SIDEBAR
»
S
I
D
E
B
A
R
«
VOCÊ ACREDITA QUE A POPRUA CONSEGUE SAIR DAS RUAS?
janeiro 15th, 2014 by Magdalves

Trabalho há quase 40 anos com pessoas em situação de rua. A partir do aprendizado destes anos, muitas vezes me envolvo em processos de capacitação e formação de profissionais que atuam ou pretendem atuar com estas pessoas, seja a partir de ONGs, ou a partir de Prefeituras.

No roteiro, a discussão de quem são estas pessoas, que demandas representam, conquistas e dificuldades de projetos implantados em diversas realidades.

No geral, dou muita ênfase à questão da postura profissional por acreditar que somente teremos alguma chance de dar suporte a estas pessoas se construirmos com ela uma relação horizontal, se entendermos que é no cenário construído por suas vivências que vamos poder encontrar caminhos de retorno à vida na sociedade e ao mercado de trabalho.

Para fazer um bom trabalho, o profissional precisa conhecer os mecanismos de que dispõe: abrigos, espaços de qualificação profissional e encaminhamento a trabalho, atendimento relativo a saúde básica e dependência química, e outros. Mas, esta é apenas a primeira parte. A principal característica do bom profissional é a relação que ele estabelece com este homem ou esta mulher, visando conhecer sua história de vida para em conjunto com ele/ela buscar caminhos que respondam às suas demandas.

Uma das maiores dificuldades, a meu ver, é quando este profissional está desanimado, descrente no que se refere às possibilidades de sucesso da empreitada que precisa audácia e confiança para chegar a bom termo.

Muitas pessoas, atuando há muitos anos com este segmento, cumprem mecanicamente o que lhes foi ordenado, mas não colocam neste fazer o seu coração. “Já vi esse filme”, e “eles não vão aderir” são frases ouvidas quando se reflete sobre os mecanismos a implementar.

Anos atrás, e bota ano nisso, alguns companheiros e eu estávamos preparando uma festa de Natal numa praça de São Paulo.  Dias antes, começáramos a discutir a preparação com o grupo que, inclusive cuidou da limpeza da área e comprometeu-se a ficar de vigília para que ninguém o sujasse.

A proposta era um almoço construído conjuntamente e no próprio local. No dia 24 de dezembro, o dia amanheceu debaixo de chuva. “Que droga!”, dissemos. “O almoço vai dançar”. “Ninguém vai aparecer”.

Para não dizer que a gente tinha deixado de comparecer, fomos pra praça  e ficamos sentados dentro do carro, olhando aquela praça vazia… Em frente ao local previsto para o almoço, havia um ônibus. Quando este ônibus saiu, tivemos uma surpresa: havia quinze pessoas encolhidinhas embaixo de uma marquise estreita, a fogueira estava acesa e fora coberta por um encerado daqueles usados em caminhões…

Por sorte, eles não perceberam a vergonha que passamos por termos sido tão descrentes. A festa foi ótima: o carinho e as trocas de cartão de natal feitas por  eles criaram o clima e, apesar de ensopados pela água da chuva,  ficamos todos muito felizes. Guardo estas fotos até hoje.

A atitude de se alimentar das pequenas vitórias buscando nelas o fôlego para continuar na luta não é algo que se aprenda em cursos. Buscar mudanças no modo de reagir, em especial no que se refere à descrença no poder de transformação do outro além de necessário é um processo que é diferente para cada pessoa.

Outro aprendizado que precisamos consolidar é que mesmo sendo nosso papel dar suporte para que estas pessoas mudem sua situação de vida, o sucesso ou o fracasso de cada tentativa não é nosso e nem deveria afetar a avaliação que fazemos do nosso trabalho.

Uma pessoa em situação de rua que consegue mudar sua vida, voltando ao mundo do trabalho deve ser algo aplaudido e apoiado, mas é uma vitória dele, um sucesso que não pode ser considerado “um bem que fizemos”.  Quando consideramos que o mérito é nosso, nos damos o direito de cobrar dele as caídas como se fosse uma ofensa a nós: “eu te ajudei a sair daquela situação e você volta a beber ou a tomar drogas”  é uma frase infeliz e que não deve ser nem pensada.

Conheci pessoas que viveram anos em montanhas russas, saindo das ruas e voltando em situação ainda pior… alguns deles saíram de fato, outros não conseguiram… e cada uma destas histórias traz ensinamentos para nosso “fazer profissional”.

Voltar ao mundo do trabalho é uma questão complexa, pois depois de um tempo em situação de rua esta pessoa está frágil e despreparada para voltar a a exercer funções que dominava antes do ocorrido que o levou a ficar em situação de rua.

