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COMUNICAR É PARTILHAR
dezembro 30th, 2013 by Magdalves

Todos os seres humanos, em especial aqueles que atuam no campo social, tem necessidade de se comunicar com outros profissionais da mesma área, de áreas correlatas e com o público ao qual destina suas ações.

A palavra comunicação, vem do latim – communicare – significando partilha, participação em algo e objetiva tornar comum alguma coisa.

É através deste meio que os seres humanos partilham entre si informações, o que torna o ato de comunicar uma atividade essencial para a vida em sociedade.

Muitas vezes, ouvimos dizer que informação é poder, e isso deveria nos levar a refletir sobre o modo como lidamos com as informações que temos. Quando eu era jovem, e isso faz bastante tempo, lembro-me de uma colocação, em tom de brincadeira, em que especialistas em computadores que faziam questão de falar numa linguagem cifrada, diziam: se complicado, só a gente entende, simplificar para que?

Muitas pessoas tem uma postura de retenção de informações, achando que isso mantém seu poder… se só eu sei o que o outro precisa, ele vai ter que recorrer a mim e eu terei um destaque que me faz parecer importante.

Nos dias de hoje, tem sido muito valorizada a disseminação das informações e, a cada momento, mais e mais pessoas vão sendo capacitadas para serem cada vez mais autônomas e livres.

Trabalhar com comunicação, ainda que seja uma obrigação de todos nós, não é uma tarefa simples. Dias atrás, lendo um texto sobre Poder, me deparei com uma colocação de um autor que escreve sobre neurolinguística e que comparava o trabalho em comunicação com o trabalho do chaveiro e dizia:

Já viu um mestre chaveiro trabalhar?  Parece um mágico. Ele mexe com a fechadura, ouve coisas que você não está ouvindo, vê coisas que você não está vendo, sente coisas que não está sentindo e,de algum modo, descobre a combinação certa para abrir o cofre”. (Anthoy)

Na comparação que fazia, este autor apontava a necessidade de “abrirmos a caixa forte da mente das pessoas” com as quais queremos nos comunicar, procurando ver o que não tinha visto antes, sentir o que não sentia antes, fazendo perguntas que não tinha perguntado ainda e que permitam conhecer melhor esta pessoa com quem a gente quer se comunicar.

Quando eu quero me comunicar, preciso conhecer este meu interlocutor, saber que linguagem utilizar, que gestos fazer e que imagem pretendo passar a esta pessoa a quem me dirijo.

Para que minha comunicação seja eficaz, preciso que meu interlocutor tenha clareza do papel que estou desempenhando, da autoridade de que estou investida. Além disso, este interlocutor tem que ter confiança naquilo que eu comunico, entendendo que temos objetivos semelhantes e que portanto podemos caminhar juntos na mesma direção.

FACETAS  DESTE COMUNICAR

O ato de comunicar está relacionado à realidade em que se vive.  Muito do que é comunicado tem um caráter descritivo e se baseia na linguagem coloquial daquele grupo.

Há descrições que são inquestionáveis como quando dizemos que está chovendo ou que um determinado objeto foi feito a partir de algum material. Meu PC tem 80 GB e 256 Mb RAM são informações que descrevem com precisão aquilo que queremos comunicar.

Há um ramo da filosofia que é nomeado como “filosofia da linguagem”  que leva a refletir que quando falamos fazemos mais do que descrever a realidade: nós agimos a partir desta mesma realidade. Qualquer que seja a língua da qual nos valemos, nosso comunicar pode ser classificado como um ato de afirmação, de declaração ou de pedido.

Rafael Echeverria, mestre maior em Ontologia da Linguagem, insiste muito na necessidade de nos determos sobre a linguagem humana e os atos linguísticos que permitem que nos comuniquemos com os outros. Dentre os atos linguísticos, Rafael nos fala em afirmações e declarações.

Afirmações

A reflexão que ele nos leva a fazer faz uma relação entre a palavra que dizemos e o mundo em que vivemos. Quando o “mundo conduz a palavra”, como diz ele, podemos dizer que fazemos afirmações. Estas afirmações são aquilo que, quando pequeninos, aprendemos a chamar de descrições.

Temos que ter cuidado com estas afirmações na medida em que as coisas não são as mesmas para todas as pessoas. Se dizemos que o uma flor é vermelha, temos que nos lembrar que pessoas daltônicas podem ver este mesmo céu numa tonalidade diferente.

  • Fazemos afirmações baseadas em consensos construídos desde sempre e com isso podemos dizer que um determinado móvel é uma mesa porque nos acostumamos a chamar de mesa o móvel que tem um tampo e pés e para o qual temos um tipo de utilidade.

