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TEMPO DE NATAL E A POPRUA
dezembro 15th, 2014 by Magdalves

Por que  falar em Natal

Estamos em dezembro, as ruas das cidades enfeitadas, a televisão mostrando imagens e tocando músicas que falam do Natal.

Nasceu Jesus que veio até nós trazer uma esperança de um mundo de justiça e paz. Tempo de entendimento entre Igrejas de diversas confissões, o amor deveria estar no ar.

Mas, nem sempre é assim. Há muita gente cuja única preocupação nesta época são os presentes que vão oferecer a familiares e amigos. É tempo de brindes que as empresas fornecem numa tentativa de fidelização.

A lembrança de parentes distantes geograficamente, a vontade de viajar para dar aquele abraço e estar junto na noite do dia 24 são assuntos de conversa entre amigos e mesmo entre conhecidos que tem pouca ou nenhuma intimidade.

Natal, para mim, tem cheiro de infância. Meu pai se vestia de Papai Noel e houve até uma situação cômica quando uma de minhas primas, sentada no colo do Papai Noel, disse: o senhor parece tanto o tio Abelardo!  Foi um sufoco total, mas a Bia, prima muito querida, tinha razão. Aquele Papai Noel tinha sido feito sob medida para a nossa comemoração.

Uma outra lembrança, e muito forte, que me faz até hoje querer reviver, tem a ver com uma tradição familiar.

A família de minha mãe, enorme e quatrocentona, tem um Presépio que está na família desde o descobrimento. A cada ano, no Natal, todos nos reuníamos em torno daquele Presépio para rezar juntos uma oração que os mais velhos sabem de cor e que se chama Soberano, e que começa assim:

Soberano, rei da glória, Deus imenso e poderoso que trocais por um presépio o vosso trono majestoso. Sendo Deus vos fazeis homem, humano sendo divino, esta é a caridade que ao mundo tendes trazido.

Deus vem até nós para nos dizer que é a caridade que faz de nós seres humanos. E isso trás para nós uma grande responsabilidade de participar das transformações necessárias a esta nossa sociedade.

No auge da Campanha do Betinho[2], foi possível conhecer dificuldades imensas a que este novo povo está submetido, mas também foi interessante identificar o número significativo de pessoas que “queria fazer alguma coisa”.

Natal sem fome, Natal dos sonhos… seja qual for o nome que seja dado, o que importa é nos imanarmos para levar a alegria do Natal a todo mundo.

O meu Natal dos sonhos

Desde a década de 70, e já lá vão quarenta anos, um compromisso com Pessoas em Situação de Rua faz parte do meu dia-a-dia.

Minha preocupação nunca foi a de apenas distribuir coisas: comida, calçado, roupa… Busquei conhecer cada uma destas pessoas que cruzou minha vida, incentivá-lo a lutar por mudanças e me colocar ao seu lado como apoio em ações que extrapolassem sua governabilidade.

Aprendi muito com cada um deles, e espero que meu apoio tenha servido a alguns deles.

Olhar o Natal nesta perspectiva me leva a perceber quantas pessoas sofrem por não poder dar mimos de natal  a  sua família. Muitas famílias optam por fazer “sorteios de amigo secreto” e nas festas todos recebem uma lembrança que não chega a “pesar no bolso”.

Mas há situações ainda mais difíceis. Presentes nem pensar e até mesmo o alimento pode não estar garantido.

Tudo bem! Nosso discurso é que Jesus não veio ao mundo para que seu nascimento fosse comemorado com bens materiais.  Mas… todo o ambiente que se cria – vitrines de lojas, ruas enfeitadas, clips na TV – convidam ao sonho. Se para os adultos é difícil separar sonho e realidade, para as crianças isso é impossível.

Cada Natal trás em si um aprendizado de amor ao próximo, amor ao outro… e isso me lembra a racionalidade de uma criança que, quarenta anos atrás me dizia: “você não entende o que está me pedindo. Quer que eu abra uma exceção para agradar a alguém que bate em mim”.

