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APRENDER E ENSINAR COM JOGOS
janeiro 30th, 2014 by Magdalves

“Nada podes ensinar a um homem. Podes apenas ajudá-lo a descobrir coisas dentro dele”. (Galileu Galilei, 1698)

Muitos especialistas em educação chamam atenção para a necessidade de refletirmos sobre o binômio ensinar x aprender, entendendo que são faces da mesma moeda.

O aprender objetiva uma mudança qualitativa no interior do ser humano, de modo a provocar uma mudança de conduta em relação a algo ou alguma coisa.

Nessa perspectiva, precisamos mais de facilitadores e provocadores do que de sábios que se coloquem como “donos da verdade”.

Quando a proposta é de aprendizado a partir do diálogo e de jogos facilitadores deste diálogo, não a referência não são “treinamentos mecânicos” mas processos de capacitação voltados para o trato consigo mesmo e com questões sociais.

O primeiro fator a considerar é que todo educando tem uma vivência anterior, e enriquece muito o processo que ela for incorporada na “nova” aprendizagem. Por outro lado, no trato com o social são fundamentais a motivação e o compromisso com aquele objetivo, e nada é mais motivador do que saber-se ouvido, podendo opinar e a certeza de que somos parte da construção que está sendo feita.

O facilitador deve informar os parâmetros definidos pelas Políticas Sociais, afinal, há definições legais que precisam ser respeitadas, ao menos até que se consiga questiona-las e mudá-las. A apresentação de experiências exitosas pode dar sinais que podem ou não apontar para novos caminhos a serem construídos.

Especialistas em educação apontam que a vontade de aprender é uma característica essencial do homem que, segundo Paulo Freire, é um ser inconcluso vivendo permanentemente num movimento de procura.

O horizonte devem ser os sonhos e as  utopias, não como pensamentos abstratos, mas enquanto metas a serem buscadas. E o ponto de partida deve sempre ser o território vivido pelo educando. Em outra publicação, Paulo Freire dizia que antes de ser brasileiro, era pernambucano, era recifense e que sua vivência primeira se dera num quintal no bairro da Casa Amarela.

Vivi algumas experiências em que um grupo de educandos não havia “optado” por aprender, mas isso lhes teria sido imposto em virtude do trabalho que executavam. Vinham, como diriam os antigos “como cabritinhos que se arrasta até a água” e este estar apenas de corpo presente impede a apreensão de qualquer coisa. Nestes casos, deve ser maior ainda o empenho em conquistar estas pessoas para que se abram à aprendizagem.

O aprendizado não é um processo de mão única. Na Pedagogia da Autonomia (1997:25), Paulo Freire diz:

 “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”.

Cada homem e cada mulher nasceu inclinado ou inclinada a aprender: andar, falar e se comportar desta ou daquela maneira. O modo como isso deveria ser feito lhes foi ensinado, a partir de estímulos, prêmios e castigos. Nas situações em que um ser humano muda drasticamente de ambiente, pode ter a necessidade de mudar de conduta e reaprender a conviver no novo meio social.

Para instrumentar este aprendizado, deve-se aguçar a curiosidade trabalhando para que ela passe de uma curiosidade ingênua a uma construção crítica da realidade vivida.

Aprender com jogos

 

O aprendizado a partir de jogos até pode dar a impressão de um brincar sem compromisso, mas é um processo de investimento no homem e na mulher, num processo de troca e de produção de conhecimento. Sua finalidade é a aprendizagem com incentivo à autonomia.

Se pensarmos neste processo como etapas, poderíamos dizer que a primeira é a sensibilização que ocorre a partir da reflexão da realidade. Conhecendo a realidade, a segunda etapa nos leva a nos comprometermos com a mudança: mudança na realidade e mudança no nosso modo de ser. Por fim,este aprendizado deve instrumentalizar estas pessoas para que possam aplicar o aprendido naquela situação discutida e em outras mais.

Somente ocorre a mudança de comportamento quando eu conheço o assunto (eu sei), percebo a possibilidade de gerar mudança (eu quero) e assumo os riscos de experimentar um novo modo de ser (eu faço).

Ensinar a partir de jogos, implica num planejamento cuidadoso e da definição do objetivo específico para cada momento a ser vivenciado com os educandos. O condutor do processo, aquele facilitador de que falávamos acima, precisa ter clareza do seu papel, sendo flexível se assim o grupo propuser mas tendo clareza da sua finalidade para aquele dia.

Lembro-me de uma “saia justa” que vivemos ao trazer uma especialista no tema que seria tratado e que propôs uma dinâmica que foi parcialmente rejeitada pelo grupo.  Eles propunham uma modificação que, grosso modo, não alteraria o conjunto da reflexão, mas ela se mostrou inflexível e preferiu abandonar a atividade antes do final do que ceder à demanda do grupo, dizendo que a especialista era ela e que com isso ela é quem sabia o que deveria ser feito.

Profissionais encarregados da condução de discussões com grupos devem ser facilitadores do diálogo e ter a segurança de que alterações podem ser feitas sem que isso tire sua ‘autoridade’.