Lembro-me de uma pessoa, extremamente querida, que precisou deixar de lado a memória do status profissional que tinha anteriormente, e aceitar qualquer tipo de trabalho. Este homem levou mais de cinco anos até voltar para a “sua profissão”  como contava feliz da vida.

Outro exemplo de persistência entrava e saia das ruas, chegava a ficar irreconhecível de tanto beber, e lutava e saia, e depois caia de novo. Até que, a partir de um apoio consistente, começou a trabalhar de forma estável, casou-se, teve uma filha e, o topo da realização se deu quando comprou uma casa para si e sua família. Depois de tantos anos, o sucesso perseguido chegara.

O sucesso deles nos faz bem. Os momentos de recaída nos deixam mal e chegamos a verbalizar que não vale a pena, que a grande maioria não consegue sair desta vida.

Isso me leva a uma fábula que conta que uma pessoa estava na praia. O mar atirava estrelas do mar na areia onde elas morreriam, e esta pessoa pegava cuidadosamente a estrela e a atirava, de volta, no mar.  Assistindo a isso, uma outra pessoa expressou sua descrença dizendo: você não percebe que não vai dar conta?  Para cada estrela que você devolve para o mar, muitas outras são jogadas na areia?  Isso que você faz não resolve!  E a outra pessoa, olhou bem para a estrela que tinha nas mãos, a atirou no mar e respondeu: para essa aqui, resolveu.

Eu fico pensando que temos que ter esse tipo de lógica.  Nós tentamos ajudar a muitos e ficamos na torcida para que aquilo que fazemos resolva para alguns deles.

Neste artigo, estarei refletindo sobre a descrença enquanto postura profissional e pretendo traçar um paralelo com ações de enfrentamento a crises a partir de um enfoque de saúde mental.

A situação de rua como crise

Crises são momentos de desequilíbrio emocional gerados pela incapacidade em dar conta do retorno à estabilidade em nossas vidas. Na situação de rua, estes desequilíbrios ocorrem porque a lógica da nossa sociedade diz que,quem não vence na vida é um fracassado, e que quem é bom vence na vida.

Além de não estar dando conta do que a sociedade exige de nós, ouvir o tempo todo que a culpa disso é nossa,  atrapalha esta pessoa na sua tentativa de se reorganizar.

O “amargo na boca” é seguido da percepção de que sua integridade física e emocional está ameaçada. Todos nós já passamos por momentos de desemprego e ouvimos os “nãos”  que nos fizeram sentir que não somos nada, não servimos para coisa alguma ao sermos rejeitados e diminuídos.

O cotidiano é alterado por estas negativas, e nos sentimos reféns destes acontecimentos.

Uma das primeiras consequências é o medo: medo de não ter como suprir a sobrevivência pessoal e familiar, medo e vergonha de estar desempregado.

Pouco a pouco, nos sentimos “marcados”. Nos ambientes sociais onde antes circulávamos passamos a ser vistos como uma outra categoria de gente. Até os amigos nos viram as costas, e a família sugere que a gente viaje para buscar trabalho em algum lugar para que nossa presença incômoda não envergonhe nossa parentela.

Se perto dos nossos entes queridos estava difícil, longe deles esta situação fica ainda mais árida. Aprendemos a primeira lição: não devemos voltar antes de ter “vencido na vida”.

Neste furacão, as reações emocionais nos viram do avesso e começamos a buscar o esquecimento no álcool e nas drogas.

O retorno em etapas

Os chineses dizem que crises são momentos de perigo, mas são também momentos em que podemos construir novas oportunidades em nossa vida.

Entendemos que cada indivíduo é único, cada história é uma história, mas esquematicamente podemos pensar em algumas etapas na busca deste caminho de volta.

Sem dúvida, o primeiro momento gira em torno do domínio da situação. Quando a crise se instala, ficamos como o touro – vendo tudo vermelho, e sem saber como reagir. Poucas pessoas conseguem fazer uma leitura racional deste momento em que a desordem se instala.

Tudo aquilo que fiz até hoje, já não serve mais. Sem uma aparência agradável aos olhos e sem a segurança ao explicar nosso potencial, a busca de novos caminhos é dificultada.

Num primeiro momento, quero um emprego semelhante ao que tinha antes. Afinal, se tenho capacidade para isso, porque devo aceitar uma “posição menor”? E o mercado me recusa porque passei da idade, porque estou mal vestido, porque não tenho como dar referências de moradia ou de amigos. A sensação é de que estamos dando murros em ponta de faca.

Nossas reações se alternam entre continuar a lutar ou ceder ao caos:  pouco a pouco vamos nos convencendo que não somos nada. E isso dói.

Como não poderia deixar de ser, viver esta situação causa uma série de conflitos internos que precisam ser refletidos e elaborados.

