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SUAS AÇÕES SÃO IMPROVISADAS OU PLANEJADAS?
julho 15th, 2015 by Magdalves

“O homem, perante uma situação, debate-se entre dois extremos. Num deles, controla totalmente os resultados de sua prática. Noutro, desafia ou submete-se a processos nos quais é arrastado por circunstâncias que não controla. No primeiro caso, decide, faz e conhece, de antemão, os objetivos que pode alcançar. No segundo, não decide quanto a nada, só pode apostar no futuro e entregar-se ao destino. É um espectador do mundo que o determina e que não pode alterar.”[1]

 

Eu acordo pela manhã, num horário que permita que me cuide e me alimente a tempo para depois responder aos meus compromissos.  Quase inconscientemente, decido a roupa mais adequada para o tipo de dia que terei, me alimento com mais ou menos calorias dependendo do quanto o dia será leve ou pesado.

Além de consultora em política pública, sou dona de casa e  tenho afazeres domésticos que me obrigam a administrar bem meu tempo. Quando decido o que fazer de almoço, preciso saber se tenho em casa os ingredientes necessários para que tudo fique muito gostoso. A casa bem cuidada também requer momentos destinados à higiene do ambiente e aos cuidados de manutenção que me permitam viver bem.

Seja qual for o tipo de trabalho que cada um de nós faz, ele requer quesitos e habilidades que precisam estar disponíveis, e ainda que inconscientemente, isso nos leva a planejar.

Algumas pessoas, no entanto, entendem que quando a gente planeja, a gente engessa nossas ações e que isso tira a espontaneidade e a felicidade que o “deixar a vida nos levar” parece prometer.

A construção de sonhos e a busca da realização de desejos pode ser simplesmente ficar na torcida para “ganhar na loteria” ou pensar em caminhos que viabilizem aquilo que almejamos.

Tem um jornalista português, já falecido, que eu admirava muito e que em um de seus livros dizia:

“Na vida da gente há sempre um grande sonho, um patrão e uma mulher. O sonho morre ao amanhecer de todos os dias, asfixiado por uma realidade medíocre, em que não existe independência nem liberdade, nem gênio nem poder. Ao luar do sonho, somos o chefe da tribo. Ao sol da realidade, viramos simples índio sem colar de ossos nem capacete de penas.   É véspera dentro de nós. Ao por do sol de cada dia, pensamos que ‘talvez amanhã’.”[2]

Tanto em termos pessoais como profissionais, precisamos construir pontes que nos permitam ir da realidade em que estamos para o futuro que queremos, e isto é planejar.

Muitos apontam que a primeira preocupação com o planejar surgiu na década de 30, na então União Soviética e que isso ocorreu no processo de reconstrução pós Guerra.  Mas, há quem diga que já na pré-história, as mulheres precisavam ser boas de planejamento já que não havia modos de conservar o alimento (geladeiras, nem pensar) e se a refeição ficasse pronta antes da hora, quando os caçadores chegassem o alimento estaria todo estragado.

Para planejar, sempre partimos de pressupostos: algumas pessoas pensam que esta é uma tarefa solitária – eu decido aonde quero chegar e decido os caminhos. Para outras, este caminho pode ser uma construção coletiva onde os desejos de muitos se unem na construção de uma estrada que leve a melhorias na vida de todo mundo.

O QUE É PLANEJAMENTO

Planejar é preparar-se para tomar decisões. Uma das principais finalidades do planejar é a redução das incertezas, é definir a direção mais adequada às ações a serem propostas.

Qualquer que seja a concepção que o referende, todo Planejamento é uma ferramenta que permite explicitar racionalmente aquilo que queremos. Tendo a realidade atual como cenário, proponho ações que me permitem alcançar resultados.

Planejar não é adivinhar, não é predizer o futuro, mas a análise racional do hoje me dá elementos para pensar minhas ações focando num futuro esperado.

Assim, o planejamento é um processo que ocorre junto com diversos outros processos e é influenciado por eles, assim, ele exige que eu faça uma análise correta da conjuntura e da estrutura para que eu possa propor ações viáveis.

Este processo é cíclico e prático, requer continuidade e se retroalimenta de outros processos e do fruto das ações que desencadeamos.

Como a realidade é multidimensional, este planejamento deve ser multidisciplinar e interagir com outros atores para consolidar o processo de tomada de decisões.

Todo planejamento é político e constitui-se num espaço significativo de negociação dos interesses contraditórios de todos os envolvidos.

