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PÁSCOA E O DESEJO DE VIDA NOVA DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
março 31st, 2014 by Magdalves

Muitas pessoas “festejam”  a Páscoa, considerando-a um tempo de descanso como se fossem miniférias e onde podem se regalar com comidas gostosas e aproveitar para consumir quantidades enormes de chocolate.

O  comércio enche nossos olhos e ativa nossa gula e nos leva a querer aqueles ovos enormes e gostosos que a gente vê nas lojas.

Na verdade, para quem tem fé em Jesus Cristo, a “celebração” da Páscoa é muito mais do que isso. Celebra-se a renovação, a vida nova e a passagem da situação de escravidão para a liberdade. Na verdade, não se pode celebrar a Páscoa descolada da conversão enfatizada no tempo de quaresma.

Em termos de memória histórica – a Igreja celebra a saída do povo hebreu do Egito, o êxodo havido durante o reinado de Ramsés II. Os primeiros rituais que encontramos ainda no Velho Testamento é um alerta para que não esqueçamos o que nossos ancestrais viveram.

Jesus celebrava com seus discípulos naquele momento que conhecemos como Santa Ceia e que antecedeu a sua prisão, tortura e morte. A partir de então, a Igreja Cristão resignificou este celebrar e a passagem passou a ser a de Jesus que ressurgiu dos mortos.

A atmosfera da Páscoa é de renovação, vida nova, com grandes expectativas e esperanças de uma vida nova, enquanto o estado de ânimo que perpassa a quaresma é o do sofrimento, da conversão e da busca de revisão de vida que nos faria pessoas melhores.

Na quaresma, somos convidados a mudar de vida, a abrir mão daquilo que é supérfluo, a perdoar a quem nos magoou e a corrigir as coisas erradas que fizemos no ano que passou.

O Significado deste tempo para a População de Rua

 

As folhas falam de um Deus superior,

Deus, nosso Senhor,

A terra formou enfeitada.

Só posso deixar de acreditar

No meu Deus superior,

Se na vida eu encontrar o arquiteto da flor.”[1](MOTA, 1987)

Num outro artigo que postei no final de 2013, apontei a necessidade de atentarmos para a expressão da religiosidade das pessoas em situação de rua.

Um dos trabalhos pioneiros com estas pessoas em situação de rua, realizado em São Paulo, era impulsionado pela fé de Oblatas Beneditinas que criaram a Organização Auxílio Fraterno que, mais do que distribuir coisas, dialogava com estes homens e mulheres e colhia com eles todo um modo de vida que, até então era desconhecido.

“Existe um povo que está esmagado

Que carrega seus poucos pertences na sacola

Que anda com suas famílias nos trens, se arrastando

Pelos viadutos e pelas ruas.

É gente sem direitos

Sempre fiscalizada

Condenada a não ter nada

Sem nome,

Que perdeu sua raiz cultural

Que não conhece sua história.

São brasileiros sem pátria

Estrangeiros em sua própria terra”[2].

 

É a partir da busca de um espaço para expressar sua fé que estas pessoas começam a se encontrar e trocar experiências da vida nas ruas, ao mesmo tempo em que falam de casa e de uma espiritualidade que ali começou a ser construída.

SILVA, aponta que “os pobres leem a Bíblia por co-naturalidade. Espontaneamente se identificam e estão mais abertos á Palavra encarnada de Deus. Quando os pobres leem a Bíblia a partir de seu lugar social de oprimido, então Deus aparece como aquele que tem a promessa da libertação para o aqui e agora da história.”[3]

Responsáveis por uma publicação voltada para fiéis da Igreja Católica solicitaram a um grupo do qual eu fazia parte que escrevêssemos sobre o modo do Povo de Rua ler a Biblia. Para produzir este material, fomos até o grupo que se reunia sempre na Praça Princesa Isabel e propusemos uma atividade que se iniciou com um filmes, a partir do qual foi perguntado a eles “e Deus nisso?” Os depoimentos foram riquíssimos e nós colhemos alguns depoimentos preciosos.

Inácio, que hoje já é falecido, disse:

“eu vim de um mundo onde plantava e colhida e aqui em São Paulo vejo muita perversidade. Aqui é ilusão. Perdi um lado da vida. Tenho vergonha hoje de chegar em casa. Pra mim vai ser uma derrota chegar lá desse jeito. Minha mãe é uma pessoa humilde e eu nessa situação não tenho coragem de pedir nada pra ela. Nesta noite, eu e Maria dormimos molhados de chuva na praça. Alguém me deu um jornal. Que Deus o abençoe”.

 

A maioria das pessoas em situação de rua se identifica mais com a quaresma do que com a Páscoa, na medida em que é o sofrimento que está presente em seu dia a dia.

No seu jeito simples, Elias, outro depoente já falecido, dizia:

“Nosso pai lutou por nós e depois foi crucificado. E ainda foi chamado de ladrão. Hoje nós estamos sofrendo na rua e a polícia batendo em nós como lá em Belém.”

 

Em sua simplicidade, pessoas em situação de rua reafirmam sua fé no “nazareno”, lembrando que ele pode estar na pessoa de  cada um de nós e que é a fé nele que nos leva a perdoar a quem nos fez mal. Por outro lado, entendem que Deus vai perdoar seus deslizes já que foram feitos em nome da sobrevivência.

O grupo caminhava pelas ruas do centro, orando e cantando sua fé e passava ao lado de outros habitantes da cidade que se espantavam com aquele espetáculo insólito.

Caminhava-se um tanto e havia paradas para leituras com denúncias do sofrimento que é imposto às pessoas em situação de rua como se fossem as estações da via sacra. incluíam Os nomes dos companheiros mortos eram lembrados em cartazes  e as estações para celebrar a via sacra eram “paradas”  para denunciar situações de violência ocorridas com eles.

Uma pessoa em situação de rua carregava a cruz que marcava o início da caminhada, e  era a maior honra ser escolhido para “carregar a cruz”.

Terminada a caminhada, um encontro para a partilha do alimento e a Páscoa estava celebrada.

Na expressão de muitas destas pessoas em situação de rua, podemos encontrar este desejo de vida nova que é celebrado na Páscoa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ALVES, Washington Lair Urbano e outros – “A Bíblia acontecendo no meio da rua”, em OS MARGINALIZADOS LEEM A BIBLIA, MG, CEBI, 1984 (ano 2, nº 4)

CASTELVECCHI, G. (nenuca), SOMOS UM POVO QUE QUER VIVER,  Paulinas, 1982

MOTA, Maria Elisabete Lima, DECLARO QUE ESTOU EM TORMENTO,RJ, Espaço e Tempo, 1987.

SILVA, José Roberval Freire da – A IGREJA DOS EXCLUÍDOS: VIDA E MORTE DO POVO QUE MORA NA RUA, Editora FTD, 1989.



[1] Elisabete Mota, conhecida como “poetiza da sarjeta”  viveu na rua, teve três filhas muito amadas e pelas quais lutou muito.

[2] CASTELVECCHI, G. (nenuca), SOMOS UM POVO QUE QUER VIVER,  Paulinas, 1982, pg. 11.

[3] SILVA, José Roberval Freire da – A IGREJA DOS EXCLUÍDOS: VIDA E MORTE DO POVO QUE MORA NA RUA, Editora FTD, 1989. Pg. 65


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