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PAPÉIS PROFISSIONAIS E A POLÍTICA PARA POPRUA
novembro 30th, 2014 by Magdalves

Muitas vezes, quando alguém pergunta sobre nosso papel profissional apontamos nossa formação ou as tarefas que são esperadas de nós no trabalho que realizamos: sou assistente social, sou técnico, sou educador social, sou agente operacional, sou segurança…

Esta reação é fruto do processo que nos levou a assumir aquela função. Procuravam pessoas para ocupar aquela vaga e fomos escolhidos para ela.

Na seleção, os responsáveis por aquela proposta de trabalho buscaram identificar se tínhamos competência para exercer aquelas tarefas.  Isso me lembra uma pessoa em situação de rua que dizia “sou encanador porque sei ser encanador”.

Além de todo um conjunto de ações que devemos desenvolver, o papel profissional nos confere uma identidade real e, de certa forma, delimita o nosso fazer profissional.

Quando “chegamos”, a organização que nos contratou e os colegas com os quais vamos dividir as tarefas cotidianas tinham uma expectativa e ela é que nosso modo de ser contribua positivamente na busca da finalidade com que a organização se comprometeu.

Encarar o que esperam de nós dessa forma nos dá uma referência como trabalhador, podendo influir no nosso modo de ser em família, com amigos, no bairro e na sociedade.

Lidando com as expectativas

Mais do que a realização de tarefas, o que é esperado de cada um de nós é uma resposta para os desafios do cotidiano. Devemos agir como facilitadores que contribuam para que a equipe se torne um “time” que joga junto, atentando para a complementaridade dos papéis.

O respeito permanente que devemos ter com nossos “colegas de time” e com todos aqueles que são atendidos pelo Serviço vai criando uma sinergia que faz com que 2 mais 2 sejam muito mais do que 4… é como se o resultado das tarefas de cada trabalhador fosse ampliada enesimamente.

Na relação interprofissional assim construída não deve haver autoritarismo – é terrível quando temos ao nosso lado aquele trabalhador que se vê como dono da verdade. Isso não significa que não tenha que haver autoridade. Cada papel demanda uma responsabilidade e uma autoridade que faz daquele trabalhador um líder que indica para o grupo aquilo que deve ser feito.

A Política para População de Rua é uma política de direitos. Cada pessoa em situação de rua é sujeito de direitos e deve ser respeitado e ouvido na expressão de suas necessidades e desejos, o que não significa que tudo o que ele diz vira lei… Há que se analisar e ponderar para poder decidir com justiça.

O grande segredo é escutar qualificadamente, analisar as possibilidades de  atendimento e dar a ele o retorno de modo simples, sincero e honesto.

Escutar qualificadamente – escutar não é ouvir. Ouvimos porque não somos surdos, esta é uma ação mecânica… ouço vozes, ouço ruídos, ouço música, etc..

Escutar é ouvir e interpretar. Ouço e relaciono com aquilo que está sendo expressado não apenas pela voz, mas pelos gestos, pelos olhares…

Escutar qualificadamente é se colocar inteiro na ação de escuta. Muitas vezes, pessoas em situação de rua dizem que os trabalhadores falam com eles sem se deter, sem lhes dar nenhuma atenção.

Escutar qualificadamente é interpretar o que está sendo expressado, buscando entender o que está por trás daquilo que está sendo colocado.

Analisar as possibilidades – Ao escutar, percebi que aquela pessoa em situação de rua tem uma demanda que ainda não foi atendida. Analisar as possibilidades de atendimento ao seu pedido é cotejá-lo com as respostas que temos e identificar se é apenas o caso de dizer sim ou não ou se precisamos buscar construir caminhos para que este tipo de demanda possa ser atendido.

Dar retorno às demandas apresentadas – Sei qual a demanda e não tenho como atendê-la. Este é um dos momentos mais difíceis do diálogo pois devo dizer a ele o que ocorre. Se é uma demanda real, porque não pode ser atendida?  O que podemos fazer juntos para buscar caminhos?

Mil vezes dizer a ele que não será atendido do que ficar protelando ou transferir a responsabilidade para outra pessoa: eu, por mim, faria, mas a minha chefia…

Preparando o ambiente

Parece fácil dizer: escute qualificadamente, analise as possibilidades e dê retorno à pessoa que está na sua frente.