TIPOS E NÍVEIS DE PLANEJAMENTO

Existem vários tipos de Planejamento, alguns em nível doméstico, outros em nível profissional e outros ainda na esfera governamental.

Nosso cotidiano requer uma série de planejamentos que podem ser: financeiros – não devo gastar mais do que ganho; familiares – quando devo me casar, quantos filhos quero ter e o momento em que isso deve ocorrer; eventuais – viagens de férias, compra de carros e casas, etc..

No âmbito profissional e governamental, há vários tipos de planejamento:

Planejamentos tradicionais partem do entendimento de que o sistema deve ser controlado por um “agente”. Para que uma situação possa ser planificada por um único agente, pressupõe-se que os demais atores terão comportamentos previsíveis. Este tipo de planejamento teve sua origem em técnicas de projeção  econômicas que se transformaram em planejamentos de desenvolvimento econômico e social.

Seu principal ator é o Estado que ignora os demais atores sociais, numa postura autoritária e tecnocrática. Seu uso praticamente se restringe ao econômico, com poucas projeções sobre o social.

Planejamentos estratégicos corporativos pensados para as grandes empresas privadas e que, na visão de alguns economistas, podem ser estendidos ao mundo governamental.

Bastante semelhante aos tradicionais, estes planejamentos abrem um flanco visando a percepção de adversários ou competidores, diminuindo a ideia da predição, que é dominante no tradicional, e colocando-se em contextos de incertezas e surpresas.

A empresa faz planos estratégicos que competem com planos estratégicos de outras empresas.

Futurologia, a prospectiva e a análise da grande estratégia trabalham com prazos muito longos (décadas) e está centrada no jogo político. Isso trás uma dificuldade em enxergar caminhos.

Não tem um ator definido, analisa grandes estratégias a partir de métodos de prospecção e futurologia voltados para grandes empresas.

Planejamento estratégico situacional, construído progressivamente nos últimos 30 anos e é fruto do diálogo de muitas pessoas e tem Carlos Matus como figura central.

Participativo, atua a partir de diversos atores, em especial no âmbito empresarial. Parte do princípio que um ator, para alcançar suas metas deve vencer a resistência ativa e criativa de outros atores. Estes vários atores encontram-se num contexto de conflito e colaboração.

ETAPAS DO PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO

As propostas de Planejamento Participativo partem do pressuposto de que as soluções devem ser buscadas de forma compartilhada, incluindo-se as pessoas que estão imersas nos problemas para os quais se quer construir saídas.

Nesta modalidade, três atores são necessários: coordenadores,  informantes qualificados e grupos de risco.

A partir de uma inflexão contida na Constituição Cidadã (1988), desde a década de 90, vivemos no Brasil um processo de inserção da população beneficiária em várias instâncias das Políticas Sociais, entendendo que esta deve ser ouvida e ajudar a balizar as propostas de ação em curso.

Sem dúvida, a população que vive as situações de risco tem muito a dizer e pode apontar elementos na construção do Cenário no qual são construídas as diversas políticas.

Este processo se dá em etapas simultâneas, separadas apenas por uma questão didática.

ETAPA EXPLICATIVA: Conhecer e explicar a Realidade

Para Planejar, a primeira necessidade é conhecer a realidade na qual a ação que será implementada, e existem maneiras e maneiras de “ler” e entender a realidade.

Anos atrás, conversando com um político que estava no poder há oito anos, ouvi a seguinte pérola “na primeira vez em que fui candidato, ouvi a população e por isso sei o que ela quer, não há necessidade de ouvi-la de novo”.

A realidade é dinâmica: mudam as pessoas e mudam as circunstâncias e com isso precisamos não apenas estar abertos a esta escuta mas fazê-lo o tempo todo. Conhecer a realidade vendo-a a partir de diversas óticas enriquece muito este nosso olhar.

Diagnóstico ou Conhecimento da Situação?

No planejamento tradicional, busca-se diagnosticar a realidade de forma objetiva, científica e rigorosa. A proposta é descobrir-se a verdade – entendendo que ela é única e imutável, e a partir dela elaborar planos.

Quando me sinto tentada a ser “a dona da verdade”, eu me lembro de um pensamento indu que diz que “a verdade está encoberta por muitos véus e cada um de nós vem para levantar uma pequena ponta”. Eu preciso do outro para conhecer melhor a realidade onde todos estamos inseridos.

