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CAMINHOS DA POLÍTICA PÚBLICA NO APOIO À EMANCIPAÇÃO DE PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA
novembro 30th, 2013 by Magdalves

Ainda que a Política Nacional para Pessoas em Situação de Rua objetive a busca da emancipação através do Trabalho, ainda são bastante frágeis os caminhos que potencializem as conquistas de indivíduos e grupos que tenham esta condição.

Segundo o Decreto 7053/2009[1], “população de rua é grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, ou como moradia provisória”.

Este mesmo Decreto, em seu artigo 7º, item I, aponta como um dos objetivos “assegurar o acesso amplo, simplificado e seguro aos serviços e programas que integrem as políticas públicas de saúde, educação, previdência, assistência social, moradia, segurança, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda”.  Numa lógica de descentralização, a Política Nacional propõe que os municípios desenvolvam ações de capacitação profissional e encaminhamento ao trabalho.

Mas, como concretizar propostas de capacitação e encaminhamento ao trabalho de pessoas cuja imagem não é agradável aos olhos, e que, aliada a ela, tem uma condição física frágil que sugere uma jornada de trabalho inicial inferior àquela que é cumprida pelos demais trabalhadores?

A reflexão que aqui fazemos não parte de nenhuma fantasia, ainda que proponha a realização de uma utopia se comparada ao cenário atual da maior parte do proposto pelos governos municipais.

Entendemos que esta utopia é algo alcançável, que podemos construir este novo “topos”. Para tanto, vamos subdividir este raciocínio em tópicos relacionados às políticas existentes e às experiências concretas que conhecemos.

De que trabalhadores e trabalhadoras estamos falando ?

Para serem efetivas, as ações de qualificação/requalificação profissional precisam diagnosticar o público ao qual se destinam.

Segundo dados da Pesquisa Nacional, realizada em 2007/2008, 53% dos pesquisados eram adultos entre 25 e 44 anos. 34,21% apontam o desemprego como principal fator para estarem nesta situação, ainda que apontem desavenças familiares – incluindo violência doméstica, e o uso de álcool e drogas como agravantes.

Ainda que 63,5% apontem primeiro grau incompleto como escolaridade, a grande maioria aponta um passado profissional.  Mesmo em situação de rua, 70,9% exercem alguma atividade remunerada, a maioria (52,6%) recebendo valores entre  R$ 20 e R$ 80 semanais – dados de 2007. Apenas 15% pedem dinheiro como principal meio para a sobrevivência.

O perfil destas pessoas em situação de rua não é mais o de andarilhos,pedintes e achacadores. Dentre eles encontramos trabalhadores intermitentes da Construção Civil, fazedores de bicos, desempregados ocasionais e subempregados.

85,5% delas não é atingida pela cobertura de Programas Governamentais. Os 14,5% restantes apontam receber aposentadorias, Bolsa Família, e BPC – Benefício de Prestação Continuada.

A maioria das pessoas em situação de rua sejam do gênero masculino, a Pesquisa Nacional aponta 82% de homens, mas outras contagens feitas depois daquele Censo apontam que está aumentando o número de mulheres em situação de rua.

Em síntese, as propostas de qualificação e requalificação profissional devem contemplar homens e mulheres, em especial aqueles que se encontram em idade ativa, mas sem descartar os idosos e mesmo as pessoas com deficiências.

As condições de trabalho, ao menos no primeiro momento, devem incluir jornadas de trabalho de seis horas diárias na medida em que a vivência de rua, possivelmente, fragilizou seus organismos e a volta ao ritmo de trabalho deve ser construído nestes processos.

Pensando nas mulheres vivendo em situação de rua, quero citar Tiene (2004) que em sua Dissertação aponta “sozinha ou com homens, seu corpo é maltratado, machucado, com um olhar apagado, cabelos enroscados, pele ressecada e marcada… […] que vida? De onde veme para onde vai? O que ela foi no passado e o que lhe resta de vida neste corpo?”

E aqui quero fazer uma provocação.  De que serviços lembramos quando pensamos em capacitar profissionalmente mulheres?  Precisamos deixar de lado nossos preconceitos e levar em conta que, nas últimas décadas, as mulheres vem assumindo tarefas que até então eram entendidas como “privativas” dos homens. Mas disso vamos falar concretamente mais adiante.