A grande lição do Natal, para mim, não é festejar com os amigos, mas se reconciliar com quem nos magoou, nos feriu… essa a proposta do fraternizar.

Olhar o invisível neste Natal

Em diversos artigos que tenho escrito ao longo dos últimos anos, insisto muito que há uma invisibilidade em relação a pessoas em situação de rua.

Para a grande maioria, estas pessoas são descartáveis.  Além de causar um incômodo ao sujar e tornar perigosas nossas ruas, são vistas como responsáveis pelo seu estado, por estarem “em situação de rua”.

Os documentos produzidos pelas políticas para população de rua[3] reconhecem que esta é uma população heterogênea e que o modo como a sociedade está estruturada contribuiu para que eles chegassem a este estágio.

Quem se aproxima de alguns destes seres descobre, às vezes maravilhado e sempre impactado, que estas pessoas tem um passado profissional, uma família de origem, uma saudade de casa e um pesadelo.

Num de seus textos, Paulo Freire nos diz que, ao perguntar a um homem “qual era seu sonho” ouviu como resposta que aquele homem não tinha mais sonhos, apenas pesadelos…

Quantas destas pessoas em situação de rua ainda sonham e quantas se deixaram vencer pelos pesadelos?

Num texto em que tematizei a Dimensão Espiritual[4] apontei um modo de tocar em pontas desse iceberg. Há momentos da vida que pedem rituais e é neles que podemos vislumbrar resquícios da vida em família, lembranças de casa e costumes arraigados ainda que a vida tenha mudado brutalmente.

Parâmetros construídos a partir de nossas vidas “com casa” dificultam a interpretação daquilo que é significativo e precisamos aprender a nos desarmar e ouvir o que estas pessoas tem a dizer.

Tempos Litúrgicos: Advento e Natal

Durante quatro semanas, a Igreja celebra o Advento, considerado tempo de preparação para a grande festa que Natal que celebra a chegada do menino Deus.

Neste tempo refletimos sobre nossa vida e as coisas que precisam mudar para contribuirmos na construção do Reino.

O Espírito de Natal, no entanto, vem sendo afetado significativamente na medida em que somos convidados a pensar em outro nível de coisas: que roupa vestir, que alimentos preparar para a Ceia de Natal, como enfeitar a casa – bolas, estrelas, azevinhos para dar sorte acabam tendo mais espaços do que os tradicionais presépios que nos levam a oração.

Quando temos crianças em casa, a busca do Papai Noel para levar nossos pedidos e tirar fotos como lembrança do Natal.

O Natal da  poprua

Eu celebrei o Natal com pessoas em situação de rua diversas vezes. A lembrança mais forte é de um processo vivido na Praça Julio Prestes.

Um grupo de amigos e eu sempre visitávamos aquelas pessoas, fazendo sopões na própria Praça. Na dinâmica que havíamos construído, a gente ia até eles levando apenas um panelão [tamanho usado em restaurantes], colheres e faquinhas de cozinha, além de sal de cozinha. As cubas para servir a sopa e a concha foram construídas a partir de cabaças de coco encontradas na feira.

Um grupo de poprua ia até a feira e trazia frutas, verduras e legumes catados do chão. Às vezes, recebiam uma doação de carcaças de frango.

Enquanto isso, um outro grupo catava madeiras e gravetos para armar uma fogueira e pedia água num dos comércios que havia ao redor.

O tempo de preparo da sopa (às vezes, quatro horas) era tempo de muita conversa com pedidos de encaminhamento para documentos, apoio para escrever para a família e queixas de problemas de saúde.

Neste ambiente, combinava-se o que fazer no Natal. Um dia antes da celebração, eles limparam o terreno onde nos encontrávamos e combinaram passar a noite vigiando.  No dia 24, quando chegamos, tinha uma chuva fininha, mas eles estavam todos lá e a fogueira já estava acesa.