Lembro-me de um outro trabalho, este com crianças e adolescentes, em que os pequenos opinavam e aceitavam ou não o que era proposto e isso era tratado com muita tranquilidade.  A resposta que era dada era a seguinte:  “legal, esta dinâmica vocês não querem. Nosso objetivo é tal, e então temos que definir outra forma de fazer isso… e, geralmente, eles propunham dinâmicas muito interessantes e viáveis.

Pode-se pensar que cada momento de capacitação tem um objetivo específico, de certa forma temático, que deve ser conduzido em momentos ou etapas: (1) resgate da vivência dos educandos; (2) reflexão do conjunto de informações trazidas; (3) exposição dialogada da proposta a ser implementada ou em implementação; (4) link com o próximo momento e avaliação do dia.

PRIMEIRO MOMENTO: A VIVÊNCIA TRAZIDA

Cada um dos temas utilizados em capacitação tem por base algum aspecto da realidade, e o que propomos aqui é que esta realidade seja trazida para a reflexão do grupo.

No primeiro dia de encontro com os educandos, sabe-se que eles não coletaram nenhum tipo de dado da realidade para trazer para a reflexão, mas eles vivenciam esta mesma realidade. Assim, se você pensar em estratégias, pode fazer com que falem de suas leituras de mundo. Veja alguns exemplos:

Pedir que cada um deles mostre aos outros as fotografias que traz em sua carteira. A conversa pode versar em torno do significado das fotos e das pessoas representadas. É um excelente quebra-gelo.  Atenção, não se sinta desapontada se alguma pessoa disser que não tem fotos na carteira. Ao invés disso, peça que ela conte o porque de ter optado por não trazê-las consigo.

Outra proposta, envolvendo mais o profissional, e que também pode ser usada no primeiro dia, é pedir que cada pessoa escolha um objeto que traz consigo (chave, caneta, carteira de dinheiro, etc..). Daí, pode convidar estes “objetos” a se manifestarem em relação ao trabalho que é feito. Você pode ouvir frases como “a dona da caneta gosta do trabalho que faz, mas às vezes tem medo”. Ou, “o dono do chaveiro conhece bem a realidade das pessoas em situação de rua porque já viveu assim”.  Dizem os especialistas que ao se utilizar de ‘objetos intermediários’  as pessoas tem mais facilidade em se colocar.

Nos encontros subsequentes, você pode dar tarefas entre um encontro e outro que tanto podem ser de observação pessoal como de entrevistas com pessoas.

SEGUNDO MOMENTO: A DISCUSSÃO DA REALIDADE

Colhida a realidade (sugestões acima), ela pode ser refletida pelo conjunto, e é nesta hora que você deve trazer elementos técnicos,normas colocadas em lei para que se possa cotejar o que é proposto em termos macro com aquilo que acontece no cotidiano.

Sua postura deve ser de tranquilidade e aceitação do outro, sendo  necessário que você esteja aberta para posicionamentos diferentes do seu, para opiniões divergentes e até mesmo para propostas aparentemente impossíveis de serem aplicadas.

Quando eu era criança, minha avó dizia que “razão chega para todos”, e nos ensinou que, se a gente se colocar na posição em que o outro está, podemos concordar com o que ele diz, ainda que seja o inverso do que pensamos, olhando o mundo da nossa ótica. Há que se ter respeito pela diferença na compreensão da leitura dos fatos.

Eu tenho muita dificuldade para lidar com aquelas pessoas que argumentam assim: “isso já foi feito, há dez anos, e não deu certo – não adianta insistir”; ou “não adianta termos esta proposta, as pessoas não vão aderir, elas não querem nada!”

Esta postura fatalista de que a realidade está dada e que nada podemos fazer pode levar ao imobilismo, o que exige de nós um esforço no sentido de ajudarmos esta pessoa a mudar a leitura que faz.

TERCEIRO MOMENTO: A EXPOSIÇÃO DA PROPOSTA

Um processo de capacitação como o que propomos implica em discussão entre os educandos e o facilitador que pode apontar algumas ações a serem feitas, mas também pode chegar a impasses pela diferença de leitura que cada um faz.

Muitas vezes, você tem num mesmo grupo de capacitação pessoas com funções diversas na execução da política, e é necessário uma conversa anterior com o gestor para que não haja por parte da estrutura deles nenhuma barreira que impeça que cada pessoa coloque seu modo de ver o trabalho que vem sendo feito.

QUARTO MOMENTO: PREPARA O PRÓXIMO MOMENTO

Se queremos sempre partir da realidade, podemos aguçar a curiosidade dos educandos para que observem algum aspecto do seu trabalho, dialogando com pessoas (que podem até ser entrevistadas): pode-se pensar numa espécie de “lição de casa”…

É fundamental, ouvir os educandos sobre a dinâmica que foi aplicada. Não basta que a gente tenha gostado, precisamos estar ouvindo-os o tempo todo se queremos um processo de aprendizagem dinâmico de fato.