Políticas Públicas de Emprego, Trabalho e Renda e a PopRua

Para entender a posição e a situação das políticas públicas de emprego, trabalho e renda no Brasil atual, é necessário fazer um breve histórico de suas origens e desenvolvimento, de modo a identificar os problemas que são considerados indispensáveis para antever os desdobramentos futuros de um Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda no país.

Em várias partes do mundo, os Sistemas Públicos de Emprego foram sendo estruturados a partir do final da Segunda Guerra Mundial. No Brasil,  isto apenas ocorre a partir da década de 1960.

O crescimento populacional, a migração rural-urbana e o crescimento dos grandes centros urbanos provocaram uma expansão significativa da mão-de-obra disponível nas cidades.

As altas taxas de crescimento econômico deste período possibilitaram a incorporação de parcelas expressivas da PEA – População Economicamente Ativa ao mercado formal de trabalho, sobretudo no setor industrial e nos aparelhos do estado.

Em um período em que a economia mundial vivia um surto de crescimento econômico sem precedentes, acreditava-se no Brasil que a melhoria das condições de vida da população seria consequência direta do crescimento econômico.

Por outro lado, ainda que a Constituição de 1946 já apontasse o apoio ao desempregado como direito do trabalhador, é apenas na década de 1960 que ações neste sentido vão começar a ser implementadas.

O Cadastro de Admissões e Dispensas foi criado em 1965. O FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço   criado em 1966, ainda que naquele momento contemplando apenas trabalhadores em dispensa coletiva[2]; tidos e Demitidos. PIS e PASEP criados em 1970, trazendo poucos benefícios ao trabalhador: abono salarial, casamento, aposentadoria, invalidez e morte.

Em 1975, é criado o SINE – Sistema Nacional de Emprego, visando a  intermediação de mão-de-obra, orientação profissional, qualificação e informações sobre Mercado.

Podemos entender que entre as décadas de 1960 e 1970, estas políticas visavam mais indenizar o desempregado do que proteger o trabalhador. Como consequência, aumentou significativamente a rotatividade.

Muitas das pessoas em situação de rua são fruto desta rotatividade e do desemprego temporário. O peão da Construção Civil, cujos baixos salários eram complementados por alojamentos na própria obra, quando perdiam o emprego, perdiam também o espaço do morar e ficavam em situação de rua até conseguir nova ocupação.

1980 foi uma década de crise, nomeada Década Perdida, e é neste período que se reformula o Seguro Desemprego que passa a objetivar uma Assistência Financeira Temporária, um auxílio na busca de um novo emprego e a reciclagem profissional.  O período no qual este auxilio era recebido cai de 18 para 16 meses, e a carência passa a ser de apenas 6 meses.

No suporte à profissionalização, são criados o PLANFOR – Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador e passa-se a utilizar recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador para capacitação voltada para a geração de trabalho, emprego e renda. Em 2003, o Ministério do Trabalho e Emprego passa a incentivar a Economia solidária e o primeiro emprego para jovens.

Na Agenda Social, do governo federal, um dos objetivos estratégicos é promover o crescimento com geração de empregos e distribuição de renda para busca de alternativas de emancipação das famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, por meio da integração de políticas de acesso à educação, ao lazer e a cultura, à saúde, à habitação adequada, ao financiamento produtivo, à energia, ao trabalho e à renda.

Os Programas de Transferência de Renda, implementados na década de 1990 e que a cada dia ganham maior visibilidade, propõem ações complementares de qualificação profissional visando a construção de saídas daquilo que é entendido como dependência das famílias que recebem valores como os da Bolsa Família.

Segundo a orientação do MDS – Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, pessoas em situação de rua devem ser inseridas no CadÚnico – Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, caminho necessário para serem contemplados pelas políticas existentes.

Estes Programas Complementares são ações de iniciativa do Governo Federal, dos governos estaduais, municipais, do Distrito Federal e da sociedade civil, direcionadas às famílias beneficiárias do Bolsa Família e inscritas no Cadastro Único, para o desenvolvimento de suas capacidades e oferta de oportunidades, visando a superação da vulnerabilidade social.

Estes Programas complementares evem levar em consideração o perfil das famílias, suas vulnerabilidades, potencialidades, e considerar as potencialidades econômicas e socioculturais específicas de cada localidade.