Quero trazer aqui um exemplo, tirado da minha experiência profissional, que pode nos ajudar a enxergar estas “verdades”.

Suponha uma pessoa que, expulsa de sua casa por falta de pagamento, se coloca em situação de rua, instalada com seus pertences na calçada em frente a um estabelecimento comercial.

O comerciante aciona a Assistência Social pedindo sua remoção. Não há vagas disponíveis e mesmo que houvesse, os pertences desta pessoa não poderiam ser levados por ela.

Temos instalado um conflito de interesses, mas mais do que isso, temos uma dificuldade em lidar com os Direitos destes dois atores: o comerciante e a pessoa em situação de rua. Qual a explicação verdadeira para esta realidade?

Para entender a maioria destas situações, que são complexas e mutantes, precisamos aliar o conhecimento intuitivo que pode ser percebido a partir da escuta qualificada da população – no caso, o comerciante e a pessoa em situação de rua. Os problemas que ambos colocam deve ser analisado racionalmente a partir do fato concreto e a partir de fatores externos que geraram aquela situação: o despejo daquela família que hoje se encontra em situação de rua.

Matus[3] (1996:32) diz que “explicações diferentes sobre uma mesma realidade não são apenas respostas diferentes a perguntas iguais: são respostas diferentes a perguntas diferentes”.

Explicar bem é perceber as diferenças entre as explicações dos diversos atores e atribuir a cada uma delas o seu peso.

Minha avó, que era uma mulher simples, dizia que “razão chega para todos”, e explicava. Se conseguirmos nos colocar no lugar do outro, ainda que ele esteja dizendo o oposto do que dizemos vamos concluir que ele está certo. São muitas as óticas.

Ponto de partida para a construção do nosso olhar

O PES – Planejamento Estratégico Situacional, trabalhado por Matus concentra-se em problemas e não em setores e ele explica:

A realidade gera problemas, ameaças e oportunidades. O político trabalha com problemas e a população sofre problemas.[…] Os problemas reais cruzam os setores e tem atores que se beneficiam ou são prejudicados por eles”. (idem, 35)

Trabalhar com problemas, sem perder de vista o macro, implica em

“(1) explicar como nasce e se desenvolve o problema; (2)fazer planos para atacar as causas do problema mediante operações; (3) analisar a viabilidade política do plano ou verificar o modo de construir sua viabilidade; e (4) atacar o problema na prática, realizando operações planejadas.”(idem, 36)

NORMATIVO: Conceber o Plano

No Planejamento Tradicional parte-se do pressuposto de que para planejar é preciso controlar. O sujeito do planejamento é o governo que controla o sistema econômico e ignora tudo o que contradiz esta predição.

Ignorar que o outro existe, ignorar que se tem adversários e os atores sociais nos faz planejar como se estivéssemos dentro de uma “ilha da fantasia”.

Segundo Matus, quando esta lógica de planejamento foi criada ela tinha seu valor, mas o problema é querer reproduzi-la num mundo diferente daquele como se pudéssemos voltar àqueles tempos.

Segundo Matus, não há uma única maneira de entender o planejamento já que ele deve ser aplicável a múltiplas realidades.

O entendimento da situação vivenciada, enriquecido a partir da análise dos fatos geradores e cotejado com as ofertas que a cidade tem para situações como aquela, são o ponto de partida para a concepção da ação a ser desencadeada.

Retomando-se aquele nosso exemplo, numa visão de futuro, a política propõe que todos estes conflitos estejam resolvidos. Os munícipes devem ter acesso a trabalho e renda e deve haver moradia para todos, e as calçadas devem estar livres.

É este o cenário para se pensar a proposta a ser implementada a curto, médio e longo prazos, entendendo-se que ela é uma aposta já que nem todos os fatores podem estar sob controle do planejador.

ESTRATÉGICO: Construir elementos que o tornem viável

Dois elementos precisam ser pensados para permitir que a proposta citada no item acima possa ser implementada: construção de moradia  e oferta de trabalho, emprego e renda para todos.

A construção de moradias pressupõe a existência de terrenos disponíveis e de recursos da Política Habitacional, sejam eles oriundos do município ou da esfera federal.

A existência de emprego, trabalho e renda é uma questão estrutural que precisa ser analisada para que se possa pensar em estratégias que viabilizem a sobrevivência das pessoas.

Neste entendimento, fica claro que há que ter um diálogo permanente entre o técnico e o político.