Além do alimento, eles decidiram que tinham que trocar mensagens, já que presentes era mais complicado, e cada um fez vários cartões a serem entregues aos amigos do dia a dia e outros para serem encaminhados a suas famílias pelo correio. Foi uma celebração linda.

Possibilidades de trabalho no Natal

Um “efeito colateral” na vida das pessoas em situação de rua na época de Natal é a possibilidade de fazer pequenos “bicos” de trabalho.

Muita gente vem ao centro da cidade fazer compras e precisa de braços fortes para ajudar a carregar os presentes que vai levar para seus queridos.

Um amigo muito querido, que conheci em situação de rua, escrevia sobre esse tipo de trabalho contando de um dia em que estava na Praça da Sé e “tentou a sorte”, combinando levar algumas malas até o Metrô. A partir dessa situação, Elzo escreve:

“Peguei uma das malas e a desgraçada parecia que continua chumbo. Coloquei nas costas, ele pegou a outra e lá fomos nós. Acompanhei-o até a Plataforma do trem. Enquanto aguardávamos o trem, ele tirou  a carteira e me deu trinta cruzeiros, dez a mais do que havia prometido. O trem encostou, ele entrou, agradeceu-me e eu fui embora. Voltei para a praça.

No caminho de volta senti uma sensação estranha; sentia-me quase envergonhado de haver cobrado dinheiro simplesmente por ter ajudado uma pessoa. Mas, que diabo! Eu estava sem um puto no bolso; precisava comer, beber, fumar… E, de mais a mais, não fui eu que fiz o preço, nem pedi nada. Foi ele que ofereceu, e estou aqui com a consciência intranquila.

Para os homens ‘práticos’, este pensamento pode parecer por demais ingênuo e até ridículo. Mas, homens práticos não tem nada a dizer à humanidade e o mundo só será melhor quando os homens não tiverem nada de parecerem ingênuos e ridículo. Mas muita água passará por baixo da ponte antes que isso aconteça.”[5]

 

Desafios para este próximo Natal

Deixei meus pensamentos rolarem soltos e não sei se o que escrevi diz alguma coisa a você que me está lendo.

Você concorde ou não com o que estou colocando, quero te convidar a aceitar um novo desafio na sua vida neste final de 2014.

Perto de sua casa e de seu trabalho, garantidamente, há pessoas em situação de rua. Crianças, adolescentes, adultos ou idosos; negros ou brancos; do sexo feminino ou masculino; muito caídos ou com algum ânimo na busca da sobrevivência; alcoolizados, drogados ou lúcidos…

O que te proponho é que procure conhecer como é essa realidade. Quem são estas pessoas? Como sobrevivem?  Que serviços públicos acessam?

Num segundo movimento, olhe para sua vida. Que tipo de trabalho você faz? A que empresa/organização você está ligado?

Esta empresa/organização tem atuação social?  Qual a possibilidade de ser implementado uma proposta de qualificação profissional voltada para este setor da economia?  Existem nichos de trabalho não explorados por esta empresa/organização mas que poderiam gerar projetos sociais?

Pense em tudo isso e veja se é possível iniciar uma ação de solidariedade.

Feliz Natal!



 

 

[2] A Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, também conhecida como Campanha do Betinho, surgiu em 1993 e propunha ações em três níveis: estrutural (reforma agrária), política (geração de trabalho) e emergencial (distribuição de alimentos para que as pessoas pudessem aguardar resultados dos outros níveis.

[3] Decreto 7053/2009 cria a Política Nacional para População de Rua.

[4] A Dimensão Espiritual na vida das pessoas em situação de rua – que pode ser encontrado neste mesmo Blog.

[5] MATTOS, Elzo Pedra – HOTEL MARQUISE, manuscrito, 1994.


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