Em síntese, estes programas objetivam o acesso ao conhecimento e à ampliação da escolaridade, a geração de trabalho e renda, o acesso a bens e serviços culturais, a garantia de direitos sociais e ao potencializar do desenvolvimento local.

Examinando-os na ótica da população de rua, salientamos quatro dos pressupostos apontados pelo MDS.

A Focalização: direcionamento do investimento público aos grupos mais pobres e vulneráveis;

A Transversalidade: articulação dos três níveis de governo e da sociedade civil;

A Intersetorialidade: formalização de parcerias para a complementaridade das ações do poder público;

Planejamento: diagnóstico das demandas potencialidades locais bem como o planejamento das formas de acesso das famílias mais pobres e vulneráveis às oportunidades culturais, econômicas e sociais.

PROGRAMAS ESTADUAIS

Frentes de Trabalho

“O Programa Emergencial de Auxílio-Desemprego, que foi criado em 8 de junho de 1999 e também é conhecido como Frente de Trabalho, proporciona qualificação profissional e renda para cidadãos que estão desempregados e em situação de alta vulnerabilidade social. Isso é feito por meio de atividades como limpeza, conservação e manutenção de órgãos públicos estaduais e municipais.”[3]

Voltado para o atendimento de quem se encontra desempregado há mais de um ano, este programa objetiva dar oportunidade de inclusão social e capacitação, com duração de nove meses durante os quais os participantes recebem uma bolsa-auxílio, cartão alimentação, seguro de acidentes pessoais, auxilio deslocamento (se a pessoa residir a mais de 2 km do local de trabalho). A participação na Frente de Trabalho não implica em vínculo empregatício, tendo um caráter assistencial e de formação profissional.

Os participantes tem seis horas diárias de trabalho, realizadas durante quatro dias da semana. No quinto dia, este trabalhador deve participar de um curso de qualificação ou alfabetização.

PRÓ-EGRESSO

O Programa Estadual de Inserção de Egressos do Sistema Penitenciário (Pró-egresso), instituído em 2009, tem como parte do processo de reintegração social instituído na Lei de Execução Penal.”[4]

Voltado para o atendimento de adolescentes que cumprem medida sócio educativa e egressos do sistema penitenciário, este programa é uma parceria onde  os  egressos  são  inclusos  nos  programas  oferecidos  pela Secretaria  de  Emprego  e  Relações  do  Trabalho,  através  da  intermediação  de  mão  de  obra, qualificação profissional,  frente de trabalho, carteira profissional, com o diferencial que em alguns deles as cotas estão pré-definidas. A SERT  ou as empresas  disponibilizam as vagas  no sistema online  de  intermediação de mão de obra  Emprega  São  Paulo  (www.empregasaopaulo.sp.gov.br)  através  do  link  Pró-Egresso.

A resolução conjunta 001/2011  determina que os  órgãos públicos  estaduais  devem exigir,  em  seus contratos  e  editais de  licitação  de obras  e serviços, que a empresa vencedora contrate um número mínimo de egressos para realizarem os trabalhos.  Os Egressos podem fazer seu cadastro no PATS, Poupa Tempos ou CRSC.

PROGRAMAS MUNICIPAIS

 

Município de São Paulo:

Foi implantado em 2001 o Programa Operação Trabalho objetivando conceder atenção especial ao trabalhador desempregado, visando estimulá-lo à busca de ocupação, bem como à sua reinserção no mercado de trabalho. O Programa tem como público adultos, residentes no município que se encontrem desempregados há mais de quatro meses e que não estejam recebendo seguro-desemprego, e cuja renda familiar per capita seja igual ou inferior a meio salário mínimo.

A  capacitação profissional será teórica e pratica e a finalidade é o desenvolvimento de aptidões profissionais; ampliando sua visão de futuro, bem como as condições de acesso ao mercado de trabalho digno, alem de oferecer à Cidade serviços adequados.

Para concretizar esta proposta, a munipalidade conveniou 12 empresas que atuam em cada um dos espaços da cidade, dentre os quais salientamos:

Bicicletários: cadastramento e orientação aos usuários;

Estações de Reciclagem, onde a população entrega produtos descartados. Dentre as tarefas, a coleta e separação de materiais para serem reciclados (papel, plástico, vidro, óleo, metais, enfim materiais a serem reciclados conforme orientação do parceiro).