A garantia de que podemos fazê-lo está em parte na construção de um ambiente propício para este diálogo. Este ambiente deve ser construído a partir de alguns aspectos:

Local físico – conversas individuais ou em pequenos grupos precisam de espaços onde a privacidade esteja garantida. As pessoas em situação de rua necessitam de uma atenção individual para expressar suas necessidades e a conversa somente será franca se ele sentir que há uma certa empatia. Frente a frente, olho no olho, celulares desligados e portas fechadas são necessárias para a construção de um vínculo que permita adentrar esta história pessoal.

Empoderamento do trabalhador – quando um novo trabalhador se une àquela equipe, deve-se garantir um “rito” de empoderamento na relação com os conviventes e usuários. Eles devem ser informados do papel daquele trabalhador para que saibam o que esperar dele. Por outro lado, este trabalhador deve receber uma capacitação inicial que o introduzirá na proposta.

Reuniões de equipe, ora com trabalhadores que executam as mesmas funções, ora com o conjunto de trabalhadores são momentos de se construir estratégias de resposta às demandas.

As discordâncias de encaminhamento devem ser guardadas para estes diálogos privados (trabalhador com trabalhador) pois quando elas são explicitadas publicamente minam a autoridade de toda a equipe.

Clareza da proposta  – os trabalhadores devem ter clareza da finalidade daquele projeto, de seus limites e das possibilidades de encaminhamento das situações que não podem ser atendidas. Estes encaminhamentos devem ter uma rotina a ser respeitada para que se possa garantir não apenas o encaminhamento mas o monitoramento deste atendimento.

Mudanças no ambiente e nas regras – ainda que a equipe de trabalhadores seja a autoridade para fazer mudanças no ambiente físico e nas regras de atendimento, se queremos tratar estas pessoas em situação de rua como sujeitos de direitos, precisamos garantir a escuta deles em fóruns periódicos antes de tomar decisões precipitadas.

Trabalho em equipe

Cada projeto ou serviço possui uma coordenação (gerência) que deve responder, entre outras coisas, pela articulação e capacitação dos trabalhadores.

Mais do que uma equipe de trabalho, o que propomos é a busca de sua metamorfose num time de trabalho.

Numa equipe de trabalho, os trabalhadores são coordenados por um responsável que retém as informações, repassando apenas as necessárias para que cada trabalhador dê conta de sua tarefa.

O time é um grupo de trabalhadores que se associam visando uma finalidade. Todos eles tem todas as informações, conhecem todas as etapas e sabem aonde querem chegar. O responsável atua no sentido de integrar o grupo e responder às demandas dos trabalhadores, mais do que as demandas dos usuários e conviventes. Seu papel é motivar a todo o time, ampliando o senso de responsabilidade e o compromisso de cada um com aquela proposta.

Uma atenção desdobrada deve ocorrer em relação aos sentimentos, emoções e estados de ânimo[2]. O pano de fundo para o nosso agir é o modo como nos sentimos, as emoções que aquela situação vivenciada desencadeia em nós.

Raiva, medo, tristeza, alegria são algumas das emoções básicas com as quais convivemos no dia a dia.

Muitas vezes, pessoas em situação de rua, falam alto e ameaçam quando não temos como atendê-los imediatamente.  O medo pode nos paralisar – se eu abrir a boca, posso apanhar, ouvi de uma trabalhadora. Do medo à raiva, o caminho é curto… raiva por me sentir amedrontada… raiva por me sentir impotente…

As pessoas em torno de nós sentem o “cheiro” deste medo e desta raiva e a relação vai ficando cada vez mais difícil. O que fazer?

Precisamos nos “perceber” empoderados. É isso mesmo! O poder está com os trabalhadores. Se pessoas em situação de rua estão naquele serviço é porque precisam dele e estão ameaçando porque querem ainda mais.

Procure fazer uma conversa franca sobre as possibilidades reais, de preferência feita por uma dupla de trabalhadores (dissolvo meu medo no apoio do companheiro), ou peça ajuda da coordenação do serviço/projeto.

Outra necessidade é atentarmos para os nossos estados de ânimo. Eles são classificados pelos especialistas como positivos (animado, satisfeito) ou negativos (desanimado, insatisfeito). Quando estou satisfeito, fico orgulhoso do que fiz, fico entusiasmado, alegre e sorrio muito. Insatisfeito, fico irritado a toa, desprezo o outro, quero distância de seus problemas. Estes estados de ânimo são motores para nossas ações.

Competência profissional

O time é de primeira linha quando ele une competência técnica, relações interpessoais positivas e respeito pelo trabalho do outro.