Afirmamos aquilo que observamos, o que não quer dizer que vemos as coisas segundo um determinado ponto de vista. Outras pessoas podem ver esta mesma coisa por outro ângulo.

Outra reflexão a fazer é sobre a veracidade das afirmações. Sabemos que há afirmações falsas, como há afirmações que somente são verdadeiras em determinados contextos históricos.  Em determinado período de tempo, temos convenções que nos dizem o que é verdadeiro, mas que analisado em outro contexto pode não se manter.

Lembro-me, no meu tempo de criança, de uma senhora conhecida nossa que se atreveu a constituir um segundo casamento e era tida como “persona non grata”…situação que hoje mudou tanto que nem se cogita excluir alguém por ter um segundo casamento.

Por outro lado, temos afirmações que dependem de uma confirmação posterior. Exemplo disso são os prognósticos metereológicos: amanhã vai chover é uma afirmação que pode se confirmar ou não. E aqui há que se apontar a necessidade de cautela quando a afirmação se refere a um tempo futuro.

Além de verdadeiras e falsas, as afirmações podem ser relevantes e irrelevantes, segundo a relação que elas tem com nossas inquietudes.  Se amanhã vai fazer sol ou chover num país distante não posso entender que isso afeta o meu cotidiano. Agora, neste mesmo país, se houver uma tragédia com grandes proporções, isso pode me afetar apesar da distância.

Se trouxermos esta nossa reflexão para o trabalho social, não podemos deixar de mencionar que as afirmações que fazemos trazem em si um compromisso com a comunidade que nos escuta. E aí, eu tenho que ter muito cuidado com o tamanho de minhas pernas: o que posso, de fato, afirmar?

Afirmar é falar de um mundo existente e sempre se refere a fatos concretos. Posso dizer a uma comunidade que faremos uma festa de Natal se a decisão pela festa já está tomada por quem decide e os recursos garantem que isso será possível.

Declarações

Diferentemente do que apontamos ao falar de afirmações, quando declaramos alguma coisa, este nosso Declarar modifica o mundo ao nosso redor.

A informação do resultado de uma eleição, por exemplo, é uma Declaração que vai alterar o modo como as políticas vão passar a ser conduzidas na área de influência daquele eleito.

Quando um juiz declara que o acusado é inocente ou culpado, sua sentença modifica o mundo daquela pessoa e de tantas outras pessoas envolvidas com o ocorrido. E isso tanto pode ocorrer no âmbito criminal, como na esfera dos esportes… a anulação de um gol ou de uma partida de futebol altera resultados no campeonato que pode estar restrito ao local ou ter um alcance mais amplo.

No decorrer de nossa vida, fazemos muitas declarações, e elas podem ter pesos diferentes. Quando um casal chama os filhos e declara que vai se separar; quando um trabalhador chega em casa e declara que perdeu o emprego; quando um professor declara que um trabalho escolar recebeu nota dez… Cada declaração destas gera uma nova realidade.  O mundo destas pessoas precisa se rearticular a partir daquilo que foi declarado.

Precisamos estar investidos de poder para que a nossa declaração seja válida. Esta investidura tanto pode ser pela função que temos na sociedade – o juiz, o empregador, etc.- como pode estar garantido a  partir da força – o ladrão que me diz “entregue-me seu carro”  não apresenta documentos que dizem que ele tem este direito, mas aponta uma arma para nossa cabeça e entendemos que se não aceitarmos sua declaração podemos perder a vida.

Quando fazemos uma declaração, assumimos um compromisso com a sua validade e para mantermos nossa credibilidade devemos ter cuidado com a coerência entre nossas várias declarações.

Há algumas declarações que fazemos que independem do nosso papel social, mas estão baseadas na nossa autoridade pessoal: posso declarar isso ou aquilo tendo por base a minha dignidade humana.

Declaração de “não”. Esta é uma das mais importantes declarações que podemos fazer em nossa vida.

Vivemos em uma democracia e isso significa que todos temos o direito de escolher e de dizer sim ou não àquilo que nos é proposto. É muito triste vermos pessoas sendo forçadas a aceitar algo que não querem por receio de perderem o emprego, o seu lugar a família ou a aquilo que pensa ser a amizade de alguém que preza.

Nem sempre o não é manifestado como um simples não. Devemos reconhecer o não quando alguém nos diz “basta!”, não dá para continuar a aceitar isso. Mas, precisamos estar atentos quando esta negativa é menos enfática e alguém nos diz “não aceito isso porque não condiz com o meu modo de ser”. Dizer não é sempre colocar limites que devem ser respeitados.

Declaração de “sim”. Costumamos pensar que dizer não é mais importante do que dizer sim, mas quando digo sim, estou dizendo “aceito!”, estou assumindo um compromisso com alguém ou com alguma coisa. Mais adiante, vamos aprofundar esta declaração, quando estaremos refletindo sobre o terreno das promessas.