Excelência na hospitalidade: capacita Camareiras, Garçonetes, e profissionais para Cozinha Fria, Confeitaria ou Coffee Break e Lavanderia.

Senai Tatuapé: capacitação em serralheria em alumínio.

CERET: Manutenção e Zeladoria em Equipamentos Esportivos, Cidadania e Jardinagem com foco em Manutenção.

 

PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA

Numa experiência iniciada em 2003, nomeada Projeto Oficina Boracea, foram realizadas algumas experiências nos moldes da Operação Trabalho, tendo sido capacitadas pessoas em situação de rua nos seguintes setores:

Alimentação: Restaurante Escola Boracea

Numa proposta de atendimento aos usuários do Projeto, o Restaurante Escola produzia 1800 refeições/dia que eram oferecidas aos usuários e aos trabalhadores da região. Estes últimos pagavam um valor simbólico ( R$ 1,00 por refeição). A partir desta ação, eram capacitados cerca de 30 alunos/dia.

O Restaurante produzia, ainda lanches para o intervalo entre as refeições e previa a implantação de uma Cafeteria e lanchonete 24 horas para aquisição de lanches.

Na Primeira Etapa foi implantada uma cozinha industrial, e o atendimento era exclusivamente aos usuários dos Albergues e Abrigo do Projeto Oficina Boracea.

Na Segunda Etapa, iniciou-se o fornecimento de alimentação para dois outros Albergues (a responsabilidade de servir as refeições,  fazer a higiene dos pratos  era do albergue receptor).

O transporte do alimento segundo normas da Segurança Alimentar.

A Terceira Etapa previa a  abertura do Restaurante-escola para o bairro, e a admissão de alunos bolsistas.

Ainda que a previsão inicial fosse de 22.320 desjejuns e lanches e 16.120 almoços e jantares, em junho de 2004, foram servidas 30.680 desjejuns e lanches e 44.263 almoços e jantares. Esta ampliação ocorreu por conta das Frentes Frias.

Além do que estava previsto no Projeto inicial,  foram feitas algumas outras experiências como a produção de conservas, compotas e doces que eram comercializadas  na Loja Social da SMADS[5].

A procura para o fornecimento de salgadinhos, doces e bolos em situações como aniversários e festas em empresas, exigiu uma discussão com o Jurídico para construção dos instrumentos de comercialização adequados.

Na continuidade, a qualificação e requalificação de conviventes bolsistas como auxiliares de cozinha, confeiteiros e cozinheiros; assim como a montagem de uma padaria e de uma pizzaria.

Asseio e conservação: Lavanderia Escola Boracea

Numa proposta de atendimento aos usuários do Projeto, a Lavanderia Escola lavava 30.000 kg de roupas brancas por mês, fornecendo o serviço de lavanderia industrial para a Rede de Albergues da cidade e para o Restaurante Escola.

A capacitação era feita a partir de oficinas com aulas práticas e teóricas. Uma parceria com a Rede de Hotelaria da cidade garantia a qualidade dos profissionais formadores e, a partir da avaliação concreta do aproveitamento dos alunos, havia o encaminhamento deles para o Mercado de Trabalho.

Neste processo, foram capacitados auxiliares de limpeza, auxiliares de lavanderia, arrumadeiras de leitos hospitalares e hotelaria e profissionais a ser contratados para a limpeza de escritórios.

Os veículos contratados eram especializados para retirada e entrega das roupas.

Produção de Materiais de Higiene e Limpeza

O envolvimento com este setor de asseio e limpeza, levou a algumas outras Oficinas que formaram profissionais na produção de materiais de higiene e limpeza em duas frentes:

Produção de kits higiênicos, com produção de sabonete, shampoo, absorventes e fraldas; e produção de vassouras (pet e piassava), rodos, pregadores, água sanitária, detergente, desnfetante, sabão em pedra e em pó e outros.

Oficina de Arte Boracea

A execução de um projeto nomeado “Vestir o Boracea” que cuidou do ambiente do Abrigo de Idosos teve desdobramentos na medida em que a designer – Adriana Yazbek foi encarregada da realização de oficinas de capacitação de conviventes, nos moldes da Operação Trabalho.