Cada trabalhador deve trazer para o time a sua competência técnica: o olhar do psicólogo, do assistente social, do advogado, trazem parâmetros construídos nos anos de faculdade. Os educadores sociais foram capacitados e conseguem construir uma relação mais próxima destes conviventes e usuários. Os agentes operacionais não apenas garantem o espaço físico e o ambiente necessário para que os trabalhos deem certo, mas podem estabelecer relações de apoio e companheirismo com estes conviventes e usuários.

Usando o futebol como figura de linguagem, podemos dizer que nenhum time ganha a partida se tiver apenas atacantes e ninguém para fazer a defesa. O inverso também é necessário.

Um bom jogo e a vitória do nosso time, que seria estas pessoas conseguirem sair das ruas só se consegue se tivermos jogadores nas diversas posições.

As reuniões da equipe/time devem propiciar crescimento pessoal e profissional, ampliação da autoestima e servir de motivação para que busquemos cada vez mais objetivos a serem alcançados.

Recursos humanos na Política para Poprua

A grande maioria das propostas de atendimento voltado para a poprua tem um leque de trabalhadores que podemos resumir como sendo: gerentes, técnicos, educadores, agentes operacionais, motoristas e seguranças.

Ainda que as tarefas sejam diversas, um aspecto que une todos estes trabalhadores é a necessidade de um comprometimento com esta proposta.

O ponto de partida é o entendimento de que estas pessoas em situação de rua são sujeitos de direitos, e enquanto tal devem ser respeitados e escutados.

Algumas destas pessoas estão numa situação de incapacidade para desempenhar funções básicas  do cotidiano e por isso mesmo precisam de ajuda e apoio.

Ajudar é fazer por ela, é carregá-la nas costas tirando  oportunidade que ela avalie seu próprio potencial. Isso só deve ocorrer quando ela, de fato, não conseguir fazer aquilo a que se propõe e pedir esta ajuda.

Apoiar alguém é estar ao seu lado, oferecer orientação,mas deixando que ela tome suas próprias decisões, andando com suas próprias pernas. Só assim, ela pode superar obstáculos e usar seus talentos o que deve fortalecer sua autoestima.

Anos atrás, num discurso, o Lula disse que fora oferecer ajuda a um grupo indígena que respondeu algo mais ou menos assim: se você veio me oferecer ajuda, eu agradeço, mas não preciso. Agora, se você veio porque sua luta é a minha luta, seja bem vindo.

Eu entendo que a nossa postura em relação às pessoas em situação de rua devem ser semelhantes a isso.

Alguns alertas

Muitas destas pessoas estão num processo de reorganização interna e isso deve ser respeitado. Quando ele nos diz que não quer saber de sua família, não devemos insistir mas aguardar outros momentos em que ele esteja aberto a conversar sobre sua vida na infância e adolescência.

Uma estratégia interessante é quando, em tempos de Páscoa e Natal, começamos a preparar com eles este celebrar e consultamos sobre como eram estes momentos em sua infância. Muitos entram num tipo de êxtase e contam muitas coisas boas que ficaram para trás e isso reforça o vínculo com os trabalhadores.

O cuidado maior é para não tentarmos enquadrar aquela pessoa, encaixando em “casos” já estudados, mas trabalhamos com uma certa flexibilidade buscando analisar a situação concreta da vida que ele nos relata.

Um outro cuidado é para não termos uma ação contraditória que, de um lado fala de autonomia, e de outro exige uma submissão que a nega.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este texto não tentou passar a vocês uma “receita de bolo”. A ideia era apenas fazer uma reflexão que ajudasse a olhar em volta para conhecer o espaço em que se está atuando para construir propostas adequadas a cada situação.

Numa ação junto à poprua é fundamental que os trabalhadores sejam proativos, ou seja, que tenham expediente e pensem com sua própria cabeça.

As tarefas nunca estão prontas e pode ser necessário, a qualquer momento, criar propostas novas em resposta às novas demandas apresentadas.

Há a necessidade de manter acesa a chama do compromisso com esta realidade para que seja possível influir no bem estar de cada uma destas pessoas em situação de rua.

Se, de um lado, isso implica em que cada trabalhador deve “dar de si”, de outro, exige da gerência/coordenação ações de motivação permanente e uma abertura ao diálogo que permitirá buscar soluções para as novas situações enfrentadas.

 

[2] Veja outro texto, neste mesmo Blog: Como você gere seus estados de ânimo?


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