Declaração de “não sei”. É muito interessante observar que cada um de nós tem domínio sobre um determinado campo de conhecimento e desconhece um campo muito maior.

Sei o que sei. Tenho uma ideia razoável daquilo que não sei. E nem imagino a amplidão daquilo que nem sei que não sei.

Quando eu declaro “não sei!” estou me abrindo ao aprender. Só posso aprender se estiver aberto a deixar que o outro saiba aquilo que não sei.

Declarar que não sei é o primeiro passo no processo de aprendizagem. Este “não sei” é uma das forças motrizes mais poderosas no processo de transformação pessoal e de criação daquilo que somos.

Declaração de “obrigado”. Muitas vezes, na idade adulta, procuramos esquecer aquilo que nos foi ensinado na infância: o agradecer como hábito de boa educação.  Num entendimento de que agradecer mostra fragilidade, algumas pessoas tem dificuldades em reconhecer aquilo que foi feito pelo outro e que o afetou positivamente.

Quando dizemos “muito obrigado” geramos uma relação com a outra pessoa. Quando estamos “gratos pela vida”  criamos em nosso redor um ambiente agradável que faz com que as outras pessoas queiram se relacionar conosco.

Declaração de “perdão”.Qual a diferença, para nós de desculpar e perdoar? Quando eu digo: eu te desculpo, quero dizer que não vou continuar te cobrando pelo que você fez de errado ou deixou de fazer, mas não me comprometo a esquecer o ocorrido. Quando eu digo que te perdoo, não vou mais te cobrar, e me comprometo a esquecer o ocorrido… é como se apagasse da minha lembrança aquilo que ocorreu.

Além do cuidado com o perigo do ressentimento, de ficar lembrando e cobrando aquilo que houve, uma outra relação  com esta declaração de perdão é relativa à reparação do dano.  Aquilo que fiz de errado, ou aquilo que deixei de fazer, poder ser reparado, pode ser corrigido?

Perdoar ao outro, ou perdoar-se a si mesmo é um ato de libertação pessoal, mas não depende inteiramente da nossa vontade o esquecer ou não aquilo que ocorreu.

Inquietações. Um caminho de entendimento do que é inquietação é perguntarmos por aquilo que nos move. A maioria de nós tem dificuldades de fazer o que diz a música– “deixe a vida me levar, vida leva eu”. Este “deixar fluir”  cobra de nós uma ação, exige que tomemos uma posição de modo a mudar o curso dos acontecimentos. Por que atuamos?  Por que falamos isso ou aquilo? Ou seja, qual a nossa motivação para agir assim.

Promessas, pedidos e ofertas

Promessas são atos linguísticos diferentes das afirmações e das declarações, mas também funcionam num terreno declarativo.  Quando alguém faz uma promessa, se compromete com aquilo que está prometendo.  Estarei presente em determinado momento; vou te trazer um presente na próxima semana, são exemplos de promessas que nos levam a coordenar nossas ações com as dos outros.

Promessas não são apenas compromissos pessoais, mas sociais. Elas implicam num compromisso expresso entre mim e a pessoa a quem prometo. Se prometo algo a alguém, esta pessoa pode confiar e esperar que se cumpra o que assumi em relação a ela.

Nas comunidades, como condição fundamental para a convivência social, todos cuidam para que as pessoas cumpram as promessas que fazem e para cobrar aqueles que não o fazem.  Grande parte de nossa capacidade de agir se baseia na nossa capacidade de cumprir as promessas que fazemos.

Segundo Echeverria, Nietszche teria dito que “os seres humanos são animais que fazem promessas”. Estas promessas são constitutivas da existência humana, e é a partir delas que podemos ampliar nossa capacidade de ação.

Toda promessa tem quatro elementos fundamentais: quem promete, a quem promete, o que deve ser feito e o tempo em que isso ocorrerá. Toda promessa envolve uma conversa entre duas pessoas.

Quando fazemos uma promessa, estamos desencadeado dois processos: fazer a promessa e cumpri-la. O ciclo da promessa se encerra quando ela é totalmente cumprida.

Toda promessa é precedida ou por uma petição ou por uma oferta. Quando se inicia com um pedido, este pedido deve ser aceito e executado pelo autor para satisfação do solicitador.

Quando a promessa é precedida por uma oferta, aquilo que foi oferecido deve ser aceito e isso compromete o autor que deve se responsabilizar pela sua execução.

 

REFERÊNCIAS

 

Echeverria, Rafael – ONTOLOGIA DEL LENGUAGE, Ed. Dolmen, Chile, 1994.


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