Capacitados, os profissionais passaram a atuar no mundo das artes plásticas, tendo se autonomizado e deixado sua condição de albergados. Este passo levou 5 ex-albergados  a perceber a necessidade de criação de uma ONG que passasse a atuar nesta área. Criada em 2007, a ONG prosperou e em 2008 já tinha 12 profissionais e nenhum deles continuava vivendo em albergue.

Além da Prefeitura, destacam-se entre os parceiros,  o SAM’s Clube (espaço para comercialização); o Fazer Brasil – apoia a comercialização na França e Alemanha, o Banco do Brasil e a Porto Seguro.

Oficina de Música Boracea

Os desdobramentos da capacitação em música levou à criação do Grupo Bora que começou a ser contratado para tocar em festas e eventos, provocando a autonomização de mais alguns dos conviventes.

Profissionalização visando a geração de emprego, trabalho e renda

Numa proposta de profissionalização a partir da teoria e da vivência prática remunerada, foram capacitados encanadores, pintores, eletricistas, pedreiros e profissionais para pequenos reparos.

A lógica desta formação era a de itinerários formativos na qual se parte da experiência anterior e da identificação do potencial de cada aluno.

Nesta mesma lógica, foram capacitadas costureiras voltadas para a produção de lençóis, fronhas, toalhas de mesa e banho, pijamas e uniformes.

Oficinas de capacitação em manicure, pedicure, depilação e cabelereiro foram o ponto de partida para uma capacitação maior em Moda e Beleza em que se identificou estilistas e outros profissionais.

A montagem de um canil para acolher os animais dos catadores de material reciclável, que era acompanhado pela Faculdade de Veterinária, identificou e capacitou trabalhadores para o trato de animais em pet-shops.

A implantação do Programa A gente na rua voltado para o atendimento de saúde das pessoas em situação de rua, capacitou agentes que foram inseridos nos Programas Municipais na modalidade Saúde da Família.

O suporte aos idosos abrigados, possibilitou a capacitação de cuidadores de idosos.

Experiência do Município de Santo André:

Numa reformulação e ampliação das Frentes de Trabalho, o município de Santo André criou o GTIS – Geração de Trabalho de Interesse Social, cujas estratégias passaram a focar a família, e não mais o indivíduo, garantindo ainda acompanhamento psicossocial.

Foram contratados, inicialmente, 1500 ajudantes de serviços gerais, sendo 900 homens  e 600 mulheres. O contrato era de 12 meses e poderia ser prorrogado uma única vez. A seleção visava alcançar os mais necessitados e tinha critérios como fator de dependência familiar, renda per capita, escolaridade e condições de moradia, incluindo-se pessoas em situação de rua. 5% foram destinados a pessoas com deficiências.

PROPOSTA 1:  JARDINEIROS

Foram selecionadas algumas pessoas em situação de rua que compuseram o grupo a ser trabalhado como GTIS – Jardinagem.

A qualificação profissional em paisagismo e jardinagem era garantida no período dos quatro dias de trabalho cuidando dos jardins e praças da cidade. Dos 1500 admitidos como ajudantes de serviços gerais, 431 foram lotados no DPAV – Departamento de Parques e Jardins da cidade que possui viveiros e uma estrutura que potencializava esta qualificação.  A alfabetização alcançava aqueles que tinham esta necessidade, sem excluí-los da qualificação em jardinagem e paisagismo.

No quinto dia, cujas seis horas eram destinadas à capacitação, estes trabalhadores recebiam formação em empreendedorismo e cooperativismo.

Passados os vinte e quatro meses nos quais as pessoa estiveram  inseridas no GTIS  e atuando como jardineiros, foi possível a criação de uma Cooperativa de Jardinagem que passou a atuar no cuidado de jardins em empresas, residências e mesmo em cidades próximas onde este serviço era necessário.

 

PROPOSTA 2: AUXILIARES DE LIMPEZA NA ÁREA HOSPITALAR

Num processo semelhante ao dos Jardineiros, foi realizada uma outra proposta voltada para auxiliares de limpeza no Centro Hospitalar, mas o número de Ajudantes de Serviços Gerais.

Este grupo também criou uma Cooperativa que passou a oferecer serviços a outros serviços de saúde da cidade e da região.