O Planejamento Estratégico Situacional conceitua o que ele chama de “plano dual”: parte do plano está totalmente sob governabilidade do ator, mas ele precisa da colaboração de outros atores para conseguir implementá-lo.

Se, de um lado, há um eixo proposto pelo Plano inicial, de outro há as demandas que são colocadas e que tencionam a ação proposta devendo ser analisadas passo a passo.

Neste agir, temos ações táticas e estratégicas. Voltando a Matus, “tática é o uso dos recursos escassos na produção de uma mudança situacional, e estratégia é o uso da mudança situacional para alcançar a situação-objetivo”. (idem, 73)

Para construir a viabilidade, precisamos juntar forças, mudando a nosso favor as pressões que poderiam tornar esta ação inviável. Isso significa administrar três variáveis: atores, operações e meios estratégicos.

Os atores são autores e sujeitos da estratégia. Precisamos conhecer as posições que cada ator assume frente ao proposto, ou seja, qual seu interesse, que peso aquela decisão tem para ele, qual sua postura e portanto qual deve ser a sua conduta.

As operações são desenhadas a partir das dificuldades encontradas: Matus fala em nós críticos. Elas são fundamentais nos planos: sem elas, eles não se concretizam.

Estas operações podem ser meios para viabilizar a proposta ou elas mesmas podem causar impactos. Devemos ficar atentos para analisar se estes impactos são os esperados ou se precisaremos rever nossa proposta. Estas operações devem ser eficazes e eficientes.

Alguns conjuntos de operações cumprem o papel de meios estratégicos, apresentando uma alta eficácia processual. Estes meios pode se dar por imposição, persuasão, negociação ou mediação.

Estas negociações podem ser de três tipos: cooperativas – todos ganham, conflitivas – uns ganham, outros perdem, ou mistas.

A mediação ou moderação ocorre quando há dificuldades na negociação direta e pode necessitar de julgamento em tribunais – vale a lei, ou do uso da força.

Este uso da força tanto pode se dar por coação – ameaças; como por confronto – medir forças; ou ainda por dissuasão quando se mostra a força afirmando que ela será usada, se necessário.

 

 

TÁTICO OPERACIONAL: agir planejadamente

O Plano sozinho não concretiza nada. Ele balisa as ações que devem ser feitas e para as quais ele dá racionalidade. Mas, para que isso ocorra, cada uma destas ações devem conter aqueles quatro momentos que já explicitamos mais acima:

Momento explicativo: o que os atores declaram? Que problemas vão ser selecionados? Quais as dificuldades para isso?

Momento normativo-prescritivo: o que queremos para esta realidade? Que respostas nossas ações vão dar ao problema selecionado? Qual a nossa aposta geral e quais as apostas parciais? Que situações podem interferir neste processo? Como posso administrar estas “surpresas”?

Momento estratégico: Que operações precisam ser desencadeadas para possibilitar a execução desta proposta?

Momento tático-operacional: Como criar um processo contínuo que realize as ações, relendo-as a partir do normativo e do explicativo e achando caminhos para superar as dificuldades apontadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este texto não objetivou “dar uma aula sobre planejamento”, mas trazer esta reflexão para o cotidiano da nossa prática.

No meu entendimento, ele se soma a um outro texto, postado em abril de 2013 em que a pauta era Sistematização, Monitoramento e Avaliação.

Planejar e executar monitorando e sistematizando são parte de uma mesma preocupação que deve balizar nossas ações.

É importante que a gente consiga se entregar à experiência que estamos vivenciando, deixando que nosso objeto fale por ele mesmo.

A escuta qualificada dos atores permite estabelecer correlações multidimensionais que enriquecem o diálogo.

A execução de propostas, em termos de política social, exige que se leve em conta o objetivo e o subjetivo. Quando ouvimos a população em seus problemas, contatamos suas dores, sofrimentos, alegrias e decepções com as Instituições que dizem estar a serviço delas, e só assim, podemos reavaliar o nosso agir e propor algo diferenciado.

[1] MATUS, Carlos – O Plano como Aposta, em SÃO PAULO EM PERSPECTIVA 5 (4): 28-42 out/dez 1991.

[2] MATIAS, J, Rodrigues – CORREÇÃO MONETÁRIA, Ed. Expressão e Cultura, 1972.

[3] HUERTAS, Franco, O MÉTODO PES: ENTREVISTA COM MATUS/FRANCO HUERTAS, SP, Fundap, 1996.


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