Numa pesquisa com “separadores de material reciclável”  ouvi de algumas mulheres a dificuldade que foi aceitar “trabalhar com lixo”.  O que os outros vão dizer, como posso cair tão baixo?  Mas, se não aceitar este trabalho, não tenho como dar de comer a meus filhos… e garantir a sobrevivência é mais forte do que tudo o mais.  Aceita-se uma situação menor e começa-se a almejar garantir o futuro dos filhos.

É a partir da reflexão e elaboração dos conflitos que a pessoa pode voltar a ter uma leitura correta da realidade, redimensionando o ocorrido e então conseguindo visualizar a direção em que deve buscar caminhos para superação da situação em que se encontra.

O aprendizado necessário para “partir para outra” se baseia na situação vivida e nos conflitos existentes e somente ocorre quando o próprio indivíduo identifica as saídas possíveis.

O papel do profissional no suporte

O profissional social que se compromete com o suporte a estas pessoas em situação de rua precisa ser um trabalhador seguro de seu papel, atuando de forma ativa e colocando-se abertamente na análise do ocorrido para que seu modo de ser seja um dos elementos na busca do objetivo pretendido.

No entanto, ele deve entender que deve ser flexível e que a resposta para a situação se encontra na pessoa em situação de rua com quem dialoga.

A maior dificuldade é conseguir se conter.  Olhando de fora, parece tão simples solucionar aquela questão, mas dizer isso e apontar o caminho a seguir nem  é pedagógico, nem funciona.  Uma boa estratégia é levar a pessoa a encontrar os caminhos a partir de um dialogo  conduzido a partir de questões. Isso requer paciência e respeito ao tempo do outro, pois algumas vezes a “ficha custa a cair”.

Didaticamente podemos identificar cinco fases neste processo de suporte, mas não se trata de etapas sequentes e sim de situações que se interligam e vão se configurando numa figura semelhante a uma mandala.

O primeiro momento, garantidamente, é o contato. O profissional precisa estar aberto ao diálogo e indicar àquela pessoa em situação de rua que uma de suas tarefas é atender a eles/elas, e que isso é uma relação profissional.

A partir das informações fornecidas – o que nem sempre ocorre no primeiro contato – este profissional vai dialogando com ele/ela e procurando entender o problema colocado. Esta análise deve ir sendo explicitada e o profissional deve atentar para o fato desta pessoa em situação de rua concordar ou não com a sua leitura.

É fundamental o registro de cada abordagem destas para que seja possível identificar se há coerência entre as informações dadas.  O feeling do profissional vai permitindo perceber se aquilo que ouve é real ou fruto da fantasia. Muitas vezes, ou por não confiar no profissional, ou por ter recebido informações do que “deve ser dito”, a pessoa não se coloca concretamente.

Tendo uma primeira visão do problema, o profissional pode e deve indicar os caminhos possíveis: abrigo, qualificação, encaminhamentos, etc., e consultar se há concordância quanto aos critérios exigidos. Por exemplo, para ser encaminhado à qualificação, será necessária assiduidade, não estar alcoolizado/drogado, etc..

Neste diálogo, pode-se estabelecer um cronograma de prioridades para se chegar ao objetivo pretendido. É como se profissional e pessoa em situação de rua fizessem um contrato que garante o comportamento esperado para que se encaminhe ações concretas.

Encaminhar para este ou aquele lugar não é o ponto final, na medida em que um trabalho consistente requer o acompanhamento, ou seja, é necessária a montagem de um mecanismo de referência e contrarreferência.

Considerações finais

Sintetizando, a primeira recomendação que faço é que o profissional precisa acreditar que vale a pena.  Se ele não consegue acreditar, precisa ser redirecionado para outro tipo de trabalho pois vai se frustrar a cada dia e seu trabalho não será bom nem para ele e nem para a pessoa em situação de rua que acessar ou for acessada pelo serviço.

O ponto central do trabalho tem que ser despertar a vontade de mudar. Não podemos ficar apenas num tratamento superficial em que a gente finge que dá apoio a estas pessoas e elas fingem que recebem apoio.

O profissional precisa entender de fato o significado do seu papel e atuar de modo a levar esta pessoa a resgatar pontos positivos de sua vivência anterior para ressignificá-la neste novo momento.

Os verbos que indicam a ação deste profissional devem sempre se referir a motivar, desafiar, despertar… pois ele deve estar junto com estas pessoas em situação de rua, lidando com o resgate da autoestima destas pessoas para que seja possível uma tomada de decisão no sentido da saída da situação de rua.

Para construir esta transformação é preciso antes que a pessoa se permita ser, que entenda que vai se reconstruir mas que isso vai ser feito tendo como base sua vivência anterior.


Leave a Reply

http://mmaconsultoria.com/?page_id=1279You must be logged in to post a comment.

»  Substance: WordPress   »  Style: Ahren Ahimsa