PARCERIAS COM EMPRESAS E ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL

A maioria das ações das Políticas Públicas podem ser realizadas diretamente pelas Prefeituras ou a partir de convênios, como aquelas ações da Operação Trabalho que citamos acima.

Além disso, há uma outra situação que precisa ser articulada a estas que são as ações de Responsabilidade Social.  O entendimento de que é politicamente correto realizar ações de responsabilidade social levam muitas empresas a criarem ações bastante significativas.

Uma ação exemplar, iniciada em São Paulo no início do século XXI, deu origem ao “Projeto Reviver:Trabalho e Cidadania”, parceria da Estapar Estacionamentos[6] e da Cooppark Cooppark – Cooperativa dos Profissionais em  Estacionamentos,  Lava Rápidos e Similares[7] com a SAS/PMSP.

O Objetivo era capacitar e oferecer oportunidade de trabalho e de integração social para pessoas em situação de rua. Iniciado em maio de 2004, o Projeto foi construído de modo a se tornar auto-sustentável já que a renda dos serviços revertia para um Fundo do próprio Projeto.

Nesta parceria, a Cooppark capacitava profissionais encaminhados pela SAS/PMSP e a Estapar oferecia bolsas auxilio e pontos de estacionamento de sua rede para a instalação dos serviços de lavagem de veículos.

Considerações Finais

Como se pode ver pela síntese acima colocada, o suporte para que as pessoas em situação de rua construam seu processo de saída requer vontade política, articulação com a sociedade civil e muita criatividade.

Importante salientar que a construção destes caminhos passa pela identificação de parceiros como sindicatos, empresários e ONGs com os quais a discussão da existência de nichos de trabalho que possibilitem a construção de projetos como o Reviver.

Há um raciocínio que pode ser feito em relação a outros setores da indústria, comércio e serviços:  o centro de atenção da Estapar eram os estacionamentos, a lavagem de veículos é um serviço complementar ao deles e isso favoreceu uma parceria riquíssima.

Em que outros setores podem ser identificados nichos semelhantes?

Por outro lado, há outros tipos de ocupação que pode ser buscado para a implementação de Projetos voltados para a emancipação de pessoas em situação de rua.

Aquelas ações que demandam tarefas manuais como a confecção de enfeites para mesa em eventos, produção de brindes e outros produtos voltados para ações de marketing e que podem ser feitas por pessoas com limitações, desde que treinadas.

Exemplificando, lembramos de cadeirantes que podem ser remunerados para fazer ações como as citadas acima.

Por fim, mas não menos importante, precisamos cuidar para que nossas propostas voltadas para mulheres não sejam preconceituosas.

Mulheres podem ser excelentes trabalhadoras na limpeza de ambientes,mas não podemos achar que basta entregar a elas uma vassoura e considerar que a capacitação está feita. Há que se capacitar na tecnologia voltada para estes trabalhos de cuidados com o ambiente, podendo-se chegar à capacitação de pessoas para “arrumarem armários”, nicho de mercado pouco explorado.

As áreas da costura como da estética e beleza sempre nos lembram as mulheres, mas as mulheres também podem ser excelentes em eletricidade, ferramentaria e mesmo na construção civil e na zeladoria.

Por fim,  há todo um mundo de serviços de venda voltados para a comercialização de produtos, muitos dos quais pedem a sensibilização das mulheres.

E esta conversa não teria fim, podemos ficar horas lembrando disso e de mais aquilo, dependendo do lugar onde estamos.  Você, olhando ao redor do seu espaço de vida e trabalho, enxerga algum novo nicho?

 



[1] A loja é um espaço para a divulgação e comercialização de produtos elaborados por 15 instituições parceiras da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. A Loja Social como Proposta de Inclusão e Geração de Renda, da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMADS), foi premiado como um dos melhores trabalhos apresentados durante o 4º Simpósio Internacional de Comércio Justo, realizado no início do mês de abril de 2012, na cidade de Liverpool, no Reino Unido.

[2] Mais de 50 trabalhadores em 60 dias.

[4] idem

[5] Explicar o que é a Loja social

[6] Empresa líder no mercado de administração de    estacionamentos no Brasil, administrando cerca de 450   unidades, que totalizam mais de 100 mil vagas e atendendo               mensalmente 5,5 milhões de veículos.

 

[7]   Fundada em 1997, que reúne cerca de 1.000 sócios.


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