Uma experiência que me faz sorrir

A primeira vez que refleti sobre jogos, buscando construir a partir deles um ambiente de cooperação foi, na década de 70, quando trabalhei numa Igreja onde cuidava de crianças e adolescentes que participavam da catequese.

Encarregada de propor uma metodologia, minha primeira reação foi que as crianças não deveriam ter livros e cadernos e nem confundir o aprendizado da fé com as aulas na escola. Este foi o primeiro passo para a construção de uma proposta a partir de dinâmicas e jogos.

Os temas a serem aprofundados eram trabalhados a partir de cinco tópicos e preparados com o grupo de catequistas numa reflexão que embasava a discussão daquele dia.

A realidade trazida abria espaço para que crianças e jovens trouxessem o resultado de conversas com pais, irmãos, amigos e vizinhos a partir de questões. Num dia em que a reflexão era sobre a verdade, foi proposto que as crianças socializassem como era o espaço de brincar em seus prédios, como era o relacionamento entre adultos e crianças e como os idosos eram tratados.

A palavra proclamada e explicada era o momento da catequista colocar o que o Evangelho propõe em relação a mentiras e verdades. Importante salientar a diferença entre pequenas mentiras e aquelas mentiras que prejudicam e fazem mal ao outro.

Para a memorização, e há temas que pedem isso, sempre havia uma musiquinha: era a palavra cantada.

Melodias das cantigas de roda, com letras adaptadas ao conteúdo a ser memorizado.  Foi riquíssimo o processo de construção de músicas com os adolescentes que, ao se descobrirem capazes passaram a inventar letras de música para as apresentações de atividades de ciências em suas escolas.

O ponto central, deste processo, era a palavra brincada. Várias foram as brincadeiras que foram propostas visando mexer com o comportamento das crianças.

Lembro-me com carinho e saudades de muitas das brincadeiras,e quero socializar uma delas com vocês.  Usando pequenas réguas de madeira e fita crepe, os dois braços de cada uma das crianças foi imobilizado, não tendo mais a possibilidade de dobra na altura do cotovelo. Várias ordens foram dadas e cumpridas, andar, parar, sentar, levantar, falar, cantar e tudo parecia muito simples. Surge, então, um cesto de bombons a serem desembrulhados e comidos. Para pegar o bombom e desembrulhá-lo, os braços duros não atrapalharam, mas como fazê-lo chegar na minha boca se o braço não dobrava?  Depois de um tempo, alguém descobriu que não conseguia alcançar a própria boca, mas podia alcançar a boca de um dos amigos, e os bombons começaram a ser comidos ainda que os braços continuassem duros.

A reflexão que se seguiu centrava ao redor da seguinte questão: quando eu tenho um bombom, porque a boca da qual me lembro é sempre a minha e não a do outro… Aprenderam brincando. O final do dia era a palavra é compromisso e oração.

Jogos cooperativos como suporte para capacitação

 

Desde a década de 80, educadores populares tem se debruçado ao reflexão sobre atividades lúdicas como suporte para educação e organização de movimentos sociais.

Brown (1994:5) aponta que “a cultura popular latino-americana se expressa e reproduz fundamentalmente através do ‘hemisfério direito’, cujas características são a não-verbalidade, a simultaneidade, a intuição, a concretização, a síntese e a espacialidade”. Este foi o ponto de partida para a revisão de jogos e atividades lúdicas usados como expressão e aprendizagem nos meios populares.

Esta revisão buscou resgatar o “brincar” que, geralmente, é abandonado por homens e mulheres ao se sentirem adultos. O riso e a brincadeira não são considerados coisa de gente séria. Aqui a proposta é invertermos esta lógica. “O povo gosta de rir; ele precisa rir. Rir para relaxar e para resistir”.(Brown, 1994:11)

Para a construção de jogos cooperativos, temos dois caminhos, ou criamos novos jogos, ou transformamos jogos competitivos em jogos cooperativos. Sabe aquele velho “jogo das cadeiras”, que se começa com uma cadeira a menos do que o número de participantes e vai se tirando uma cadeira e um participante por rodada?  Pois é, pensando em cooperação, pode-se jogar  este mesmo jogo, eliminando-se uma cadeira por jogada, mas mantendo no jogo todos os participantes… é hilário o que as pessoas fazem para acolher seus amigos e no final temos uma cadeira para 10 pessoas e todas sentadas umas em cima das outras. É divertido e balança nosso modo competitivo de viver, mostrando que há caminhos.

Experimente construir o seu jeito de ensinar com jogos. Tudo o que você precisa é estar atento à realidade, aprendendo com ela e fuçar o baú de lembranças da infância. E, é fundamental que você se divirta muito com isso.


REFERÊNCIAS

Brown, Guillermo – JOGOS COOPERATIVOS, TEORIA E PRÁTICA, RS, Sinodal, 2004 – 5ª. Edição.

Freire, Paulo – PEDAGOGIA DA AUTONOMIA, SP, Paz e Terra, 1997.


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