atenção redobrada para os canais e fluxos de informação pois isso vai ampliar o crédito que estas pessoas tem no profissional.

Num trabalho em equipe, em que cada membro entra em contato com a poprua em momentos diferenciados, é fundamental  a existência de uma infraestrutura que se traduza em canais e fluxos contínuos de informação. Somente assim se garante que não haja repetições indesejadas nas mesmas perguntas e leitura macro do que esta pessoa disse a este ou aquele profissional.

Em nosso ponto de vista a reunião é o estabelecimento de uma dinâmica onde emergem as forças vivas do grupo. As correlações de força vão emergindo a medida em que a realidade concreta vai se revelando e aí se percebe os elementos contraditórios das relações estabelecidas.

A realização da reunião envolve uma dinamicidade do grupo à medida que emergem as relações de poder entre os membros; a decisão a ser tomada pelos participantes e contradição no autoritarismo e democracia; a dependência e autonomia e a liberdade para a tomada de decisão e direção.

Independente do local onde esta reunião ocorra (no Centro Pop ou na própria rua), é importante cuidar dos detalhes, da dinâmica a ser implementada e da garantia de participação de cada pessoa.

Importante lembrar que quando fazemos reuniões em espaços “não institucionais”  não somos nós que ditamos as regras… Temos que “entrar no mundo vivido por eles”.

A visita domiciliar é um instrumento que potencializa as possibilidades de conhecimento da realidade daquela família ou indivíduo.

Ainda que o objetivo seja conhecer melhor aquela pessoa, somente deve ser realizada se solicitada por ele ou feita a partir de objetivos bastante claros que nunca devem ser “policialescos”.

O ponto de referência, é a garantia de seus direitos (através dos serviços que lhe são levados) onde se exerce um papel educativo, colocando o saber técnico à disposição da reflexão sobre a qualidade de vida.

A visita domiciliar é diferente da visita institucional que objetiva avaliar a qualidade do serviço que é prestado.

A entrevista, que pode ser individual ou grupal, é um instrumento utilizado intencionalmente e para sua execução precisa ser estabelecida entre as partes (entrevistado e entrevistando),  esclarecendo-se os papéis de cada um e o objetivo daquela entrevista.

Nesta leitura,  a entrevista é o estabelecimento de um diálogo que vai se realizando a medida em que vamos desvelando o real, o concreto, e também ampliando o conhecimento sobre o entrevistado e deste em relação ao profissional.

Em virtude de inúmeros preconceitos existentes na sociedade brasileira em relação a pessoas em situação de rua, um dos instrumentos utilizados para lidar com isso são ações de mobilização da comunidade.

Estas ações podem ser de diversas ordens, desde reuniões de esclarecimento sobre os serviços prestados, até exposições mostrando as conquistas obtidas e as demandas identificadas.

Quando as pessoas participam ativamente, expressando opiniões e colocando expectativas, o  clima fica mais descontraído e o relacionamento mais vivo e caloroso; e amplia-se a autoconfiança.

Dentre as vantagens deste modo de agir, salientamos que os problemas e expectativas são explicitados, pode haver uma quebra de preconceitos e tudo favorece uma postura mais ativa que caminha na direção da emancipação; ou seja, abre-se espaço para a construção de novos caminhos (mudanças).

QUAL O PONTO DE PARTIDA?

Podemos considerar que são dois os principais pontos de partida. Em primeiro lugar o Planejamento. Precisamos  conhecer as características do grupo com que se vai atuar;  ter clareza do objetivo que se quer atingir; e  conhecer a técnica que se vai aplicar.

Em segundo lugar, mas não menos importante, é a questão do modo de agir dos educadores. Antes de ir para a área, o grupo de educadores deve definir um roteiro: toda atividade tem um início, um meio e um fim.

Fazendo o contato com as pessoas em situação de rua, o primeiro passo é informar ao grupo sobre a proposta e consultar se concordam com ela, estando aberto a desistir se houver resistências da maioria.

Se atuarmos de maneira democrática, não apenas nós, mas o próprio grupo amplia seu conhecimento sobre os membros que convivem na situação de rua. Conforme as estratégias vão sendo implementadas, a intimidade aumenta e a confiança vai sendo consolidada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por tudo o que refletimos acima, esperamos que tenha ficado claro que não basta ao profissional ter habilidade  técnica de manusear um instrumento de  trabalho como práticas mecânicas,  repetitivas e burocráticas. Mais do que aplicar técnicas “prontas” (receitas de bolo) é preciso saber adaptá-las  às necessidades do cotidiano;

Isso significa que o profissional precisa de  uma “capacidade  criativa” que inclui o  potencial de utilizar estes instrumentos, mas  também de criar outros que produzam  mudanças na realidade social a curto, médio e longo prazos.

Outro aspecto que merece uma atenção redobrada é a questão da linguagem.

O homem se comunica através de signos,  e estes são organizados através de códigos  e linguagens. Estas linguagens são produtos do processo de  socialização dos seres humanos, indicando modos de ser e de viver de classes e grupos sociais. Uma palavra só tem significado se  compreendida no contexto social e político  no qual é utilizada.

A linguagem possibilita não apenas o contato, mas a construção de uma identidade de determinado grupo social. Os instrumentos e técnicas, assim como as estratégias tem que estar afinadas com o modo de ser daquelas pessoas.

Devemos, ainda, ter alguns cuidados na nossa operacionalização.

O compromisso de continuidade requer que a equipe de abordagem tenha uma rotina de visitas que seja do conhecimento das pessoas em situação de rua.

Como dizia o Pequeno Príncipe: se você vem às três, às duas eu já fico a te esperar…

Só se pode prometer aquilo que, garantidamente, a gente vai fazer.

Ainda que um educador seja “referência” para aquela pessoa, toda a equipe precisa conhecer a situação para poder lidar com ela, se necessário.

Aquilo que a gente ouve das pessoas em situação de rua deve ser tratado com sigilo e não se pode comentar na frente de terceiros ou mesmo quando pensamos que estamos em locais seguros.

Nas reuniões da equipe, deve haver espaço para a discussão daquelas situações que angustiam os educadores, se necessário, com ajuda profissional.

 


Leave a Reply

http://mmaconsultoria.com/?page_id=2422You must be logged in to post a comment.

»  Substance: WordPress   »  Style: Ahren Ahimsa